quinta-feira, 30 de março de 2017

O histórico 31 de Março e a confusão comum entre Espiritualismo e Espiritismo


31 de março é considerada a data de aniversário do movimento conhecido como Espiritualismo ModernoModerno Espiritualismo, ou simplesmente Espiritualismo — movimento esse que, para nós, espíritas, tem uma relevância histórica imensurável, embora comumente ignorada e — o que é pior — passível de muita confusão.

A propósito disso, oferecemos nossas considerações.


O movimento espiritualista

Em síntese, o Espiritualismo é um movimento surgido em meados do século XIX, oriundo dos Estados Unidos, de onde foi exportado para a Europa e outros grandes centros urbanos no mundo inteiro. Foi pejorativamente chamado de necromancia moderna, porque suas sessões se compunham basicamente de consulta aos mortos sob os mais diversos interesses — incluindo a leitura da sorte, curiosidades de vidas passadas, revelação de segredos e divertimento com fenômenos físicos, ditos sobrenaturais, como batidas, movimento de objetos, levitação de médiuns e materializações de formas espirituais.

Sessão espiritualista de evocação de mortos

De fato, houve uma exploração espetacular daquela fenomenologia moderna, com inclusão de exploração financeira — o que deu ensejo a flagrantes charlatanismos e embustes. Contudo, em meio a essa banalidade, surgiram diversos esforços, de pessoas sérias, para estudar aqueles insólitos fenômenos e, sob a crença que a sua fonte provinha dos espíritos (daí a razão do nome
espiritualismo), propagar as ideias espiritualistas, especialmente a da imortalidade da alma, em oposição à ideia materialista.

Fenômeno das Mesas Girantes

Dessa maneira, o Espiritualismo foi um movimento generalizado, que resultou em muitas vertentes, dentre as quais algumas teses semelhantes em certos pontos e contraditórias noutros; algumas com caráter puramente científico (conceituadas academias e cientistas renomados se ocuparam com tal fenomenologia) e outras com feições mais religiosas, sem exclusão de seitas místicas.

Em suma, aquela onda de fenômenos espirituais do século XIX foi uma porta oportunidade para uma vasta gama de doutrinas e crenças, que frequentemente são — não raro, propositalmente — confundidas com a prática espírita.



Distinção entre Espiritualismo e Espiritismo

A confusão é grande e, algumas vezes, gera distorções de interpretação com prejuízo para ambos os lados. Mas, devemos admitir, inclusive, que o próprio codificador espírita deu margem a essa confusão ao deixar certa dose de ambiguidade quando da elaboração da sua tese doutrinária — o Espiritismo.

Allan Kardec, já no primeiro tópico da "Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita", que abre O Livro dos Espíritos (clique aqui para baixar) anuncia que aquela obra inaugura uma nova doutrina e para a tal ele faz uso de três neologismos (novos termos, que são aplicáveis a coisas novas):
  1. espiritismo (uma contração de espírito + ismo, doutrina = doutrina dos espíritos), que é a denominação daquela nova doutrina;
  2. espírita, adjetivo relativo a espiritismo e designação do praticante desta nova doutrina;
  3. espiritista, sinônimo de espírita.
Vamos ao que o codificador espírita explanou:
Para designar coisas novas são necessárias palavras novas. Assim exige a boa compreensão, para evitar a confusão que ocorre com as palavras que têm vários sentidos. Os termos: espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma definição bem definida, e acrescentar a eles nova significação, para aplicá-los à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar os casos de numerosas palavras com muitos significados. De fato, o Espiritualismo é o oposto do materialismo. Aquele que acredita haver em si alguma coisa além da matéria é espiritualista. Entretanto, isso não quer dizer que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, nós usamos, para indicar a crença nos seres espirituais, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido da raiz da palavra e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente compreensíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a significação que lhe é própria (...).
Pretendia o codificador espírita que o Espiritismo se distinguisse daquele  já célebre Espiritualismo Moderno? — Não. A ideia era unir forças; apenas era preciso sistematizar aquele esparso movimento espiritualista, tanto que, no mesmo parágrafo daquela Introdução, em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec fez a descrição dos propósitos da nova doutrina nos seguintes termos:
(...) Diremos, pois, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas.
De alguma forma, essa definição equipara Espiritismo e Espiritualismo, uma vez que ambos se fundamentam nas relações do mundo material com o plano espiritual. Essa equiparação fica melhor ilustrada em vários artigos da Revista Espírita, em que Kardec denomina o Espiritualismo de "Espiritismo Americano", destacando os diferentes escopos originários de cada qual, como no artigo "A escola espírita americana" (edição de maio de 1864):
Algumas pessoas perguntam por que a Doutrina Espírita não é a mesma no antigo e no novo continente, e em que consiste a diferença. É o que vamos tentar explicar. (...) O que particularmente distingue a escola espírita dita americana da escola europeia é a predominância, na primeira, da parte fenomênica, à qual se ligam mais especialmente e, na segunda, a parte filosófica.
De outra feita, o mestre lionês vai minimizar as diferenças (Revista Espírita - abril de 1869: "Profissão de fé espírita americana"):
Em que o Espiritismo americano difere, então, do Espiritismo europeu? Seria porque um se chama Espiritualismo e o outro Espiritismo? Questão pueril de palavras, sobre a qual seria supérfluo insistir. De um e do outro lado a coisa é vista de um ponto muito elevado para semelhante futilidade. Talvez ainda difiram em alguns pontos de forma e de detalhes, muito insignificantes, que se devem mais aos usos e costumes de cada país do que ao fundo da Doutrina. O essencial é que haja concordância sobre os pontos fundamentais, e é o que ressalta, com evidência, da comparação acima. (...) A única diferença consiste em que o Espiritismo europeu admite essa pluralidade de existências na Terra, até que o Espírito tenha atingido aqui o grau de adiantamento intelectual e moral que comporta este globo. (...) Poderá estar aí uma causa de antagonismo entre criaturas que perseguem um grande objetivo humanitário? (...) Em suma, como se vê, a maior barreira que separa os espíritas dos dois continentes é o Oceano, através do qual eles podem perfeitamente dar-se as mãos. 
Allan Kardec
Entendemos, hoje, a postura de Kardec. Conquanto precisasse distinguir o sistema espírita da generalidade do movimento espiritualista, ele — modesto que era, como é característico dos mais nobres missionários — de forma nenhuma pretendia fazer do Espiritismo uma instituição formal, nem nos moldes de uma academia oficial de ciências, nem numa igreja constituída. Ponderamos que ele supunha ver rapidamente as luzes da Doutrina Espírita clarear as mentes a respeito daquelas velhas crenças místicas e outras generalidades, dando forma a uma nova escola filosófica cujo título — Espiritismo, Espiritualismo, Cristianismo, Humanismo etc — pouca ou nenhuma importância poderia ter.

Como, na atualidade, vemos a persistência e a controvérsia das ideias e crenças — inclusive dentro dos grupos ditos espíritas —, sentimos a necessidade de caracterizar e aplicar os termos espiritismo, espírita e espiritista no que implica o corpo doutrinário kardecista (e eis porque em certas ocasiões precisamos adjetivar "espiritismo kardecista"). Assim, por exemplo, admitimos haver mediunidade dentro e fora do meio espírita. Por conseguinte, atribuímos o qualificativo "sessão espírita" somente àquela reunião que se paute nos princípios da codificação espírita, em que a mediunidade é empregada com lisura, com interesse nos valores espirituais e com a finalidade do bem comum. Desta maneira, desconsideramos admitir que seja do exercício espírita qualquer prática espiritualista, cujos objetivos e meios empregados estejam em contradição com os fundamentos científicos e morais propostos pela codificação espírita.


Zelo doutrinário

O nosso "zelo doutrinário" — muito criticado por aí — nos obriga alertar para a vulgarização da confusão acerca das ideias espiritualistas, de crenças generalizadas, em contraste com os fundamentos espíritas. Desta feita, convém pormos em evidência aqui a multiplicidade de obras literárias mediúnicas supostamente espíritas — inclusive supostamente mediúnicas.

Também é relevante pautarmos a diversidade de ideias que sorrateiramente penetram os centros espíritas, com especial atenção aos misticismos e sincretismo, ou seja, a mistura de ideias e cultos provindos de diversas doutrinas religiosas, sem contar os apelos do esoterismo e curandeirismos modernos, como nós podemos ver em certos manuais de autoajuda como de pseudoterapias.


Espiritualismo e a data histórica de 31 de março

Não percamos, porém, o ensejo da data histórica de 31 de março para reconhecermos o valor do movimento denominado Espiritualismo Moderno, que veio sedimentar a codificação espírita e sem a qual as ideias kardecistas — sob a inspiração da espiritualidade superior — não poderiam prosperar tal como se deu.

A casa da família Fox em Hydesville, EUA

Foi numa sexta-feira, a 31 de março de 1848, que teve início uma série de extraordinárias manifestações na modesta residência da família Fox, no vilarejo de Hydesville, Estado de Nova Iorque, EUA. Eram efeitos físicos, como batidas nas paredes, arranhões em móveis e movimentos de objetos materiais, semelhantes a muitas outras ocorrências de casas dito mal-assombradas, em diversas partes ao redor do mundo. Porém, a excepcionalidade deste caso vem das consequências desses fenômenos. As pessoas da casa, a começar pelas meninas Kate e Margaret, supondo se tratar de um Espírito — portanto, uma pessoa, mesmo que desencarnada —, procuraram interpretar o agente invisível e ali deram início a um diálogo interessante que resultou em uma sequência de sessões, para as quais foram desenvolvidos alguns sistemas de linguagem para estabelecer a comunicação mediúnica.

O caso teve grande repercussão na imprensa Americana, acabou por despertar grande interesse nas questões espirituais e tornar público os dons mediúnicos de outros tantos médiuns. As sessões de evocação de Espíritos virou moda na América do Norte, ganhou a Europa e se disseminou pelo mundo inteiro, como uma verdadeira febre, conhecida como Mesas Girantes. Foi esse fenômeno que ensejou o professor Rivail estudar o mecanismo das manifestações, o propósito filosófico e moral da mensagem que os Espíritos traziam e, com isso, adotar como missão a tarefa de codificar a nova doutrina, Espiritismo, que ele bem cumpriu, sob o pseudônimo de Allan Kardec.

As irmãs Kate e Maggie Fox

Por isso, o caso das irmãs Fox e a data de 31 de março é marcante para a história do Espiritualismo e também para o Espiritismo, sem desprezo aos seus precursores, com destaque para Swedenborg, Mesmer, Edward Irving e Andrew Jackson Davis. Assim é que o celebre escritor e cavaleiro real Sir Arthur Conan Doyle — criador do famoso personagem Sherlock Holmes — descreve este marco histórico:
É impossível precisar uma data para as primeiras aparições da força inteligente exterior, de maior ou menor elevação, influindo nas relações humanas. Os espiritualistas costumam tomar a data de 31 de março de 1848 como o começo dos acontecimentos psíquicos, pois suas próprias manifestações datam naquela data. Entretanto não há época na história do mundo em que não encontramos traços de interferências preternaturais e o seu posterior reconhecimento pela humanidade. A única diferença entre esses episódios e o movimento moderno é que aqueles podem ser apresentados como casos esporádicos de extraviados de uma esfera qualquer, enquanto os últimos têm as proporções de uma invasão organizada. (A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Cap. 1)
Sem dúvidas, uma obra muito recomendada para que se conheça bem as origens do movimento Espiritualismo Moderno é o livro de Arthur Conan Doyle, intitulado A História do Espiritualismo, publicada em 1926, que, aliás, para o público brasileiro, é um exemplo peculiar da confusão comum que se faz entre as denominações espiritualismo e espiritismo: a primeira tradução, assinada por Júlio de Abreu Filho, sob o selo da Editora Pensamento, para o nosso português foi lançada como "A História do Espiritismo". Todo o conteúdo dessa versão troca Espiritualismo por Espiritismo e compromete a realidade dos fatos.

Agora, no entanto, dispomos de uma nova tradução, feita por Louis Neilmoris, com as devidas correções (clique aqui para baixar).

Enfim, a Humanidade tem uma riquíssima história de educação espiritual, que prossegue, inclusive, porque há muita estrada ainda por ser trilhada, que nos ao plano maior de Deus, para nossa conscientização intelectual e perfeição moral.

A título de curiosidade e, ao mesmo tempo, informação, 31 de março também aniversaria dois outros importantes eventos históricos para a causa espírita:

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