terça-feira, 2 de maio de 2017

Adrien, médium de Kardec e a comunicação espírita "Á França"


Nossos confrades do site Autores Espíritas Clássicos brindam a todos nós com um trabalho inédito: a tradução de uma brochura publicada em Paris, em 1859, pela mesma Editora Dentu que publicou várias obras de Allan Kardec, assinada pelo médium Adrien, contendo uma mensagem intitulada "À França - comunicação espírita", do original "A la France - Communication Spirite" (ver aqui). A tradução foi feita em abril deste 2017 por Abílio Ferreira Filho e revisada pelos irmãos W por Jorge Hessen.


Sr. Adrien, médium de Kardec
Primeiramente, é bom tomarmos nota de quem era o Sr. Adrien, autor da brochura supracitada, membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e, desta, médium voluntário. Mas, nada melhor do que nos inteirarmos do prefácio da tradução: 
Adrien, o braço direito de Kardec para registros do além.
Ao estudar a mediunidade de vidência Allan Kardec declarava na Revista Espírita de dezembro de 1858, que não conhecia, ainda, ninguém mais apto a ver espíritos de modo permanente, e à vontade como o senhor Adrien, membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas que além de vidente, era médium escrevente, audiente e sensitivo.
Adrien não se deixava afundar nos mares da imaginação; ao contrário, era muito austero e administrava suas faculdades com seriedade. Considerava a faculdade como um dom da Providência, que lhe foi concedido para o bem, sem se servir da mediunidade senão para as coisas úteis, e jamais para satisfazer uma vã curiosidade.
Nas reuniões mediúnicas Adrien não via só os Espíritos evocados; ao mesmo tempo, via todos aqueles que estavam presentes, evocados ou não; ele os via entrarem, saírem, irem, virem escutarem o que se dizia, rirem ou levarem a sério, segundo seu caráter; em uns havia gravidade; em outros, um ar zombeteiro e sardônico; algumas vezes um deles avançava até um dos assistentes, lhe colocava a mão sobre a espádua ou se colocava ao seu lado, alguns se mantinham afastados; em uma palavra, em toda reunião, havia sempre uma assembléia oculta composta de Espíritos atraídos por sua simpatia pelas pessoas, e pelas coisas pelas quais se ocupavam.
Nas vias públicas Adrian nas ruas via uma multidão, porque além dos Espíritos familiares que acompanham seus protegidos, haviam ali, como entre nós, a massa dos indiferentes e dos errantes. Em sua casa, dizia, não está jamais só, e não se entediava nunca; tinha sempre um grupo de espíritos com a qual ele conversava.
Kardec colocava Adrien entre os mais notáveis médiuns, e na primeira classe daqueles que forneciam os elementos mais preciosos para o conhecimento do mundo espírita. Sobretudo, por suas qualidades pessoais, que eram as de um homem de bem por excelência, e que o tornavam eminentemente simpático aos Espíritos da mais elevada ordem.
Adrien era para Allan Kardec o mais poderoso auxiliar que possuía. Também colocava sua faculdade em proveito de própria instrução pessoal, seja na intimidade, seja nas sessões da Sociedade, seja, enfim, na visita de diversos lugares de reunião.
É verdade, Adrien esteve junto a Kardec nos teatros, nos bailes, nos passeios, nos hospitais, nos cemitérios, nas igrejas; assistiram a enterros, a casamentos, a batismos, a sermões: por toda parte Kardec tinha notícia, através de Adrien, sobre a natureza dos Espíritos que ali estavam agrupados, onde entabulavam conversação com alguns, os interrogavam e aprendiam muitas coisas das quais Kardec aproveitava para os leitores da Revista Espírita, porque seu objetivo era fazê-los penetrarem, como ele próprio, nesse mundo tão novo para todos.

Jorge Hessen

De fato, encontramos em algumas passagens da Revista Espírita o próprio codificador espírita comentando as capacidades mediúnicas e morais do Sr. Adrien, por exemplo, na edição de dezembro de 1858 (ver aqui), no artigo intitulado "Adrien, médium vidente", do qual extraímos um pequeno trecho:
Nós ainda não conhecíamos ninguém apto a ver os Espíritos de maneira permanente e à vontade. É dessa notável faculdade que é dotado o Sr. Adrien, membro da Sociedade de Estudos Espíritas. Ele é, simultaneamente, médium vidente, escrevente, auditivo e sensitivo. Como psicógrafo, escreve o ditado dos Espíritos, mas raramente de modo mecânico, como os médiuns inteiramente passivos, isto é, mesmo escrevendo coisas estranhas ao seu pensamento, ele tem consciência do que escreve. Como médium auditivo escuta as vozes ocultas que lhe falam. Temos na Sociedade dois outros médiuns que gozam desta faculdade no mais alto grau e que, ao mesmo tempo, são ótimos psicógrafos. Enfim, como médium sensitivo, ele sente o contato dos Espíritos e a pressão que sobre si eles exercem. Sente até comoções elétricas muito violentas que afetam as pessoas presentes. Quando magnetiza alguém, pode, à sua vontade, desde que isso seja necessário à saúde, produzir sobre essa pessoa a descarga de uma pilha voltaica. 
(...) 
Digamos logo que o Sr. Adrien não é um desses homens fracos que se deixam arrastar pela imaginação. Ao contrário, é um homem de caráter frio, muito calmo e que vê tudo isto com o mais absoluto sangue frio, mas não diremos que com indiferença; longe disto, pois que ele leva a sério as suas faculdades e as considera como um dom da Providência que lhe foi concedido para o bem e, assim, dele se serve apenas para coisas úteis e jamais para satisfazer à vã curiosidade. É um moço de família distinta, muito honesto, de um caráter suave e benevolente e cuja educação apurada se revela na linguagem e em todas as suas maneiras. Como marinheiro e como militar já percorreu uma parte da África, da Índia e de nossas colônias.


A brochura

O objetivo da obra está claramente retratada na sua Introdução, que transcrevemos aqui:
Geralmente, se afirma que as manifestações espíritas não servem para nada; eu desejo (explicando melhor), dar uma ideia geral dos conselhos que se podem obter dos espíritos que querem se manifestar e provar que seguindo suas máximas de moral, o homem só pode se elevar.
Essa manifestação foi dada de uma só vez por um espírito encarregado de velar ao curso dos acontecimentos.
Naqueles idos anos de 1850, a mediunidade era um incógnita geral e, ainda que admitida positivamente, costumava-se questionar sua utilidade prática na vida cotidiana.
Em face disso, Adrien então publica a seguinte comunicação que dá nome à sua obra: "À França - Comunicação espírita":

À FRANÇA

COMUNICAÇÃO ESPÍRITA 
Eu vi o mundo em seu nascimento, eu vi os homens no seu início. Eu percorri a terra em todas as direções; do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste, e em todo lugar eu vi as paixões como mestras.
Eu atravessei os séculos sem que meus cabelos ficassem brancos. Minha existência foi a da borboleta, um dia crisálida, abrindo as minhas asas no dia seguinte e recomeçando minha corrida aventureira; estudando os costumes, os hábitos dos povos que, sobre a face do globo, não cessam de se agitar e de se dedicar a se destruir uns aos outros.
Eu segui as grandes migrações dos diferentes povos, assisti a seus combates, a suas obras; e sempre o mesmo motivo de seus feitos se abateu sobre meus olhos e meu espírito.
A ambição e o egoísmo sempre provocaram seus grandes movimentos. Eu vi horas terríveis; eu senti essa febre que, em dias graves, alcança as nações e as enchem de efervescência; febre escaldante que as empurram para um objetivo que elas chamam liberdade, e que só é escravidão.
Eu vi o sangue correr às enxurradas, vi em dias sombrios de luto e de desespero, mães devorar suas crianças. Eu vi pais degolar seus filhos, homens quebrar as estátuas de seus deuses, profanar seus templos; e para que tudo isso? Para ter a liberdade. Todos perdem tempo por esse ardor, por essa sede de fogo, de sangue, que dá o pesadelo que é a agonia dos princípios de ordem, de moral.
Eu vi nesses dias de sofrimento e de terror, homens animados de um espírito elevado, pregar aos outros homens palavras de amor e de paz; esforçar-se, por uma eloquência tirada em sentimentos elevados, trazer de volta os homens extraviados, as ovelhas abandonadas aos lobos. Mas, em toda parte, a suas corajosas palavras, à sua eloquência sublime, era respondido pelas injúrias, pelas blasfêmias; e a morte acabava por abater as cabeças de elite feitas para mundos melhores.
Desde as tradições mais recuadas, os profetas enviados por Deus, têm, sob diferentes formas, sob diferentes figuras, procurado dar à humanidade os grandes princípios de ordem, de amor e de fraternidade sem os quais as nações degeneram e acabam por sucumbir.
Aos povos invasores sucedem outros povos, cujo triunfo em si mesmo adianta o fim de sua carreira; assim serão os povos que, não querendo escutar senão seus desejos ambiciosos, tentarão se elevar sobre as ruínas dos outros povos, seus irmãos.
Deus lhes enviará dias ardentes, e, em sua cólera, ele lançará os homens no abismo e os deixará se submergir nesse vasto caos que é a morte das nações, a Anarquia, até que eles tenham expiado, após ter passado por todas as peripécias da guerra civil, por suas perdas e seus sofrimentos, as horas de loucura e de transbordamento.
Eu assisti às lutas de 1793, eu estava em toda parte, e todas as horas, todos os minutos foram preenchidos por meu trabalho, e pude ver um grande povo recuperar seus direitos, nas prerrogativas que lhe eram devidas. Mas aí não devia parar minha obra; outros acontecimentos deviam agitar o mundo, e não me era dado me associar.
Eu devia participar ativamente de todas as fases que, por um encadeamento providencial, conduzissem a França, esse país onde se tinha fixado meu espírito, onde devia se cumprir minha missão, em direção à glória e o reino da inteligência.
Eu assistia a todos os grandes combates que ilustraram nossas armas sobre o vasto campo da Europa. Eu ajudava e cooperava com tudo.
Eu usava largamente desse poder que me foi dado e o mundo se ressentiu de minha influência. Deus, em sua bondade infinita, me fixou por tarefa, assim como a outros espíritos, de seguir o curso dos acontecimentos que agitam os povos, de lhes prestar socorro e ajudá-los a sair das trevas para conduzi-los em direção da civilização e da luz.
Eu vi em dias ainda pouco afastados, homens, empurrados pelo delírio, fazer reviver sobre suas bandeiras, sobre seus monumentos, palavras que são mal interpretadas todo o tempo.
Nas grandes crises, nas horas de perturbações, enquanto os cérebros queimam no fogo da exaltação, o homem se extravia e procura o que ele pode e poderia ter sem luta nem encontrar a menor resistência. É chegado o momento de lhe abrir os olhos e fazê-lo ver em plena luz do dia o que ele não tinha visto até então senão através de um véu.
Eu apelo aos povos esclarecidos, aos cérebros não exaltados, a todos os espíritos que raciocinam.
Deus vos deu, após longos dias de tempestade, um céu sereno. Vós tendes visto a felicidade e a calma regressar em vossas famílias; vós tendes enfim compreendido que as revoluções só trazem com elas a desordem e a infelicidade, pois isso não sois vós, homens de elite, que, em um momento de entusiasmo, aproveitais florões que ganhais vertendo às enxurradas vosso sangue, sacrificando vossas famílias e vossos bens; não, não, são alguns espíritos ambiciosos, mas não dessa ambição que deve fazer a felicidade dos que eles terão submetido em seu coração ou em suas armas; mas dessa sede de honras e de fortuna compradas ao preço do sangue dos outros.
Vós tendes enfim achado o único remédio para todos os males, para essa lepra hedionda que se chama guerra civil; vós tendes sabido colocar em um governo forte e sensato vossa confiança; pois aí somente está a paz que garante vossos bens, vossas famílias, vosso pão de cada dia; aí ainda está a salvaguarda de vossa honra, dessa honra da qual o Gaulês e mais tarde o Francês tiveram tanta inveja.
Sim! eu vos digo e vos repito, é em um governo bem conduzido e dirigido por uma mão firme, que uma grande nação encontrará a paz e a felicidade interior, e é aí que encontrareis a causa de vossas revoluções, de vossas guerras civis, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Pois, saibas bem, a liberdade vós a tereis todas as vezes que puderdes seguir todas as regras da honra, do ponto de vista moral, e não do mundo que frequentemente o compreende mal; a liberdade, quando puderdes fazer o bem à vossa própria vontade e vos conduzir como todo homem animado de um espírito elevado, moral e refletido deve fazê-lo. A liberdade se obtém pelo trabalho em se mostrando superior à preguiça, em se elevando pelas qualidades do espírito e do coração.
A Igualdade: tendo a Liberdade, vós obtendes a Igualdade; isso só depende de vós; pois, quem vos impede de ambicionar vosso talento, vossos trabalhos, as honras que muitos espíritos estreitos afirmam só pertencer às classes elevadas. Ora, saibas bem, não há classes elevadas senão onde reside o verdadeiro mérito, aquele que dá o coração e a instrução; quem vos impede de alcançar?
A vós, honestos artesãos, o que vos falta? Não tendes a estima de vossos amigos? Não podeis dar vossa voz em toda parte? Não podeis fazer elevar vossas crianças e conduzi-las, se elas o desejarem, a pretender as mais altas ações? Vereis então que do pequeno ao grande reina a Igualdade.
Mostrai, mostrai e dizei às pessoas, que, se prevalecendo de títulos, não podem acrescentar o que vós possuís, a honra e o coração; pois então, eu vos digo, à desigualdade estará do lado deles, pois vós estareis cem vezes acima deles.
A fraternidade não resulta das duas primeiras virtudes? Tenhais o espírito elevado, o coração nobre e dirigido para belas aspirações, não compreendeis que a união entre os homens faz a força? Não compreendeis que não encontrareis isso senão em um governo que reunirá todos os elementos: ordem, força e honra? Se vós o compreenderdes, compreendei-o.
Relembrai-vos dessas memoráveis palavras do Cristo: Amai-vos uns aos outros. Não está aí a Fraternidade que vós deveis ter? Ela não pede sangue; ela só pede o amor.
Jesus-Cristo ainda vos diz: Sedes unidos e falanges abraçadas; isso não queria ele dizer? Tenhais a Fraternidade para serdes fortes? E vós tereis, estando unidos, a Liberdade para agir como uma grande nação. Para vos proteger contra as outras nações, vós tereis essa Igualdade que é necessária para manter a união e por consequência a força. Vós formareis assim um corpo compacto e apertado, e com um homem de gênio à frente dessas massas, se ele for bem apoiado por homens de elite, oriundo dessas mesmas massas, quem poderá vos enfrentar? Ninguém.
Vós sois fortes porque estais unidos nesse momento.
Lembrai-vos que aí está vossa garantia de felicidade. Permanecei o que vós sois; apoiai aquele que vos une num mesmo abraço: e vossas crianças poderão acariciar vossos cabelos brancos, e vossa alma irá em paz reencontrar aqueles que ela amou aqui em baixo.
 
Adrien, médium


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