segunda-feira, 20 de março de 2017

Sobre o "fantasma do IML", o charlatanismo e o embuste



O fantasma do IML de Cuiabá

O vídeo que "viralizou" na internet brasileira este mês foi o descrito como "O fantasma do IML de Cuiabá", pelo qual assistimos duas pessoas (entendidas como guardas noturnos) adentrando um corredor (um deles é quem filma a cena, usando uma câmera de celular) e flagrando dois supostos fenômenos paranormais, a saber: 1) interferência na corrente elétrica na lâmpada do corredor, que pisca, acende e apaga irregularmente; 2) batidas fortes provocadas pela tampa da caixa de incêndio. Os "destemidos" seguranças se aproximam dessa caixa de incêndio e um deles teatraliza uma interjeição de espanto: "Ô, louco, meu! O que é isso?..." e o outro completa: "Sinistro!..."

Com a corrente de especulações que se fez, especialmente nas redes sociais, o caso foi um dos destaques da edição do programa televisivo Fantástico, da Rede Globo, na edição de ontem, 19 de março, dentro do quadro "Detetive Virtual".

Veja a matéria do Fantástico.

Enfim, a apuração feita foi que, para começar, o episódio não é ocorrido em Cuiabá, capital mato-grossense, mas em Araucária, interior do Estado do Paraná; também não é em uma dependência do IML, mas de uma escola ("para variar", uma escola abandonada). E os tais "fenômenos paranormais"? Tudo não passava de um truque. A lâmpada piscava pela manifestação física mais comum: a interferência de alguém apertando seguidamente o interruptor que acende a apaga a luminária. Já as batidas fortes na caixa de incêndio se davam por impulso manual, através de um fio de nylon, presa à ponta da tampa da caixa e correndo por trás de uma torneira, usada como uma polia. Nada de paranormalidade.

A reportagem não revela quem são os "atores" autores da "brincadeira". Em dado momento, aparecem Diego Carneiro (dito designer gráfico) e Junior Ferreira (dito fotógrafo) indicando o verdadeiro set de gravação da cena (Araucária, PR). Teria sido eles os artífices do vídeo viralizado? Ou eles apenas contribuíram com a emissora na descoberta do verdadeiro local de gravação da farsa?

No final da matéria, o programa de televisão traz ainda a fala do diretor da Secretaria Municipal de Segurança Pública de Araucária, Lineu Gremski, prometendo que o caso será investigado, considerando que "o fato" (a gravação dos supostos fenômenos sobrenaturais) teria ocorrido em horário de serviço (provavelmente, mesmo abandonada, a escola deve ser vigiada por funcionários municipais). Em seu depoimento ao Fantástico, Gramski parece não estar convencido da apuração feita pela reportagem. "É um mistério", alega ele. Antes de findar a reportagem, o Fantástico não esquece de mencionar outro vídeo postado na internet, também do Município de Araucária, com uma porta batendo, e levanta a suspeita se não seria a "mesma turma" de falsários, ou se seria o "mesmo fantasma" brincando de assustar a cidade.


Do charlatanismo e do embuste, por Allan Kardec

Especulações sobre fenômenos paranormais — errônea e vulgarmente denominados "fenômenos espíritas" — fazem parte do imaginário popular. O gosto pelo sobrenatural é uma característica humana, dizem os estudiosos do comportamento humano, e no Brasil, talvez mais do que em qualquer outro lugar no mundo, é um traço saliente do folclore local, como bem acentua a historiadora Mary Del Priore em seu livro "Do Outro Lado - A História do Sobrenatural e do Espiritismo" (veja resenha aqui).

Entretanto, é válido questionarmos qual a real contribuição — ou prejuízo — dessas especulações para a questão espiritual e, no nosso caso, para a Doutrina Espírita?

Foi pensando nessa hipótese que o Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, perspicaz como sempre, dedicou a esse tema um capítulo inteiro em O Livro dos Médiuns, intitulado "Do charlatanismo e do embuste" (capítulo XXVIII). Nele, o codificador trata exatamente dos dois recursos (charlatanismo e embuste), também muito em voga no seu tempo, considerando-os graves entraves ao progresso do Espiritismo.
Por essa razão, convém que compreendamos bem esses dois elementos.

Segundo o Dicionário Houaiss, charlatanismo significa "exploração da credulidade pública, inculcando ou anunciando cura por meio secreto ou infalível". Na Wikipédia, encontramos: Charlatanismo é a prática do charlatão, palavra que deriva do italiano ciarlatano, que seria, segundo alguns, corruptela de cerretano (ou seja, natural de ou oriundo de Cerreto, vila situada na Umbria, Itália), e segundo a maioria, derivada de ciarla, ciarlare (de "falar", "conversar", neste caso seria equivalente, em português, a "parlapatão"  pois denota o uso da palavra para ludibriar outrem. Em outros idiomas o charlatanismo adquire a acepção de exercício ilegal da medicina, ao passo que em português tem significado comum de vendedor de substâncias pretensamente medicinais, curativas, que apregoa com vantagens, daí a nome curandeirismo. Em sentido geral e vulgar, portanto, os termos "charlatanismo" e curandeirismo fundem-se e podem ser definidos como toda prática pseudocientífica, apregoada por alguém com vantagens fraudulentas, pecuniárias ou não, ludibriando a outros  isso é, oferecendo algo vantajoso sem realmente ser. É nesse linha que Kardec ataca os "médiuns interesseiros", ressaltando que a verdadeira mediunidade se fortalece no serviço da caridade pela máxima do Cristo "Dai de graça o que de graça recebeste" (ver O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVI).

Já o termo embuste, segundo o Houaiss, quer dizer "mentira ardilosa; logro, embustice, embusteirice". A Wikipédia descreve o embuste da mesma forma — enganação, fraude — mas define que os interesses se diferem do charlatanismo (que claramente tem como motivação interesses pessoais, materiais ou regalias em geral), aproximando-se mais do trote (brincadeira de enganar) e da trapaça (no jogo). Kardec toma o embuste como fraude, sem retirar o interesse, pois, em seu tempo, havia muitos prestidigitadores, ilusionistas, falsários, que simulavam manifestações físicas em espetáculos, pelos quais recebiam cachê, como um artista qualquer. Importante lembrar que muitos médiuns autênticos igualmente vendiam shows. Daí, inclusive, nasceu uma tendência perigosa: de acrescentar números falsos a fenômenos verdadeiros, para "incrementar" o show.

Quanto a isso, é bom trazer à memória o caso das Irmãs Fox — as pioneiras do movimento revolucionário chamado Moderno Espiritualismo. Não há desconfianças — exceto por parte dos mais céticos — da veracidade dos históricos fenômenos em sua casa, em Hydesville, (Estado de Nova York, EUA). Porém, sabe-se que posteriormente, Maggie e Kate foram agenciadas para dar espetáculos na Europa e, em dado momento, elas participaram de números falsificados (ver em A História do Espiritualismo, de Arthur Conan Doyle).


Maggie e Kate Fox

Pelo fato de muitos embusteiros terem sido flagrados escamoteando o público com imitações de fenômenos sobrenaturais, a própria mediunidade foi alvejada, especialmente pelos materialistas declarados e os adversários do Espiritismo, como bem anota Kardec: "Os que não admitem a realidade das manifestações físicas geralmente atribuem os efeitos produzidos à fraude. Fundam-se em que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios, para quem não conhece seus segredos; donde concluem que os médiuns não passam de escamoteadores...", que então contrapõe: "há uma consideração que não escapará a quem quer que reflita um pouco. Sem dúvida, existem prestidigitadores de prodigiosa habilidade, mas são raros. Se todos os médiuns praticassem a escamoteação, seria preciso reconhecer que esta arte fez em pouco tempo incríveis progressos e se tornou de súbito muito comum, apresentando-se instintivamente em pessoas que dela nem suspeitavam e até em crianças." (O Livro dos Médiuns, cap. XXVIII, ITEM 314).

Portanto, o codificador reconhece a existência do embuste no movimento espiritualista então, da fraude mediúnica (a exemplo de charlatanismo no meio científico), mas ressalta que, fora estes casos — que, por sinal, ele considera fossem raros — a faculdade mediúnica e o fenômeno paranormal anímico são absolutamente recursos verdadeiros e naturais, pois que há Espíritos (os seres inteligentes desencarnados) e há o intercâmbio deles com a humanidade encarnada, conforme as leis da Natureza instituída por Deus, como recurso válido e fundamental para o desenvolvimento espiritual da Terra.

Na sequência do referido capítulo, em O Livro dos Médiuns, o codificador espírita ressalta ainda quem são as pessoas mais fáceis de serem enganadas: "Em tudo, as pessoas mais facilmente enganáveis são as que não pertencem ao ramo. O mesmo se dá com o Espiritismo. As que não o conhecem se deixam facilmente iludir pelas aparências, ao passo que um prévio estudo atento as inicia, não só nas causas dos fenômenos, como também nas condições normais em que eles costumam se produzir e lhes assim propicia os meios de descobrirem a fraude — se ela existir.O antídoto para não ser enganado é justamente o conhecimento do mecanismo espiritual — anímico e mediúnico. E quem, além da Doutrina Espírita, poderia nos oferecer essa garantia?




O prejuízo da farsa

Quando um embusteiro é desmascarado o estrago é grande, porque o escândalo não é desprezado pelos antipáticos à causa espírita. Quando se trata de um aventureiro qualquer, que é reconhecidamente alguém que sai por aí vendendo espetáculo, ainda assim o prejuízo pode ser grande. Contudo, pior mesmo é quando o trapaceiro é de casa. Por isso, Kardec era rigorosíssimo com os médiuns que ofereciam seus serviços aos círculos espíritas e muita pouca importância dava ao fenômeno em si — exemplo nem sempre observado pelos dirigentes das casas espíritas em nossa atualidade.

Eis o exemplo kardequiano: "Certo dia, um intelectual bastante conhecido veio ter conosco e nos disse que era muito bom médium escrevente intuitivo e que se colocava à disposição da Sociedade Espírita. Como temos por hábito não admitir na Sociedade senão médiuns cujas faculdades nos são conhecidas, pedimos ao nosso visitante que quisesse dar antes provas de sua aptidão numa reunião particular. Ele realmente compareceu a esta, na qual muitos médiuns experimentados deram ou dissertações, ou respostas de notável precisão, sobre questões propostas e assuntos que lhes eram desconhecidos. Quando chegou a vez daquele senhor, ele escreveu algumas palavras insignificantes, disse que nesse dia estava indisposto e nunca mais o vimos. Achou sem dúvida que o papel de médium de efeitos inteligentes é mais difícil de representar do que o supôs." (O Livro dos Médiuns, cap. XXVIII, item 315).

Não a toa, ele reproduziu uma carta enviada por um dos assinantes da Revista Espírita, como alerta contra o embuste:

Paris, 21 de julho de 1861.
Senhor.
Podemos estar em desacordo sobre certos pontos e de perfeito acordo sobre outros. Acabo de ler, à página 213 do último número deste jornal, algumas reflexões acerca da fraude em matéria de experiências espiritualistas (ou espíritas), reflexões a que tenho a satisfação de me associar com todas as minhas forças. Aí, quaisquer dissidências a propósito de teorias e doutrinas desaparecem como por encanto.
Talvez não seja tão severo quanto o senhor, com relação aos médiuns que, sob forma digna e decente, aceitam um pagamento, como indenização do tempo que dedicam a experiências muitas vezes longas e fatigantes. Porém, tanto quanto o senhor — e ninguém o seria demais — sou rigoroso com relação aos que, em tal caso, suprem pelo embuste e pela fraude a falta ou a insuficiência dos resultados prometidos e esperados, quando se lhes oferece ocasião.
Quando se trata de fenômenos obtidos pela intervenção dos Espíritos, misturar o falso com o verdadeiro é simplesmente uma infâmia e haveria anulação do senso moral no médium que julgasse poder fazer isso sem escrúpulo. Conforme o observou com perfeita exatidão, é lançar a coisa em descrédito na consciência dos indecisos, desde que a fraude seja reconhecida. Acrescentarei que é comprometer do modo mais deplorável os homens honrados, que prestam aos médiuns o apoio desinteressado de seus conhecimentos e de suas luzes, que se constituem fiadores da boa-fé que neles deve existir e os patrocinam de alguma forma. É cometer para com eles uma verdadeira prevaricação.
Todo médium que fosse apanhado em manejos fraudulentos; que fosse apanhado com a boca na botija – para me servir de uma expressão um tanto trivial –, mereceria ser censurado por todos os espiritualistas ou espíritas do mundo, para os quais constituiria rigoroso dever desmascará-los ou infamá-los.
Se lhe for conveniente, Senhor, inserir estas breves linhas neste jornal, ficam elas à disposição.
Aceite-as!
         Mateus
Entramos então em delicados pontos: muitos principiantes espíritas almejam desavisadamente produzir fenômenos; dirigentes espíritas propagam a ideia de uma fácil iniciação à mediunidade e muitas casas oferecem cursos de formação de médiuns a torto e a direito, desconsiderando que as faculdades mediúnicas não são para todos; a supervalorização do fenômeno espiritual é ainda uma grande tentação no meio espírita e espiritualista.

Sobre isso, lemos Louis Neilmoris em Terapia Espírita, 1ª parte - Fundamentos espíritas, item "Mediunidade Espírita":
"É preciso pôr à prova médiuns e Espíritos. Assim o fez Kardec e assim recomenda a doutrina. A desatenção nesse ponto, mesmo sob o pretexto de não magoar ninguém — seja aos supostos médiuns, seja aos Espíritos —, enseja que a mediunidade e o Movimento Espírita caiam na banalização. Se a manifestação mediúnica não ficar bem caracterizada logo de pronto, que seja submetida a análises sérias até que seja concluída sua veracidade. E bem melhor será para o pseudomédium se convencer imediatamente que estava sendo iludido do que encher-se de fantasias."


Sobre os fraudadores

Outro ponto que comumente se põe em pauta é sobre as consequências para os falsários, charlatões e embusteiros. O que se reserva para estes?

Bem, não nos cabe condenar ninguém, mas é racional pensarmos que os prejuízos causados a uma nobre causa não podem deixar de ser reparados, embora não devamos nos esquecer do grau de culpabilidade. Há casos, como o da famosa brincadeira do copo, típica da fase infantil, em que impera mais o espírito de diversão e curiosidade. Podemos imaginar que muitos pseudomédiuns se deixam levar pelo desejo de pretenderem ser úteis e "importantes" e assim iludem a si mesmos de possíveis capacidades mediúnicas. Todavia, quando envolve interesse material, fazendo do embuste uma pseudoprofissão, ou quando há trote premeditadamente para lançar desconfiança à mediunidade e ao Espiritismo, aí supomos outro nível de gravidade.

Cena do filme Ghost

Brincar com Espíritos não é algo nada aconselhável. A primeira consequência lógica que nos parece ocasionar é a atração de Espíritos brincalhões. Não deixa de ser um ensaio para a mediunidade — só que para um tipo próximo da obsessão. No filme Ghost, por exemplo, temos a ilustração do caso da vigarista Oda May Brown (interpretada por Whoopi Goldberg), que se passa por médium para se sustentar e acaba atraindo a presença do Espírito Sam (Patrick Swayze), que passa a obsidiá-la até que ela faça uns "servicinhos" para ele.

Com a onda de "fazer ganhar a vida fácil como youtuber", é plausível considerarmos a hipótese de que o "fantasma do IML de Cuiabá" tenha sido criado por interesses materiais; de outra forma, tudo pode ter sido apenas um trote, uma brincadeira despretensiosa. Felizmente, pela velocidade dos coisas que se sucedem no mundo virtual, isso logo mais será esquecido — substituído por outro episódio sensacionalista — sem maiores sequelas. No entanto, a questão do charlatanismo e do embuste não deixa de ser grave e o Movimento Espírita precisa trabalhar para combater esses dois elementos corrosivos.

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