terça-feira, 22 de setembro de 2020

Projeto Allan Kardec: "Rascunho de carta para o senhor Edoux - 15/04/1864"


Prosseguindo nossos estudos sobre os manuscritos que estão sendo publicados pelo Projeto Allan Kardec (saiba mais aqui), estudos esses que iniciamos analisando o documento "Evocação - 1860" (ver aqui) e que agora destaca o "Rascunho de carta para o senhor Edoux", datado de 15 de abril de 1864, oriundo do acervo particular do Dr. Canuto Abreu, que foi entregue à FEAL e agora foi disponibilizado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, estando acessível no site oficial do referido projeto.

Vamos contextualizar o documento com a ajuda dos metadados de Carlos Seth da fanpage CSI do Espiritismo.

Como o próprio título evidencia, trata-se de um rascunho, escrito por Allan Kardec, de uma correspondência para o Sr. Edoux, ressaltando que era uma prática do codificador espírita guardar em seus arquivos uma cópia das cartas que ele remetia, claro, para fins de controle pessoa e para servir de fontes de pesquisas futuras, no intuito de se compreender o contexto daquilo que se estava tratando ali.

O correspondente de Kardec, Evariste Edoux era médium e diretor do jornal La Vérité, de que temos algumas referências na Revista Espírita (ver aqui). Ver também mais alguns detalhes sobre ele na página 75 do Almanach spirite pour 1865 (disponível online aqui). O periódico que ele dirigia, em Lyon, cuja coleção está disponível no site da Gallica e também no portal IAPSOP, teve sua estreia em 22 de fevereiro de 1863, publicado semanalmente e custava 15 centavos. Mais tarde mudou seu título para La Tribune Universelle, journal de la libre conscience et de la libre pensée. conforme nota de Kardec na Revista Espírita de Abril de 1867 (conferir aqui).


Vamos então ao manuscrito:


A transcrição do documento, em francês:

Paris 15 avril 1864.

Mon cher Monsieur <Edoux>,

J’ai lu avec beaucoup d’intérêt les derniers n.os de La Vérité, et celui surtout où vous réfutez l’abbé Barricand. En vous remerciant bien sincèrement de ce que vous y dites à mon sujet, je vous félicite de la modération que vous avez apportée dans votre polémique, et ne saurais trop vous engager à persévérer dans cette voie ; c’est celle qui contrarie évidemment le plus nos adversaires, car ils voudraient nous voir sortir des bornes et font tout ce qu’ils peuvent pour nous entraîner sur leur terrain. C’est à nous de ne pas nous laisser prendre au piège. Comme vous le dites avec <avec> beaucoup de justesse, en discutant le Spiritisme au point de vue exclusivement doctrinal, M. l’abbé Barricand <il> est dans son droit, et puisqu’il prend à partie La Vérité, il est permis de lui répondre ; il est du devoir surtout de relever les erreurs volontaires ou involontaires qu’il pourrait commettre, tout en restant dans la limite des convenances, lors même qu’il s’en écarterait ; c’est le meilleur moyen de mettre le bon droit de votre côté.

J’ai adressé à Lyon par le courrier d’hier un certain nombre d’exemplaires de mon nouvel ouvrage : L’Imitation de l’Évangile. Il y en a un pour vous qui vous sera remis par M.r Villon auquel j’ai adressé le paquet. Vous y trouverez je pense des éléments pour réfuter M.r Barricand.

Des inadvertances de l’imprimeur ont nécessité la réimpression de certaines parties, ce qui a causé un retard imprévu dans la mise en vente.

Courage, mon cher Monsieur, et croyez à mon bien sincère dévoûment,

A.K.


A tradução para o nosso português:

Paris, 15 de abril de 1864.

Meu caro senhor <Edoux>,

Li com muito interesse os últimos números de La Vérité, e principalmente aquele em que o senhor refuta o abade Barricand. Agradecendo-lhe muito sinceramente o que nele o senhor disse a meu respeito, felicito-o pela moderação que imprimiu à sua polêmica, e não poderia insistir demais em pedir-lhe para perseverar nesse caminho. É assim que se mais contraria os nossos adversários, pois eles gostariam de nos ver sair dos nossos limites, e fazem tudo o que podem para nos arrastar ao terreno deles. Cabe a nós não nos deixarmos cair na armadilha. Como o senhor disse com muita justeza, o senhor abade Barricand, ao discutir o Espiritismo do ponto de vista exclusivamente doutrinário, está no seu direito e, visto como se refere à La Vérité, é permitido lhe responder. É sobretudo um dever mostrar os erros voluntários ou involuntários que ele possa ter cometido, tudo dentro do limite das conveniências, mesmo quando ele delas se afaste; é o melhor meio para ter a razão do seu lado.

Remeti a Lyon, pelo correio de ontem, um certo número de exemplares de nossa obra mais recente: A Imitação do Evangelho. Um deles é para o senhor e lhe será entregue pelo senhor Villon, a quem enviei o pacote. Penso que o senhor encontrará nela elementos para refutar o senhor Barricand.

Alguns descuidos do impressor exigiram a reimpressão de certas partes, o que causou uma demora imprevista para o lançamento da obra.

Coragem, meu caro, e acredite no meu sincero devotamento,

Allan Kardec

Clique aqui para ver o manuscrito no Portal Allan Kardec.

O fato é que Kardec lê, "com muito interesse", os últimos números do jornal editado pelo Sr. Edoux, e principalmente aquele em que este refuta o abade Barricand. Este assunto foi comentado na Revista Espírita de maio de 1864, em "Cursos públicos de Espiritismo em Lyon e Bordeaux" (ver aqui). Eis um trecho do artigo de Kardec, que também nos introduz um pouco da personalidade sacerdotal citada:
O Padre Barricand, professor na Faculdade de Teologia de Lyon, começou no Petit-Collège uma série de lições públicas sobre, ou melhor, contra o magnetismo e o Espiritismo. O jornal la Vérité, em seu número de 10 de abril de 1864, analisa uma sessão consagrada ao Espiritismo e levanta várias asserções do orador. Promete manter os leitores ao corrente da continuação, ao mesmo tempo em que se encarrega de refutá-las, o que, não temos dúvida, fará maravilhosamente, a julgar por seu começo. O decoro e a moderação de que deu provas até hoje em sua polêmica nos dão a certeza de que não mudará nesta circunstância, mesmo que o seu contraditor mude,
Ou seja, temos em Lyon um clérigo (Pe. Barricand) lecionando um curso antiespírita e antimagnetismo e o jornal La Vérité, do Sr. Edoux, em defesa do Espiritismo e do Magnetismo, de forma tão amigável que, antes de qualquer crítica, cuidou de dialogar diretamente com o sacerdote, tal como ele explica:
“À saída do curso, tivemos ligeira conversa com o Padre Barricand que, aliás, nos recebeu de maneira muito cortês. Nosso objetivo era oferecer-lhe uma coleção do Vérité, para facilitar-lhe meios de falar dele à vontade.”
Como se poderia esperar, o debate doutrinário não teve continuidade e o Pe. Barricand passou a ser ainda mais feroz em suas pregações contra a Doutrina Espírita. Daí é que Allan Kardec vai escrever parabenizando o empenho do confrade na refutação ao mesmo tempo em que o estimula à perseverança na defesa dos postulados espíritas, ressaltando a moderação nesse intento e anotando que os seus adversários ficam muito contrariados, "pois eles gostariam de nos ver sair dos nossos limites, e fazem tudo o que podem para nos arrastar ao terreno deles", diz Kardec, acrescentando que "não podemos nos deixar cair na armadilha" deles.

A propósito, nRevista Espírita de julho de 1864 publica uma carta do Abade Barricand, a seu pedido, queixando-se de que o Sr. Edoux teria "fantasiado e desfigurado" o tal Cursos públicos de Espiritismo em Lyon e Bordeaux, do sacerdote. Por sua vez, o editor de La Vérité vai responder a essa crítica na mesma Revista Espírita, agora na edição de agosto de 1864, em "Correspondência" (ver aqui), 

Em suma, o documento que veio à lume agora com o Projeto Allan Kardec é mais uma peça de ensinamento para todos nós espíritas, frequentemente alvos de zombarias e provocações: para que tenhamos moderação em face dessas situações, jamais descendo ao nível baixo ao qual o fazem muitos dos contestadores da nossa doutrina.

* * *

Fora isso, temos uma nota na carta de Kardec informando o Sr. Edoux do atraso no lançamento do livro mais recente, Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, que mais tarde seria renomeada e reconhecida como uma das obras básicas da codificação espírita como O Evangelho segundo o Espiritismo"Alguns descuidos do impressor exigiram a reimpressão de certas partes, o que causou uma demora imprevista para o lançamento da obra", diz Kardec, o que provocou a reflexão do nosso colega pesquisador Carlos Seth: "Se alguns descuidos exigiam a reimpressão, imaginemos mais de 1.500 alterações de A Gênese...; mesmo que fossem só algumas, depois de iniciada a impressão definitiva em fevereiro de 1869, seria necessário reimprimir grande parte da obra devido à reformatação das páginas!". Para entender melhor essa reflexão, vide O caso A Gênese.

* * *

Por fim, o documento em pauta cita ainda um terceiro personagem: o Sr. Villon, destinatário de uma remessa do livro Imitação do Evangelho e então encarregado de entregar um exemplar dessa obra ao Sr. Edoux.

Villon é mencionado na Revista Espírita de fevereiro de 1862, artigo "Resposta à mensagem de ano novo dos Espíritas lioneses", no qual Kardec, impossibilitado de estar presente em Lyon, referencia Villon naquela cidade como sendo um representante seu, "cujo zelo e devotamento — diz Kardec — são do vosso conhecimento, tanto quanto a pureza de seus sentimentos", também aditando: "Além disso, sua posição independente lhe dá mais folga para a tarefa de que se quer encarregar. É tarefa dura, mas ele não recuará. O grupo por ele formado em sua casa o foi sob os meus auspícios e conforme as minhas instruções, quando de minha última viagem. Ali encontrareis excelentes conselhos e salutares exemplos. É com viva satisfação que verei todos os que me honram com sua confiança a ele se ligarem, como a um centro comum." (ver aqui)

Revista Espírita de maio de 1862 reproduz a bela dissertação espírita "As duas lágrimas", recebida no grupo familiar do Sr. Villon, através da médium Sra. Boulland e assinada pelo Espírito denominado Cárita (ver aqui).

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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Instagram do Portal Luz Espírita


Estamos reforçando nossas publicações através do Instagram e por ocasião disso, viemos te fazer um pedido especial nosso:

Ajude a fortalecer as nossas redes sociais e ainda fique atualizado em tempo real com os nossos lançamentos e notícias sobre o que melhor e mais importante acontece no Movimento Espírita. Além disso, essa é uma ótima maneira de divulgar o Espiritismo e você estará contribuindo com isso.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Lançamento na Sala de Leitura: "Primeiro Congresso Internacional Espírita"


Trazemos para a Sala de Leitura do Portal Luz Espírita um importante resgate histórico do desenvolvimento do Espiritismo pós-Kardec: a obra da Federação Espírita Espanhola com os registros oficiais do Primeiro Congresso Internacional Espírita, realizado em 1888, na cidade de Barcelona, Espanha. É, portanto, um livro interessantíssimo para compreendermos o que a segunda geração de espíritas fizeram para promover a sua doutrina.

O livro principia com uma pomposa apresentação do Espiritismo e, assinada por Visconde de Torres-Solanot, o notável escudeiro de Allan Kardec em terras espanholas e presidente do referido Congresso. Segue registrando os discursos, mensagens e requerimentos trazidos à conferência, que durou três dias: 8, 9 e 10 de setembro de 1888.

O Congresso reuniu delegados de várias partes do globo representando grande variedade de entidades espíritas.

Confira mais esse resgate histórico já disponível em PDF, sendo uma coprodução do Portal Luz Espírita e o site Autores Espíritas Clássicos.

Baixe agora mesmo Primeiro Congresso Internacional Espírita.


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Atalhos para a nossa plataforma de estudos - PEADE

Salve em seu computador, seu celular ou seu tablet um ícone de atalho direto para a PEADE – Plataforma de Estudos Avançados da Doutrina Espírita. Assim, você não precisa ficar digitando o endereço toda vez que quiser entrar na nossa plataforma. É muito simples e prático!

Veja como, pelo vídeo ou descrição a seguir:



Computador com o Google Chrome:

1. Primeiro, abra a página da PEADE - http://luzespirita.org.br/peade/ - pelo seu navegador;
2. Com a página já aberta, abra o menu de configurações do navegador em forma de três pontinhos, no canto superior direito da tela.
3. No menu que aparece, procure a opção “Mais ferramentas” e depois “Criar atalho...”
4. Simplifique o nome para PEADE e clique em “Criar”.

Pronto! O atalho vai aparecer na área de trabalho e quando precisar ir direto pra plataforma, é só dá dois cliques no ícone que a página vai ser carregada. 


Computador com o navegador Microsoft Edge

1. Carregue a página da plataforma http://luzespirita.org.br/peade/ - pelo navegador;
2. Abra o menu de configurações no cantinho superior direito;
3. Selecione a opção “Mais ferramentas” e depois “Fixar na barra de tarefas”;
4. Assim, o atalho vai aparecer no menu do Windows. Daí você também pode arrastar o ícone para a área de trabalho e por qualquer uma dessas opções de atalho abrir a página facilmente.

Se você usa outro navegador ou sistema de operacional para computador, o processo deve ser parecido com esse. 


Para telefone celular e tablet:

Vamos demonstrar usando o sistema Android, mas se você usa o sistema do iPhone ou outro, os procedimentos são bem parecidos. Veja só como é fácil: 

1. Carregue a página da PEADE http://luzespirita.org.br/peade/ pelo navegador do seu sistema;
2. Abra o menu de configurações clicando nos três pontinhos do canto superior direito;
3. Selecione no menu até a opção “Adicionar à tela principal”;
4. Simplifique o nome para PEADE e “Adicionar”.

Pronto! Agora o atalho já está disponível na tela do seu smartphone e você pode usá-lo para ir rapidinho para a nossa plataforma. 

Bons estudos e não deixe de compartilhar com seus familiares e amigos os cursos oferecidos pela PEADE.

sábado, 12 de setembro de 2020

Projeto Allan Kardec: manuscrito "Evocação"


Conforme já anunciamos, o portal do Projeto Allan Kardec (veja aqui) da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF já está no ar contendo um acervo inicial com cinquenta manuscritos originais do Codificador do Espiritismo, documentos esses provindos da coleção do Dr. Canuto Abreu (saiba mais).

Percorrendo então essas preciosidades, encontramos o manuscrito intitulado "Evocação", datado de 1860 (ver aqui), pelo qual temos a transcrição de Allan Kardec exatamente da evocação que ele fez ao Espírito denominado Georges, agradecendo-lhe a comunicação anterior, ditada à médium Sra. Lescot (que usava como pseudônimo um anagrama: Sra. Costel), e lhe dirigindo alguns questionamentos.

Veja abaixo a imagem do manuscrito original:

A transcrição, em francês, é esta:

Au nom de Dieu Tout Puissant je prie l’Esprit de Georges de vouloir bien venir. 
Je vous remercie en mon nom de la belle et sublime communication que vous avez dictée à Mad. Lescot et qu’elle m’a transmise. C’est un chef d’œuvre de profondeur, de vérité et d’éloquence. 
Veuillez n’en pas rester là et soyez assez bon pour lui en donner d’autres, car elles ne peuvent que faire une profonde impression sur ceux qui les liront. Je désirerais notamment avoir la contrepartie de la situation du méchant c’est le tableau du bonheur du juste. Puis une explication satisfaisante touchant l’âme des animaux et le principe vital des plantes. Ce sera compléter l’œuvre magnifique que vous venez de commencer, et je vous en remercie d’avance.

E aqui está a tradução para o nosso português:

Em nome de Deus Todo-Poderoso, eu peço que o Espírito de Georges aceite comparecer.
Eu lhe agradeço, em meu nome, a bela e sublime comunicação que o senhor ditou à senhora Lescot e que ela me transmitiu. É uma obra-prima de profundidade, de verdade e de eloquência. 
Queira não parar por aí, e seja bom o suficiente para enviar-lhe outras, pois as comunicações só podem causar uma profunda impressão naqueles que as lerão. Eu gostaria notadamente de ter a contrapartida da situação dos maus: é o quadro da felicidade do justo. Depois uma explicação satisfatória sobre a alma dos animais e o princípio vital das plantas. Isso será completar a magnífica obra que o senhor acabou de começar, e eu desde já lhe agradeço por isso.

Para saber mais sobre o Espírito aqui evocado, Georges, e também sobre a Sra.
Lescot, ver a monografia feito pelo CSI: Espiritsimo
Aliás nosso confrade Carlos Seth também já discorreu sobre este manuscrito (veja aqui), em que anota: "Allan Kardec investigava assuntos q seriam desenvolvidos até a sua última obra fundamental (A Gênese, de 1869. Note-se que em 1865, Kardec comenta sobre os animais: 'vê-se que a questão ainda está pouco adiantada, e não se deve forçar a sua solução' (ver aqui). E em A Gênese temos a evolução do conceito do fluido para o do princípio vital (ver aqui)."

As primeiras observações que fazemos desse documento são:

  • É mais um exemplo concreto de que Kardec evocava determinados Espíritos diretamente pelo nome, uma prática por vezes criticada por confrades contemporâneos nossos;
  • Vê-se o cuidado de Kardec em envolver a evocação na proteção divina ("Em nome de Deus...") ao mesmo tempo reconhecendo a onipotência divina ("Todo-Poderoso...");
  • Vemos também que não lhe falta a gentileza de ser grato aos amigos espirituais pelas mensagens;
  • Kardec não hesitava em pedir aos Espíritos amigos opiniões sobre assuntos importantes. É claro que daí, analisando em conjunto com outras opiniões, ele passava a filtrar as respostas mais lógicas e satisfatórias aos questionamentos de interesse da Doutrina Espirita. Não se tratava, portanto, de oraculismo, consultas despropositadas.

Visite o portal do Projeto Allan Kardec.

E você? Que mais observa desse documento?

Deixe seu comentário aqui.


domingo, 6 de setembro de 2020

"Catálogo Racional", obra de Allan Kardec: encontrado exemplar original da 1ª edição


Reproduzimos aqui a postagem da fanpage
Allan Kardec Online (AKOL) contendo o anúncio de um achado extraordinário para a Historiografia Espírita, que diz respeito à primeira edição do opúsculo Catálogo Racional de obras para se fundar uma Biblioteca Espírita, da autoria de Allan Kardec, que, como o próprio nome diz, é um catálogo com a sugestão de livros e outras mídias interessantes para estudos e pesquisas sobre o Espiritismo. A importância desse achado é enorme para a solução de questionamentos históricos sobre o desenvolvimento da doutrina, como o artigo bem descreve e, então, deixaremos que ele esclareça aos nossos leitores. Apenas lembramos que este post interessa diretamente às pesquisas da página especial O caso A Gênese (ver aqui).

Segue a cópia do post do AKOL:


𝐀 𝐆𝐞̂𝐧𝐞𝐬𝐞 𝟏𝟖𝟔𝟗 – 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐞𝐜̧𝐚 𝐟𝐮𝐧𝐝𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐥 𝐞́ 𝐣𝐮𝐧𝐭𝐚𝐝𝐚: 𝐚 𝟏ª 𝐞𝐝𝐢𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐚𝐛𝐫𝐢𝐥 𝐝𝐞 𝟏𝟖𝟔𝟗 𝐝𝐨 𝐂𝐚𝐭𝐚́𝐥𝐨𝐠𝐨 𝐑𝐚𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥, 𝐭𝐨𝐭𝐚𝐥𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐥𝐚𝐛𝐨𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐩𝐨𝐫 𝐊𝐚𝐫𝐝𝐞𝐜

Após muita procura e pesquisa, conseguimos localizar a 1ª edição do Catalogue raisonné des ouvrages pouvant servir à fonder une bibliothèque spirite” - Catálogo Racional das obras para se fundar uma Biblioteca Espírita, que foi encartado para ser distribuído aos assinantes da Revista Espírita de abril de 1869, revista esta, que foi inteiramente feita por Allan Kardec em vida.

Já havíamos publicado em 4 de abril de 2020 nossa pesquisa sobre as várias edições existentes que foram encartadas em diversas obras (ver aqu) e também, em 5 de abril de 2020 (ver aqui); havíamos publicado o manuscrito de próprio punho de Allan Kardec com o rascunho de uma página do Catálogo Racional, juntamente com as nossas pesquisas que concluíam que a referência existente sobre os “docetas”, que consta no final do item 67, do Capítulo XV, da 5ª edição do livro A Gênese, estaria totalmente em consonância com a cronologia e em sintonia com os fatos apresentados no nosso estudo efetuado. E deixamos uma pergunta naquela oportunidade: Teria Kardec inserido esta informação no Catálogo Racional, na edição que circulou em abril de 1869?

Na nossa pesquisa de 9 de agosto de 2020 (ver aqui), apresentamos que em todas as edições conhecidas do Catálogo Racional, quando da análise da obra La Clef de la vie (A Chave da vida) de Figagnères, listada por Allan Kardec em "Obras Diversas sobre o Espiritismo – ou Complementares da Doutrina", aparecia o seguinte texto: “Estranho sistema de cosmogonia e teogonia universais, ditado ao Sr. Michel, em estado de êxtase. Esse livro, escrito no início das manifestações [esta informação se refere ao início dos relatos de manifestações de espíritos], coincide em certos pontos com a Doutrina Espírita (mostrando a coerência de alguns pontos da obra com a Doutrina Espírita), mas em sua maior parte está em contradição com os dados da ciência e o ensino geral dos Espíritos. (Vide A Gênese segundo o Espiritismo, cap. VIII, nº de 4 a 7).”

No nosso estudo, mostramos que a referida expressão ("Voir la Genèse selon le Spiritisme, chap. VIII, nº de 4 à 7), indicando o item/parágrafo 7 do Capítulo VIII, só existe na 5ª edição de A Gênese, e que esta alteração está referenciada no Catálogo Racional em todas as edições conhecidas, sendo a mais antiga, até então conhecida, a de junho/julho de 1869.

Agora, apresentamos a 1ª edição do Catálogo Racional que foi distribuída em abril de 1869, conforme informado na Revista Espírita daquele mês. A edição, até o momento, inédita e desconhecida do movimento espírita (vide fotos), e que foi totalmente elaborada por Allan Kardec.

Na Revista Espírita de abril de 1869, na página 98 do original em francês, encontramos o seguinte texto (usando a tradução de Evandro Noleto Bezerra), logo após a apresentação do catálogo racional das obras que interessam ao Espiritismo, e a informação de que estava sendo juntado, como suplemento, neste número da Revista:
Eis em que termos ela está anunciada, no topo do catálogo que remetemos aos nossos assinantes com o presente número: “O interesse que se liga cada vez mais aos estudos psicológicos em geral, e, em particular, o desenvolvimento que as ideias espíritas têm tomado de alguns anos para cá, fizeram sentir a utilidade de uma casa especial para a concentração dos documentos concernentes a essas matérias. Fora das obras fundamentais da Doutrina Espírita, existe um grande número de livros, tanto antigos quanto modernos, úteis ao complemento desses estudos, e que são ignorados, ou sobre os quais faltam informações necessárias para obtê-los. É visando preencher esta lacuna que a Livraria Espírita foi fundada”.
Esta é a tradução do texto que consta na capa da 1ª edição do Catálogo Racional que agora está vindo a público.

Outra coisa que nos chama a atenção na capa constante desta 1ª edição do Catálogo Racional (vide foto) é que nela aparece o nome completo utilizado por Allan Kardec - LIBRAIRIE SPIRITE ET DES SCIENCES PSYCHOLOGIQUES - que após o seu desencarne, foi sendo simplificado a sua escrita nas obras, conforme nos mostra o estudo do CSI do Espiritismo de 2 de abril de 2020 (ver aqui).

Com esta 1ª edição do Catálogo Racional fica demonstrado que Allan Kardec utilizou-se, aqui, pela primeira vez do nome “Librairie Spirite et des Sciences Psychologiques”. Lembrando que a solicitação do brevet [alvará], como apurado pelo CSI do Espiritismo em 29 de março de 2020 (ver aqui), visando a autorização governamental de funcionamento da Livraria Espírita, já havia sido feita anteriormente pelo próprio Kardec. Além disso, com o uso do endereço colocado na capa desta obra – rue de Lille, 7 – fica, também, confirmado que Kardec já sabia que a Livraria Espírita iria para este endereço, com a antecedência necessária para esta poder estar impressa (fevereiro/março?), e poder ser distribuída juntamente com a Revista Espírita de abril de 1869.

Vale reforçar que o endereço “rue de Lille, 7” é o que consta na primeira impressão da 5ª edição de A Gênese de 1869.

Na página 3 do Catálogo Racional (vide foto) distribuído em abril de 1869 encontramos algumas curiosidades:
  • temos a menção à 4ª edição de A Gênese;
  • temos menção à 4ª edição de O Céu e o Inferno, que só ficou disponível para venda em 1º de junho de 1869 (vide Revista Espírita de julho de 1869);
  • temos menção à 10ª edição de O Livro dos Médiuns, lembrando que a 11ª edição foi anunciada para venda em 1º de junho de 1869 (vide Revista Espírita de julho de 1869);
  • temos a menção à 6ª edição do livro O que é o Espiritismo, sendo que a 8ª edição é de 1868 (Vide Bibliographie de la France – 10/10/1868);
Estas informações nos mostram que os respectivos números das edições das obras constantes do Catálogo Racional não podem ser levadas em consideração de forma conclusiva para servirem como prova ou única justificativa para confirmar hipóteses.

Mas a informação com a referência à 4ª edição do livro O Céu e o Inferno é de grande valia, pois nos indica que esta obra já estaria pronta para ser impressa antes do mês de abril de 1869, para que pudesse constar neste Catálogo. Ou seja, com todas as suas revisões e alterações prontas.

Na página 4 do Catálogo Racional (vide foto), podemos verificar a ausência da obra: Derniers Jours d'un philosophe (Les). - Entretiens sur les sciences, sur la nature et sur l'âme, par sir HUMPHRY DAVY, traduit de l'anglais et annoté par C. FLAMMARION. - 1 vol. in-12, 3 fr. 50 c. Paris, Didier. (Revue spirite de juillet 1869, page 216.). Na parte Ouvrages divers sur le Spiritisme OU COMPLÉMENTAIRES DE LA DOCTRINE. Esta obra teve o seu lançamento anunciado na Revista Espírita de julho de 1869.

Ainda na página 4 (vide foto), podemos constatar a existência da obra: Évangiles (Les quatre), suivis des Commandements, expliqués en esprit et en vérité par les Evangélistes, par ROUSTAING, avocat à Bordeaux. - 3 vol. in-12, 10 fr. 50 c ; franco, 11 fr. Paris, Aumont. (Revue spirite, juin et septembre 1866, p. 190 et 271.). Esta é outro ponto que foi utilizado por muitos adeptos da teoria da conspiração e sobre a teoria da adulteração da 5ª edição de A Gênese. Comprovando que esta obra foi colocada no Catálogo Racional por Allan Kardec, conforme já apontavam as nossas pesquisas de 5 de março de 2020 (ver aqui).

Na página 5 do Catálogo Racional (vide foto), encontramos a obra: Michel (de Figagnères, Var). La Clef de la vie. - 2 vol. in-12, 7 fr. (Épuisé.) Système étrange de cosmogonie et de théogonie universelles, dicté par M. Michel, en état d'extase. Ce livre, écrit au début des manifestations, coïncide, sur certains points, avec la doctrine spirite ; mais sur le plus grand nombre, il est en contradiction avec les données de la science et l'enseignement général des Esprits. (Voir la Genèse selon le Spiritisme, chap. VIII. nos de 4 à 7.).

Ou seja, a referência ao item/parágrafo 7, do Capítulo VIII de A Gênese, que só existe na 5ª edição, já aparecia na 1ª edição do Catálogo Racional escrita por Allan Kardec e distribuída em abril de 1869, na Revista Espírita que foi a última elaborada pelo mestre.

Ainda na página 5 (vide foto), podemos verificar a ausência da obra: Instruction pratique pour l'organisation des groupes spirites, spécialement dans les campagnes, par M. C…, Paris, 1869. – Librairie spirite. 1 vol. in-12, 1 fr. (Revue spirite de juillet 1869: page 222.). Na parte Ouvrages divers sur le Spiritisme OU COMPLÉMENTAIRES DE LA DOCTRINE. Esta obra só foi lançada em julho de 1869, conforme consta da Revista Espírita daquele mês. Nesta mesma revista é dito que os manuscritos deste livro já estavam de posse de Allan Kardec.

Na página 8 do Catálogo Racional (vide foto), consta a obra: Le roman de l'Avenir, par E. BONNEMÈRE. - 1 vol. in-12, 3 fr. ; franco, 3 fr. 40. Paris, Librairie internationale. Na edições posteriores esta obra está colocada após Lavater. Na 1ª edição, portanto, ela foi colocada fora de ordem alfabética, o que foi corrigido nas edições posteriores.

Na página 10 do Catálogo Racional (vide foto), podemos verificar a ausência da obra: Gasparin (Le Cte A. de). L'Égalité. - 1 vol. in-18, 3 fr. ; franco, 3 fr. 50 c. Paris, 1869. Michel Lévy. Na parte PHILOSOPHIE ET HISTOIRE. Esta obra foi lançada em junho de 1869, conforme Bibliographie de la France – 12/06/1869.

Na página 14 do Catálogo Racional (vide foto), podemos constar que constam as obras Voyages au Thibet, par le P. Huc e Voyages en Chine et en Tartarie, enquanto nas edições seguintes aparece Voyages au Thibet et em Tartarie, par le P. Huc e Voyages en Chine. Houve aqui uma inversão dos nomes dos livros.

Na página 15 do Catálogo Racional (vide foto), podemos verificar a ausência da obra: Chave (CLÉMENT DE LA). La Magicienne des Alpes. 1 vol. in-12, 2 fr. ; franco, 2 fr. 40 c. Paris, 1861, Havard. Na parte ROMANS. Esta obra já havia sido lançada no ano de 1861, mas Allan Kardec não a tinha incluído no Catálogo Racional na parte de ROMANCES.

Estas são as diferenças básicas da 1ª edição do Catálogo Racional lançado em abril de 1869 por Allan Kardec e as edições posteriores.

Esperamos que esta peça que se junta ao quebra-cabeça de A Gênese possa provocar mais reflexões e propiciar esclarecimentos a todos. A nossa hipótese inicial de que foi Allan Kardec o autor das alterações da 5ª edição de A Gênese se faz cada vez mais fortalecida.

A existência do livro Os Quatro Evangelhos de Roustaing, bem como das observações sobre os “docetas”, na 1ª edição do Catálogo Racional escrito e publicado por Allan Kardec, bem como, a referência existente no final do item 67, do Capítulo XV, da 5ª edição do livro A Gênese – também sobre os “docetas” põe fim a uma polêmica antiga entre os estudiosos. Fica comprovado que foi Allan Kardec o autor dos respectivos textos.

A existência da referência ao item/parágrafo 7 de A Gênese na obra “La Clef de la vie” de Figagnères, que consta na 1ª edição do Catálogo Racional, comprova que Allan Kardec foi o autor deste parágrafo.

Ainda há espaço para a pesquisa e lacunas a preencher nessa história sobre as edições de A Gênese. Com dedicação e persistência, prosseguimos na investigação das peças que faltam para fechar o quebra cabeça.

Nossos agradecimentos ao CSI do Espiritismo e ao OdKwww.ObrasdeKardec.com.br – pela ajuda em todas as pesquisas desenvolvidas pelo AKOL – AllanKardec.online. O trabalho de forma colaborativa é, sem dúvida, gratificante e produtivo. A ausência de personalismos é a tônica deste trabalho na busca de nos aproximar da verdade dos fatos.









Clique aqui para fazer o download da 1ª edição do Catálogo Racional:

Referências:
1. 1ª edição do Catálogo Racional;
5. CSI do Espiritismo: 
6. CSI do Espiritismo: 
8. Revistas Espíritas




Saiba mais sobre o O caso A Gênese clicando aqui.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Projeto Allan Kardec: já está online o portal criado pela UFJF


Finalmente já está ao alcance de todos o portal de acervos com documentos originais da Allan Kardec. O evento inaugural foi realizado ontem, com uma videotransmissão, via YouTube, em que alguns dos dirigentes do projeto falaram dessa realização.

Como havíamos anunciado (ver aqui), a Universidade Federal de Juiz de Fora, através do seu departamento NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) estava trabalhando para criar um portal em estilo acadêmico para receber, catalogar e publicar acervos históricos referentes ao codificador da Doutrina Espírita, notadamente os manuscritos oriundos da coleção particular do Dr. Canuto Abreu, então em posse da FEAL - Fundação Espírita André Luiz (Projeto Cartas de Kardec), e o acervo do Museu Online do Espiritismo do site Allan Kardec Online.

Eis que o referido portal da UFJF já está online pelo endereço:
www.projetokardec.ufjf.br


Inicialmente, o novo portal está oferecendo 50 documentos, cada qual com a fotocópia do manuscrito original, mais a transcrição em francês e a respectiva tradução para o português. Mas o projeto está aberto a receber novas peças, inclusive de coleções particulares, como se cogita receber contribuições de entidades espíritas francesas. Portanto, esse acervo inicial é só um pontapé e a expectativa é a de que o projeto cresça bastante.

Essa realização é um momento festivo para todos nós espíritas, especialmente para os mais estudiosos, aqueles que têm se dedicado com mais aplicação à pesquisa e contextualização histórica e doutrinária do Espiritismo, porque é uma fonte segura para consulta e estudo.

Além disso, comemoramos o fato de este material estar sob orientação técnica, através de acadêmicos qualificados e sob o pálio de uma universidade conceituada na área do estudo científico das questões espirituais, cujo reconhecimento ultrapassa as fronteiras nacionais.

Adiante, a janela com o vídeo da live inaugural do Projeto Allan Kardec:

Ainda sob o efeito festivo dessa realização, estamos fazendo as primeiras apreciações do material divulgado, mas logo mais traremos aqui os apurados a respeito de cada documento divulgado.

Sugerimos também o acompanhamento da fanpage CSI do Espiritismo, do confrade Carlos Seth, que é um dos pesquisadores que colaboraram com o Projeto Cartas de Kardec, no seu caso, especialmente, contextualizando os manuscritos e copilando metadados, ou seja, ligando referências dos documentos com informações técnicas (dados geográficos, pessoais, datas e eventos) que ajudam a entender o conteúdo dos documentos. Carlos Seth estabeleceu a meta de escrever a cada dia sobre um documento. Com isso, ele terá uma diversão especial para os próximos cinquenta dias. E nós agradecemos!

Mais uma vez, o link para o site do Projeto Allan Kardec:

Acompanhe-nos também pelo Twitter e fique bem informado de tudo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Artigo "Esquecimento do passado não é apertar a tecla delete", por Paulo da Silva Neto Sobrinho



“O gênio […] é fruto de longa experiência em muitas vidas. Algumas almas são mais velhas do que outras e, por isso, sabem mais…”
Henry Ford

Equivocadamente algumas pessoas pensam que o esquecimento do passado seja algo como apertar a tecla delete do teclado do seu notebook. Às vezes, dizem que ao nascer o Espírito é “uma página em branco”; sim, é fato, mas não de um livro com todas as páginas em branco, mas já com milhares de páginas escritas, onde se encontram gravadas em sua memória integral, o inconsciente, toda a sua evolução intelectual e moral.

O notebook, que usamos como exemplo, tem duas memórias: ROM e RAM:

As memórias ROM (Read-Only Memory – Memória Somente de Leitura) recebem esse nome porque os dados são gravados nelas apenas uma vez. Depois disso, essas informações não podem ser apagadas ou alteradas, apenas lidas pelo computador, exceto por meio de procedimentos especiais. […].

As memórias RAM (Random-Access Memory – Memória de Acesso Aleatório) constituem uma das partes mais importantes dos computadores, pois são nelas que o processador armazena os dados com os quais está lidando. Esse tipo de memória tem um processo de gravação de dados extremamente rápido, se comparado aos vários tipos de memória ROM. […]. (1) (grifo nosso)

Podemos, por comparação, dizer que, semelhante ao notebook, o ser humano tem duas memórias: memória integral, que corresponderia à ROM, e a memória atual, relacionada a RAM.

Curioso é o que aparece nos relatos de Espíritos e nos de pessoas que passaram por uma EQM – Experiência de Quase Morte, que, em tempo muito curto, viram, como se fosse um filme, todos os atos de sua vida, tal e qual um programa de texto que o lê, antes de gravá-lo na memória ROM.

Em O Livro dos Espíritos, 2º Livro, cap. IV, tópico “Ideias inatas”, temos esclarecimento quanto aos conhecimentos inatos:

218. O Espírito encarnado conserva algum vestígio das percepções que teve e dos conhecimentos que adquiriu nas existências anteriores?
“Resta-lhe uma vaga lembrança, que lhe dá o que se chama ideias inatas.”

218-a. A teoria das ideias inatas não é, portanto, uma quimera?
“Não; os conhecimentos adquiridos em cada existência não se perdem; liberto da matéria, o Espírito sempre se recorda. Durante a encarnação, pode esquecê-los em parte, momentaneamente; mas a intuição que deles guarda lhe auxilia o progresso, sem o que estaria sempre a recomeçar. Em cada nova existência, o Espírito toma como ponto de partida aquele em que se encontrava em sua existência anterior.” (2)

A prova de que os conhecimentos anteriores não se perdem, ao contrário se manifestam, vamos encontrar, especialmente, nas pessoas que vemos como homens de gênio.

Em A Gênese, cap. I, item 5, Allan Kardec (1804-1869) explica-nos:

"Mas quem são esses homens de gênio? Por que são gênios? De onde vieram? Como se tornaram? Notemos que a maioria deles possui, desde o nascimento, faculdades transcendentes e alguns conhecimentos inatos que, com pouco esforço, desenvolvem. De fato, eles pertencem à humanidade, pois nascem, vivem e morrem como nós. Pois, então, de onde adquiriram esses conhecimentos que não puderam aprender durante a vida? Pode-se dizer, como fazem os materialistas, ter o acaso dado a eles matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso, não teriam mais mérito que um legume maior e mais saboroso que os outros.

"Diremos, como certos espiritualistas, que Deus dotou os gênios de uma alma mais favorecida que a das pessoas comuns? Essa suposição é igualmente ilógica, pois qualificaria como parcial. A única solução racional desse problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que, tendo vivido mais tempo, conquistou e progrediu mais do que os menos adiantados. Ao se encarnar, traz consigo o que sabe. Por saber mais que os outros, sem precisar aprender, é chamado de gênio. Contudo, seu saber é fruto de um trabalho anterior, e não resultado de um privilégio. Antes de renascer, já era um Espírito adiantado; reencarna para fazer os outros aproveitarem seu conhecimento, ou para progredir ainda mais." (3)

Retornando à obra O Livro dos Espíritos, destacamos, respectivamente, dois comentários de Allan Kardec sobre as respostas dos Espíritos superiores às questões 393 e 399:

"Embora em nossa vida corpórea não nos lembremos com exatidão do que fomos e do que fizemos de bem ou de mal nas existências anteriores, temos a intuição de tudo isso, sendo as nossas tendências instintivas uma reminiscência do nosso passado, tendências contra as quais a nossa consciência, que é o desejo que sentimos de não mais cometer as mesmas faltas, nos adverte para resistir." (4)

"Embora o homem não conheça os próprios atos que praticou em suas existências anteriores, sempre pode saber qual o gênero das faltas de que se tornou culpado e qual era o caráter dominante. Basta estudar a si mesmo e julgar do que foi, não pelo que é, mas pelas suas tendências." (5)

Então, evidencia-se que, de fato, não somos uma página branca em um livro em branco, mas trazemos, via reminiscências, todo o nosso passado que deságua sobre a personalidade atual como tendências, às quais é impossível fugir. Devemos nos esforçar para eliminar as más, visando sobressair somente as boas.

Na Revista Espírita 1858, mês de fevereiro, Allan Kardec publica o artigo “Diferentes ordens de Espíritos” no qual apresenta a classificação dos Espíritos conforme a ordem a que pertencem. Vamos destacar os de segunda ordem – bons Espíritos:

"Caracteres gerais. – Predominância do Espírito sobre a matéria; desejo do bem. Suas qualidades e o seu poder para fazerem o bem estão em razão do grau que alcançaram: uns têm a ciência, os outros a sabedoria e a bondade; os mais avançados unem o saber às qualidades morais. Não estando, ainda, completamente desmaterializados, conservam, mais ou menos, segundo sua classe, os traços da existência corporal, seja na forma da linguagem, seja em seus hábitos, onde se encontram mesmo algumas das suas manias; de outro modo, seriam Espíritos perfeitos." (6)

Importante a informação de que somente os Espíritos puros não conservam os traços da existência corporal, seja na forma da linguagem, seja em seus hábitos e algumas manias. O que vem significar que todos os Espíritos de segunda e terceira ordem trazem consigo tudo isso. Logo, quando reencarnam, apresentam todas essas características. Como? Na forma de reminiscências instintivas, ou seja, manifestam-se como tendências.

Na Revista Espírita 1859, mês de março, Allan Kardec diz que “[…] Estamos persuadidos de que devemos ter reminiscências de certas disposições morais anteriores; diremos até que é impossível que seja de outro modo, pois o progresso não se realiza senão gradualmente. […].” (7)

De O que é o Espiritismo, publicado em julho/1859, no tópico “Esquecimento do Passado”, destacamos este argumento de Allan Kardec:

"É assim que, reencarnando, o homem traz por intuição e como ideias inatas, o que adquiriu em ciência e moralidade. Digo em moralidade porque, se no curso de uma existência ele se melhorou, se soube tirar proveito das lições da experiência, se tornará melhor quando voltar; seu Espírito, amadurecido na escola do sofrimento e do trabalho, terá mais firmeza; longe de ter de recomeçar tudo, ele possui um fundo que vai sempre crescendo e sobre o qual se apoia para fazer maiores conquistas." (8) (grifo nosso)

Allan Kardec, como se vê, mantém-se firme na mesma linha de raciocínio, certamente, calcada nos ensinamentos dos Espíritos superiores.

Em Obras Póstumas, no artigo “Minha missão”, buscando confirmação do que lhe fora dito antes, pergunta ao Espírito Hahnemann: “Outro dia, disseram-me os Espíritos que eu tinha uma importante missão a cumprir e me indicaram o seu objeto. Desejaria saber se confirmas isso.” Cuja resposta foi:

"– Sim e, se observares as tuas aspirações e tendências e o objeto quase constante das tuas meditações, não te surpreenderás com o que te foi dito. Tens que cumprir aquilo com que sonhas desde longo tempo. É preciso que nisso trabalhes ativamente, para estares pronto, pois mais próximo do que pensas vem o dia." (9)

Então, a missão de Allan Kardec de trazer à Humanidade a revelação espírita, entre vários fatores, tem relação direta com as suas aspirações e tendências, provando, portanto, que nossas experiências reencarnatórias são como tijolos na construção de um edifício.

Assim, como existiram (ou ainda existe?) os caçadores da arca perdida, semelhantemente, no meio espírita, encontramos os “caçadores de reencarnações de personalidades”. Esse fato em si, não é um grande problema, já que a reencarnação é um dos princípios basilares do Espiritismo, o que torna isso fora de propósito é quando não apresentam elementos de prova que possam ligar os todos os candidatos envolvidos pela semelhança de tendências de seus supostos personagens anteriores.

Isso demonstra, que, apesar de se apresentarem como profundos conhecedores da Doutrina Espírita, estão bem longe disso, pois apenas elaboram uma lista de personagens sem entretanto apresentar as tendências que possam ligá-los uns aos outros, obedecendo, obviamente, ao fato de que “A cada nova existência, o Espírito dá um passo adiante na estrada do progresso. […].” (10)


1) INFOWESTER, Memória RAM e ROM, disponível em: 

2 KARDEC, O Livro dos Espíritos, p. 136.

3 KARDEC, A Gênese, p. 44.

4 KARDEC, O Livro dos Espíritos, p. 203.

5 KARDEC, O Livro dos Espíritos, p. 206.

6 KARDEC, Revista Espírita 1858, p. 41.

7 KARDEC, Revista Espírita 1859, p. 70.

8 KARDEC, O Que é o Espiritismo, p. 115.

9 KARDEC, Obras Póstumas, p. 309.

10 KARDEC, O Livro dos Espíritos, p. 120


Paulo da Silva Neto Sobrinho
jul/2020.

Revisores:
Hugo Alvarenga Novaes
Rosana Netto Nunes Barroso.


Referências bibliográficas:

KARDEC, A. A Gênese. São Paulo: FEAL, 2018.

KARDEC, A. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB 2013.

KARDEC, A. O Que é o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

KARDEC, A. Revista Espírita 1858. Araras (SP): IDE, 2001.

KARDEC, A. Revista Espírita 1859. Araras (SP): IDE, 1993.