domingo, 18 de julho de 2021

Lançamento de "Os Pensamentos de Cáritas e as Reflexões de Maria", de Laurent de Faget


Anunciamos aos nossos confrades o mais novo livro disponibilizado na Sala de Leitura do Portal Luz Espírita: Os Pensamentos de Cáritas e as Reflexões de Maria, de Laurent de Faget.

Lançado em 1888, esta obra, assinada pelo grande publicista, poeta, médium e divulgador do Espiritismo, Laurent de Faget informa no prefácio se tratar de uma obra mediúnica, sob o ditado de dois Espíritos (Cáritas e Maria), que ele recebeu em algumas noites de inverno.

As mensagens são de cunho filosóficos, exaltando a revelação espírita, em conformidade com a codificação de Allan Kardec. Os temas são dos mais variados: progresso moral, religiões, vida no mundo espiritual, o homem na sociedade, etc.

Uma obra, pois, de instrução e inspiração para celebrarmos a vida, na Terra e no além.


Clique aqui e leia online ou baixe o PDF de Os Pensamentos de Cáritas e as Reflexões de Maria, de Laurent de Faget.

terça-feira, 6 de julho de 2021

"Kant ou Kardec? - Precisamos perder a referência?", por Carlos Luiz

Em sequência às suas reflexões a respeito do Movimento Espírita atual, nosso confrade espírita e sociólogo Carlos Luiz (Fortaleza, Ceará) oferece a todos o seguinte artigo, pelo qual faz um pequeno comparativo entre duas linhas de pensamento que ele considera substancialmente antagônicas (Kant e Kardec), deixando então a indagação capital a respeito de qual estrada os espíritas devem seguir a partir dessa bifurcação.

Para melhor contextualização destas reflexões, não deixe de conferir o artigo anterior de Carlos Luiz: "Um fato singular".


Kant ou Kardec?
Precisamos perder a referência?

por Carlos Luiz


Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo?
– "Vede Jesus."
Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra.
Se alguns dos que pretenderam instruir os homens na lei de Deus algumas vezes os desviavam para falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos demasiado terrenos e por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma com as que regem a vida do corpo. Muitos deles apresentaram como leis divinas o que era apenas leis humanas, instituídas para servir às paixões e dominar os homens.
O Livro dos Espíritos – questão 625 seguido de comentário de Kardec


As modas intelectualistas no movimento espírita prosseguem seu caminho infeliz. Como anunciou o Cristo na parábola do joio e o trigo, o inimigo atiraria joio em meio ao bom grão, as falsas teorias em meio às verdades. Por isso, a vigilância e a oração — principalmente em um tempo de intensa renovação — é dever de todo espírita sincero.

Algumas vezes, importamos ideias excêntricas de heresias antigas (como a ideia do corpo fluídico de Jesus, do Docetismo do século II depois de Cristo), outras vezes, querendo parecer mais intelectualizados, copiamos, sem nenhum senso crítico, ideias que aparecem no meio acadêmico, ainda que sejam antiespíritas. Esse é o caso que analisaremos.

A importação dos conceitos do filósofo alemão Immanuel Kant (1724- 1804) para o Espiritismo — como se fosse ele uma autoridade doutrinária, referência para a Doutrina espírita, e até superior a Allan Kardec (1804-1869) e ao Espírito Verdade — é destas loucuras que chocam a todos de bom senso, espíritas ou não. Busca-se corrigir Kardec com as ideias de Kant, esconde-se ou ignora-se que aquele filósofo iluminista desprezava a mediunidade, a moral cristã e o conceito espírita-cristão de Deus.

As diferenças e contradições entre a visão de mundo de Immanuel Kant e a espírita são tão numerosas que será necessário um trabalho longo para apresentá-las, o que faremos no futuro. Mas como diz a famosa frase atribuída a Winston Churchill (1874-1965): “Uma mentira dá meia volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de vestir as calças”, iniciamos nesse artigo o estudo de dois aspectos da filosofia e da moral kantiana: o primeiro são os frutos culturais da filosofia de Kant; o segundo aspecto é uma das inúmeras contradições entre o kantismo e o Espiritismo, a condenação e ridicularização da pesquisa mediúnica por Kant.


ASPECTO PRIMEIRO: OS FRUTOS DA FILOSOFIA KANTIANA

Como afirma o próprio, Augusto Comte (1798-1857), fundador do Positivismo (movimento intelectual e cultural inimigo do Espiritismo, desde a época de Allan Kardec), a filosofia positivista tem como um dos seus principais inspiradores o filósofo alemão Immanuel Kant.

O Positivismo combateu as ideias espíritas em várias frontes. Para a filosofia de Comte, a evolução da humanidade aconteceria em três fases, segundo a lei dos três estados, teríamos o estado teológico, o metafísico e o positivo. Os dois primeiros seriam a infância da humanidade, período de ignorância e superstição; o terceiro, a era da ciência materialista — este, naturalmente, para os positivistas, seria o mais avançado. A consequência é clara: o Espiritismo (como qualquer saber que considera importante a busca da causa primeira, bem como a finalidade da vida) não passa de mera superstição e inutilidade nociva.

Não por acaso, o mais renomado seguidor de Comte na França de Kardec, Emile Littré (1801-1881) — que entendia melhor do que os espíritas atuais a ligação entre Espiritismo e o Magnetismo — combateu a ambos de forma rude. O sr. Littré foi citado por duas vezes na Revista Espírita (janeiro de 1860 [1] e fevereiro de 1862 [2]) como opositor do Magnetismo e do Espiritismo. Littré promoveu, por exemplo, o trabalho do dr. Braid (1795-1860) que, para combater o magnetismo, criou o termo "hipnotismo" e negou a existência dos fluidos como uma forma de materializar essa área do saber humano, transformando-a em simples técnica de sugestão mental. Caso tivesse sido aceito pelos espíritas, isso destruiria toda a doutrina espírita, que afirma ser o universo composto por Deus, Espírito e matéria (composta e estruturada pelo fluido cósmico universal). Para Kardec — que combateu com todas as forças as ideais materialistas (positivistas ou marxistas) — os materialistas são os responsáveis pela desordem social, pelo enfraquecimento da moral e pelo aumento de casos de loucura e suicídio.

Como acontece frequentemente, aqueles que traem a Lei de adoração acabam na ridícula situação de adorar a si mesmo e a outros homens, e com o Positivismo não foi diferente. Formou-se a "religião positivista" que possui, inclusive, igrejas. O Positivismo, na estranha situação de uma "religião materialista", que defende uma "imortalidade subjetiva" é um dos importantes frutos culturais da filosofia de Kant, conforme reconhece seu fundador ao escrever para Friedrich Maximilian Müller, tradutor da obra de Kant para o francês, em 1824.

Li e reli com infinito prazer o pequeno tratado de Kant (Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbürgerlicher Absicht, 1784); é prodigioso para a época, e mesmo, se eu o tivesse conhecido seis ou sete anos antes, ter-me-ia poupado muitos problemas. Estou muito contente que você o tenha traduzido; ela pode contribuir muito efetivamente para preparar as mentes para uma filosofia positiva. (...) Para mim, até agora, depois desta leitura, não me encontro com outro valor que o de ter sistematizado e encerrado a concepção esboçada por Kant sem meu conhecimento, que devo acima de tudo à educação científica; e mesmo o passo mais positivo e distinto que dei depois dele, parece-me apenas ter descoberto a lei da passagem das ideias humanas pelos três estados, teológica, metafísica e científica, lei que me parece ser a base do trabalho que Kant aconselhou a ser executado. [3]

Infelizmente, a influência do filosofo alemão não cessou com o Positivismo. Foi ainda mais desastrosa e degradante nos séculos XX e XXI. O kantismo foi integrado ao marxismo pela Escola de Frankfurt, que desenvolveu seu potencial destrutivo, anticristão, ao extremo. Como explica o estudioso Roger Scruton em seu livro sobre a nova esquerda, “A teoria crítica de Horkheimer é, na verdade, a filosofia crítica de Kant, reapresentada como instrumento de crítica social e modelada pelas marteladas de Marx.” [4]

A título de exemplo, podemos citar a aplicação do conceito de autonomia moral kantiana — que é de essência relativista, como instrumento de destruição da família fundada em valores cristãos. Defende Max Horkheimer (1895-1973), um dos mais eminentes representantes da Escola de Frankfurt, em nome do hoje chamado “marxismo cultural” ou “novo marxismo”, que a liberação sexual radical é uma arma de luta contra a "moral masculina burguesa". Essa crítica significa uma defesa do acesso da criança à vida sexual dos pais, em nome de uma “educação libertadora”, além do desenvolvimento de uma relação sensual entre mãe e filho conforme citação abaixo extraído do ensaio Autoritarismo e Família:

"A monogamia na sociedade masculina burguesa pressupõe a desvalorização do prazer oriundo da mera sensualidade. Por isso, não só a vida sexual dos esposos é envolta em mistério perante as crianças, mas todo o carinho dispensado à mãe pelo filho tem de ser banido estritamente qualquer elemento sensual." (p. 230)

O que isso significa? Primeiro, o fato de a criança não ter acesso à vida sexual dos esposos cria um 'mistério' que afetará o desenvolvimento da criança. As consequências dessa falta de autonomia da criança de ter acesso ao ato sexual dos pais e de receber carícias sensuais da mãe são consideradas pelo autor Kantiano-marxista muito negativas, geradora de obscuridade e posturas conservadoras como ele explica no mesmo texto:

"A razão e o prazer nele são restringidos, e a inibida dedicação à mãe retoma na receptividade exaltada e sentimental a todos os símbolos de forças obscuras, materiais, conservadoras." (p.231)

Em outras palavras, há uma inibição da razão e da capacidade de sentir pelo fato de a criança não ter em assistido a vida sexual dos pais e recebido "elementos sensuais" da mãe. Como entender tais monstruosidades mentais? Não é difícil. Kant funda uma visão de mundo relativista, onde a percepção tem seu predomínio em relação à realidade; tudo são representações, opiniões; a verdade e a mentira se confundem... E Marx, como ele mesmo afirma, tem ódio da civilização cristã — e ainda mais ao Espiritismo. [5] Ao juntar estas duas visões de mundo, o relativismo e o ódio, elabora-se uma estratégia sutil e inteligente para destruir a atual civilização cristã, instalando em seu seio o caos e a desordem, frutos da extinção das hierarquias, dos valores, da verdadeira arte e da relação com Deus, tudo em nome de uma liberdade mentirosa, que é expressão de intenso ódio, destrutiva revolta e imensa ingratidão.

Podemos agir com complacência ante tais afirmativas?

Quando constatamos que o marxismo e kantismo são amplamente aceitos e divulgados em nosso movimento, temos reais motivos para graves preocupações. Principalmente quando o veneno — o sempre destrutivo fermento dos fariseus — é propagado sob um manto de respeitabilidade, decência e dignidade.

Não pensemos que estas questões estão longe de nosso país. Como exemplo, podemos citar, dentre outros, o filósofo e professor universitário Paulo Ghirardelli autor do livro Neopragmatismo, Escola de Frankfurt e marxismo (Rio de Janeiro: DPA, 2001) que publica um artigo intitulado "Pedofilia saudável e recomendável. Jesus era pedófilo", no qual afirma “Quando Jesus chamou as crianças, agiu como nós hoje com bebês, cães e ‘decotes’. Ficou feliz. Talvez até quisesse dar de mamar às crianças. Muitos pais (homens, sim!) dão de mamar às crianças, pois só a presença e o choro delas desenvolvem glândulas mamárias de adultos sensíveis próximos”. [6]

Esse será o resultado também no movimento espírita. A junção que já observamos entre marxismo e o kantismo promovidos por autores e editoras que se apresentam como espíritas e são aceitos por instituições e dirigentes como grandes intelectuais não dará resultados diferentes. Nesse momento de profunda e evidente decadência intelectual e moral que vivemos é imprescindível vigiar e orar, que significa não apoiar nem direta nem indiretamente essas ações e, como ensina Jesus, alertamo-nos uns aos outros, pois que o que há de mais degradante em termos de filosofia já está presente em nosso meio para corrigir o Cristo e Kardec.

Orar também é imprescindível, não sabemos os interesses destes indivíduos e instituições que promovem essas ideias, mas orar é atitude cristã, pedir por uma intervenção do Alto para que estes indivíduos e instituições desistam de lutar contra o Consolador ou que seus recursos de destruição sejam inutilizados para que parem de usar o nome do Espiritismo em suas empresas e empreendimentos.

Vejamos, agora que entendemos que consequências da adoção da filosofia de Kant e Marx em nosso movimento, como o aclamado filósofo alemão encarrava a mediunidade e os estudos sobre a vida espiritual.

Immanuel Kant (1724- 1804)


KANT, O ANTIESPÍRITA

Os pontos de oposição inconciliáveis entre a filosofia de Kant e o Espiritismo são tão significativos e numerosos que somos obrigados a selecionar um dentre muitos.

Kant em seu livro Sonhos de um visionário explicados por sonhos da metafísica [7] debate sobre as experiências espirituais de Emmanuel Swedenborg, que ele ridiculariza de forma tão intensa e grosseira que cria no mundo intelectual a rejeição à ideia de qualquer pesquisa sobre fenômenos mediúnicos.

Após tentar desmoralizar Swedenborg e suas experiências, Kant afirma que nada podemos saber da vida espiritual, que é impossível realizar qualquer pesquisa séria sobre o tema. As investigações experimentais sobre a vida espiritual devem ser deixadas aos tolos, aos loucos ou charlatães. Depois de uma longa sequência de zombarias e sarcasmos, dos quais mostramos alguns exemplos, classifica os médiuns como fantasistas.

"O reino das sombras é o paraíso dos fantasistas. Aqui eles encontram uma terra ilimitada, onde podem se estabelecer à vontade. Vapores hipocondríacos, contos de fadas e milagres de convento não deixam faltar material." (p.143, grifamos)

Defende o filósofo ser o Espírito nada mais do que uma ilusão grosseira, infantil.

"Um espírito, diz-se, é um ser que possui razão. (...) Esta autoilusão, apesar de ser suficientemente grosseira para ser percebida com olhos semicerrados, é afinal de origem bem compreensível. Porque daquilo que no início, como criança, sabe-se muito, disto se tem certeza, mais tarde e na velhice, nada saber, e o homem da solidez se torna, por fim, quando muito, o sofista de sua ilusão juvenil.

"Não sei, portanto, se existem espíritos, mais ainda, nem sequer sei o que significa a palavra espírito." (p. 145-146, grifamos)

Zomba, Kant, de toda possibilidade de comunicação espiritual.

"Por isso, de modo algum levo a mal se o leitor, em vez de tratar os visionários como meio-cidadãos do outro mundo, despachá-los simplesmente como candidatos ao hospício, dispensando-se assim de qualquer investigação ulterior. Mas, se tudo é então tomado dessa maneira, o tratamento desse tipo de adeptos do reino dos espíritos deve ser bastante diferente daquele dispensado conforme os conceitos acima, e, como se achava outrora necessário queimar alguns deles, agora será suficiente apenas purgá-los.

"Neste estado de coisas também não teria sido absolutamente necessário ir tão longe e procurar com a ajuda da metafísica segredos no cérebro febril de entusiastas enganados. O perspicaz Hudibras poderia ter-nos resolvido o enigma sozinho, pois, segundo sua opinião, quando um vento hipocondríaco se agita nas entranhas, tudo depende da direção que ele toma: se vai para baixo, então resulta daí um p..., mas, se vai para cima, então é uma aparição e uma inspiração sagrada." (p.184-185, grifamos)

Esse é o nível Kant. Após zombar e agredir, ensina: a realidade espiritual nunca poderá ser conhecida, a doutrina que lida com o mundo espiritual deve chamar-se de doutrina da "necessária ignorância":

"Mas com a doutrina filosófica acerca de seres espirituais a situação é bem outra. Ela pode ser completa, mas em sentido negativo, na medida em que ela fixa com segurança os limites de nossa compreensão e nos convence de que as diversas manifestações da vida na natureza e suas leis são tudo que nos é dado conhecer, mas que o princípio desta vida, isto é, a natureza espiritual, que não se conhece, mas apenas conjetura, nunca poderá ser pensado positivamente, (...) Nesta base, a pneumatologia dos homens pode ser chamada uma doutrina de sua necessária ignorância em vista de uma suposta espécie de seres e como tal ser facilmente apropriada à tarefa. Ponho agora de lado, como resolvido e concluído, todo esse assunto de espíritos, um vasto capítulo da metafísica: ele já não me interessará no futuro." (p.189, grifamos)

Para Kant, todo o esforço Espírita e semelhantes deve ser classificado como projetos inúteis e levianos:

"Na medida em que resumo melhor deste modo o plano de minha investigação e me dispenso de algumas investigações completamente inúteis, espero poder aplicar minha pequena capacidade de entendimento de forma mais vantajosa aos demais objetos. É em grande parte inútil querer estender a pequena medida de sua força a todo tipo de projetos levianos. Por isso, tanto neste como em outros casos, a prudência manda adequar o tamanho dos projetos às forças disponíveis, e, caso não se possa atingir corretamente o grandioso, limitar-se ao mediano." (p. 189-190, grifamos)

Em outros escritos, Kant chama Swedenborg de "caçador de fantasmas" e de um indivíduo "sem emprego e desocupado". [8] Classificação que, conforme vimos, cabe a todos os tolos que resolvem perder tempo com estudo de "vento hipocondríaco se agita nas entranhas". Allan Kardec pensa diferente.

Emanuel Swedenborg (1688-1772)

Afirma o Codificador na Revista Espírita de novembro de 1859:

"O incontestável mérito de Swedenborg, seu profundo saber e sua alta reputação de sabedoria, tiveram grande influência na propagação dessas ideias, que hoje mais e mais se popularizam, pois crescem em plena luz e, longe de buscar a sombra do mistério, apelam à razão. Apesar dos erros do seu sistema, Swedenborg não deixa de ser uma das grandes figuras cuja lembrança ficará ligada à História do Espiritismo, do qual foi um dos primeiros e mais zelosos pioneiros." [9]

Não por acaso, Allan Kardec nunca indicou aos espíritas nenhum livro escrito por Kant para estudo, mas indicou vários de Swedenborg, bem como uma biografia sobre a vida deste eminente pensador.

Em uma evocação que Kardec fez de Swedenborg, o início é dos mais interessantes e reveladores. Assim responde o Espírito Swedenborg ao ser evocado pelo Codificador:

— “Falai, meu velho amigo.
— Honrais-me com o título de vosso velho amigo e, no entanto, estamos longe de ser contemporâneos; não vos conheço senão pelos vossos escritos.
— “É verdade, mas eu vos conheço há muito tempo.” [10]

Immanuel Kant não apenas contribuiu poderosamente com o Positivismo e com o Marxismo cultural e suas lastimáveis consequências; mas também ridicularizou toda ideia de pesquisa sobre a realidade espiritual, além de tratar levianamente um dos homens mais culto e justo de seu século — que Kardec definiu como de profundo saber e alta reputação de sabedoria. Embora para certos espíritas O Livro dos Espíritos pareça ter valor apenas quando confirma suas opiniões, nós devemos continuar valorizando-o. No início deste livro, nos Prolegômenos, dez Espíritos assinam a obra, um deles é Emanuel Swedenborg.

Tudo isso nos leva a concluir esse artigo com uma pergunta desconcertante: é esse o filósofo que vai instituir a verdadeira moral espírita? Tem ele suficiente sabedoria e amor para nos guiar nesta e na outra vida em direção a Deus ou estamos desprezando o Pai e Seus enviados e nos apaixonando pelas trevas?

As autoproclamadas autoridades espíritas que tentam enfiar o punhal da traição do coração do Consolador, não conseguirão. Nenhum intelectual, nenhum palestrante ou nenhuma instituição poderá destruir a obra milenar do Espírita da Verdade. Todos passarão, todos perecerão sob peso da própria loucura. O Reino da Verdade será estabelecido em nosso tão sofrido mundo. O Cristo — como ensinam os Espíritos superiores — é a verdadeira fonte moral do mundo. Uma fonte pura — segundo Kardec.

Allan Kardec (1804-1869)

Perdoe-me a pergunta: você é discípulo de Kant ou de Kardec?

Carlos Luiz


Referências:

[1] Revista Espírita, Allan Kardec - coleção 1860: ver artigo 'O Magnetismo perante a Academia', do mês de janeiro - ebook: https://bit.ly/3hGnEPZ.

[2] Revista Espírita, Allan Kardec - coleção 1868: ver artigo 'O Espiritismo diante da História e da Igreja', do mês de janeiro - ebook: https://bit.ly/3jP2At6.

[3] Immanuel Kant’s Critique of Pure Reason. In Commemoration of the Centenary of its First Publication. Translated into English by F. Max Mueller (2nd revised ed.) (New York: Macmillan, 1922). - ebook: https://bit.ly/2TEGY8h, nota de rodapé, p. XLI.

[4]  Scruton, Roger Tolos, fraudes e militantes : pensadores da nova esquerda / Roger Scruton ; tradução Alessandra Bonrruquer. - 1ª ed. - Rio de Janeiro : Record, 2018.) - ebook à venda, p. 164.

[5] "Manuscrito de Karl Marx e o que ele pensava do Espiritismo" em Espiritismo em Movimento.

[6] Ver "Augusto Nunes rebate filósofo que disse que 'Jesus era pedófilo'" em Click NovaOlímpia.

[7] Kant, Immanuel. Sonhos de um visionário explicados por sonhos da metafísica. 1766.


[9] Revista Espírita, Allan Kardec - coleção 1859: artigo 'Swedenborg' do mês de novembro - ebook: https://bit.ly/3dMACdM.

[10] Revista Espírita, Allan Kardec - coleção 1859: artigo 'Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas' do mês de outubro - ebook: https://bit.ly/3dMACdM.
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segunda-feira, 5 de julho de 2021

Projeto Allan Kardec "O retorno da fé em Deus do Sr. H. Georges"


O Projeto Allan Kardec da Universidade Federal de Juiz de Fora (Minas Gerais) tem-nos oferecido uma oportunidade extraordinária de consultar e estudar documentos originais valiosíssimos acerca da História do Espiritismo (saiba mais aqui). Já resenhamos aqui alguns itens lá publicados, por exemplo, o manuscrito de Allan Kardec intitulado "Evocação" (Veja aqui) e agora trazemos a reprodução de uma correspondência remetida ao codificador espírita, enviada por um leitor da Revista Espírita, que, dentre outras coisas tratadas nesta carta, confessa que, embora ainda estivesse na condição de precisar mais convencimentos sobre a fenomenologia mediúnica corrente naqueles dias, agradecia a Kardec por tê-lo ajudado a recobrar a fé em Deus, fé essa outrora por ele negada.

Como ele próprio descreve, o Sr. H. Georges havia sido criado no catecismo católico, mas então perdera a crença na divindade; ele atribuiu seu desengano às "ideias absurdas" introduzidas na religião cristã à qual sua educação fora submetida. Médico de profissão, certamente foi bastante influenciado também pelas ideologias revolucionárias do meio científico, tradicionalmente materialista senão abertamente declarado em tese, muito em voga na prática.

Enfim, para mais uma alma aberta às luzes da sabedoria, O Livro dos Espíritos cumpriu sua missão mais sublime: semear na consciência os germes da espiritualização, tendo como fonte e referência capital para tudo e para todos Deus, sem o qual nada mais faz sentido.

Confira a seguir a reprodução da tradução da carta do Sr. H. Georges:

Labastide St. Georges, perto de Lavaur (Tarn), em 8 de abril de 1863.

]Enviado em 14 de abril.[

Senhor Georges.

Senhor Allan Kardec,

Minha inteligência sempre se recusou a aceitar uma ideia, qualquer princípio sobre o julgamento feito por outros, e é a essa independência de opinião que devo meu conhecimento do Espiritismo. No meio de um país retrógrado e fanático, eu tinha, em minhas muito raras viagens, ouvido falar, duas ou três vezes, de médiuns, mas jamais de Espiritismo, até que a Providência quis que um de meus amigos, mais bem favorecido do que eu e vindo em visita aos seus pais, me desse algumas informações vagas sobre essa nova ciência. Com esses dados, fui pesquisar, e foi somente em novembro passado que finalmente pude possuir e tomar conhecimento de O Livro dos Médiuns e o dos Espíritos. Neste último, não importa o que os detratores digam, estão, em minha opinião, os princípios da mais pura moralidade e as bases de uma lógica irresistível. Além disso, devo à leitura desta obra encantadora o meu retorno à Divindade, contra a qual me acuso de ter tantas vezes blasfemado, impulsionado pelas ideias absurdas introduzidas na religião cristã em que nasci.

Como vê, senhor, estou profundamente abalado, mas ainda não me sinto completamente convencido; eu ainda tenho algumas dúvidas, eu preciso ver. No isolamento, eu quis tentar me tornar um médium e minha mão não se mexeu, nenhuma ideia mesmo chegou a atravessar meu cérebro.

Não ousando confessar minha pesquisa sobre Espiritismo, não por medo do ridículo, mas por medo de prejudicar minha clientela, minha única fonte de recurso, despertando contra mim a influência de certas pessoas ligadas aos velhos erros mais pelo interesse do que por qualquer outro motivo, me encontro inteiramente entregue a mim mesmo neste novo estudo. Não vendo, para meu grande pesar, desenvolver-se em mim, pelo menos ainda, nenhum sinal de mediunidade, minha fé está vacilando e sinto a necessidade urgente de conhecer os fatos para poder interromper minhas convicções. É com esse objetivo, e apesar das despesas com minha assinatura deste ano da Revista Espírita, que ainda apelo à minha modesta bolsa para pedir que o senhor me envie os anos 1858, 59, 60 e 1861 desta mesma Revista.

Para não fazer uma despesa tão grande de uma vez, eu poderia ter, é verdade, tomado pouco a pouco, ano a ano, mas a impaciência só me fez preferir impor algumas privações a mim e, assim, poder me beneficiar do desconto oferecido às pessoas que adquirem os primeiros quatro anos de uma só vez. Apresento em minha carta uma ordem postal no valor de 30 francos — representando o preço a que são fixados os quatro anos que peço.

Por favor, senhor, receba minhas desculpas pelo tempo que eu o fiz perder em me ler, e na esperança de poder ser contado em breve entre seus seguidores mais fervorosos, tenho a honra de ser,

Senhor,

Seu servo muito humilde,

H. Georges, médico.

P.S.: Pelo que entendi, essas obras me serão enviadas pelo correio sem aumento de preços, caso contrário, ficaria muito grato se o senhor me informasse.

 

A fotocópia do manuscrito original e a transcrição em francês estão disponíveis no portal do Projeto Allan Kardec.

E não deixe de compartilhar com seus familiares e amigos. A divulgação da Doutrina Espírita é também um ato de caridade ao bem comum.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Calendário Histórico Espirita: 19° aniversário de desencarnação de Chico Xavier

Neste 30 de junho de 2021, mais uma vez, somos convidados a exaltar a biografia extraordinária de Francisco Cândido Xavier, o nosso inesquecível Chico Xavier, que há exatos 19 anos completava mais uma honrada missão para retornar ao plano espiritual, de onde poderia continuar colhendo os frutos de sua jornada triunfante, depois de uma vida inteira de exemplo de abnegação e dedicação à causa humanitária, especialmente contribuindo com a disseminação da Doutrina Espírita, que abraçou com amor, dela sendo um dos maiores expoentes em todos os tempos, inclusive pelo seu vocacionato mediúnico.

Receba, Chico, nosso reconhecimento, gratidão por tudo que fizeste por nós, votos de mais realizações e um abraço fraterno dos confrades da Luz Espírita.

A propósito, já estamos editando o verbete Chico Xavier para a Enciclopédia Espírita Online. Aguardem para apreciar este lançamento.


terça-feira, 29 de junho de 2021

Lampadário Espírita e a opinião de Herculano Pires sobre a relação entre Espiritismo e Religião


O já tradicional jornal Lampadário Espírita, dirigido pelo nosso confrade Dâmocles, (Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco) chega ao seu número 178, ano XVI, edição de julho deste 2021, com uma matéria muito interessante e por demais apropriada para a ocasião: "A opinião de Herculano Pires sobre o aspecto religioso do Espiritismo", articulada por Leonardo Marmo Moreira.

José Herculano Pires, como se sabe, foi um grande filósofo espírita — para muitos, o maior deles de sua geração — que primou pela assertividade (opiniões claras e firmes) e absoluta devoção à obra kardequiana (saiba mais sobre Herculano Pires na Enciclopédia Espírita Online).

Diante do tão acirrado debate sobre as relações entre Espiritismo e Religião, o referido artigo nos remete, portanto, ao perspicaz pensamento do filósofo Herculano, revelando-lhe a posição intrépida que bem pode ser sintetizada com esta citação: “Aqueles, portanto, que não compreendem a natureza tríplice do Espiritismo, ou tentam reduzi-la apenas a um dos seus aspectos, praticam uma violência contra a Doutrina”.

E a partir daí, temos o desenvolvimento das considerações do ilustre confrade e filósofo, amostradas no artigo de Leonardo, pelo que, convidamos todos a conferir a edição atual do Lampadário Espírita, que está disponível nesta página. Apenas para realçar o contexto, acrescentamos uma indagação proposta na matéria: "O Espiritismo sem Deus, sem Jesus, sem o Evangelho e sem a prece estaria em uma situação melhor?"

A propósito, em breve traremos uma matéria especial com o comparativo entre as proposta de um "Espiritismo cientificista e filosofista" (que reduz ou mesmo rechaça o aspecto religioso da nossa doutrina) e o que entendemos pelo verdadeiro Espiritismo codificado por Allan Kardec, o qual vemos, sim, sustentado pelo triângulo de forças formado pelos aspectos da Ciência, Filosofia e Religião.

domingo, 27 de junho de 2021

O Céu e o Inferno da FEAL e a prorrogação de uma campanha esdrúxula

Como já havia sido anunciado, a FEAL - Fundação Espírita André Luiz realizou esta semana e está promovendo com força o lançamento da pré-venda de uma publicação de sua editora: O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, que está sendo vendida com a ideia de "Primeira publicação brasileira da obra original", pois que se trata da tradução da primeira edição da obra lançada pelo codificador espírita, em 1 de agosto de 1865; lançamento este, com efeito, que é a continuação de uma campanha absurda amarrada à tese de uma conspiração contra as obras de Kardec arquitetada por Pierre-Gaëtan Leymarie, iniciada com a acusação requentada de adulteração do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo; na verdade, mais do que uma continuação, trata-se de uma prorrogação insensata de tal tese, dado que todas as evidências — muito fartas, por sinal — contrariam essa ideia, ora estendida com a sugestão de que também O Céu e o Inferno foi adulterada.

Saiba mais sobre a tese de adulterações pelo nosso artigo Céu, inferno e autonomia em pauta em novo livro da FEAL e o nosso contraponto.

A propaganda da nova obra da FEAL destaca que ela vem enriquecida com "apresentação, contextualização histórica e 230 notas explicativas". Na página de divulgação desta publicação no site da Mundo Maior Editora (https://editoramundomaior.com.br/livros/o-ceu-e-o-inferno, consultado neste 27) de junho) lê-se:

"Nesta edição de O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo você encontra o resgate dos estudos e as conclusões finais sobre a teoria moral espírita original de Allan Kardec..."

E acrescenta:

"Documentos oficiais guardados nos Arquivos Nacionais e na Biblioteca Nacional da França comprovam que a quarta edição da obra, publicada após o falecimento de Allan Kardec, não é fiel ao conteúdo depositado legalmente pelo autor, contrariando assim o direito autoral aceito internacionalmente. O mesmo havia ocorrido com o livro A Gênese, cuja quinta edição foi publicada mais de três anos após o falecimento do autor."

Ora, como já é bem sabido, essa tese de adulteração está substancialmente refutada. O "tiro de misericórdia" pode ser representado pelo episódio em que Henri Sausse (o personagem que originariamente deu vida a essa tese) "faz as pazes com a nova edição de A Gênese". Ver O caso A Gênese.

A FEAL, contudo, prorroga essa peleja, sustentando  a tiracolo  uma errônea interpretação da liberdade espiritual praticamente absoluta, sob a bonita roupagem de "autonomia", idealizada pelo filósofo Kant, numa espécie de "emancipação total", inclusive da vontade divina; é então "a vontade do homem como medida de todas as coisas", enquanto temos a Doutrina Espírita codificada por Kardec completamente alicerçada sobre o elemento Deus e vinculada aos valores cristãos, cujo mandamento primeiro é a nossa subordinação á divindade ("Amar a Deus sobre todas as coisas...") e o segundo — que complementa o primeiro — de estar fraternalmente ligado aos semelhantes, que Kardec interpreta como a essência mesmo da religião; essa tese de autonomia, portanto, não é mais do que a sujeição às ideias mais próximas da subversão, do anarquismo e da campanha antirreligião (toda e qualquer manifestação religiosa) promovida pelo ateísmo e, principalmente, pelos materialistas — aqueles que o Mestre espírita definiu como os verdadeiros inimigos do Espiritismo.

Recusamo-nos a crer que os idealizadores desta esdrúxula campanha — que esta nova obra vem engrossar — estejam motivados diretamente a fomentar ideias materialistas, mas, ainda que inconscientemente, o resultado se encaminha para tal, o efeito é o mesmo. Daí, é de se perguntar quais os verdadeiros interesses deste lançamento? Não basta a FEAL dizer que a responsabilidade pelo conteúdo de um livro publicado sob o selo de sua editora seja expressamente dos autores; ela, FEAL, tem de assumir a sua responsabilidade, inclusive porque ela é o carro-chefe da divulgação e a instituição que lucra com tais obras. Em sendo uma instituição dita espírita, deve primar por direcionar-se conforme a coerência doutrinária que ela prega.

Seria muito aceitável que ela lançasse uma edição especial da primeira edição de O Céu e o Inferno, bem como de qualquer das obras de Kardec, a fim de que o leitor pudesse fazer um estudo comparativo da evolução da obra; o que ela está fazendo, por sua vez, é negar a continuação do trabalho de Kardec, rejeitando a atualização feita por ele. Isto sim é adulterar uma obra.

Por fim, queremos trazer aqui que a equipe do site Obras de Kardec tem trabalhado na publicação de obras comparativas da codificação espírita, dispondo lado a lado das páginas o conteúdo da primeira edição e o da edição com a última revisão kardequiana, facilitando assim o estudo e a pesquisa dos interessados em conhecer a evolução do pensamento do autor com relação ao texto trabalhado. E dentre essas obras, inclui-se O Céu e o Inferno (veja aqui); o seu volume I (com os textos originais em francês) já está à disposição para download, e o volume II, com as versões traduzidas, está sendo finalizada e em breve ficará ao alcance de todos — gratuitamente, diga-se.

Já a edição final do livro O Céu e o Inferno, traduzida por Louis Neilmoris, numa linguagem simplificada, pode ser obtiva também sem nenhum custo na Sala de Leitura do Portal Luz Espírita, disponível em PDF e EPUB.

Baixar gratuitamente O Céu e o Inferno de Allan Kardec.

O site da Federação Espírita Brasileira também oferece o download gratuito desta obra, conforme este link.

Nota: tentamos contato com a FEAL sobre a responsabilidade doutrinárias das publicações de sua editora, mas não obtivemos resposta.


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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Pesquisa espírita: "Henri Sausse fez as pazes com a 5ª edição de A Gênese"

Mais um extraordinário trabalho colaborativo dos pesquisadores espíritas para "o caso a Gênese": um achado histórico que mostra Henri Sausse reconhecendo a autenticidade da edição revisada e aumentada do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, edição essa que outrora o mesmo Henri Sausse havia colocado em questão e então desencadeado uma série de teorias centralizadas numa hipótese de adulteração, e cujo mentor teria sido Pierre-Gaëtan Leymarie. As evidências que desmentem todas essas teorias já eram abundantes, no entanto, estão sendo enriquecidas por novos registros, tais como esta que foi compartilhada ao mesmo tempo pelas fanpages CSI do Espiritismo e AllanKardec.Online, no Facebook, e, o site Obras de Kardec, que ora reproduzimos aqui.

Para uma melhor contextualização, ver antes a página especial de pesquisa O caso a Gênese.


Henri Sausse fez as pazes com a 5ª edição de A Gênese

"Mas vamos continuar nossas pesquisas e abrir a Gênese, a última obra publicada, revista e corrigida por Allan Kardec; ela deve nos dar o último pensamento do mestre sobre o assunto da alma humana."

Encontramos esta afirmação no relatório Em busca das origens da alma humana escrito por Henri Sausse e apresentado no Congresso Espírita Internacional, em 1925 (Figura 1, Figura 2a e Figura 2b) [1, pp. 196-204 na versão em Francês (pp. 203-211 do pdf) e pp. 192-200 na versão em Inglês (pp. 483-491 do pdf)] .

Figura 1


Figura 2a


Figura 2b

Neste relatório, Sausse investiga se a alma humana passa ou não pela do animal, consultando todos os trechos das obras de Kardec que tocam no assunto: a Revista Espírita, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O que é o Espiritismo, O Espiritismo em sua expressão mais simples, A Gênese e Obras póstumas

Em A Gênese, ele selecionou como referência e transcreveu os seguintes trechos da 7ª edição (idêntica à 5ª edição) - conforme ele mesmo informa no artigo - todos do Capítulo XI - 'Gênese Espiritual': Item 14 (p. 230), Item 15 (p. 231), Item 16 (p. 232), Item 23 (p. 236) e Item 29 (p. 240).

E concluiu:

"Em sua última obra, A Gênese, Allan Kardec apenas confirmou e acentuou a visão da Doutrina sobre o tema da origem dos Espíritos: Questão ainda insolúvel."

Há diferença nos itens citados entre as edições?

Como podemos observar no comparativo entre as edições [2], os itens 14, 15 e 16 do Capítulo XI são idênticos, o item 23 possui uma alteração pontual e o item 29 foi praticamente reescrito (Figura 3 e Figura 4).

Figura 3


Figura 4

Porque essa afirmação de Henri Sausse é relevante?

Sendo o autor da denúncia de que a 5ª edição de A Gênese teria sido alterada por terceiros, Sausse afirmou, em 1884, que todas as partes do livro haviam sido submetidas a mutilações mais ou menos graves. 

Essa denúncia levou a uma réplica de Leymarie (administrador da Sociedade Anônima), Rousset (galvanista que fez as matrizes da edição), Rouge (tipógrafo de todas as edições de A Gênese) e Desliens (secretário de Kardec) e a uma tréplica de Sausse, que fundamentou suas suspeitas em função de um lionês, amigo de Pierre-Gaëtan Leymarie, que confidenciou que este "foi obrigado a fazer correções" em A Gênese. A partir de então, houve um silêncio sobre o assunto.

Assim, ao dizer, em 1925, que A Gênese foi "revista e corrigida por Allan Kardec", Sausse reconhece a legítima autoria do mestre e, portanto, volta atrás em sua denúncia.

Sausse já havia usado a 5ª edição como referência do pensamento de Kardec em outro artigo da Revue Spirite de 1914 (A Doutrina Espírita - Os ensinamentos de Allan Kardec), no qual constam citações ao texto completo do Capítulo XI - 'Gênese Espiritual' e do Capítulo XIV - 'Os Fluidos', ambos com diversas alterações entre as edições [3].


Sobre o Congresso Espírita

O Congresso Espírita Internacional ocorreu em Paris, em setembro de 1925. O trabalho de Sausse fez parte dos relatórios da segunda comissão, cujo tema era "Doutrina - Teoria". Dentre os participantes do evento, destacamos Gabriel Delanne, presidente do Congresso, e Léon Denis, representante da Federação Espírita Brasileira (na delegação do Brasil) e presidente da segunda comissão.

O relatório, publicado por Éditions Jean Meyer, em 1927, é em si um achado (Figura 5), por descrever o evento (programação, participantes, discursos, palestras,…) e nos dar a oportunidade de conhecer o pensamento dos espíritas daquela época (Figura 6).

Figura 5

Figura 6

Conclusão

Está claro que Henri Sausse reconheceu que a revisão no texto foi feita por Kardec (como afirmou em seu artigo) e, mesmo não assumindo explicitamente em outras ocasiões, mudou de ideia quanto à acusação de adulteração da 5ª edição de A Gênese por Leymarie.

Gabriel Delanne também já havia reconhecido a autoria da 5ª edição como sendo de Kardec, em um artigo, ao afirmar que anos depois o pensamento do codificador e suas obras continuavam atuais, e transcrever um trecho alterado do capítulo XVIII como exemplo desse pensamento, e ao validar, em outro artigo, a teoria da fotografia do pensamento, proposta por Kardec na 5ª edição [4].

De fato, sua denúncia não teve maiores repercussões à época, já que outros personagens relevantes continuaram adotando a 5ª edição em seus escritos e o assunto foi deixado de lado, sem qualquer menção posterior no Le Spiritisme nem em outros periódicos.

Constatamos assim que a dúvida sobre a autoria da 5ª edição, levantada no final do século XIX por Sausse, já não existia mais na França no início do século XX. Trazemos os acontecimentos posteriores à denúncia para que o movimento espírita do século XXI possa tomar conhecimento deles e tirar suas próprias conclusões.

Recomendamos, como complemento à leitura, os posts anteriores em que tratamos sobre este tema, contendo os detalhes sobre a denúncia, réplicas e tréplica, e o uso da 5ª edição por diversos continuadores do Espiritismo:

28/11/2020:
https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/200740638206494

04/12/2020:
https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/204959941117897

07/12/2020:
https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/854430815320702

08/12/2020:
https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/207683604178864

25/04/2021:
https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/293941372219753

16/05/2021:
https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/306781274269096

Esta pesquisa foi uma realização conjunta pelo museu AKOL - AllanKardec.online, o CSI do Espiritismo e www.ObrasdeKardec.com.br.

Agradecimentos ao portal Autores Espíritas Clássicos pela disponibilização do relatório do Congresso Espírita em pdf.

Referências:

[1] http://www.autoresespiritasclassicos.com - Download em:

https://drive.google.com/.../1-Te582Oiw2bJDIyEoob2r.../view

[2] https://leanpub.com/asedicoesdeagenese-volumeII

[3] https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/306781274269096

[4] https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/200740638206494


Para saber mais, ver antes a página especial de pesquisa O caso a Gênese.


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