segunda-feira, 29 de março de 2021

Necrólogo: Manolo Quesada (1952-2021)

Este final de semana, fomos surpreendidos pela notícia do falecimento de um grande trabalhador espírita de nosso tempo, Manolo Quesada, professor de História por profissão, palestrante espírita e simpatia para com todos.

Manolo nasceu em 5 de Março de 1952 em Las Palmas de Gran Canária, município espanhol localizado a nordeste das ilhas Canárias. Casado há 44 anos com Marli Quesada e pai de 6 filhos: Pablo, Amanda, Mila, Gabriel, Gabriela e Bruna.

Trabalhador da Seara Bendita – Instituição Espírita, no bairro do Campo Belo e da Associação Espírita Mensageiros de Luz, no bairro de Jardim Castelo, ambos na cidade de São Paulo. Comunicador da Rede Boa Nova de Rádio e da TV Mundo Maior com o programa “Se liga, Manolo”. Atua como palestrante divulgando a Doutrina Espírita. Autor dos livros: “Conta Mais, Vô!”; “Evoluir é Simples, Nós é Que Complicamos”; “Família: Somos Todos Espíritos”; “Ser ou Ter, Eis a Questão”, “Poderes da Alma” e “Caminhos da Felicidade”.

Ele faleceu na última sexta-feira, (26 de março).

Que nosso Mestre te receba com muita luz e conforte todos os familiares e amigos.

Mas, para bem relembrarmos deste nosso confrade, uma opção é o videodocumentário produzido pela Luz Espírita Final dos Tempos Evolução Espiritual em tempos de Transição Planetária, em que Quesada esbanja seus conhecimentos doutrinários e seu particular carisma de comunicador nato que é.


Bom, se perdermos aqui a companhia física deste confrade, ganhamos, por outro lado, um amigo espiritual, pois estamos certos de que de lá do plano espiritual, Manolo Quesada continuará semeando as luzes do Espiritismo.

Até mais ver, amigo Manolo Quesada!

quarta-feira, 17 de março de 2021

Poema "Brasil do Bem" e algumas reflexões...

Recebemos a transcrição de uma mensagem e aqui compartilhamos, para o ensejo de algumas reflexões que em seguida propomos:


BRASIL DO BEM

Defende, ó Pátria minha, a liberdade
Como o mais preciso de teus bens,
Que jamais te corrompas nos vinténs,
Em que Judas vendeu a integridade...

Como voz altiva, fala à Humanidade
De teu dever com os ideais que tens,
E nos quais inda agora te manténs,
Sendo fiel ao Bem e à Verdade...

Desfralda o teu pendão verde-amarelo
Que ao céu tremula cada vez mais belo,
De estrelas cravejado em profusão...

Reine os filhos teus num só abraço
De concórdia e de paz sem embaraço,
Mostrando que és do mundo o coração!...

Pedro de Alcântara
pelo médium Carlos Baccelli
Lar Espírita Pedro e Paulo,
15 de março de 2021, Uberaba - MG

     

Quem acompanha o movimento espírita de perto tem visto o quanto o trabalho mediúnico tem sido afetado em nossos dias por uma certa desconfiança generalizada quanto à autenticidade das mensagens que os médiuns (ou, pelo menos, os alegados médiuns) têm divulgado. E é bem séria essa crise, porque acaba por respingar na confiança até na Mediunidade — na mente daqueles em que a Doutrina Espírita não está muito bem sedimentada. Além do mais, não é de se ignorar que este mesmo movimento espírita esteja tão carregado de seitas, ideologias e, daí, preconceitos; disso decorre muitos médiuns serem quase que idolatrados e suas mensagens aceitas religiosamente, ao passo que outros sejam sumariamente condenados e suas contribuições mediúnicas desprezadas sem dó.

Fora dessas pequenices, aproveitamos o recebimento da mensagem aqui reproduzida  deixando de lado os nomes envolvidos (o médium e o Espírito comunicante) — para tecer alguns comentários.

Acima de tudo, é uma peça bem redigida, um soneto bem trabalhado, com métrica e rima perfeitas, além de substancial conteúdo, focado num tema concreto e, nela, uma ideia bem desenvolvida, com auspícios positivos; o vernáculo não é dos mais rebuscados, porém não tira o brilho do poema. Enfim, pode-se dizer poeta quem de sua autoria, que, só para referência histórica: o nome citado sugere o de Dom Pedro II (1831-1889), o último monarca do Brasil.

A perscrutação principal que desejamos propor a todos diz respeito a esse mote de um Brasil, ainda "coração do mundo": não duvidamos da ideia de a espiritualidade trabalhar com o plano de, a partir do nosso celeiro tupiniquim, formar uma base para a nova Era na Terra, adentrando aí na fase de "Regeneração"; para sermos bem francos, cremos serem autênticos os anúncios feitos nesse sentido, no século passado, depois da derrocada do movimento espírita original (na França e Europa do século XIX), quando então grandes missionários vieram renascer no Brasil para fazer ressurgir o Espiritismo; nossa dúvida é — e o que nos perturba mesmo — se esse movimento espírita brasileiro deu, ou está dando conta de tal encargo, e se os mentores espirituais que dirigem nosso orbe ainda conta esse apelo — um tanto quanto ufanista, aliás —, pois, se a Grécia não deu conta de sustentar a Filosofia, se Roma não deu conta de semear o verdadeiro Cristianismo, se o movimento espírita francês não deu conta de sustentar o Espiritismo de Kardec, então essa "Pátria do Evangelho" também está suscetível de falir em sua missão regeneradora. Nestes tempos de pandemia, por exemplo, cujo quadro nacional é talvez o mais grave do mundo, podemos dizer que, num todo, nosso povo está se regenerando a contento diante da crise corrente? Estamos a caminho de, em curto prazo, "reinarmos num só abraço, de concórdia e paz"? — Temos nossas dúvidas!

De qualquer forma, é uma mensagem inspiradora e saturada de valores nobres, tais como Liberdade, Bem e Verdade — valores esses, em absoluta concordância com os princípios espíritas.

Deixamos em aberto as análises.


sábado, 13 de março de 2021

Lançamento na Sala de Leitura: "O AUTO DE FÉ DE BARCELONA", de Florentino Barrera


Mais uma preciosidade da literatura espírita internacional chegou para incorporar-se na nossa Sala de Leitura: é o livro O Auto de Fé de Barcelona, de Florentino Barrera.

Confira a sinopse:

O AUTO DE FÉ DE BARCELONA
Florentino Barrera

Um minucioso apanhado sobre um dos episódios mais importantes da História do Espiritismo e, ao mesmo tempo, um atentado contra a liberdade humana e contra o direito de instrução e iluminação espiritual: o evento em que o bispo católico (na cidade espanhola Barcelona) intercepta, confisca e manda queimar em praça pública uma pilha de obras espíritas, dentre as quais obras básicas da Codificação do Espiritismo, que Allan Kardec enviara para ser distribuído em terras espanholas, aos cuidados do livreiro e amigo Maurice Lachâtre.

Florentino Barrera pesquisou várias fontes, colheu diversas informações e as reuniu neste trabalho memorável e de referência para a nossa historiografia.

O livro foi traduzido do espanhol por Teresa de Espanha e editado conjuntamente pela equipe Autores Espíritas Clássicos e Luz Espírita.

Baixe agora mesmo o PDF deste clássico O Auto de Fé de Barcelona.


sexta-feira, 5 de março de 2021

Artigo "A Lógica Inquisitorial", por Carlos Luiz


Em continuidade à série de artigos especialmente tratando do caso A Gênese e a campanha que se tem feito para deslegitimar a edição revisada, corrigida e aumentada de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (a partir da 5ª edição), colocando no seu bojo também a 4ª edição, revisada, de O Céu e o Inferno, ambas obras de Allan Kardec, o pesquisador e confrade espírita Carlos Luiz, de Fortaleza - Ceará, nos remete nesta oportunidade suas análises principalmente acerca das responsabilidades daqueles que ora promovem tal campanha, pondo em paralelo dois outros episódios históricos: a condenação de Joana d'Arc pela Inquisição católica do século XV e a história de adulteração do livro O Evangelho segundo o Espiritismo em São Paulo nos 1970, contra a qual se levantaram nobres vozes, como as de José Herculano Pires e Chico Xavier.

Segue o artigo, para a reflexão de todos:



A Lógica Inquisitorial

Jesus disse-lhe: observai e estai atentos ao fermento dos fariseus e dos saduceus.
Mateus 16:6 [1]


A primeira tentativa recente de desfiguração da obra de Allan Kardec não obteve êxito como relatamos em nosso artigo anterior (ver: "O movimento espírita repete a história do movimento cristão?"). Herculano Pires e Francisco Cândido Xavier uniram-se e, após imensa batalha, conseguiram mobilizar as pessoas sensatas do movimento espírita para impedirem a continuidade da obra de deturpação. Venceram, mas, sabemos, vencer uma batalha não é vencer a guerra.

Jesus, ao alertar sobre o fermento dos fariseus e dos saduceus — os inquisidores de sua época que se julgavam com autoridade de corrigir e condenar o Cristo — [2], ensina-nos a ficarmos atentos: o fermento farisaico, sendo misturado à massa, torna-se invisível, cresce ocultamente sem que nada denuncie sua presença. Quando cresce, tudo envolve, tudo deforma, tudo estraga. Se entendermos a imagem ensinada pelo Cristo, fácil será compreender o processo que vivemos atualmente; tudo aconteceu de forma sutil.


A continuação do trabalho de adulteração

Coincidentemente, a FEAL - Fundação Espírita André Luiz e a USE - União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, citadas no livro A Hora do Testemunho, como instituições vinculadas à adulteração de O Evangelho Segundo o Espiritismo — a primeira por ação, a segunda por inércia , têm papéis decisivos na continuação da adulteração das obras do Codificador.

Tudo foi retomado a partir de 2017 com as acusações contra a 5ª edição de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo: foi dito que esta era adulterada.

Desta vez, coube à USE o primeiro passo: ela lança o livro O Legado de Allan Kardec, de Simoni Goidanich Privato, com grande alarde, no qual se questiona a validade do último livro publicado por Kardec. Tudo, aparentemente, feito em nome da "legalidade", da "formalidade da lei" e do "respeito ao Espiritismo". Sequer são mencionadas as graves consequências da acusação. Parecem não entender que quando um crime de tal gravidade é cometido  como eles denunciavam euforicamente , todos os envolvidos são responsáveis, seja por ação ou omissão. Afinal, como se poderia adulterar a obra da Codificação do Espiritismo, publicada sob a responsabilidade espiritual, moral e legal de Amélie-Gabrielle Boudet, sem que ela estivesse envolvida? Poderíamos supor que a Viúva Kardec simplesmente não tinha nenhuma relação com uma adulteração que teria deturpado a doutrina?

Em lógica incompreensível, na obra lançada pela USE, elogia-se os continuadores de Kardec  os mesmos que seriam culturalmente e espiritualmente responsáveis pela suposta adulteração! É um raciocínio curioso: anuncia-se um crime gravíssimo (com provas tão frágeis que não resistiram a poucos anos de pesquisa) ignorando que um crime de tal envergadura, por consequência inevitável, teria que comprometer todos os envolvidos.

As pessoas sensatas da atualidade e as futuras gerações hão de perguntar como e por que Amélie Boudet (esposa e companheira intelectual de Kardec), Berth Fropo, Alexandre Delanne, Gabriel Delanne, Camille Flammarion e Léon Denis aceitaram assistir à deturpação da obra do seu Mestre — sem que nada fizessem. Essa pergunta não é apresentada; tudo é muito discreto, respeitoso, elogioso...

Não nos espanta que posteriormente a FEAL lance um livro  autointitulado como continuação daquele O Legado de Allan Kardec da USE  que nega o valor real de moral espírita-cristã. Claro, as afirmações são sempre sutis, o livro propõe nos revelar a “verdadeira moral espírita” que, naturalmente, apenas os autores e a instituição conhecem!

As instituições espíritas, socialmente poderosas, com vasta rede de comunicação, mais uma vez dão-se o direito de depreciar a obra de Kardec. Fizeram em 1974, sob o pretexto de aproximar O Evangelho Segundo o Espiritismo do povo; felizmente, foram combatidas e vencidas. Em 2017, agora sob o pretexto de suposta investigação científica, condenaram a última obra de Kardec e desmoralizaram todos os seus continuadores mais próximos. Isso deveria ser considerado seriamente.

A união USE-FEAL  até onde sabemos, informal  lançou um modelo de pesquisa imprudente e desqualificado, mas com capacidade, já comprovada, de destruir toda a obra de Kardec, bem como, a honra do codificador e de seus mais respeitados continuadores; obviamente, sempre em nome do respeito e da verdade. Entristece-nos a ausência de intelectuais independentes que disponham de coragem para afirmar em alto e bom som: foi retomada a obra de destruição de Kardec, ela avança e é mais poderosa do que nunca.

Infelizmente, prefere-se o silêncio dos rabinos no Templo, quando as trinta moedas de Judas tilintavam aos seus pés, conforme expressão de Herculano Pires. Silêncio interesseiro de fama e fortuna. Todos querem ser bem-avaliados pela opinião do mundo.

"Vida que segue" é a expressão atual; mas como estaremos quando estivermos em um caminho sem a companhia do Consolador? A moral austera e amorosa do Cristo não nos fará falta? Ousadamente, agimos como se a Luz do mundo fosse dispensável. Chegamos ao ponto de agredir o próprio codificador e negar  mais uma vez  a moral cristã.


De como se chegou a acusar Kardec (Parte 1)

Apesar de o livro O Legado de Allan Kardec apresentar erros históricos e metodológicos grosseiros, que foram fartamente esclarecidos pelos poucos pesquisadores criteriosos e independentes, não houve retratação. A postura desrespeitosa da USE em relação à mais elementar verdade histórica e à Codificação abriu o espaço para absurdos ataques contra a obra kardecista; essa responsabilidade cultural e espiritual terá de ser resgatada! Herculano Pires, no evento anteriormente citado, indicava a renúncia da diretoria das instituições que se mostraram inaptas em defender Kardec. Não sabemos se isso seria suficiente no caso atual. Precisaremos questionar a razão de ser destas instituições, que mais uma vez cometem grave erro sem mostrar nenhum sinal de arrependimento.

Antes de apresentarmos as contundentes evidências históricas que deveriam ter feito recuar os acusadores (e por muitas vezes fizemos orações para que isso tivesse acontecido) precisaremos de pequena reflexão histórica para entendermos a lógica inquisitorial, pois, sem essa compreensão, nunca entenderemos o que estamos vendo: instituições espíritas que chegam ao extremo de condenar Allan Kardec.


O caso Joana d’Arc ou de como funciona a lógica inquisitorial

Joana d´Arc, em 30 de maio de 1431, foi conduzida ao mercado da cidade francesa de Rouen para ser queimada como herética. Era o término de um dos processos que melhor documentou a sórdida ação das mentes inquisitoriais: presa em calabouço, acorrentada, agredida fisicamente e muito debilitada; a jovem de 19 anos, interrogada e acusada por pérfidos inquisidores (que usavam toda sua habilidade para fazer com que se contradissesse) teve sua sentença: a Morte.


A investigação

Após rigorosa investigação, Nicolas Bailly (responsável por coletar os testemunhos relativos à conduta da Donzela de Domrémy) afirma que nada foi achado contra Joana; disse mesmo que ele a considerava tão inocente quanto a sua própria irmã. Por reconhecer a verdade, Bailly foi acusado de traidor pelo condutor geral da acusação, o bispo Pierre Cauchon  que se recusou, inclusive, pagar o valor acertado pela investigação.


As acusações contra Joana d´Arc

1) Veementemente suspeita de heresia

Na falta de provas, iniciou-se os interrogatórios com a justificativa de Joana d´Arc ser “veementemente suspeita de heresia". O julgamento foi realizado por meio de questões estúpidas e ridículas. Porém, ao que parece, ainda precisamos lidar com elas. Vamos revê-las, de forma sintética. Utilizaremos como fonte principal o livro de Léon Denis [3]  digno continuador de Kardec e que tinha Joana d’Arc como guia espiritual.

2) Complexas suposições, armadilhas (quase) intransponíveis

Joana, por exemplo, foi perguntada se ela estava nas Graças de Deus. Uma armadilha formidável, pois se afirmasse que sim, estaria cometendo heresia, dado que apenas a Igreja teria o poder para afirmar isso; se dissesse que não, seria uma confissão da culpa, dado que estava sendo julgada por heresia.

O que ela respondeu?

"Se não estou, que Deus me ponha lá; e se estou, que Deus assim me guarde. Eu deveria ser a criatura mais triste do mundo se eu soubesse que não estava em Sua graça." [4]

3) Detalhes insignificantes para não ver a verdade

Sobre as vozes, a qualidade e a seriedade das questões não eram melhores, vejamos um trecho do interrogatório:

— Sabes  perguntam-lhe  se santa Catarina e santa Margarida odeiam os ingleses?
 Elas amam o que Deus ama e abominam o que a Deus aborrece.
E o juiz fica desnorteado. Um outro interroga:
— Santa Margarida fala o inglês?
 Como poderia ela falar o inglês, se não é do partido dos ingleses?
 São Miguel estava nu?
 Pensais que Deus não tem com que vesti-lo?
— Tinha cabelos?
 Porque lhe haviam de ser cortados os cabelos? [5]

4) Honestidade suprema em relação ao legalismo formalista

Os inquisidores, naturalmente, escandalizaram-se por ela ter cometido o pecado terrível de ter partido em missão sem a permissão paterna, afinal, a legalidade de suas ações precisava estar resguardada pela aprovação formal de seus pais.

Perguntam os inquisidores.

 Quando deixaste pai e mãe, não consideraste estar cometendo um pecado?
 Pois que Deus ordenava, era preciso fazer! Mesmo que eu tivesse cem pais e cem mães e que fosse filha de rei, ainda assim teria partido! [6]

Observemos essa resposta: ela nos dará a chave de compreensão do ataque atual a Kardec.

5) Aparência é essencial, a essência descartável

Outro aspecto central que provaria a heresia da jovem de Domrémy: ela usava roupas de soldado! Foi ignorado que não existiam roupas femininas para usar em batalha, tranquilamente ela disse que cumpria a orientação das vozes e se as usava era por saber que isso era agradável a Deus.

Um “detalhe” revelador: posteriormente, uma testemunha esclareceu que ela tinha sofrido várias tentativas de estupro e tinha avisado a seus julgadores, inclusive, ao bispo Pierre Cauchon. [7]

Assim funciona a mente inquisitorial: os danos reais, as violências destruidoras e a honra verdadeira pouco valem. O que importa é a imposição de pontos de vista e interesses, sempre sob a mais elevada aparência de elevação e legalidade.


De como se chegou a acusar Kardec (Parte 2)

Entendendo a lógica inquisitorial, estamos preparados para entender os ataques que agora atingem Kardec.

Inicialmente acusou-se levianamente Pierre-Gaëtan Leymarie de ter adulterado A Gênese (Ver nosso artigo anterior: "Se os fatos importassem"), apesar do testemunho de três homens honrados, inclusive, do senhor Desliens, secretário de Kardec de 1866 a 1869, testemunha de seu óbito, médium atuante na Sociedade Parisiense de Estudo Espírita, que recebeu dezenas de mensagens publicadas na Revista Espírita, dentre as quais, comunicações assinadas por São Luís, Rossini, Quinemant, Dr. Demeure e do Dr. Vignal. [8]

Afirmou o senhor Desliens, ante as falsas acusações de Henri Sausse, que Allan Kardec introduziu modificações nessa nova edição, e são elas, evidentemente, as que são objetos da polêmica instaurada sobre esse tema. [9]

Por que o depoimento deste homem não vale? Por que os outros dois depoimentos, o do dono e o do funcionário da tipografia que imprimiu A Gênese ampliada, a pedido de Kardec, nada valem? Simples: querem os acusadores que A Gênese e os continuadores de Kardec sejam veementemente suspeitos.


Primeira grande descoberta

As investigações continuaram e foram realizadas extraordinárias descobertas. É o que vamos compartilhar.

Foi descoberta uma edição de A Gênese de 1869, ampliada e publicada sob a responsabilidade moral, espiritual e legal de Amélie Gabrielle Boudet. [10]

Uma lógica “curiosa”: existe um documento que solicita ao governo ditatorial francês, à época de Kardec, uma autorização para impressão da nova edição de A Gênese em fevereiro de 1869 [11]. Temos três depoimentos de homens honrados afirmando que essa edição foi impressa após ter sido ampliada e revisada pelo legítimo autor (Kardec). Temos um exemplo original encontrado na biblioteca da Universidade de Neuchâtel, Suíça. O que podemos concluir destes fatos?

Veja como os acusadores interpretam isso: a solicitação prévia de impressão de uma edição de A Gênese realizada em fevereiro de 1869 "refere-se à impressão da 4ª edição" — que, no entanto, é de 1868! É isso mesmo, "em 1869 foi pedido uma solicitação prévia para se imprimir em 1868" (Observação: as datas não estão erradas). Quer dizer, acreditar que se pediu no ano seguinte uma autorização prévia para imprimir uma obra já impressa é mais razoável do que acreditar em três testemunhos e no fato de que seria mais razoável que o pedido de impressão feito em fevereiro de 1869 fosse para a 5ª edição de A Gênese impressa em 1869! Esse é o argumento “científico” e “legal” para se condenar a última obra de Kardec e os seus continuadores. Isto implicaria em Amelie Boudet e os continuadores diretos de Kardec serem criminosos ou irresponsáveis.


Segunda grande descoberta

Encontrou-se um manuscrito de Allan Kardec, com data de 25 de setembro de 1868, no qual ele pede que seja endereçado a um editor alemão a seguinte informação sobre A Gênese:

“Esta obra está atualmente sendo reimpressa com importantes correções e adições. É desta nova edição que ele [Kardec] deseja que a tradução seja feita. Consequentemente, ele enviar-lhes-á as folhas à medida que elas sejam impressas; já há cerca de metade delas” [12]

Portanto: uma carta de Kardec, em setembro de 1868, afirmando que uma nova edição de A Gênese revisada e ampliada estava sendo elaborada e que já se tinha cerca da metade do seu conteúdo impressa, somando a tudo o que já apresentamos, não seria prova suficiente? — Claro que não! — poderão dizer  Quem sabe se não se poderia encontrar algum detalhe que possibilitasse questionar a dignidade dos continuadores de Kardec...?!

Não nos espantemos: não perguntaram a Joana d’Arc se São Miguel estava de cabelo longo ou curto? Eis o nível em que nos encontramos!


Terceira grande descoberta

Nunca um continuador direto de Kardec afirmou que A Gênese teria sido adulterada; ninguém! — nem Madame Kardec, nem Berth Fropo, nem Alexandre Delanne, nem Gabriel Delanne, nem Camille Flammarion nem Léon Denis. É mentira afirmar que estes discípulos kardecistas denunciaram qualquer adulteração.

Ao contrário, Gabriel Delanne, como redator chefe do jornal Le Spiritisme, escreve um artigo no qual cita vários trechos da 5ª edição revisada e no final ainda inclui uma nota:

Nota da Redação. - O texto acima foi tirado literalmente de A Gênese [5ª edição] de Allan Kardec, páginas 456 a 459. Publicamos estas linhas, escritas há mais de vinte anos, a fim de mostrar que Allan Kardec não estava atrasado em suas ideias e que suas obras não envelhecem. [13]

Como afirmar que Delanne e os outros seguidores sérios de Kardec fizeram denúncias contra a suposta adulteração da referida obra? Por que os continuadores de Kardec devem ser desmoralizados por um crime que nunca existiu e que, talvez por isso, eles nunca viram?


Quarta grande descoberta

Alega-se que A Gênese, 5ª edição, não é legitima por não ter os registros formais requeridos; como a missão Joana d’Arc, iniciada sem a autorização formal dos seus pais.

A ausência de alguma tecnicalidade seria suficiente  mesmo com todas as provas citadas  para desqualificar a verdade histórica e o conteúdo espiritual que este livro contém?

Se adotarmos a postura formalista inquisitorial precisaremos fazer um verdadeiro expurgo em toda a Codificação  e talvez esse, seja o sonho inquisitorial. Sonho que não será realizado, estamos certos!

Em pesquisa feita de forma criteriosa, descobriu-se que 47 obras espíritas de Allan Kardec inclusive todas as edições da Revista Espírita, com exceção dos anos 1858 e 1859, não possuem o tão valorizado Depósito Legal [14].

Quer dizer, se fossem sérios os argumentos dos acusadores, não deveríamos estudar as Revistas Espíritas dos anos 1860, 1861, 1862, 1863, 1864, 1865, 1866, 1867, 1868 e 1869! Além das 4ª, 6ª, 7ª, 9ª, 11ª, 15ª, 17ª, 18ª e 19ª edições de O Livro dos Espíritos; também O Livro dos Médiuns nas 4ª, 7ª e 8ª edições; O Céu e o Inferno 2ª e 3ª edições e  pasmem!  a 2ª, 3ª,4ª e 5ª edições da mesma A Gênese! Entre outras obras do codificador, tornadas impróprias por ausência de formalismo jurídico.

Fica a pergunta: estamos tratando seriamente o Espiritismo ou agimos como inquisidores legalistas e arrogantes?

É oportuno lembrarmos do impactante alerta do Cristo:

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de impureza. Assim também vós por fora pareceis justos aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade. (Mateus, 23: 27-28) [15]


Quinta grande descoberta

A publicação do Catálogo Racional, em primeiro de abril de 1869, por Allan Kardec, contém uma indicação muito interessante para os estudiosos do Espiritismo: o codificador sugere aos confrades que examinarem no capítulo VIII o item 7 do livro A Gênese que se chama “Alma da Terra”; o detalhe que é esse tema é exclusivo da 5ª edição, aquela acusada de ser adulterada. [16]

Como Kardec poderia saber que  segundo os acusadores  depois de sua morte os adulteradores iriam incluir um item em sua obra e este item se chamaria "A Alma da Terra"? Por favor, leia novamente, pois o texto é claro: acusa-se a última obra de Kardec de ser adulterada, quando textos incluídos já tinham sido publicados pelo próprio Kardec em outros lugares!

Não zombemos tanto dos inquisidores que perguntaram a Joana d’Arc se São Miguel apareceu a ela nu ou vestido; infelizmente, no movimento espírita, não somos muito mais inteligentes.


O envidado papal que esclarece

Essas são algumas das dezenas de provas históricas que desmentem as acusações contra a nova edição de A Gênese e contra os continuadores de Kardec! Se o leitor não conhecesse a história de Joana d´Arc, poderia ilusoriamente pensar que tudo estaria suficientemente esclarecido e que as acusações seriam retiradas. Isso não aconteceu.

Uma frase do enviado papal à Espanha, em 1565, nos fará melhor entender os acontecimentos:

Os defensores mais fervorosos da justiça aqui consideram que é melhor um homem inocente ser condenado do que a Inquisição sofrer qualquer vergonha. [17]

Essa ainda é uma verdade. Para muitos, o amor à instituição e a si mesmo está muito acima do amor ao Cristo e a Kardec.


A acusação direta ao Codificador

Chegamos ao momento assustador. Aqueles que seguiram os argumentos formalistas-inquisitoriais, agora, por consequência imediata, estão apontando o dedo em riste para um dos Espíritos mais nobre deste planeta: eles acusam o próprio codificador, Allan Kardec.

Na ausência de provas, como nas acusações contra Joana d´Arc, buscou-se os mais variados motivos  na verdade, pretextos legalistas acusatórios. Os acusadores fazem questão de se escandalizar com a ausência de algumas formalidades legais e tecem longas exposições para defender a ilegitimidade da A Gênese e a consequente irresponsabilidade dos continuadores do Espiritismo no mundo.

Colocaram-se em situação mais vexatória do que jamais sonharam e provaram, sem que ninguém os obrigassem, que não entendem o Espiritismo e  o que é mais grave ainda  não amam Kardec nem a Verdade acima de suas próprias opiniões.

Se a justiça histórica demorou décadas para rever os erros contra Joana d’Arc; no caso atual, algo extraordinário aconteceu: a verdade foi reabilitada em poucos anos! Se formos dignos do Espírito Verdade, não seguiremos mais os falsos intelectuais e as instituições que mais de uma vez traíram o Mestre. Vamos aos fatos.

Descobriu-se que o próprio Allan Kardec — para a decepção dos inquisidores atuais  não era, de maneira alguma, um formalista-legalista. Ele publicou uma edição de O Livro dos Espíritos, antes de 1857, sem nenhum registro formal! [18] E quem sabe, como Joana d´Arc, não diria aos inquisidores atuais: publicaria cem vezes, se fosse ordenado por Deus!

Ousarão chamar nosso Mestre de leviano? Ousarão dizer que sua atitude é condenável e sua obra é ilegal? USE e FEAL estarão ainda unidas nesse tipo de acusação?

Os Espíritos superiores ensinam em O Livro dos Espíritos que eles se preocupam mais com a essência do que com a aparência; mais com o bem que podem fazer do que com seu status social; mais com as lágrimas que podem consolar do que com a calúnia que pode atingi-los. Isso sabem também os inquisidores, por isso, sempre que querem atacar a honra dos Espíritos elevados  encarnados ou desencarnados  eles recorrem ao formalismo para os criticar e condenar.

Qual a relevância se São Miguel tinha cabelo curto ou longo? É realmente decisivo para o futuro espiritual da Terra se existe um registro burocrático adequado de determinada obra? O importante não é seu conteúdo elevado e nossa vivência moral? Muitas vezes, o formalismo e os detalhes são abandonados, quando necessário, em nome de uma causa maior. Esse é o "ponto fraco" das grandes almas em nosso mundo inferior: eles amam Deus acima de todas as coisas; para estes, a verdadeira caridade está acima das formalidades mentirosas da Terra.

Sob que pretextos condenaram Jesus? Após não encontrar mal algum nele, segundo próprio depoimento de Pilatos, usaram uma questão formal, de direito: tomaram como alegação o fato de ele se dizer rei, consequentemente, incidindo assim em "um crime terrível", segundo o código jurídico da época! "Um escândalo inaceitável!"  bradaram os fariseus! Desenvolveram habilmente seus argumentos e concluíram: isso significava que ele queria o lugar de César... Formalmente, legalmente, segundo o código jurídico, ele era um criminoso, merecia pena de morte. Claro, para o bem de todos, era justo que ele morresse, que "a justiça" fosse realizada.

De nada valeu uma vida de abnegação, curas inumeráveis, consolos distribuídos. Ele tinha de ser condenado, ele precisava ser condenado. Foi crucificado. Joana d’Arc também. Ela foi queimada. Hoje, condena-se Kardec com o apoio direto de instituições espíritas. Infelizmente, repetimos a história, mas algo pode ser muito diferente  você e eu podemos não aceitar as críticas levianas e os ataques desonestos.

Assumamos o compromisso de entregar a próxima geração a Codificação Espírita sem as mutilações inquisitoriais! Eles não podem destruir todas as obras ou arrancar das almas honestas o amor e a gratidão a Kardec, a Amélie e aos continuadores do Espiritismo no mundo!

Um dia, talvez, vendo nosso passado culposo, nos vejamos na cena da condenação do Cristo; lágrimas de arrependimento correrão em nossos olhos...

Talvez, um dia, nos vejamos na cena atual, no período em que se reforça o tenebroso ataque a Kardec; lágrimas correrão em nossos olhos emocionados e diremos, silenciosamente em prece, obrigado Senhor, eu não te traí!


Referências:
[1] Bíblia: Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos. Companhia das Letras.
[2] No futuro abordaremos o tema da classe sacrificial a qual Jesus denunciou em termos muito fortes.
[3] Denis, Léon. Joana d´Arc, Médium. - ebook.
[4] Idem, Item 154.
[5] Idem, Item 244.
[6] Idem, Item 85.
[7] DuParc, Pierre (1977). Procès en Nullité de la Condamnation de Jeanne d'Arc. P. 427. - Wikipédia.
[8] Site Allan Kardec Online - AKOL - link
[9] Página especial O Caso A Gênese, tópico 18 - link.
[10] Idem, tópico 30 - link.
[11] Privato, Simoni Goidanich. O Legado de Allan Kardec, p. 58.
[12] Página especial O Caso A Gênese, tópico 39 - link.
[13] Fanpage AKOL no Facebook - link.
[14] Fanpage AKOL no Facebook - link.
[15] Bíblia: Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos. Companhia das Letras.
[16] Página especial O Caso A Gênese, tópico 37 - link.
[17] Murphy, Cullin. God´s Jury, Editora Houghton Mifflin Harcourt. Cap. 3. 
[18] "Descoberta histórica: "A Edição Zero de O Livro dos Espíritos"" em Espiritismo em Movimento - link.


Observação: da mesma forma como oferecemos esse espaço para nosso confrade Carlos Luiz apresentar suas análises, estamos abertos para receber a contra-argumentação que as entidades aqui citadas (USE e FEAL) queiram  expor.

Saiba mais sobre O caso A Gênese.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

As novidades do Projeto Allan Kardec da UFJF: Eric Pacheco entrevista Fabio Fortes

Temos acompanhado e divulgado aqui o desenvolvimento do Projeto Allan Kardec, que indubitavelmente é um extraordinário trabalho em favor da historiografia espírita e, conseguintemente, um benefício para a divulgação do Espiritismo. Lembrando que esta é uma iniciativa da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e tem por objetivo essencial coletar, organizar e disponibilizar registros históricos a partir de um tratamento científico, de forma a oferecer uma fonte o mais confiável possível para os estudiosos e, em geral, para todos os interessados em conhecer a Doutrina Espírita. Saiba mais sobre o projeto clicando aqui. E este mês tivemos uma importante novidade: o lançamento de um segundo lote de documentos, incluindo manuscritos originais de Allan Kardec e sua esposa Amélie Boudet.

Visite agora mesmo o portal do Projeto Allan Kardec.


Para falar mais sobre tudo isso, o canal Espiritismo Em Kardec, dirigido pelo nosso confrade Eric Pacheco, entrevistou Fábio Fortes, professor da UFJF e um dos coordenadores do Projeto Allan Kardec, além de pesquisador e divulgador espírita. Acompanhe pela janela abaixo o vídeo da entrevista e fique atento às novidades desta valorosa iniciativa:



Não deixe de visitar o portal do Projeto Allan Kardec.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Descoberta histórica: "A Edição Zero de O Livro dos Espíritos"


Mais um grande trabalho de pesquisa realizado, envolvendo a colaboração de vários estudiosos espíritas: a descoberta da "edição zero" de O Livro dos Espíritos de Allan Kardec, que, no caso, adotara outro pseudônimo: "Villarius", edição essa, aliás, que se poderia chamar de "clandestina", uma vez que dispensou das formalidades exigidas para o registro e comercialização de uma obra naquela França de meados do século XIX.

Acompanhe mais esse achado:

Quem foi Villarius?

Antes do Depósito Legal da 1ª edição de 1857 de O Livro dos Espíritos, cujo registro na "Bibliografie de la France" aconteceu em 30/05/1857 [1], já circulava um prospecto de uma versão anônima (ou com pseudônimo?), que estava sendo impressa e aparentemente poderia ser comprada na Casa “Villarius” na rua Jacob, 35 [2]. A nota no Journal du Magnétisme, tomo XVI, nº 4, 2ª série, é de 25 de fevereiro de 1857, e diz, em tradução livre:

“(1) Este elemento é denominado espírito em uma obra anônima que está sendo impressa sobre o assunto em Paris e cujo prospecto nos foi entregue. Esta obra é intitulada: Os Livros dos espíritos ou Princípios da doutrina espírita escritos sob o ditado e por ordem dos espíritos superiores. Um vol. in-8. Preço: 3 fr. Chez Villarius, rua Jacob, 35.”

Mas neste endereço tínhamos apenas uma tipografia de Pierre Bascle [3] [4]. Seria “Villarius” um outro pseudônimo de Rivail, usado para correspondência? Talvez, pois no jornal Le Dimanche de 15 de novembro de 1857 [5] é dito também em tradução livre (os colchetes são nossos):

“Sr. Girard de Caudemberg (do Spectateur, anteriormente Assemblée nationale), Sr. Henri Delaage (do Courrier de Paris), Sr. Allan Kardec (do l’Univers), Sr. O Conde de Our... (de eu não sei o quê) [de Ourches], não reconhecem nos fenômenos da mesa que sobe e se sustenta no ar, da mesa que canta, da mesa que fala, da mesa que designa a pessoa mais amorosa da sociedade, eles não reconhecem lá mais do que os efeitos do poder espiritual, como fala o autor do Livro dos Espíritos Allan Kardec, também conhecido como Valérius [talvez Villarius], também chamado R... [Rivail].”

A. S. Morin em "Un nouveau révélateur" no La pensée nouvelle de 9 de junho de 1867 [6] também afirma:

“É a uma revelação semelhante que o Sr. Kardec deve o seu nome atual, antes deu à luz a vários outros: foi Denizot (sic), Rivail, Villarius...”.

Tal texto já havia sido identificado por G. Cuchet no livro Les Voix d'outre-tombe - Tables tournantes, spiritisme et société de 2012 [7, cap. VIII].

Portanto temos aí algumas provas circunstanciais que O Livro dos Espíritos poderia eventualmente ter circulado antes de 18 de abril de 1857, e de que Allan Kardec poderia ter usado nele o pseudônimo de Villarius. Fato é que parte já estava pronta em 11 de setembro de 1856, conforme se lê em Obras Póstumas em casa do Sr. Baudin: “Depois que procedi à leitura de alguns capítulos de O Livro dos Espíritos, relativos às leis morais, a médium escreveu espontaneamente (...)”.

Curioso também que o título no plural ("Os Livros dos Espíritos") só aparece nos Prolegômenos da 1ª edição conhecida de 1857. Juntando a Introdução a eles, temos 32 páginas, ou seja, exatamente dois cadernos de 16 páginas no formato in-8, que talvez, poderiam ter sido distribuídos antes.


O artigo no Le Dimanche, escrito por “Sábado” e enviado para “Domingo”, menciona “espiritismo”, “magnetismo”, “32 casas em que diariamente 15 a 20 pessoas fazem as mesas levitarem, falarem e cantarem”, “Frédéric Soulié” [8] [9], Sra. (sic) Japh... [Japhet] [10] [11], etc. Os editores-chefes do jornal eram G. Gérard e Émile Solié.

Agradecemos ao colega Wanderlei Santos dos Autores Espíritas Clássicos, pelas pesquisas nas diversas edições do Journal du magnétisme, e ao AKOL e OdK pela revisão.

Referências:



Esta descoberta tem uma imensa importância para a História do Espiritismo. Primeiro, podemos considerar a "ousadia" do codificador do Espiritismo em editar um livro sem passar pelos ditames burocráticos, algo impensável para alguns estudiosos espíritas da atualidade, que se têm se utilizado dessa concepção para deslegitimar a 5ª edição "revisada, corrigida e aumentada de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, publicada em 1869, pelo fato de não se ter encontrado o Depósito Legal desta edição  apesar de já sabermos que dezenas de outras publicações de Kardec não terem satisfeito todas as exigências legais da Lei vigente para a imprensa e literatura em geral (ver O caso A Gênese).

Temos também aí uma nova forma de Kardec se apresentar ao público. Antes de assumir o cognome definitivo, sabemos bem, a pessoa em questão era o Professor Rivail, cujo registro de nascimento o nomina "Denisard Hypolite Léon Rivail", mais tarde, em seu testamento, renomeado para "Hypolite Léon Denizard Rivail" (que é a que adotamos, em razão de ser a escolha pessoal dele); enquanto profissional da educação, ele assinava suas obras como "H.L.D. Rivail"; no seu empreendimento comercial em sociedade com Maurice Lachâtre (um banco para promoção de negócios), era o Sr. Rivail; já nas suas atividades contábeis do teatro Délassements Comiques, ele destacava o sobrenome "Denizard"; eis que, como pensávamos até então, ele assumiria uma nova alcunha para tocar a obra espírita: "Allan Kardec". Ocorre que agora temos mais um apelido incluído nesta listagem: "Villarius".

Sobre a variedade dos nomes de Kardec, ver De Rivail a Kardec, de Carlos Seth).

Fazendo um estudo etimológico da palavra "Villarius", encontramos uma menção na toponímia da comuna francesa de Villard, no departamento de Haute-Savoie (normalmente aportuguesada para Alta Savoia) na Wikipédia em francês (veja aqui) que diz: "Le toponyme Villard dérive probablement du mot bas latin villarius, avec le suffixe -ard, signifiant « du domaine rural »". Ou seja, o nome daquela comuna deriva provavelmente da palavra "villarius", do latim vulgar, acrescida do sufixo "ard" correspondente a "de propriedade rural". É da mesma raiz de que foi extraída o termo "vila" do nosso português, significando um conjunto de casas agrupadas. Curioso é que "vilão" vem daí: alguém que vem na vila, cujo preconceito consagrou a ideia de que gente que vem de tal lugar seja de caráter baixo, algo do tipo ignorante, delinquente. Nosso confrade Charles Kempf nos apontou uma coisa bem curiosa a respeito dessa inscrição VILLARIUS: a aproximação de suas letras com o sobrenome RIVAIL; não forma um anagrama perfeito (estão sobrando as letras U, S e o L repetido), mas talvez o professor quisesse de alguma forma sinalizar uma reorganização dos caracteres do seu principal sobrenome.
OBS: Toponímiaestudo da origem dos nomes próprios de lugares; Comuna mais ou menos equivalente a "Município" no Brasil; Departamento = mais ou menos equivalente a "Estado" no Brasil; Latim vulgar = a língua falada pelo povão, um pouco diferente do latim falado pela elite; Anagrama = espécie de jogo de palavras criado com a reorganização das letras de uma palavra ou expressão para produzir outras palavras ou expressões, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez.

Qual teria a pretensão de o Prof. Rivail publicar esta "edição zero", e de forma a preservar seu nome? — A hipótese que arriscamos é a de que ele faria com isso uma primeira sondagem à respeito da recepção do público em relação ao seu trabalho.

E quanto à substituição do pseudônimo (de Villarius para Allan Kardec)? — Pensamos que ele quis fazer um certo "agrado" aos amigos espirituais que lhe revelaram sua vida passada entre os celtas, quando teria sido um sacerdote druida justamente com o nome "Allan Kardec".

Mais adiante apresentaremos aqui um apanhado histórico sobre a repercussão desta "edição zero", especialmente entre os magnetistas e neoespiritualistas de Paris, que estavam firmando seus experimentos acerca das Mesas Girantes e outras sessões mediúnicas.

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