terça-feira, 24 de novembro de 2020

Espetáculo teatral "O vendedor de sonhos"


O vendedor de Sonhos - Augusto Cury

Black Friday - 55% OFF  - ULTIMO FINAL DE SEMANA - 

Sucesso de crítica e público, o espetáculo é baseado no best-seller homônimo de Augusto Cury e já foi visto por mais de 100 mil pessoas em mais de 150 apresentações espalhadas por 80 cidades do Brasil 

 

Peça baseada no romance mais vendido do escritor Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos retoma temporada em São Paulo, no Teatro Fernando Torres, de 16 de outubro a 29 de novembro. As apresentações foram interrompidas em março por conta da pandemia do novo coronavírus.   

A adaptação do best-seller para o palco é de Augusto CuryErikah Barbin e Cristiane Natale (que também assina a direção).  

O ator Mateus Carrieri, que compõe o elenco original, está participando do reality show A Fazenda, da TV Record. Por este motivo, o seu personagem será substituído por tempo indeterminado pelo ator Adriano Merlini. Desta forma, o elenco desta retomada será composto por Luiz AmorimAdriano MerliniPitty SantanaMarcus VeríssimoLino ColantoniGuilherme Carrasco e Fernanda Mariano. 

A trama conta a história do personagem Júlio César (Adriano Merlini), que tenta o suicídio e é impedido de cometer o ato por intermédio de um mendigo, o Mestre (Luiz Amorim), que lhe vende uma vírgula, para que continue a escrever a sua história. Juntos encontram Bartolomeu, um bêbado boa-praça que decide unir-se a eles na missão de vender sonhos e de despertar a sociedade doente. Mas a revelação de um passado conflituoso do Mestre pode destroçar a grande missão do Vendedor de Sonhos. 

O livro O Vendedor de Sonhos já foi traduzido para mais de 60 idiomas e também virou filme – e é a primeira obra de Augusto Cury receber uma adaptação para o teatro. “Ver os atores interpretando no palco os personagens que eu construí nas mais diversas situações estressantes em que eles passaram, levando o espectador a fazer uma viagem para dentro de si mesmo para encontrar o mais importante endereço que poucos encontram, o endereço em sua própria mente, é de fato um grande prazer”, conta Cury. 

“Entre as diversas apresentações pelo Brasil, a peça vem atingindo em cheio os espectadores”, conta a diretora Cristiane Natale. Para ela, a correria no dia a dia acaba reprimindo a demonstração dos sentimentos, principalmente os medos. “Muitas pessoas não conseguem lidar com desafios e fracassos e acabam por viver um caos emocional”, enfatiza ela, que, entre os seus trabalhos de destaque, estão os infantis “A Bailarina Azul”, de Cecília Meireles, como autora e figurinista; e “Arca de Noé”, de Vinicius de Moraes, como produtora; atualmente, ela está em pré-produção do espetáculo “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, como autora e diretora; e em breve irá estrear “O Homem mais Inteligente da História”, parceria com Augusto Cury. 

Para Luiz Amorim, que interpreta o Mestre, o texto tem uma função além da literatura. “É uma história muito humana, bonita, que nos traz identificação. Propõe uma reflexão, instiga pensamentos. Tudo isso me atrai bastante no texto”, diz ele, que esmiúça o seu personagem, o Vendedor de Sonhos: “Ele é riquíssimo, um homem que passou por muitas experiências, traumas na vida e desafios. Ele propõe caminhos que transformam a vida das pessoas. Você pode mudar o mundo através de sua própria mudança”. 

“Sentimos a boa recepção do público quando as pessoas contam suas experiências e como a peça, de alguma forma, modificou a vida delas”, conta Amorim, que coleciona em sua carreira grandes trabalhos, como as peças “Deus lhe pague” e “Sete minutos”, com Bibi Ferreira; o musical “Di repente”, com o Grupo Luz e Ribalta; entre outros. Além de passagens pela TV, como nas novelas “Chiquititas” e “Maria do Bairro” (SBT); e no cinema, em “Corda bamba” e “Sábado”. 

 

Como nasceu a adaptação do livro para o teatro 

A ideia de transformar o livro “O Vendedor de Sonhos” para o teatro nasceu durante a realização das palestras do Dr. Augusto Cury, pela Applaus, com direção de Luciano Cardoso, com mais de 25 anos de experiência nos cenários musical e das artes. “Eu vinha percebendo que estava em franca expansão a questão de as pessoas discutirem as suas emoções, em especial um tema muito delicado, que é a prevenção ao suicídio. E sabendo da relação muito próxima de atores e plateia, o que poderia ser positivo para que tocasse as pessoas, como vem tocando pelo Brasil afora, apostamos. Para nós, é muito gratificante”. 

 

Sinopse 

Baseado no best-seller homônimo de Augusto Cury. Na trama, o personagem Júlio César tenta o suicídio, e é impedido de cometer o ato final por intermédio de um mendigo, o “Mestre”, que lhe vende uma vírgula, para que continue a escrever a sua história. Juntos encontram Bartolomeu, um bêbado boa-praça que decide unir-se a eles na missão de vender sonhos e de despertar a sociedade doente. A revelação de um passado conflituoso do Mestre pode destroçar a grande missão do Vendedor de Sonhos. 

 

Serviço: 
 
O VENDEDOR DE SONHOS 
Data: 16 de outubro a 29 de novembro de 2020 
 
Horário: 
Sexta e Sábado às 21h00 
Domingo às 19h00 

Classificação: 10 Anos 
Duração: 70 min 
Cidade: São Paulo 
 
Localização: Teatro Fernando Torres (Rua Padre Estevão Pernet, 588, São Paulo) 
 
SEXTAS E DOMINGOS: 
1º LOTE: 
SOLIDÁRIO: R$ 50,00 
MEIA ENTRADA: R$ 40,00 
INTEIRA: R$ 80,00 

 

SÁBADOS: 
1º LOTE: 
SOLIDÁRIO: R$ 60,00 
MEIA ENTRADA: R$ 50,00 
INTEIRA: R$ 100,00 

 Ingresso Solidário: Traga 1kg de alimento não perecível no dia do espetáculo e garanta o seu ingresso com desconto! 

 Meia Entrada: Estudantes, Portadores de Necessidades Especiais e um acompanhante, Idosos (pessoas com mais de 60 anos), diretores, coordenadores pedagógicos, supervisores e titulares de cargos do quadro de apoio das escolas das redes estadual e municipais, professores da rede pública estadual e das redes municipais de ensino. (O benefício de meia-entrada é assegurado para 40% do total de ingressos disponíveis para cada evento, conforme o Decreto nº 8.537/15). 

 

Ponto de Venda Sem Taxa de Conveniência: Bilheteria do Teatro Fernando Torres. Endereço: Rua Padre Estevão Pernet, 588 – Tatuapé/SP 

 Horário de Funcionamento da Bilheteria: Quinta a Sábado das 16h às 20h. Domingo das 16h às 19h. Em dias de espetáculo, até o início do espetáculo. 

 

Os ingressos para PNE devem ser adquiridos diretamente na bilheteria. 

 Para sua comodidade, chegue 30 minutos antes do horário marcado em seu ingresso. 

 

Ficha Técnica: 

Gênero: Drama 

Classificação: 10 anos. 

Duração: 70 min. 

 
Adaptação: Augusto Cury, Cristiane Natale e Erikah Barbin  
Direção: Cristiane Natale 

Comprar ingressos online: Sympla

Fonte:

Zook Comunicação
Assessoria de imprensa segmentada e apoio promocional
Contato: (11) 98912-9798

sábado, 21 de novembro de 2020

Manuscrito de Karl Marx e o que ele pensava do Espiritismo


Mais um documento interessante para os nossos estudiosos é garimpado na internet por pesquisadores espíritas: uma carta original de Karl Marx, autor de O Manifesto Comunista, expressando o que o revolucionário pensava do Espiritismo.

Vejamos a publicação da fanpage CSI do Espiritismo:


Manuscrito de 160.000 euros revela o que Karl Marx pensava do Espiritismo em 1873!


Um leilão realizado em Paris em 11 de dezembro de 2018 nos mostra uma carta de Karl Marx endereçada ao Sr. Maurice Lachâtre, ex-sócio de Allan Kardec no Banco de Trocas, de 11 de fevereiro de/1873 [1]. Quando comentando sobre a obra de Eugène Sue [2], conforme a descrição dada no site, entre várias informações, ele diz: "Quant à son dernière œuvre je n'en peux juger parce que je n'en ai eu que la première livraison. Mais il est infecté comme le socialisme français de son époque de sentimentalisme. Il y mêle du spiritisme que je déteste", ou numa tradução livre, "Quanto à sua última obra [4], não posso julgá-la porque dela só tive um primeiro contato. Mas ela está infestada, como o socialismo francês de sua época, de sentimentalismo. Ela mistura isso ao espiritismo que eu detesto". Convém anotar que o termo espiritismo é posterior à data da 1ª edição da obra [5].

A carta, cujo valor estimado era de 25.000 a 30.000 euros, foi arrematada por 160.000 euros (mais de 1 milhão de reais em 2020), e só temos agora o verso do manuscrito, disponível também em um outro site de leilão [3], onde podemos ampliá-lo.

Aqui começa então o "trabalho laboratorial de CSI": conseguimos identificar a frase "spiritisme que je déteste" no lado oposto da cópia digitalizada, que foi então tratada, removendo-se o texto que estava na frente (correspondente ao verso do manuscrito), espelhando-se a imagem e consequentemente a frase, e deixando-a mais nítida. Essa evidência demonstra, por escrito, o pensamento de Karl Marx sobre o espiritismo no início de 1873.

Este foi mais um trabalho conjunto realizado pelo AKOL, CSI do Espiritismo e ObrasDeKardec.com.br, e que será contextualizado oportunamente pelo colega J. A. Vendrani Donha.

Referências:
[4] Edição de 1873, com a introdução de Lachâtre, do vol. VIII da obra de 1843 de Eugène Sue, Les Mystères de Paris (https://books.google.com.br/books?id=0SU6AAAAcAAJ)



Nossa contextualização

Karl Marx (1818-1883) é um importante personagem para a História mais recente da Terra; amado e até idolatrado por uns, odiado por alguns outros, cuja vida e obra são bem pouco conhecidas por muitos dos que o analisam com extremismos; a evocação de seu nome, sob qualquer aspecto, quase sempre suscita fortes emoções, tais paixão ou ira, e, como no caso presente, quando feito em meio ao debate em torno de uma doutrina espiritualista, com mais forte razão podemos imaginar que os ânimos se exaltem. Em todo o caso, temos, de próprio punho, um parecer seu sobre o Espiritismo: "Eu o detesto!" — expressa ele no manuscrito. E a partir daí vamos tentar entender essa definição.

Como registra a historiografia, ele nasceu de uma família abastada no Reino da Prússia (hoje Alemanha) e na sua maioridade tornou-se apátrida; perambulou pela Europa para semear as suas ideias revolucionárias, sendo banido de vários lugares até encontrar refúgio menos hostil em Londres, onde faleceu depois de instaurar o seu ideal comunista, tendo como seu mais próximo idealista o também germânico de nascença Friedrich Engels, que ele conheceu na França, na Paris do Professor Rivail, naquela década de 1840, quando eclodiu a febre das Mesas Girantes e as demais experimentações mediúnicas de que logo mais resultaria a Doutrina Espírita codificada pelo citado professor, então cognominado Allan Kardec. Se parecia óbvio que, por essas circunstâncias, Marx não só teria conhecimento do Espiritismo, agora podemos pensar mais assertivamente que ele minimamente o conhecia bem, quiçá experimentado, pois não seria razoável crer que ele o comentasse — e o adjetivasse de "detestável" — sem ter ciência do que se tratava. E é interessante que, pelo manuscrito ora exposto, Marx vai colocar o Espiritismo no mesmo nível depreciativo do socialismo francês.

Uma antiga postagem nossa levantou a hipótese de Karl Marx ser o tal Sr. M. descrito em Obras Póstumas (veja aqui).

Através de uma mensagem mediúnica, em uma sessão realizada em 30 de abril de 1856, o prof. Rivail recebe o primeiro anúncio de sua grandiosa missão de Codificador Espírita, e nesta mesma comunicação outro homem presente àquela reunião (denominado "Sr. M.") é mencionado:

“(...) A ti, M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido”.

Depois de transcrever esse ocorrido, Kardec comenta em seu diário sobre o Sr. M. nestes termos:

“O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar muito em evidência. Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo”.



Baixe o PDF de Obras Póstumas

Mais adiante, o codificador espírita vai registrar a recomendação que recebeu do Espírito Verdade sobre manter ou não contato com o Sr. M., pela sessão ocorrida em 12 de maio de 1856, na casa do Sr. Baudin:

Pergunta de Kardec (ao Espírito Verdade) — Que pensa de M...? É homem que venha a influir nos acontecimentos?
Resposta "Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas não é uma cabeça."

Deveremos tomar ao pé da letra o que foi dito, isto é, que lhe cabe o papel de destruir o que existe?
"Não; pretendeu-se apenas personificar nele o partido cujas ideias ele representa."

Posso manter relações de amizade com ele?
"Por enquanto, não; correria perigos inúteis."

Dispondo de um médium, M... diz que lhe determinaram a marcha dos acontecimentos, para, por assim dizer, uma data fixa. Será verdade?
"Sim, determinaram-lhe épocas, mas foram Espíritos levianos que lhe responderam, Espíritos que não sabem mais do que ele e que exploram a sua afobação. Sabe que não devemos precisar as coisas futuras. Os acontecimentos pressentidos certamente se darão em tempo próximo, mas que não pode ser determinado."


Pelo recorte, podemos inferir que o Sr. M. de Obras Póstumas é mesmo Marx? Não, não podemos! Até então, parece-nos lógico a suposição, porém, carecedora de maiores indícios. Quem sabe não venhamos a encontrar o manuscrito original de Kardec dessa transcrição e nela o nome do Sr. M. esteja por extenso! É uma expectativa nossa!

De qualquer forma, podemos compreender que o Espiritismo seja detestável para Marx, por essa doutrina estar "infestada de sentimentalismo". Pelo que se sabe, o filósofo socialista não só era ateu como era avesso às ideias espiritualistas, cujos valores fundam-se precisamente no sentimento de amor e na ação prática da caridade, em conformidade com as máximas do Cristo — tudo o que Marx põe na conta de "ópio da sociedade".

O projeto revolucionário marxista é comumente chamado de "socialismo" e "comunismo" — embora conceitualmente estes termos tenham suas diferenças, sendo o Socialismo, na teria marxista, um estágio intermediário e menos radical entre o capitalismo e o Comunismo. Esses termos, relacionados com o "social", o "comum", o "igualitário", têm um aparente aspecto de virtude, de valorização da fraternidade, contudo, sua aplicação no marxismo falha grotescamente por desconsiderar o único valor que motiva e pode estabelecer o verdadeiro estado fraterno: a virtude da caridade, enquanto Marx investe toda a sua retórica na aposta da repartição dos bens e meios de produção.

Ou seja: em Marx, o ideal de fraternidade está na economia e na regulamentação do poder — que só se alcança pela revolução , ao passo que no Espiritismo de Kardec, a fraternidade está no aperfeiçoamento da moral, que se consegue passo a passo, resultando que esse aperfeiçoar individual vai se refletindo no meio social e quando enfim a sociedade estiver repleta desses indivíduos reformados moralmente a fraternidade e o bem-estar social se estabelecerão, não importando as leis civis, o regime de governo, o plano econômico etc. porque então os homens de bem agirão sempre de acordo com a sua consciência elevada.

Em Marx, a necessidade de lutar, a guerra contra os "inimigos externos" para estabelecer uma nova ordem social e a partir daí implantar seu ideário de fraternidade; em Kardec, a necessidade de cada qual lutar contra o "inimigo íntimo", o desenvolvimento da consciência e o desprendimento dos materiais para valorizar as virtudes espirituais.

Em suma, diria Marx: "Fora do Comunismo não há salvação", ao que Kardec responderia prontamente: "Fora da Caridade não há salvação!".

P. S.
Sobre Maurice Lachâtre, ver seu verbete na Enciclopédia Espírita Online.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A Gênese revisada: cap. XIV, item 1, §1 - "Leis da matéria e leis da natureza"


Para uma melhor compreensão desta postagem, ver o sumário Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.

Analisando aqui o primeiro parágrafo do item 1 do capítulo XIV ("Os fluidos") entre a primeira versão da obra (da 1ª à 4ª edição) revisada (desde a 5ª edição).

Vejamos a transcrição desse parágrafo conforme o texto original em francês, sendo a coluna da esquerda o texto da primeira versão e a coluna da direita correspondente à edição revisada:


Agora, o mesmo trecho traduzido para o nosso português:


Vemos então que somente uma palavra foi substituída neste trecho, conforme o destaque em amarelo: de matéria (matière), na primeira versão, para natureza (nature), no texto revisado. No entanto, esta pequena alteração tem sido evocada por certos estudiosos espíritas como uma das maiores evidências de que foi premeditadamente elabora por "supostos adulteradores" para "desvirtuar a Doutrina Espirita", pois, segundo estes, a substituição muda completamente o sentido do parágrafo e o põe em incoerência com o conjunto da obra de Allan Kardec, cuja motivação "dos adulteradores da doutrina" seria tirar os fenômenos espíritas do âmbito da normalidade (Natureza) e os associar às coisas sobrenaturais e místicas.

Além daqueles que cogitam a tese de adulteração, por uma perspectiva histórico-jurídica, há alguns que, mesmo à parte dessa discussão, observam "prejuízo doutrinário" e "ambiguidade" no texto revisado, sob o ponto de vista linguístico. Um exemplo dessa argumentação para apontar a "incoerência doutrinária" na palavra substituída encontramos no texto "Natureza e matéria não são sinônimo", de Marco Milani (diretor do departamento de doutrina da USE-SP), que consultamos em 19/11/2020. O referido texto alega: "Uma vez que matéria e natureza possuem significados diferentes e não são conceitos que foram utilizados como sinônimos por Kardec em suas obras, o texto modificado apresenta um claro contraste semântico." 

Mas vamos analisar isso melhor:

Primeiramente, não podemos recortar a palavra e analisá-la isoladamente: com efeito, matéria e natureza são coisas diferentes; o primeiro nível de contexto a ser assumido aqui é a expressão leis da matéria e leis da natureza, e aí a aplicação semântica se amplia. Feito isso, aumentamos o nível de contexto para o restante do parágrafo, em seguida para todo o capítulo e, finalmente, ampliamos para toda a obra, quando então poderemos ter uma interpretação mais apurada sobre o que Kardec quer dizer com estas expressões e, então, sopesar se elas se equivalem ou não.

Vamos começar pelo primeiro nível de contexto que propomos. Leis na Natureza, ou Leis Naturais, era — e ainda é — uma expressão usual no meio acadêmico para se dirigir àquilo que é normal e real, concreto, conforme as leis conhecidas pela ciência, em oposição ao sobrenatural (que, segundo as academias, é aquilo que foge da normalidade, que foge das leis da natureza); nesse sentido, é perfeitamente equivalente à Leis da Matéria, ou Leis materiais.

Nesse mesmo sentido, de "leis materiais", Kardec também vai usar a expressão "leis da natureza" em outras passagens de sua obra, inclusive no próprio livro A Gênese, em trechos semelhantes nas duas versões, por exemplo, na capa, na citação em destaque logo abaixo do nome do autor:

A tradução é a seguinte (o destaque em negrito é nosso):

A doutrina espírita é a resultante do ensinamento coletivo e concordante dos Espíritos,
A ciência é chamada a constituir a Gênese segundo as leis da natureza.
Deus prova sua grandeza e seu poder pela imutabilidade de suas leis, e não pela sua suspensão.
Por Deus, o passado e o futuro são o presente.

Ora, essa citação resume bem o propósito do livro em questão: através do Espiritismo, Kardec convida a ciência a compreender, através de seus conhecimentos e regulamentos (que os acadêmicos chamam de "Leis da Natureza") que as manifestações espirituais  que antes pareciam anormais, irregulares, sobrenaturais e místicas  na verdade são fenômenos naturais, bem explicáveis pelas novas leis que os Espíritos vinham revelar com a nova doutrina, e que as academias de ciências só as reputavam como sobrenaturais porque desconheciam sua justeza.

Uma demonstração dessa ideia encontramos no mesmo livro, cap. XIII, item 1 (grifo em negrito por nossa conta):

Na sua concepção etimológica ​a palavra milagre ​(de ​mirari​, admirar) significa: ​admirável, coisa extraordinária, surpreendente​. A Academia a definiu deste modo: ​Um ato do poder divino contrário às leis conhecidas da natureza.
(...) No entender das pessoas, um ​milagre ​diz respeito à ideia de um fato sobrenatural; no sentido ​litúrgico​, é uma derrogação das leis da natureza, por meio da qual Deus manifesta o seu poder. De fato, esse é o seu significado vulgar, que se tornou o sentido próprio, e é só por comparação e por metáfora que essa palavra é aplicada às circunstâncias normais da vida.

Fica patente aqui que leis da natureza se aplica às leis da matéria, conforme os regulamentos acadêmicos para as materiais conveniadas com disciplinas tais a química, físicas biologia etc., pois, pela visão materialista, tudo o que existe na Natureza é matéria. Logo, leis naturais equivalem às leis materiais, leis físicas.

Outra ocorrência no mesmo cap. XIII, agora no item 2, iguais nas duas edições comparadas:

Aos olhos dos ignorantes, a Ciência faz milagres todos os dias. Se um homem realmente morto for chamado à vida por intervenção divina, esse será um verdadeiro milagre, por ser um fato contrário às leis da natureza. Mas, se esse homem tiver apenas as aparências da morte, se ainda restar nele uma ​vitalidade latente, ​e que a Ciência ou uma ação magnética consiga reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas isso será um fenômeno natural, mas aos olhos de uma pessoa ignorante o fato passará por miraculoso...

É claro que o codificador espírita vai passar a conceituar Natureza no escopo amplo, colocando aí também os fenômenos espirituais dentro da normalidade, considerando-os tão naturais quantos os fenômenos químicos e físicos admitidos pelas ciências, na expectativa de que estas também passassem a adotar esse mesmo entendimento. Sabemos, no entanto, que as academias em geral têm ignorado a naturalidade das manifestações espirituais, ainda relegando-as ao terreno do misticismo e da superstição e limitam as Leis da Natureza àquilo somente alcançável por seus instrumentos físicos, materiais.

Mas agora vamos estender o nível de contexto da expressão para a frase onde ela está inserida, pegando o texto exato da primeira versão (o grifo em negrito é nosso):

(...) mas os fenômenos em que o elemento espiritual tem uma parte preponderante, esses, como não podem ser explicados unicamente por meio das leis da ​matéria​, estão fora das investigações da ciência:

Agora, substitua a expressão atual em destaque por leis da natureza, no sentido das regulamentações das academias de ciências (como é o texto da edição revisada) e veremos que nada fica prejudicado no contexto da frase. Pode-se alegar mesmo assim que, para evitar qualquer ambiguidade, melhor seria deixar como o texto original; então, por que Kardec trocaria a palavra matéria por natureza?

Para apresentarmos uma hipótese para justificar a troca, precisamos ampliar o nível do contexto para todo o parágrafo. Vamos lá:

A Ciência trouxe a solução dos milagres que derivam mais particularmente do elemento material — seja explicando-os, seja demonstrando a sua impossibilidade — através das leis que regem a matéria; mas os fenômenos em que o elemento espiritual tem uma parte preponderante, esses, como não podem ser explicados unicamente por meio das leis da ​natureza​, estão fora das investigações da ciência: esta é a razão por que eles, mais do que os outros, apresentam as características ​aparentes ​do maravilhoso. Pois é nas leis que regem a vida espiritual que podemos encontrar a explicação dos milagres dessa categoria.

A nossa hipótese é de que a substituição foi por estética literária, para não repetir o termo matéria, já que ele já aparece no mesmo parágrafo, e também uma variante sua: material.

Finalmente, abrangendo o escopo do contexto para o restante do capítulo e mesmo a totalidade do livro, vamos ver que a 5º edição revisada consagra a coerência interpretativa de que estamos falando. Ou seja, no referido capítulo XIV como em toda a obra está explícito que:

(...) o Espiritismo destruiu o império do maravilhoso e do sobrenatural e, conseguintemente, a fonte da maioria das superstições. Se ele faz com que acreditemos na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quimeras, também impede que se creia em muitas outras, de que ele demonstra a impossibilidade e a irracionalidade. (cap. I, item 40, iguais nas duas versões) 
Os fenômenos espíritas, estando na natureza, têm se produzido em todos os tempos; mas precisamente porque seus estudos não poderiam ser feitos pelos meios materiais de que ciência comum dispõe, eles permaneceram muito mais tempo do que outros no domínio do sobrenatural, donde o Espiritismo agora os retira.
(...) Longe de ampliar o domínio do sobrenatural, o Espiritismo o restringe até aos seus limites extremos e retira dele o último refúgio. Se ele faz crer na possibilidade de certos fatos, por outro lado, ele impede a crença em muitos outros, porque demonstra no campo da espiritualidade, a exemplo da Ciência no campo da materialidade, o que é possível e o que não é. (cap. XIII, item 8, igual nas duas versões)
Do mesmo modo que a descrença rejeita todos os fatos produzidos por Jesus, tendo uma aparência sobrenatural, e os considera — sem exceção — lendários, o Espiritismo dá à maior parte desses fatos uma explicação natural; prova a possibilidade deles, não somente pela teoria das leis fluídicas, como pela sua identidade com fatos semelhantes produzidos por uma imensidade de pessoas nas mais comuns condições. Por tais fatos serem de certo modo do domínio público, eles nada provam, em princípio, com relação à natureza excepcional de Jesus. (cap. XV, item 62)

Portanto, o conjunto da obra — nas duas versões comparadas — consagram os fenômenos espirituais como fatos concretos dentro das leis naturais e rechaçam o misticismo e o sobrenatural, coerentemente com toda a Doutrina Espírita. E se se quiser mais uma demonstração mais eloquente da justeza da edição revisada, vamos encontrar a mesma linha de raciocínio em um item que nela foi acrescentado. Veja só:

Essas gerações veem uma causa sobrenatural, maravilhosa, miraculosa no que, em realidade, não é mais do que a execução das leis da Natureza. (cap. XVIII, item 10, somente na edição revisada).

Com isso, fica refutada a ideia proposital de adulteração, pois, se o intuito era mistificar o Espiritismo e relegar os fenômenos espirituais às coisas supersticiosas, miraculosas e sobrenaturais, contrárias à lei de Deus, definitivamente a edição revisada de A Gênese não cumpre esse papel, porquanto em toda ela vemos a negação desse suposição.

Saiba mais em Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.


Análise comparativa das alterações no livro A Gênese


Como é público e notório, há tempos circula no meio espírita a polêmica sobre possíveis adulterações na obra A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, a partir da 5ª edição, dita "revisada, corrigida e aumentada", conforme a pesquisa que temos desenvolvido na página especial O caso A Gênese. No entanto, o apurado dos documentos e do contexto histórico que fizemos até o momento nos leva ao parecer que as teses de adulteração não se justificam e que a edição revisada é uma autêntica e legítima obra do seu autor  Allan Kardec.

Em face disso, julgamos oportuno fazer um estudo sobre as alterações contidas na versão revisada em relação ao conteúdo da 1ª edição, especialmente objetivando dois fins providenciais:

  1. Examinar principalmente aqueles trechos mais controversos, apontados pelos ideários da teoria de adulteração como "evidência" de interferência estranha e indevida na obra de Kardec, para vermos se realmente essas alterações desvirtuam a Doutrina Espírita;
  2. Em considerando que são revisões feitas pela mão do legítimo autor — o Codificador do Espiritismo, na madureza de sua pesquisa e formação doutrinária —, é muito interessante buscarmos compreender a essência das novidades trazidas nesta edição revisada, pelo que, não sendo razoável supormos Kardec regredindo, nada podemos esperar senão ganho de conteúdo na obra revisada, a exemplo do ganho que observamos na revisão de outras de suas obras, a exemplo do que ocorreu com O Livro dos Espíritos.


Eis que listaremos aqui os itens estudados, atualizando este sumário à medida que as análises forem sendo concluídas.

É claro que as análises comparativas que aqui oferecemos representam o nosso ponto de vista particular, mediante a nossa compreensão; não as expomos com a pretensão de esgotar as possibilidades nem a arrogância de ser a mais absoluta verdade, afinal este é um terreno de subjetividade.

Lembramos ainda que: este nosso parecer atual, contrário às teses de adulteração, não é absoluto; continuamos com as pesquisas e permanecemos francamente abertos a analisar novos desdobramentos inerentes a este caso e preparados para refazer nossas conclusões, seguindo a lógica e a razão das coisas.

Para simplificar o estudo comparativo, sugerimos os volumes editados pela equipe do site Obras de Kardec, que são distribuídos gratuitamente:

As Edições de A Gênese - volume I (em francês)apresenta o texto completo da primeira e da quinta edição, lado a lado, conforme os originais em francês, com destaques das diferenças: o que foi acrescentado, modificado, suprimido, corrigido ou com ajustes de grafia, posição ou formatação das palavras.
Download

As Edições de A Gênese - volume II (em português)apresenta o texto completo da tradução em português da primeira e da quinta edição, lado a lado, com destaques das diferenças: o que foi acrescentado, modificado, suprimido, corrigido ou com ajustes de grafia, posição ou formatação das palavras.
Download


SUMÁRIO


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terça-feira, 17 de novembro de 2020

"Ação e Reação", por Sérgio Biagi Gregório


Compartilhamos com nossos confrades o ensaio que recebemos e julgamos ser de interesse geral para nossas reflexões. O tema é "ação e reação" e seu autor é Sérgio Biagi Gregório, estudioso espírita e autor de textos especialmente focados na temática filosófica da nossa doutrina (ver página pessoal).

Segue o referido ensaio:


Ação e Reação
por Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Aspectos Gerais. 4. Ação: 4.1. Princípio da Ação; 4.2. Os Meios e os Fins de uma Ação; 4.3. Autonomia de uma Ação. 5. Reação: 5.1. Reação não é só Sofrimento; 5.2. Lei de Deus; 5.3. A Inexorabilidade da Lei. 6. A Passagem do Tempo entre a Ação e a Reação: 6.1. Antecedentes e Consequentes; 6.2. O Tempo Modifica a Causa; 6.3. Perda do Dedo e não do Braço. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.


1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é mostrar que o acaso não existe e que um futuro promissor depende das boas ações praticadas no presente.


2. CONCEITO

Ação – ato ou efeito de agir. Manifestação de uma força, de uma energia, de um agente.

Em termos espirituais, a ação inteligente do homem é um contrapeso que Deus dispôs para estabelecer o equilíbrio entre as forças da Natureza e é ainda isso o que o distingue dos animais, porque ele obra com conhecimento de causa. (Equipe da FEB, 1995)

Reação - Ato ou efeito de reagir. Resposta a uma ação qualquer. Comportamento de alguém em face de ameaça, agressão, provocação etc.

Em termos espirituais, a reação é a consequência que a ação humana acarreta ao ser defrontada com a Lei Natural. 


3. ASPECTOS GERAIS

Deus, que é inteligência suprema e causa primária de todas as coisas, estabeleceu leis, chamadas de naturais ou divinas. Elas englobam todas as ações do homem: para consigo mesmo, para com o próximo e para com o meio ambiente.

Numa fase mais rudimentar, funciona o determinismo divino; com o desenvolvimento do ser, Deus faculta-lhe o livre-arbítrio, a fim de que sinta responsabilidade pelos atos praticados.

Assim, o homem tem uma lei, uma diretriz, um modelo colocado por Deus na sua consciência, no sentido de nortear-lhe os seus atos.

A reação nada mais é do que uma resposta da natureza às nossas ações. Reações estas baseadas na lei natural.

O raciocínio poderia ser expresso assim: há uma ação que provoca uma reação; a ação da reação provoca uma nova reação; a ação da reação da reação provoca outra ação. A isso poderíamos denominar de cadeias de ação e reação.

A filosofia hindu chama essa cadeia de Carma, ou seja, o somatório do mérito e do demérito de todas as ações praticadas pelo indivíduo.

A finalidade dessa cadeia de ação e reação é a perfeição do Espírito.


4. AÇÃO

4.1. PRINCÍPIO DA AÇÃO

Os movimentos que executamos em nosso dia a dia caracterizam as nossas ações. Fazer ou deixar de fazer, escrever ou não escrever, obedecer ou mandar são atitudes corriqueiras em nossa ocupação diária. Ocupar-se provém de um preocupar-se. À preocupação com uma ação futura, denominamos princípio da ação.

Um exemplo tornará claro esse pensamento. Barbear-se é uma ação que a maioria dos homens pratica. O barbear-se está ligado a um princípio que o indivíduo forjou para si, ou seja, ele tomou uma decisão de apresentar-se barbeado. Ele deseja estar barbeado e não barbudo, como também poderia escolher ficar com barba. Nesse caso, eliminaria a ação de barbear-se, mas deveria aparar as barbas uma vez por semana.

Assistir a ou proferir uma palestra é uma ação. O princípio subjacente a este encontro está calcado tanto na conduta do expositor quanto na do ouvinte. O primeiro tem o dever de preparar o assunto; o segundo, o preparo mental e espiritual para ouvir.


4.2. OS MEIOS E OS FINS DE UMA AÇÃO

Estamos sempre confundindo os meios com os fins. Poder-se-ia perguntar: qual o fim de uma palestra? Qual o fim de uma religião? Qual o fim de um sindicato? As respostas poderiam ser: o fim de uma palestra espírita é difundir a verdade; o fim da religião é salvar os seus adeptos; o fim de um sindicato é defender os interesses de seus associados. Pode-se, contudo, confundir os meios com os fins: o expositor pode querer fazer prosélitos à custa da verdade; o Pastor, o Padre ou o mesmo o Espírita embora clamem pela salvação do adepto, acabam proibindo a salvação do mesmo em outra Igreja que não seja a sua; O presidente do sindicato pode promover greves, não para defender os interesses dos seus associados, mas para a sua ascensão política.


4.3. AUTONOMIA DE UMA AÇÃO

Temos, por várias razões, dificuldade de agir livremente. 1) A ignorância. Como escolher quando não se conhece? 2) Desenvolvimento determinístico imposta pelo princípio de causalidade. 3) Escassez de recursos naturais. São os terremotos, tempestades, acidentes etc.

O que permanece livre dessas amarras constitui o livre-arbítrio.

Há uma lenda japonesa que retrata a autonomia da ação: Kussunoki Massashige, famoso guerreiro do antigo Japão, celebérrimo pela sua inteligência e pelos seus lances geniais de estratégia, vivia desde sua infância no meio dos guerreiros. Uma vez, no castelo de seu pai, observava os guerreiros que, reunidos ao redor de um enorme sino, apostavam quem deles conseguiria pô-lo em movimento. Contudo, nenhum deles, mesmo o mais hercúleo conseguiu mover milímetro do sino. O menino assistia a tudo isso com muito interesse. De repente, apresenta-se para mover o sino, desde que tomasse o tempo necessário para tal mister. Ele cola o seu corpo ao sino e começa a fazer esforço para balançar o sino. Depois de várias tentativas o sino começou a mover-se; primeiro lentamente; depois com mais força, formando uma simbiose entre o sino e o peso do garoto.

Qual a lição moral deste conto? É que devemos nos amoldar à situação e não o contrário. Observe a chegada de novos companheiros a um Centro Espírita: quantos, numa primeira reunião, não querem mudar tudo. Qual o resultado? Não conseguirão nada, porque não absorveram as atitudes e os comportamentos das pessoas envolvidas com a situação.


5. REAÇÃO

5.1. REAÇÃO NÃO É SÓ SOFRIMENTO

Geralmente, a palavra reação vem impregnada de dor e de sofrimento: é como o pecador ardendo no fogo do inferno. No meio espírita, toma-se como sinônimo de carma, que implica em sofrer e resgatar as dívidas do passado. A reação, por seu turno, nada mais é do que uma resposta – boa ou má –, em razão de nossas ações. A reação é simplesmente uma resposta, nada mais. Suponha que estejamos praticando boas ações. Por que aguardar o sofrimento? Não seria melhor confiar na Vontade de Deus, na execução de sua justiça, que nos quer trazer a felicidade?


5.2. LEI DE DEUS

Qual o móvel que determina uma reação? É a Lei de Deus. Se a prática de uma ação não for concernente com a Lei de Deus, ou seja, se ela não expressar o bem ao próximo, ela não foi praticada em função da vontade de Deus. Qual será a reação com relação à Lei? Dor e sofrimento.

Qual deve ser a nossa atitude para com a dor? Quem gosta de sofrer? Acontece que sem ela não conseguiremos nos amoldar eficazmente à Lei de Deus. Se, por outro lado, interpretássemos a dor e o sofrimento como um ganho, um aprendizado das coisas úteis da vida, quem sabe não viveríamos melhor.


5.3. A INEXORABILIDADE DA LEI

A Lei de Deus é justa e sábia. É por isso que dizemos que o acaso não existe. Isso quer dizer que tudo o que se nos acontece deveria nos acontecer. Nesse sentido, Deus não perdoa e nem premia. Faz, simplesmente, cumprir a sua Lei.

Como é que deveríamos agir com relação ao sofrimento? Verificar onde erramos. Caso tenhamos cometido algum crime, algum deslize, deveríamos nos arrepender. Basta apenas o arrependimento? Não. É preciso sofrer de forma educada. Ainda mais: temos que reparar o mal que fizemos. Deus se vale das pessoas, mas o nosso problema é com relação a radicalidade de sua Lei. E não adianta adiar porque, mais cedo ou mais tarde, a nossa consciência nos indicará o erro e teremos que refazer o mal praticado.


6. A PASSAGEM DO TEMPO ENTRE A AÇÃO E A REAÇÃO

6.1. ANTECEDENTES E CONSEQUENTES

A causa passada gera uma dor no presente; a causa presente provoca um sofrimento futuro. Um fato social é um evento quantitativo: aconteceu em tal dia, em tal local e em tal hora. A passagem do tempo transforma o fato quantitativo em fato qualitativo. Como se explica? Observe a água: ela é formada da junção de 2 elementos de hidrogênio com 1 de oxigênio. A água, embora contenha dois elementos de hidrogênio e um de oxigênio, é qualitativamente diferente do hidrogênio e do oxigênio.


6.2. O TEMPO MODIFICA QUALITATIVAMENTE A CAUSA

Transportemos o exemplo da água para o campo moral. Suponha que há 300 anos houve um assassinato entre duas pessoas que se odiavam. Como consequência, criou-se um processo obsessivo entre os dois. O fato real e quantitativo: um assassinato, que produziu um agravo à Lei de Deus e que deverá ser reparado. Os 300 anos transcorridos modificaram tanto aquele que cometeu o crime quanto aquele que o sofreu. E se a vítima já perdoou o seu assassino? E se o assassino vem, ao longo desse tempo, praticando atos caridosos? Será justo aplicar a lei do olho por olho e dente por dente? Aquele que matou deverá ser assassinado? O que acontece? Embora o assassino tenha que reparar o seu erro, pois ninguém fica imune diante da lei, a pena pode ser abrandada, em virtude de seus atos benevolentes.


6.3. PERDA DO DEDO E NÃO DO BRAÇO

Esta história foi retratada pelo Espírito Hilário Silva, no capítulo 20 do livro A Vida Escreve, psicografada por F. C. Xavier e Waldo Vieira, no qual descreve o fato de Saturnino Pereira que, ao perder o dedo junto à máquina de que era condutor, se fizera centro das atenções: como Saturnino, sendo espírita e benévolo para com todas as pessoas, pode perder o dedo? Parecia um fato que ia de encontro com a justiça divina. Contudo, à noite, em reunião íntima no Centro Espírita que frequentava, o orientador espiritual revelou-lhe que numa encarnação passada havia triturado o braço do seu escravo num engenho rústico. O orientador espiritual assim lhe falou: “Por muito tempo, no Plano Espiritual, você andou perturbado, contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima, cujos gritos lhe ecoavam no coração. Por muito tempo, por muito tempo... E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. Mas, você, Saturnino, desde a primeira mocidade, ao conhecer a Doutrina Espírita, tem os pés no caminho do bem aos outros. Você tem trabalhado, esmerando-se no dever... Regozije-se, meu amigo! Você está pagando, em amor, seu empenho à justiça...”


7. CONCLUSÃO

A prática da caridade tem valor científico, ou seja, ajuda-nos a reparar os danos que causamos à Lei Divina. Assim, se soubermos viver sóbrios e sem muitos agravos à Lei, certamente faremos uma passagem tranquila ao outro plano de vida.


8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BOULDING, K. E. Princípios de Política Econômica. São Paulo, Meste Jou, 1967.

BUZI, ARCÂNGELO R. A Identidade Humana: Modos de Realização. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2002.

EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro, FEB, 1995.

XAVIER, F. C. Ação e Reação, pelo Espírito André Luiz. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

XAVIER, F. C., VIEIRA, W. A Vida Escreve, pelo Espírito Hilário Silva. 3. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1978.