terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Comece 2021 estudando conosco na PEADE

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A Gênese revisada: cap. XIV, item 1, §1: "Leis da matéria e leis da natureza" — Adendo

Para uma melhor compreensão desta postagem, ver o sumário Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.

Esta postagem é um adendo ao post A Gênese revisada: cap. XIV, item 1, §1 - "Leis da matéria e leis da natureza" de 19 de novembro de 2020.

Apesar de considerarmos bastante satisfatórias as explicações já apresentadas sobre a similaridade das expressões "leis da matéria" "leis da natureza" no contexto do referido trecho da obra A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, apresentamos aqui uma questão complementar que temos visto ser levantada a esse respeito.

Conhecemos uma edição desta obra em debate lançada em outubro de 2001 pela LAKE - Livraria Allan Kardec Editora cuja tradução foi feita por Victor Tollendal Pacheco, nela contendo também — e com destaque na capa  uma apresentação e notas de rodapé assinadas pelo reverenciado filósofo José Herculano Pires. Daí muitos concluírem que Herculano tenha sido uma espécie de cotradutor desta edição; inclusive, aqui e acolá se possa ouvir dizer que esta tradução seja mesmo sua — até porque os outros livros da codificação espírita dentro dessa coleção da LAKE foram de fato traduzidos por Herculano. Bem, de qualquer forma, não há dúvida de que ele estava de acordo com a versão de seu confrade, o Pacheco.

Acontece que nesta versão, a tradução — feita a partir da edição revista, corrigida e aumentada (mesmo conteúdo daquela 5º edição de 1869) — do trecho em análise traz a expressão "lois de la nature" traduzida como "lei da matéria", ao invés da tradução literalmente mais correspondente, que seria "lei da natureza"; por conta disso, há quem sugira que Pacheco e Herculano teriam notado a "inconsistência doutrinária" da palavra "natureza" empregada no original em francês e então modificaram a tradução; isto seria, portanto, um ponto a favor da ideia de que esta revisão feita na 5ª edição de A Gênese não condiz com a justeza de Kardec.

Ora, fiel a Kardec e ao Espiritismo como era Herculano Pires (e, sem bem não conhecemos a biografia de Victor T. Pacheco, não podemos supor que fosse diferente disso), não podemos imaginar que ele fosse adulterar numa tradução a obra kardequiana; se ele traduziu "lois de la nature" por "lei da matéria" é justamente porque ele compreendia que esta expressão era perfeitamente compatível com o original em francês. Ou seja, para Herculano, Kardec escreveu "lois de la nature" no sentido próprio que as academias davam ao valor de "leis da matéria", pois, para a Ciência então em voga a natureza não passa de matéria. A partir daí, poder-se-ia traduzir "lois de la nature" tanto pelos termos mais correspondentes  "leis da natureza"  quanto pelos equivalentes  "leis da matéria". Se Herculano tivesse observado diferença entre "natureza" e "matéria" no contexto deste trecho e assim tivesse optado por traduzir pelo termo não equivalente, então ele estaria sendo autor de uma fraude, uma adulteração, já que estaria modificando (adulterando) o sentido da frase original.

Vamos imaginar, por outro lado, que Herculano tivesse ponderado que "leis da natureza" não fosse equivalente a "leis da matéria": o que poderia ele fazer diante da situação em que, mesmo assim, o original em francês "lois de la nature" devesse ser "lois de la matière"? Ele teria duas opções plausíveis:

1) Tradução fielmente a expressão ("lois de la nature" como "leis da natureza") e acrescentar uma nota de rodapé levantando a hipótese de que provavelmente teria havido ali um equívoco, do autor ou do tipógrafo) e que o mais correto seria o original conter "lois de la matière", correspondente a "leis da matéria";

2. Traduzir a expressão mais adequada ("leis da matéria") e acrescentar uma nota informando que, apesar do original "lois de la nature" sugerir a tradução para "leis da natureza", provavelmente teria havido ali um equívoco (de Kardec ou do tipógrafo) quando em francês deveria constar "lois de la matière".

Em qualquer um dessas duas opções, os tradutores teriam sido corretos em oferecer uma hipótese aceitável. Entretanto, traduzir "matéria" no lugar de "natureza" em um contexto cujos significados seriam opostos, isso sim seria uma fraude, adulteração e traição doutrinária — o que não ousamos pensar nem de Herculano, cuja obra e índole conhecemos bem, nem de Pacheco.

Portanto, só podemos pensar que Herculano e Pacheco compreenderam tranquilamente que a expressão "lois de la nature" correspondia muito bem a "leis da matéria", tal como na praxe do entendimento científico; optaram por esta expressão em lugar de "leis da natureza", seu equivalente, por estar mais adequado para a época nova, sem prejuízo para a correspondência com a 5ª edição revisada, corrigida e aumentada de A Gênese de Allan Kardec, da qual produziram a citada tradução da LAKE.

Agradecimentos especiais ao confrade Bruno Tavares pelas imagens da edição da LAKE.

Saiba mais em Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

"Amélie Boudet atuante na sucessão de Allan Kardec", 3ª e última parte da pesquisa

Adiante, a terceira e última parte da pesquisa "Amélie Boudet atuante na sucessão de Allan Kardec", pesquisa essa desenvolvida pela equipe do AKOL, CSI do Espiritismo e site Obras de Kardec, contendo importantes dados e reflexões úteis para mais esclarecimentos acerca do caso A Gênese.

Segue o relatório da pesquisa:


Amélie Boudet atuante na sucessão de Allan Kardec:
prestação de contas do primeiro ano da Sociedade Anônima (1869/1870) assinada por ela e A. Guilbert
>> Mais uma fonte primária inédita <<


Introdução

O documento inédito “Rapport présenté en conformité de l'article 16 des statuts par le comité de surveillance à l'Assemblée générale du 10 juillet 1870”, fonte primária que está sendo apresentada em detalhes nesta série de posts, mostra o envolvimento e a atuação plena da Sra. Allan Kardec desde o primeiro momento pós-desencarne do mestre, visto que, após participar na criação da Sociedade Anônima, da qual era acionista majoritária, assumiu o trabalho no Conselho Fiscal, como auditora de fiscalização, no ano civil de 1869/1870, que confirmamos ter continuado em 1872, conforme Registro de Inventário do ano civil de 1872/1873.

Amélie-Gabrielle Boudet (Viúva Kardec)

Divulgamos até o momento alguns pontos relevantes identificados.

Parte I - apresentada em 15 de dezembro de 2020
(https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/191193512494540 e
https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/834545617309222):

• O quanto Amélie Boudet era uma mulher à frente de seu tempo, acompanhando e fiscalizando as operações da Sociedade que ajudou a criar para dar continuidade à difusão da Doutrina Espírita;

• A manifestação do desinteresse pessoal e total comprometimento com a divulgação do Espiritismo de todos os acionistas que, ao término do primeiro ano de operação da Sociedade Anônima, decidiram reverter a parcela dos lucros a que tinham direito para o fundo de reserva destinado à divulgação da Doutrina Espírita, divulgando esta ação e sua motivação na Revista Espírita.

Parte II - apresentada em 20 de dezembro de 2020 
(https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/215502150063676 e
https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/863466857750431):

• A minuciosa fiscalização que Amélie Boudet e A. Guilbert fizeram nas contas relativas ao primeiro exercício fiscal, entrando no mérito de cada diferença identificada e confirmando que os registros estavam corretos;

• O preparo dos fiscais em colaborar na viabilidade financeira da SA, apresentando pensamentos gerenciais, tanto na análise do melhor uso dos fundos de reserva no cenário atual e futuro, quanto pela prudência em não reduzir o preço das obras face ao aumento imprevisto dos custos;

• A reafirmação, no relatório, da visão clara do objetivo da criação da Sociedade Anônima, não com interesse particular de nenhum acionista, mas no interesse geral do Espiritismo;

• Informações contábeis demonstram que a 5ª edição de A Gênese e a 4ª edição de O Céu e o Inferno NÃO FORAM confeccionadas pela Sociedade Anônima, e sim em período anterior, visto que no relatório ficou registrado que esta instituição só começou a produzir mercadorias a partir de 13 de agosto de 1869, e que Amélie Boudet, como responsável pela publicação das obras do marido após sua morte, trouxe mercadorias para compor o estoque da SA, provavelmente incluindo os exemplares não vendidos destas edições produzidas por ela.

Essas informações se somam às reveladas pelo Registro de Inventário de 1873, outra fonte primária apresentada em 10 de novembro de 2020, em que Amélie dá continuidade ao seu trabalho de fiscalização das atividades da Sociedade Anônima (https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/212457850368106 e https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/860373301393120):

• O mês e ano de impressão da 4ª edição de O Céu e o Inferno como sendo em fevereiro de 1869;

• A 5ª e a 6ª edições de A Gênese como já impressas em 1869, reafirmando a existência de duas impressões da 5ª edição, fato anteriormente demonstrado com o exemplar encontrado no início do ano passado na biblioteca de Neuchâtel na Suíça, e cujo período de impressão/publicação foi refinado para entre o final de 1868 e o início de 1869 no artigo: Uma revisão na História das Edições de A Gênese, publicado recentemente no JEE.

É pelo registro dessas informações que podemos hoje, 150 anos depois, ter ciência sobre o que de fato estava acontecendo na condução da Sociedade Anônima, narrado em fonte primária, sob o olhar atento de Amélie que, nos primeiros anos, trabalhou continuamente e de forma fiel à propagação e manutenção da doutrina e do legado de Allan Kardec.

As análises e conclusões de Amélie Boudet - como maior acionista da sociedade e membro do Conselho Fiscal - sobre a fundação da SA, seu primeiro ano de operação e a proteção da doutrina e das obras de Allan Kardec

Nesta parte III, que finaliza a nossa pesquisa, apresentamos as impressões e conclusões da Sra. Allan Kardec e do Sr. A. Guilbert enquanto auditores de fiscalização que assinam o presente documento - Relatório do Conselho Fiscal.

Após minuciosa auditoria nas contas e total aprovação dos resultados da SA, os auditores tecem considerações sobre a situação moral atual da Sociedade, seu comportamento e aceite pelo movimento espírita, e sugerem ações visando garantir seu futuro em termos de vitalidade e prosperidade.

Primeiramente é feita uma pequena retrospectiva sobre a criação da Sociedade que, após o desencarne súbito e imprevisto de Allan Kardec, ocorreu de uma forma improvisada, mas que nem por isso a afastou da meta de proteger a obra do mestre e o futuro da doutrina contra manobras de seus adversários, ou de pessoas ambiciosas que poderiam tentar tirar proveito delas em benefício próprio.

Também destacam que Allan Kardec tinha a autoridade de um nome conhecido e universalmente estimado, possuindo uma inteligência privilegiada, cuja lógica e prudência prevaleceram em seus quinze anos de trabalho perseverante, que podem ser observados em sua obra, alicerce do futuro edifício que estava sendo construído. Informam que o mestre estava concluindo a elaboração de um vasto plano que seria posto em prática com o devido amadurecimento, de acordo com o tempo, as circunstâncias e a experiência dos homens e das coisas permitissem.

Com Allan Kardec morto, deixando o seu prédio inacabado, a doutrina - com a autoridade de seu nome e sua notória firmeza - tornou-se alvo de todos os ataques de quem via a ruína do Espiritismo com a perda de seu fundador.

A análise de Amélie descreve que teria sido fácil semear a divisão entre os trabalhadores que, apesar de inteligentes e dedicados o suficiente para contribuir com a obra sob a direção do mestre, seriam incapazes de continuar a pesada tarefa. Relata que reinvindicações não demoraram a surgir e que, se aplicadas, teriam necessariamente levado à dispersão dos trabalhadores e atrasado a divulgação da obra já realizada.

Mas, com a percepção deste perigo, Amélie Boudet - e os demais espíritas mais próximos - procurando proteger a propriedade das obras em circulação, proteger o caráter da Revista Espírita, preservar tudo de qualquer eventualidade ruinosa, e continuar o trabalho tão abruptamente interrompido, resolvem - com estes propósitos - criar a Sociedade Anônima. 

Amélie Boudet, como signatária deste documento, acredita que não tenha se afastado da verdade ao afirmar que a Sociedade Anônima havia alcançado, até aquele momento [18/06/1870], o objetivo que havia se proposto: proteger a doutrina de contingências necessariamente decorrentes da morte de um indivíduo em particular, e preservar a propriedade das obras fundamentais, colocando-as sob a proteção da lei.

O Relatório destaca que, de fato, a existência e o futuro da Sociedade não dependeriam - especialmente - da cabeça de nenhum indivíduo; qualquer um de seus participantes poderia morrer ou desaparecer; mudar a sua maneira individual de ver, sem que a Sociedade sofresse, pois o grupo que a compõe substituiria, à medida que surgissem as necessidades, os vazios que pudessem se formar em seu seio por qualquer causa. A Sociedade seria constantemente mantida no caminho traçado pelos seus estatutos por noventa e nove anos. E que, o futuro material da doutrina estaria assegurado pela fundação pura e simples da Sociedade Anônima.

Feitas estas considerações o Relatório passa a tecer análises sobre a moralidade da Sociedade (e de seus componentes), dizendo que seu futuro moral ainda dependia de como ela seria aceita pelos espíritas. O Relatório destaca que, através de todos os meios, não se poderia permitir lançar o desfavor sobre a nascente Sociedade. O maior e mais poderoso desfavor para desacreditá-la - na opinião que costuma ser encontrada no Espiritismo da mais completa abnegação e desinteresse - seria de representar o novo empreendimento como uma exploração comercial, tendo como objetivo dividir o Espiritismo em uma seção regulamentada para o benefício de alguns indivíduos em grande detrimento da doutrina.

A verdadeira intenção dos acionistas segue nessa mesma linha pois, conforme a Revista Espírita de agosto de 1870, é informada na Assembleia Geral da Sociedade Anônima realizada ao término do ano civil de 1869/1870: todos manifestaram seu desinteresse pessoal e total comprometimento com a divulgação do Espiritismo, decidiram reverter a parcela dos lucros que tinham direito naquele ano para o fundo de reserva, destinado à divulgação da Doutrina Espírita, e solicitaram ao Sr. Levent que publicasse o ocorrido, dando transparência às suas ações e à sua intenção manifesta. 

Assim, a breve indecisão inicial não impedira que o aceite geral fosse obtido para a formação da Sociedade Anônima e do seu trabalho, e que se alguns indivíduos isolados ainda não a entendiam seria porque não puderam ou não quiseram dar conta exata dos fatos existentes e de suas causas, já que não importava o que a malícia e a má-fé fizessem, a verdade sempre acaba aparecendo, apesar dos véus que a rodeiam, e se impõe a todos aqueles que a procuram de boa fé. 

O Relatório dos auditores continua apontando que, em um período de oito meses de existência a Sociedade Anônima, ela viu todos ou quase todos se reunirem em torno dela, os grandes centros que tomaram como ponto de referência a Revista Espírita e o Sr. Allan. Kardec.

Concluindo, é reportado que o intercâmbio de correspondências reviveu, pós-formação da SA, com uma atividade que assegurava uma sucessão ininterrupta de documentos para o futuro, os novos jornais que eram publicados, as Sociedades já existentes, aquelas que eram fundadas ou que estavam em processo de formação. Todas entrando em contato com a Revista Espírita e a Sociedade Anônima, como sendo os representantes mais autorizados da doutrina coordenada pelo Sr. Allan Kardec. E, portanto, é afirmado que se a Sociedade Anônima estaria, financeiramente falando, num caminho de prosperidade indiscutível, possuindo também o direito de se congratular pela natureza e extensão de suas relações morais e inteligentes.

Antes de encerrar, os auditores fazem um testemunho de solidariedade à memória do Sr. Monvoisin. Relatam que sua morte havia sido profundamente sentida por cada um dos membros da Sociedade e pelo mundo espírita em geral, mas ninguém poderia vê-la como uma causa de fracasso para a Sociedade Anônima. O Sr. Monvoisin era apenas uma unidade da Sociedade; esta unidade que foi extirpada pela morte sem que o público se movesse por ela, será substituída sem que ele o saiba e sem que se preocupe mais com isso, pois ele não conhece a ação de nenhum de nós em particular, mas apenas o da Sociedade ora constituída.

E, finalmente, assinam este relatório datado de 18 de junho de 1870, pelo Conselho Fiscal: Viúva Rivail (Allan Kardec) e A. Guilbert (Presidente da Sociedade Espírita de Rouen).


Conclusão

Ao longo das três partes de apresentação da nossa pesquisa sobre o inédito documento denominado “Rapport présenté en conformité de l'article 16 des statuts par le comité de surveillance à l'Assemblée générale du 10 juillet 1870”, assinado por Amélie Boudet, pudemos disseminar muitas informações importantes e desconhecidas do movimento espírita brasileiro, como o que ocorreu no pós-desencarne de Allan Kardec, na formação da Sociedade Anônima e nas suas operações no primeiro ano civil 1869/1870.

Em relação às edições atualizadas das últimas obras, sobre as quais foram levantadas dúvidas sobre quem as teria publicado e se haveria a legalidade do ato, as informações contábeis demonstraram que a 5ª edição de A Gênese e a 4ª edição de O Céu e o Inferno NÃO FORAM confeccionadas pela Sociedade Anônima, e sim em período anterior, quando a Livraria Espírita ainda era de responsabilidade exclusiva de Amélie Boudet, visto que no relatório ficou registrado que esta instituição só começou a produzir mercadorias a partir de 13 de agosto de 1869.

Além dos detalhes contábeis da Sociedade em seu primeiro ano civil, nos foi possível mostrar uma Amélie Boudet atuante e participativa nos rumos do Espiritismo e nas diretrizes da Sociedade Anônima, e também com um perfil que desconhecíamos até o momento: com conhecimentos na área contábil, em análises de contas patrimoniais, e na área gerencial. Uma mulher, em pleno século XIX, eleita estatutariamente para o Conselho Fiscal, visando auditar as operações de uma empresa, com poderes conferidos por lei. 

O resultado de seu trabalho é um relatório do mais alto nível, que de fato fiscaliza a instituição e fornece informações seguras e confiáveis sobre os caminhos percorridos pela Sociedade no seu primeiro ano de existência e os rumos previstos para o futuro, o que denota que Amélie estava atenta a tudo que acontecia e não abriu mão de supervisionar a continuidade do trabalho de seu marido.

Além disso, vemos a viúva Kardec, após ter participado ativamente da formação da SA, em consonância com os pensamentos de Allan Kardec:

• Preocupada e firme nas decisões com o destino das obras do mestre e com o rumo da doutrina, apesar dos momentos iniciais de incertezas;

• Trabalhando ativamente para que interesses pessoais não se sobressaíssem em detrimento da difusão do Espiritismo;

• Satisfeita que os acionistas desta Sociedade, como novo empreendimento, não tinham permitido a sua exploração comercial, o que poderia dividir o Espiritismo;

• Satisfeita com os resultados alcançados pela Sociedade em seus oito meses de operação a partir de 13 de agosto de 1869: não apenas financeiramente, mas em sua parte moral e de inteligência, visto que todos ou quase todos os grandes centros se reuniram em torno dela, tomando-a como ponto de referência;

• Satisfeita pela Sociedade ter retomado a correspondência e ser a centralizadora, com todos entrando em contato com a Revista Espírita e a Sociedade Anônima, como os representantes mais autorizados da doutrina;

• Tranquila de que os indivíduos que compõem a Sociedade, como o Sr. Monvoisin, embora importantes, eram substituíveis, não se sobrepondo aos interesses maiores do todo e à difusão da doutrina;

• Satisfeita consigo mesma por não ter se afastado da verdade ao afirmar que a Sociedade Anônima havia alcançado, até aquele momento (18/06/1870), os objetivos propostos: proteger a doutrina de contingências necessariamente decorrentes da morte de um indivíduo em particular e preservar a propriedade das obras fundamentais, colocando-as sob a proteção da lei.

Somos sabedores de todos os desvios doutrinários implementados pelo Sr. P. G. Leymarie que se iniciaram a partir de 1874 com as fotografias espíritas. Somos sabedores dos esforços de muitos dos espíritas fiéis à Kardec e à Doutrina Espírita, que denunciaram estes desvios e combateram as teorias de J. B. Roustaing, a partir da ocorrência destas influências, com as quais nos solidarizamos. Mas, não devemos cometer anacronismos históricos. As fontes primárias que vem se somando a partir do início de 2020 têm nos apresentado um história diferente da que muitos acreditavam até pouco tempo, e este trabalho historiográfico documental - efetuado de uma maneira transparente, gratuita, desprovida de ideologias e no interesse coletivo - nos ajuda a reconstruir a historiografia do Espiritismo, principalmente, nos primeiros anos pós desencarne de Allan Kardec.

Esta pesquisa foi realizada em conjunto pelo museu AKOL - Allan Kardec online, o CSI do Espiritismo e o site Obras de Kardec, sempre se desenvolvendo de forma colaborativa e sem personalismos.

Para baixar o PDF do "Rapport présenté en conformité de l'article 16 des statuts par le comité de surveillance à l'Assemblée générale du 10 juillet 1870": 
https://www.allankardec.online/search?q=rapport.

Referências:

1. https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/191193512494540 e https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/834545617309222

2. https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/212457850368106 e https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/860373301393120

3. https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/215502150063676 e https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/863466857750431;

4. https://www.retronews.fr/journal/la-revue-spirite/1-aout-1870/1829/3285373/6;

5. LES SOCIÉTÉS - En Commandite par Actions, Anonymes et Coopératives - Par J. Bédarride - Tome Deuxième;

6. Revistas Espíritas de 1869 e 1870;

7. https://catalogue.bsg.univ-paris3.fr/.../alma991013912770...;

8. https://archive.org/details/BSG_DELTA59512_1FA/page/n6/mode/2up;


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Artigo: "Um fato singular", por Carlos Luiz


Ainda sobre a discussão sobre o caso A Gênese (saiba mais aqui), recebemos e compartilhamos com todos mais um artigo de nosso confrade Carlos Luiz (Fortaleza, Ceará), sociólogo, coordenador do Grupo Marcos e um dos idealizadores da plataforma de estudos espírita online PEADE. Este artigo é uma sequência de "Se os fatos importassem", publicado aqui em dezembro do ano passado (ver aqui).

Confira a nova composição:


Um fato singular

"Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo
antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir."
Winston Churchill 


Um fato com consequências imprevisíveis

Ao tomar notícia das acusações contra a última edição da quinta obra de Allan Kardec  A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo  minha análise foi simples: mais uma polêmica inútil. Infelizmente, não poderia ter errado mais. Ao acompanhar a polêmica, para meu espanto, entendi do que se tratava: o mais grave ataque às obras do Codificador Espírita e à honra de seus continuadores jamais sofrido na história do Espiritismo. Buscava-se não apenas atacar a obra, mas a honra e a dignidade dos principais continuadores de Kardec  inclusive, sua esposa e companheira intelectual, Amelie Gabrielle Boudet; além de Léon Denis, Alexandre e Gabriel Delanne e Berthe Fropo. Aceita a acusação, as consequências seriam inevitáveis: "todos participaram da adulteração ou foram coniventes", simplesmente porque não pode haver crime cultural público sem criminosos, apoiadores e negligentes. Nunca um ataque ao Espiritismo teria consequências tão graves.

Essa acusação, do ponto de vista de qualquer espírita sério, é gravíssima. São acusações, que se comprovadas, não apenas demonstraria a leviandade dos continuadores do Espiritismo no mundo, bem como, permitiria uma correção irresponsável da obra de Kardec sob o pretexto de duvidosas provas históricas. Isso acontece hoje.

Sem uma intervenção dos espíritas sérios e estudiosos, a deformação irreversível do Espiritismo será inevitável. Em poucos anos, teremos tantas obras “verdadeiras” da codificação quanto as fantasias dos que lutam por fama e fortuna no movimento espírita. Eles são muitos.

Em mais 160 anos de Espiritismo, todas as numerosas polêmicas que foram vividas se davam respeitando a sabedoria de Kardec e dos Espíritos superiores. Disputava-se como melhor compreendê-las. Agora, alteram-se os textos saídos da mão do codificador, acusa-se os colaboradores mais honrados, corrige-se Kardec com audácia: algo apenas possível da parte de quem perdeu a lucidez ou nunca amou a codificação.

As consequências, além do sucesso mundano dos “purificadores” de Kardec, é a deturpação perversa do Espiritismo. Não sabemos o que o Espiritismo será em poucos anos se essa obra prosseguir. Entramos em nossa hora mais escura. Apenas a firmeza inspiradora do Cristo ao expulsar do templo falsos pregadores  negociantes da revelação divina  pode nos salvar.


Os argumentos da acusação

O que mais impressiona é que, apesar de que todas as supostas evidências históricas que justificariam as acusações contra os continuadores de Kardec e a desqualificação de seus livros terem se provado serem falsas, a campanha de destruição continua. Os fatos mais surpreendentes parecem não ter valor. Observamos um esforço continuado, planejado, que envolve algumas das maiores e mais poderosas instituições espíritas do Brasil em apoiar a desfiguração do Espiritismo.

O atual processo de desfiguração das obras básicas inicia-se com a polêmica sobre a autenticidade de A Gênese publicada pela primeira vez em 1869. Essa polêmica surge quando Henri Sausse, levianamente, acusa Pierre-Gaëtan Leymarie, no ano de 1884, de ter adulterado a referida obra por ele publicada em 1872 (Ver artigo anterior). Em resumo, três depoimentos de pessoas sérias afirmaram que o próprio Kardec tinha publicado edição revisada de 1869 com ampliações. Isso não foi suficiente para o movimento espírita brasileira aceitar a verdade. Argumentava-se que este livro de 1869 não existia. Na dúvida, acusa-se.

Em 2020, descobriu-se um exemplar deste livro em uma biblioteca suíça. Isso não foi suficiente. Encontrou-se outro documento histórico  uma carta escrita por Kardec a um editor alemão, afirmando que ele havia ampliado A Gênese e que já se podia iniciar a sua tradução para o alemão. Acredite: as acusações contra A Gênese e os continuadores de Kardec continuam.

Afirmava-se ousadamente: A Gênese de 1869 é adulterada e os continuadores, consequentemente, são irresponsáveis, levianos ou criminosos. Esse é o estado intelecto-moral de nosso movimento espírita atual.


Uma pergunta simples

Imagine que se tratasse, com o padrão das pesquisas denunciatórias, uma obra de Victor Hugo, de Adam Smith ou de qualquer outro pensador considerado sério? Certamente, a sociedade em geral ou, pelo menos, aqueles que os estudam e respeitam, reagiriam. Questionariam! Simplesmente não aceitariam acusações tão graves, fundadas em documentos coletadas e analisadas de forma tão atrapalhada. Não foi assim que agimos. Apoiamos as provas frágeis e as interpretações mal elaboradas contra a obra de Kardec e a honra de seus continuadores. O mestre dedicou mais de 12 anos de sua vida para elaborar o Espiritismo com os melhores critérios possíveis. Hoje, pesquisas apressadas, de caráter meramente especulativo, são justificativas “científicas” para desmoralizar pessoas sérias e autorizar pessoas desqualificadas intelectual e moralmente a reescrever a codificação.

As pesquisas são indispensáveis, certamente, mas a leviandade de resultados prematuros deve ser evitada. Desqualificar a edição final de A Gênese sem provas objetivas, rigorosamente avaliadas por diversos pesquisadores, qualificados e sérios, é inaceitável. Foi o que aconteceu. Gostaria de ver o currículo dos pesquisadores que tão ousadamente desqualificaram a quinta obra da codificação (a primeira de uma série, sabemos), bem como, o conselho técnico-científico que validou suas pesquisas. Não existe pesquisa social séria sem a revisão de pessoas independentes e qualificadas. As pesquisas que desqualificam A Gênese não tiveram nada disso. Demos a esses relatos de pesquisadores amadores a autoridade de desfigurar o Espiritismo. Resta uma pergunta: por que tanto descaso com Allan Kardec e com a obra do Espírito da Verdade?

Não nos cabe julgar ou condenar a ninguém. Examinamos aqui, rigorosamente, posturas e os métodos (que se apresentam como científicos) que tentam desqualificar a obra de Kardec e a lisura moral de seus fiéis continuadores. Isso deve ser trazido a luz. Não podemos em nome da caridade permitir que a obra espírita e a honra daqueles que deram a vida por ela sejam jogados na lata do lixo da história. A Humanidade perderia muito e nós, os espíritas atuais, seríamos responsabilizados por nossa consciência.


Um fato singular

Hoje, existem tantas comprovações da legitimidade da obra de Kardec publicada por ele e por sua esposa, em 1869 que será preciso um volumoso livro para expô-las todas. Todas essas evidências históricas estão facilmente disponíveis, inclusive, para o estudo acadêmico da história social e da mentalidade do atual movimento espírita e de suas instituições.

Esperamos que a Nova Geração realize uma crítica profunda de tudo o relatamos. Não avançaremos com segurança até entendermos o nível de degradação intelectual e moral no qual nos encontramos e aprendermos a sair deste escuro abismo.

Nos ocuparemos, no próximo artigo, de um fato singular: como explicar que, após todas as provas históricas, as acusações contra a obra de Kardec foram ampliadas.

Carlos Luiz

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

"Espiritismo e Filosofia" - Eric Pacheco entrevista Astrid Sayegh

No frontispício da obra inaugural da Doutrina Espírita, Allan Kardec estampou "Filosofia Espiritualista". Portanto, inequivocamente, o Espiritismo é uma escola filosófica, além dos desdobramentos científicos e religiosos correlacionados a àquela característica. Com isso, todo bom espírita, a fim de bem compreender a doutrina que professa, deve ter os mínimos conhecimentos sobre Filosofia e os princípios que caracterizam a Revelação Espírita nesse seu aspecto intrínseco, correto?

A fim de ajudar os interessados nessa compreensão filosófica do Espiritismo, reproduzimos aqui a entrevista do nosso confrade Eric Pacheco (Rio de Janeiro) com Astrid Sayegh (São Paulo), que, além de espírita, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia pela USP.

Falando de metafísica, ética, Espiritismo, intuição e outros temas, essa entrevista é uma boa pedida para "quebrar o gelo" naqueles que têm medo de Filosofia.

Segue a janela da entrevista:

Não deixe de compartilhar e assim você ajuda a divulgar a Doutrina Espírita.


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

"O Caso A Gênese" - novas parciais da enquete sobre a tese de adulterações

Em 2020, o assunto mais quente no movimento espírita foi a questão da autenticidade da edição revisada do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e a tese de adulterações. Em meio às pesquisas a respeito, fizemos o lançamento da página especial de pesquisa O caso A Gênese, em 17 de março deste 2020, e nela criamos uma enquete para colher a opinião dos nossos confrades que acompanham o desenrolar dos fatos sobre esta polêmica, perguntando-lhes: "Você acha que o livro A Gênese de Allan Kardec foi adulterado a partir da 5ª edição?" para o que oferecemos cinco alternativas de resposta:

1) Ainda não tenho opinião sobre isso
2) Não tenho certeza, mas acho que NÃO
3) Não tenho certeza, mas acho que SIM
4) Tenho certeza que NÃO Tenho certeza que SIM

Inclusive, para quem não votou, a enquete continua valendo; para quem já deu o seu voto, ao escolher novamente uma opção, o sistema pergunta se o usuário deseja alterá-lo.


A apuração da enquete também já está disponível neste link.

Em 15 de junho do ano passado, apresentamos um primeiro apanhado com os resultados conferidos em determinados períodos: 1 semana após o lançamento da enquete, e depois as parciais dos três meses seguintes. Veja aqui as parciais publicadas em junho-2020.

O quadro parcial publicado em 15 de junho-2020 foi esse:


Abaixo, o gráfico com a evolução das respostas da enquete ao longo dos três primeiros meses de apuração:


Observamos então que, se no início da enquete as opções mais escolhidas tendiam para a ideia de que a obra A Gênese havia sido ou poderia ter sido adulterada, a progressão da apuração mostrou um crescente das opiniões contrárias à tese de adulteração, ao lado da 1ª opção, que é neutra em relação às duas ideias controversas. À época, o total de respostas somavam 375.

Consultando o resultado parcial hoje, 12 de janeiro de 2021, seis meses depois daquela parcial publicada, verificamos que 512 pessoas já responderam à pesquisa e os percentuais das respostas estão ilustradas na figura adiante:


Vemos claramente que a tendência progressiva é a rejeição à tese de adulteração e uma maior convicção de que realmente foi Kardec quem processou a revisão, correção e acréscimo do conteúdo da 5ª edição de A Gênese, publicada em 1869. Em meados do ano passado, o percentual de indecisos era 26% e hoje é de apenas 11%. Somando os que achavam que teria havido adulteração somados com os que diziam ter certeza disso, o percentual em meados do ano velho era 34%, enquanto atualmente esse número é de apenas 12%. Os que achavam que não houve adulteração mais os que diziam ter certeza disso, em junho retrasado, figuravam 40%, sendo na parcial de hoje 76%, ou seja, uma maioria significativa.

Bom lembrar que as pessoas podem a qualquer momento modificar sua escolha. De fato, quando alguém tenta validar seu voto e nosso sistema acusa que este já votou, é perguntado se o usuário deseja alterar sua opinião e, em caso afirmativo, sendo uma opção diferente do voto anterior, o sistema registra a nova opção e também computa a alteração; se já for uma segunda alteração, o nosso banco de dados igualmente registra que o mesmo usuário alterou o voto mais uma vez. Com isso, verificamos que em junho de 2020, o percentual de votantes que haviam alterado o voto pelo menos uma vez era de cerca de 15%; hoje, nosso sistema acusa que esse número saltou para aproximadamente 35%.

A guinada na direção das opiniões evidentemente acompanham o andamento das pesquisas. Ao longo do segundo semestre do ano passado muitos documentos vieram à lume esclarecendo cada vez mais que a tese de adulteração não se sustentava.

Mais detalhes na página especial O caso A Gênese.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

"Prova ou expiação? Eis a questão!", por Rogério Miguez


Dois elementos fortemente incorporados ao conjunto de conhecimentos oferecidos pela Doutrina Espírita, "expiação" e "prova" foram bem desenvolvidos por Allan Kardec e tais conceitos estão presentes, explícito ou implicitamente em todas as suas obras, inclusive com exemplos concretos e de simples compreensão. Apesar disso, há uma tentativa de "ressignificação" desses conceitos sendo proposta no meio espírita, com base na teoria de "autonomia total do Espírito" ao ponto de, por exemplo, elaborar toda uma reinterpretação para o livro O Céu e o Inferno (veja aqui).

À vista disso, compartilhamos aqui um interessante artigo escrito pelo nosso confrade Rogério Miguez, de São José dos Campos, SP, intitulado "Prova ou expiação", originalmente publicado no jornal O Imortal, n° 765, edição de novembro de 2017, que igualmente observa que na sabedoria divina impressa na Criação, em face do aprendizado espiritual pelo qual todos os Espíritos passam rumo à perfeição, faz-se necessária certas vezes expiações impostas; obviamente, não como "castigo divino", mas um instrumento educativo, aplicado aos alunos recalcitrantes e negligentes quanto às lições da vida.

Vamos conferir o artigo:


Prova ou expiação? Eis a questão!

Considerando a nossa Terra como uma grande escola, com bem mais de sete bilhões de alunos matriculados – os encarnados, e, segundo dizem os Espíritos, mais de vinte bilhões de alunos em regime de espera aguardando matrícula – os desencarnados, pode-se apontar dois mecanismos básicos divinos de aferição do aprendizado possível de ser obtido neste colégio, verificando os estudantes do educandário Terra, ao longo dos anos letivos, ou seja, no decorrer da própria vida: provas e expiações.

Estes são os métodos criados por Deus para impulsionar e alavancar a nossa evolução, e, na posição de coordenador deste particular instituto de ensino do Universo, pois existem milhões de outros, ocupando a cátedra maior, sabe-se também estar Jesus, o Bondoso Diretor.

É da Lei celestial a obrigatoriedade de se passar por muitas vidas visando ao nosso próprio aprimoramento, tantas vidas quantas forem necessárias de modo a nos conduzir ao alvo derradeiro: a absoluta perfeição moral. O número de provas é imenso, porquanto há muitas virtudes a conquistar e incontáveis matérias a dominar, de forma a construir o sólido equilíbrio desejado entre as asas do sentimento e da inteligência, garantindo dessa forma uma evolução constante.

Basta observar, no primeiro caso, como é difícil viver na plenitude apenas uma particular virtude ao longo da existência. De fato, cremos, não há Espíritos encarnados que podem alegar domínio completo das muitas virtudes, de que sabemos só o Administrador deste estabelecimento de ensino as conquistou na totalidade. No segundo caso, reflitamos em quantas especialidades de engenharia ou mesmo na área de medicina existem hoje em dia? No passado eram pouquíssimas, entretanto o número vem crescendo continuamente, isso só para citar duas áreas do conhecimento humano. Todas estas matérias também deverão ser por nós apreendidas, dominadas.

À primeira vista, acredita-se ser esse progresso infinito, mas este entendimento não corresponde à realidade, pois o desenvolvimento moral e intelectual tem um termo: [1] 169. O número de encarnações é o mesmo para todos os Espíritos? “Não; aquele que caminha depressa se poupa a muitas provas. Todavia, essas encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito.” (Negritamos)

Enquanto não incorporamos todo este aprendizado, passamos por variadas provas e expiações, com uma especial observação: só expiamos devido a nossa escolha de evolução não ter contemplado apenas o caminho do bem, possibilidade esta prevista plenamente na ordem divina: [2] 262. Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e sem experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha? “Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir, como fazes com uma criança, desde o berço. Contudo, pouco a pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, Ele o deixa livre para escolher e só então é que muitas vezes o Espírito se extravia, tomando o mau caminho, por não ouvir os conselhos dos bons Espíritos. É a isso é que se pode chamar a queda do homem.” (Negritamos)

Observe-se este trecho na resposta dos Espíritos: muitas vezes lhe acontece extraviar-se; se é assim, em outras tantas vezes, acontece de não extraviar-se, seguindo desde o início apenas o caminho correto. Essa esclarecedora razão explica o fato de haver tantas mazelas nesta escola, pois no colégio Terra estão reunidos alunos que optaram por não seguir decididamente, no exercício livre do uso de seu livre-arbítrio, apenas o caminho do bem. São em média estudantes rebeldes e repetentes das lições ministradas pelo Diretor Jesus dois mil anos atrás. Em consequência, como já cometemos muitos deslizes, a conhecida expressão “multidão de pecados”, a contar desde a nossa origem, com prejuízo ao próximo e nós mesmos, devemos expiar, ou resgatar, essas situações indesejadas de passado – enfatize-se sempre – criadas por nós mesmos. Sendo assim a mecânica divina da vida, uma pergunta poderia ser suscitada: Como posso saber, ou distinguir, quando estou passando por uma prova ou uma expiação e qual a diferença entre elas, de modo a melhor me conduzir nos diversos desafios existentes no desenrolar da vida?

Analisando a dúvida sob o ponto de vista da Doutrina, sabemos ser de fato uma questão a expressar apenas a nossa vã curiosidade em saber especificamente sob quais condições se sucedem os muitos fatos da vida, se são verificações ou resgates, consequentemente irrelevante, segundo a visão doutrinária. Nós, Espíritos ainda imperfeitos, não precisamos necessariamente saber se estamos passando por uma prova escolhida na erraticidade [3] ou, do outro lado, se vivenciamos uma expiação, pois o que precisamos com certeza é simplesmente superar as dificuldades, não importa se estas têm sua origem em uma prova ou em uma expiação; o objetivo é vencer, ou vencermo-nos diante dos quadros agudos e nem sempre agradáveis que caracterizam as nossas existências, situações comuns em um típico mundo de provas e expiações, em via de se regenerar.

A propósito, e sempre oportuno, podemos lembrar, por exemplo, este registro em outra obra do Codificador: [4] “Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação.”

Ou seja, estamos sempre sendo testados, seja pela prova propriamente dita escolhida anteriormente, seja pela expiação, solicitada ou imposta; esta última servirá em todo o tempo também de prova, e se bem suportada conferirá ao aluno a nota de aprovação.

Muitas vezes cremos terem as provas superado as nossas forças, nos reconhecemos despreparados e nos sentimos incapazes de carregá-las. Esta conclusão, aparentemente acertada, não é verdadeira, não encontra respaldo nas leis divinas, porquanto, observando bem o quadro presente, com imparcialidade, pode-se facilmente concluir termos aumentado as nossas provas, tornando-as desta maneira insuportáveis do nosso ponto de vista, porém isso se deu como resultado de condutas impróprias e atitudes intempestivas tomadas frequentemente por todos nós.

Variados sofrimentos e amarguras enfrentadas ao longo desta existência se originam em condutas e ações adotadas distanciadas do bom caminho, ou seja, das diretrizes divinas, nesta própria vida; têm, pois, origem no presente e não no passado longínquo. Em consequência, a vida responde com novos dissabores e contratempos ainda durante a vida atual. E se não houver repercussão ainda nesta existência, estas faltas do presente se apresentarão como expiações de passado, em nossas vidas futuras; é tudo muito simples. Dessa forma, se almejamos um futuro melhor, oremos e vigiemos agora. Esta máxima, se bem aplicada, pode-nos forrar de muitos percalços e atribulações no porvir.

Outro importante aspecto a considerar é a certeza de que, se vivenciarmos as provas e expiações com rebeldia, contragosto, murmúrios ou reclamações, duvidando da justiça do Criador, a verificação ou o resgate perdem a função e o sentido; por conseguinte, a vida nos convidará ou nos obrigará, em futuro próximo, a passar por novas aferições, até sairmos plenamente vitoriosos. Este sistema de ensino é perfeito, pois perfeito é o Pai.

Diante destas esclarecedoras explicações oferecidas pela Doutrina, cabe-nos aceitar as vicissitudes da vida como oportunidades de aprendizado, em nosso próprio favor, visto que Deus age sempre com bondade e misericórdia, não nos solicitando esforços maiores do que podemos suportar; disso não tenhamos a menor sombra de dúvida.

E como Deus é Pai, e não feitor, não considera qualquer falta como irremissível, ou seja, imperdoável. Sendo ela qual for, Ele nos concederá incontáveis oportunidades para alcançarmos o sucesso não obtido nesta existência, contudo tenhamos em mente que muitas vezes essas novas verificações acontecerão em situações menos favoráveis do que aquelas experimentadas agora, caso contrário não se realiza o processo de educação do Espírito.

Tudo depende de nós mesmos, está em nossas mãos. Ajamos agora, não posterguemos, aceleremos o processo em curso de regeneração do planeta, pois somos os artífices desta mudança.

Rogério Miguez
rogmig55@gmail.com

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Referências:

[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Comemorativa do Sesquicentenário. Brasília: FEB, 2007. Q.169.

[2] ________.________. Q.262.

[3] Erraticidade: estado dos espíritos errantes, isto é, não encarnados, durante os intervalos de suas diversas existências corpóreas (Allan Kardec – Instruções Práticas sobre as manifestações espíritas – Vocabulário espírita).

[4] _____. O Evangelho segundo o EspiritismoTrad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. V, “Bem-aventurados os aflitos”. item 9.

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