domingo, 28 de novembro de 2021

Ensaio sobre a psicografia de Chico Xavier é premiado em concurso nos EUA


Fomos agraciados com a notícia do resultado de um concurso mundial promovido pelo instituto americano BICS sobre pesquisa relacionadas à vida após a morte, em que um grupo de pesquisadores brasileiros também se figura entre os premiados. Alexandre Caroli, Raphael Fernandes Casseb e Marina Weiler desenvolveram um ensaio sobre a obra psicográfica de Chico Xavier, ficando com a 11ª colocação dentre cerca de 200 trabalhos aceitos.


O INSTITUTO BICS

O BICS - Bigelow Institute for Consciousness Studies (Instituto Bigelow para Estudos da Consciência) é uma organização criada e patrocinada pelo magnata americano Robert Thomas. Bigelow, interessado em ufologia, fenômenos paranormais e evidências de vida após a morte, pelo que há décadas ele tem patrocinado inúmeras pesquisas relativas a esses assuntos. O instituto foi oficializado em 2020, quando foi anunciada a primeira edição do concurso que premiaria as melhores pesquisas científicas a respeito da sobrevivência da alma após a falência do corpo físico.

Robert T. Bigelow

Visite o site oficial do BICS (em inglês).

Para a edição deste ano, Bigelow destinou 2 milhões de dólares em premiação, alcançando os 29 melhores ensaios, cujo objetivo é o de oferecer ao público em geral informações seguras, baseadas em evidências científicas, sobre a vida além da matéria, despertando assim uma conscientização da natureza espiritual e suas consequências.

Vê-se pois que se trata de uma iniciativa das mais nobres, porque, se não for por ações individuais como esta, por amor à causa espiritual, como vamos esperar algo melhor da ciência, das academias e da indústria materialista de nosso tempo, que praticamente nada mais produz senão visando lucros e lucros? Afinal, não dá para vender "reforma íntima" em pílulas, não é?

Pelo que apuramos, Robet T. Bigelow é um mecenas da espiritualidade, certamente inspirado por bons Espíritos, e rogamos que a semente plantada pelo BICS multiplique seus frutos.


O CONCURSO 2021

Para avaliar os trabalhos oferecidos para a edição 2021 do concurso, o BICS convocou seis jurados, todos acadêmicos altamente reconhecidos, dentre os quais o psiquiatra americano Brian Weiss, conhecido por suas pesquisas acerca da reencarnação e terapias de vidas passadas, autor de importantes livros, como os best-sellers Muitas Vidas, Muitos Mestres (Many Lives, Many Masters - 1988), A Cura através da Terapia de Vidas Passadas (Through Time Into Healing - 1996) e Muitas vidas, Uma Só Alma (Same Soul, Many Bodies - 2004).

Além do Dr. Weiss, estão na lista de jurados os nomes: Jeffrey J. Kripal (Ph.D.), Christopher C. Green (M.D. Ph.D.), Jessica Utts (Ph.D.), Harold Puthoff (Ph.D.) e Leslie Kean, autora do livro Sobrevivendo à Morte: Uma Jornalista Investiga Evidências de uma Vida Após a Morte (Surviving Death: A Journalist Investigates Evidence for an Afterlife - 2017), sobre o qual foi baseada a série Vida após a Morte, produzida pela Netflix (saiba mais aqui).

Os três grandes vencedores foram os seguintes trabalhos:

  • 1°. lugar: ($500,000) "Beyond the Brain: The Survival of Human Consciousness After Permanent Bodily Death" (Além do Cérebro: A Sobrevivência da Consciência Humana Após a Morte Corporal Definitiva), de Jeffrey Mishlove Ph.D.
  • 2°. ($300,000) "The Continuity of Consciousness: A concept based on scientific research on near-death experiences during cardiac arrest" (A Continuidade da Consciência, Uma Concepção baseada em pesquisa científica sobre experiências de quase-morte durante uma parada cardíaca), de Pim van Lommel M.D.
  • 3°. ($150,000) "The Ghost in the Time Machine" (O Fantasma na Máquina do Tempo), de Leo Ruickbie Ph.D..

As onze melhores pesquisas seguintes forma premiadas cada uma com o prêmio de $50,000 (cinquenta mil dólares), estando entre estas a pesquisa dos brasileiros Alexandre Caroli Rocha Ph.D., Marina Weiler Ph.D., Raphael Fernandes Casseb Ph.D., com o trabalho intitulado "Mediumship as the Best Evidence for the Afterlife: Francisco Candido Xavier, a White Crow" (A Mediunidade como a Melhor Evidência da Vida Após a Norte: Francisco Candido Xavier, um Corvo Branco).

Todos os trabalhos estão disponíveis livremente em PDF na página do BICS (em inglês).

Os prêmios serão entregues em 4 de dezembro, numa cerimônia em Las Vegas (EUA).


O ENSAIO DOS BRASILEIROS

O ensaio apresentado pelo grupo brasileiro focalizou a extraordinária obra psicográfica de Chico XavierCaroli é doutor em teoria e história literária pela Unicamp. Wiler é neurocientista P.hD. com pós-doutorado em curso pela Universidade da California EUA) e Casseb é neurocientista com pós-doutorado em curso pela Unicamp.

Raphael Casseb, Marina Weiler e Alexandre Caroli

"Dividimos os livros do Chico Xavier em três grupos: primeiro, aqueles que ele atribuiu a autores como Emmanuel e André Luiz, nomes que não nos remetem a pessoas conhecidas; segundo, as atribuídos a escritores bem identificados, com obra publicada em vida, como Humberto de Campos, Olavo Bilac e dezenas de outros; terceiro, os das cartas familiares atribuídas a pessoas bem identificadas, mas sem obra publicada em vida. Esses três grupos têm diferentes estratégias para justificar suas alegadas autorias. Levamos em conta os registros biográficos do médium e a maneira como ele produziu os textos", explica o Dr. Alexandre Caroli.

Diz a Dra. Weiler que "A obra psicográfica de Chico Xavier apresenta informações muito detalhadas e específicas dos autores aos quais as obras são atribuídas, muitas vezes de conhecimento apenas do falecido autor." E ela completa: "No nosso ensaio, tentamos mostrar exemplos dessas informações inacessíveis a Chico Xavier para fortalecer a hipótese de uma existência de vida após a morte."

Casseb destaca que "o concurso permitiu chamar a atenção para um tema que é normalmente ignorado na grande maioria dos centros de pesquisa. Ao promover o concurso, o empresário americano ligou os holofotes sobre um tema controverso para a ciência, mas de um interesse imensurável para a sociedade, que é a continuidade (ou não) de alguma forma de personalidade humana."

Chico Xavier

O PDF do ensaio "Mediumship as the Best Evidence for the Afterlife: Francisco Candido Xavier, a White Crow" (A Mediunidade como a Melhor Evidência da Vida Após a Norte: Francisco Candido Xavier, um Corvo Brancoestá disponível aqui.

Nossas congratulações aos nossos conterrâneos pelo belo trabalho.

Fontes:

BICS
Correio Fraterno - edição nov-dez, 2021


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Câmara dos Deputados aprova criação do Dia Nacional do Espiritismo, a ser comemorado em 18 de abril


A Comissão de Constituição de Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou ontem (quarta-feira, 24 deste novembro) o Projeto de Lei 3789/19, do Senado, que cria o Dia Nacional do Espiritismo, a ser celebrado anualmente em 18 de abril.

A data foi escolhida em homenagem ao dia de lançamento da obra O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, em 1857.

Segundo a relatora da proposta na CCJ, deputada Caroline de Toni (PSL-SC), “o espiritismo é uma doutrina voltada para o aperfeiçoamento moral do homem, acredita na existência de um Deus único, na possibilidade de comunicação útil com os espíritos através de médiuns e na reencarnação como processo de crescimento espiritual e de justiça divina”.

“O Brasil é o país onde há o maior número de espíritas no mundo, ao todo, são quase 4 milhões de pessoas que se consideram espíritas, sendo assim o terceiro maior grupo religioso brasileiro, tendo ainda cerca de 40 milhões de simpatizantes. Os espíritas têm sua imagem fortemente associada à prática da caridade, mantendo em todos os estados brasileiros obras de assistência e promoção social”, afirmou a deputada.


Tramitação

A proposta, por tramitar em caráter conclusivo e não ter sido modificada na Câmara, poderá seguir para sanção presidencial, a menos que haja recurso para a votação pelo Plenário.


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Lançamento na Sala de Leitura: "A Reencarnação - Resposta à Enquete Calderone" de Gustave Geley

Trazemos ao público mais um clássico da literatura espírita mundial, traduzida e disponibilizada livremente em nossa Sala de Leitura em formato PDF: A Reencarnação - Resposta à Enquete Calderone da autoria de Gustave Geley.

Sobre a obra:

Em 1913 o Dr. Innocenzio Calderone (diretor da revista Filosofia della Scienza de Palermo, Itália) lançou a todos os grandes filósofos, teólogos, cientistas e demais pensadores de todo o mundo uma enquete indagando sobre a validade ou não da ideia das vidas sucessivas através do nascimento, morte e renascimento — chamada de Palingenesia ou, mais popularmente, Reencarnação.

Dentre as respostas oferecidas, a do Dr. Gustave Geley (médico psiquiatra e espírita convicto) foi tão aclamada que acabou sendo publicada pela editora de Jean Meyer (o mecenas do Espiritismo) em forma de monografia.

Gustave Geley (1865-1924)

Trata-se, portanto, de uma exuberante síntese de um verdadeiro tratado filosófico e científico acerca da Lei Natural de Reencarnação, ressaltando-a não somente como uma possibilidade concreta, em refutando as objeções mais comuns à tese, mas também exaltando a sua harmonia e alinhamento com os ideais de justiça, bondade e sabedoria da obra de Deus.


Clique aqui para acessar ou baixar o ebook A Reencarnação - Resposta à Enquete Calderone da autoria de Gustave Geley.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O futuro do Museu Espírita de São Paulo



Desde este final de semana uma discussão foi trazida ao meio espírita, a partir de uma informação dizendo respeito a uma possível deliberação da Federação Espírita Brasileira - FEB de pôr à venda alguns imóveis que a entidade recebera em forma de doação espontânea de confrades interessados em contribuir com os trabalhos doutrinários da entidade, estando dentre esses imóveis a sede do Museu Espírita de São Paulo  criado pelo saudoso casal Elza e Paulo Toledo Machado, instituição localizada na Capital Paulista. Diante de tal informação, lideranças do movimento espírita paulista começaram a se articular em busca de garantias para a preservação do Museu. Convocados para essa discussão, fomos apurar a informação, ouvindo várias fontes, dentre os envolvidos na questão, a começar pelo atual curador do Museu, Oceano Vieira de Melo, que, em sintonia com os esclarecimentos prestados por Geraldo Campetti, um dos vice-presidentes da FEB, mais outros colegas de entidade, rebate a veiculação feita de que estariam liquidando o Museu Espírita; de fato, confirmam os febianos, o terreno que sedia o Museu está sendo encaminhado para uma negociação com um empreendimento imobiliário que, no entanto, inclui a destinação, ali mesmo, de uma área para novas e modernas instalações para o mesmo Museu, além de um vantajosa compensação financeira, não resultando, portanto, em nenhum prejuízo institucional e doutrinário e, ao contrário, favorecendo o próprio Museu. A seguir, compartilhamos com todos o que apuramos acerca deste caso.


CONTEXTUALIZAÇÃO: O MUSEU ESPÍRITA DE SP

Em 1997 foi oficializada a fundação do Museu Espírita de São Paulo, um sonho antigo do Dr. Paulo Toledo Machado, respeitado advogado, patrono de várias iniciativas de promoção do Espiritismo na Capital Paulista, inclusive o Instituto de Cultura Espírita de São Paulo.

Para a concretização desse sonho, o Dr. Machado havia reservado o imóvel que serviria de sede para o Museu, no tradicional bairro da Lapa (Zona Oeste de São Paulo), mais quatro imóveis e um considerável numerário (fala-se em algo superior a 3 milhões de reais da época) para subsidiar uma reforma naquela sede e sua manutenção futura.

Fachada do Museu Espírita na inauguração



A inauguração do Museu foi marcada com uma série de eventos especiais entre 18 e 25 de abril de 1997, contando com a presença de importantes personalidades do movimento espírita paulista, dentre os quais, representando a USE-SP, Nestor João Masotti e Antonio César Perri de Carvalho — estes que mais tarde iriam atuar em significativos papéis para a destinação da entidade recém-inaugurada.

Casal Elza e Paulo Toledo Machado, César Perri e Nestor Masotti

Enfim, o Museu abriu suas portas ao público, oferecendo-lhes considerável acervo bibliográfico (livros e periódicos espíritas, obras raras, inclusive exemplares originais da Revue Spirite e demais obras da codificação kardequiana), além de algumas obras de arte e outras peças (quadros, estatuetas, utensílios do século XIX etc.) num total em torno de 3 mil itens. Seu patrono fazia questão de dizer:

"O Museu não é ideia nossa, mas um sonho de Allan Kardec, e que viemos acalentando, também, desde a década de 1970".
Paulo Toledo Machado (USE-SP Lapa)



Dirigente Espírita, edição set-out. de 1997 (USE-SP)

Anos depois, acontecendo Nestor Masotti chegar à presidência da FEB, iniciou-se as conversações em torno de uma parceria, resultando daí a cessão do Museu, mais os bens a ele destinado pelo seu fundador, em favor da Federação, que então se encarregaria de administrar e investir no projeto. Por motivo de saúde, Masotti acabou licenciando-se do seu mandato, mas o acordo continuou em andamento através de seu sucessor, César Perri de Carvalho. O acordo enfim foi oficializado em 2012 e o museu reinaugurado em 2013, sob a curadoria de Oceano Vieira de Melo, então renomeado para "Museu e Biblioteca Espírita de São Paulo".

Peças do Museu Espírita de SP

Nesse ínterim, aventou-se a ideia de juntar ao Museu Espírita de São Paulo o projeto do Instituto Canuto Abreu, há tempos idealizado pelos familiares do memorável pesquisador Espírita que empresta o nome para o instituto, então sob os cuidados do seu neto Lian Abreu Duarte — que atuou como representante da família. Aliás, muito já se falava no acervo espírita de Canuto Abreu; sabia-se de sua grande coleção de manuscritos do próprio Allan Kardec (muitos deles inéditos) além de edições raras de livros e periódicos históricos para o Espiritismo.

Lian em primeiro plano e no detalhe, com o avô Canuto Abreu

Finalmente, feitas as tratativas, o combinado era o de se criar naquele local uma ala especial onde seria exposta a coleção histórica de documentos espíritas do Dr. Canuto. Sem dúvidas, uma grande aquisição para o Museu e a tão almejada oportunidade de, enfim, os estudiosos e pesquisadores espíritas se debruçarem sobre aquele extraordinário tesouro para a Historiografia da nossa doutrina.

Aos 94 anos de idade, o Dr. Paulo Toledo Machado faleceu em 14 de setembro de 2018, deixando dois filhos e seis neto.

Dr. Paulo Toledo Machado (fonte: Folha de São Paulo)

Quanto ao projeto de acoplar o Museu Espírita com a coleção do Dr. Canuto, entretanto, este não se desenvolveu no ritmo satisfatório para todas as partes; descontentes com o não cumprimento de certas exigências, a família desfez o acordo e recolheu sua coleção — que, como é sabido, acabou sendo emprestada aos cuidados da Fundação Espírita André Luiz - FEAL, em 2018, e mais adiante viria a servir de base para o lançamento do Projeto Allan Kardec da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.

Fachada da sede do Museu e Biblioteca Espírita de São Paulo (2021) 

Concluída a reforma básica, o local dispôs de uma ala para a exposição de seu acervo e um pequeno auditório, que leva o nome Francisco Cândido Xavier, onde regularmente se promovia palestras públicas aos sábados, até 2019, quando as atividades presenciais foram suspensas por conta da pandemia do Covid-19. 
A entidade também mantém o site oficial com o seguinte endereço: www.museuespirita.org.



O ALERTA NO MEIO ESPÍRITA PAULISTA

Deu-se, por conseguinte, que no último final de semana que recebemos uma mensagem de alerta que a FEB estaria vendendo alguns imóveis que recebera de doação e entre estes aqueles provindos do Dr. Paulo Toledo Machado, incluso o do Museu Espírita, que, por conta disso, estaria em risco de ser fechado. A Federação estava então convocando os membros efetivos de seu conselho para uma Assembleia Geral Extraordinária, a ser realizada online na manhã do feriado de 15 de novembro, justamente para deliberar a questão.

O alerta era claro: "O destino do Museu Espírita de São Paulo está definido: caminha-se para sua extinção, uma vez que de fato está fechado há alguns anos. Seu acervo deverá ser transferido para a sede de Brasília e lá sepultado em um mausoléu qualquer; é o que preveem algumas fontes internas da FEB.— exclama o artigo do blog Expediente-on-line. A razão e urgência da venda seriam por conta de dificuldades financeiras vividas pela Federação.

Conversamos com César Perri (ex-presidente da FEB e justamente quem oficializou o acordo com o fundador do Museu para a cessão da instituição à Federação) que nos confirmou o recebimento da convocação da Assembleia, já que ele, sua esposa e seu filho são membros votantes daquele conselho. Também preocupado com o destino do Museu, César Perri ainda relatou como se realizou a reunião deliberativa, precisamente na data agendada, à qual ele, além de levantar várias questões objetando a proposta original apresentada, ofereceu outra, a de negociar a transferência do acervo pertencente ao Museu Espírita para as dependências e os cuidados do Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro - CCDPE-ECM, com sede também na cidade paulistana. Segundo o ex-presidente, "A proposta não foi aceita e justificaram que manterão o acervo e a Assembleia autorizou para a FEB negociar com construtora a alienação dos três terrenos do Museu, para uma empresa construir um edifício, com direito a futuras salas", conforme o artigo publicado no último dia 16 (Novos rumos para o Museu Espírita de SP?)


A VERSÃO FEBIANA

Em comunhão de pensamentos, o curador do Museu, Oceano Vieira de Melo e alguns integrantes da FEB nos asseguraram uma versão bem distinta: em primeiro lugar, e acima de tudo, a extinção da instituição fundada pelo Dr. Machado não está em cogitação, bem como a transferência do seu acervo para fora da cidade de São Paulo. "Muito pelo contrário — Oceano nos informou: agora é que podemos estar certos da continuação do Museu, porque o planejamento é ganharmos, no mesmo local e num ambiente modernizado, instalações apropriadas para a manutenção das mesmas atividades do Museu e outras mais, inclusive com recursos para sua manutenção."

Oceano Vieira de Melo

O mesmo compromisso foi assumido por Geraldo Campetti, um dos atuais vice-presidentes da FEB, que acrescenta: "Todos nós só temos a ganhar com isso". Explicou-nos que nada há definido ainda; a deliberação votada é para autorizar uma negociação, que deverá ser apreciada posteriormente; o que existe sim — diz ele — é um interesse por parte de empreendedores imobiliários, coisa comum, de fato, mas com a proposta de harmonizar a construção de edifícios ali, reservando um espaço para as novas e modernas instalações do Museu, com uma compensação financeira vantajosa para, inclusive, a manutenção da entidade espírita, pelo que, não haveria razão para se preocupar com o rumo do acervo.

Geraldo Campetti

Quanto aos outros patrimônios, Campetti justifica que a venda é uma necessidade, até pela dificuldade de administrar a sua manutenção física e os cuidados com a burocracia de aluguéis etc., não havendo aí nenhum prejuízo para trabalhos doutrinários, já que são imóveis residenciais.


NOSSA OPINIÃO

Fossem os imóveis postos à venda pela FEB somente de caráter patrimonial, sem nenhum vínculo com qualquer atividade doutrinária, nada teríamos a comentar sobre, pois que representaria uma decisão puramente administrativa e, muito provavelmente acertada: Allan Kardec, Chico Xavier, Divaldo Franco e outros dirigentes espíritas receberam doações diversas e os converteram em moeda, aplicando-a em projetos produtivos — seja de âmbito social, seja doutrinário; não nos parece mesmo fazer sentido manter propriedades residenciais, que exigem toda uma burocracia administrativa.

Todavia, no tocante ao imóvel do mencionado Museu, a coisa é diferente: estamos falando de uma instituição doutrinária e de um acervo que é de interesse para o Espiritismo — sem contar o valor afetivo que a casa encerra, fruto de todo um esforço, o sonho de uma vida do casal que a fundou e patrocinou, inspirado num sonho do próprio codificador espírita Allan KardecA propósito, quase nada sabíamos do Dr. Paulo Toledo Machado e de sua inspiradora dedicação à causa de nossa Doutrina; a grata satisfação de conhecer esta obra nos leva a preparar um verbete com seu nome para a nossa Enciclopédia Espírita Online, que anunciaremos em breve. Pensamos, neste caso, que este é um patrimônio do movimento espírita, especialmente também dedicado à cidade de São Paulo, tanto que o nome da cidade consta na própria designação da fundação. Logo, faz bem pensarmos que o Museu permaneça na sua localidade natal.

Desta feita, consideramos justas as preocupações devotadas ao futuro do Museu, a destinação do seu acervo e a sua estadia na cidade paulistana. Convém à FEB afiançar a todos, com toda a transparência possível, o compromisso — moral, inclusive  assumido ao receber aquele patrimônio, de não fechar as portas do Museu, de promover a exposição do seu acervo e mantê-lo na cidade de origem, não necessariamente no mesmo endereço e nas mesmas instalações atuais, na Rua Guaricanga, 357, bairro da Lapa.

Somos da opinião, aliás, que a dita especulação imobiliária seja algo perfeitamente legal, normal e até positiva para a revitalização urbana, como acontece em todo o mundo, desde que atenda ao bem comum. Havendo então uma proposta que atenda às expectativas que listamos para a continuidade dos trabalhos do Museu, então devemos mesmo apoiar tal iniciativa.

Se a FEB está passando dificuldades financeiras (o que não seria nada anormal, dado a crise econômica mundial, ainda mais agravada com a pandemia da Covid-19, e a própria renovação tecnológica e a reformulação das mídias) nós temos a lamentar com isso, porque  por mais imperfeito que seja esse trabalho, como alguns o dizem — ela presta um serviço histórico ao Espiritismo, sem o qual não imaginamos a sobrevivência do movimento espírita; foi a FEB que catalisou as mais significativas iniciativas que fizeram do Brasil o solo mais fértil para as sementes da Terceira Revelação — isso para não dizer o único (pelo que nos consta, em nenhum outro país do mundo o percentual de espíritas e simpatizantes alcança dois dígitos da sua totalidade populacional); foi a FEB quem perseverou nas reedições das obras básicas da codificação kardequiana, dos clássicos de Léon Denis, Gabriel Delanne e outros, e deu ensejo para as obras inigualáveis de Chico Xavier, Yvonne A. Pereira etc. Se a gestão da entidade não está a contento, qual outra é exemplo para nós? Nem a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas de Kardec nem a Sociedade Anônima de Madame Kardec escaparam das fraquezas humanas. Se não pudermos colaborar efetivamente com a gestão atual por meios mais diretos, ao menos podemos vibrar para que essa diretoria seja bem inspirada no exercício de seu mandato, reparando possíveis equívocos e potencializando as boas atividades da casa. Ademais, nosso confrade de Brasília, Jorge Hessen nos faz observar um detalhe igualmente relevante: em torno da FEB há trabalhadores, e por trás deles famílias, que sobrevivem do trabalho lá gerado.

O que mais almejamos é que a nossa doutrina seja propagada pelos mais diferentes meios, dentre os quais um museu parece-nos de extrema importância, para ajudar a preservar a memória histórica do Espiritismo — como almejava Kardec. E o sentido desta propagação não por vaidade ideológica, mas por acreditarmos que a nossa doutrina é a melhor escola para a espiritualização da nossa gente; que se ela fosse o guia de conduta geral e a fonte de inspiração para todas as atividades da vida humana, nosso mundo seria muito melhor. Não importaria então que as pessoas se convertessem e se declarassem espíritas, mas que abraçássemos os valores espirituais, as virtudes que o Espiritismo nos oferece como modelo de prática cotidiana.

Que maravilhoso seria, por exemplo, que fossem reunidas e colocadas para exposição pública as coleções do Museu Espírita, do Dr. Canuto Abreu, do Museu AKOL, do CCDPE-ECM e outras tantas, num esforço em conjunto para a elaboração de eventos promocionais nesse sentido, quem sabe até eventos itinerantes, em outras cidades e estados do Brasil. Será que é tão difícil assim?

Continuaremos acompanhando o caso, vibrando para que nenhuma porta espírita se feche e que os dirigentes espíritas estreitem os laços entre si.

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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

"Portifólio Fontes Primárias", série com Bruno Tavares e Adair Ribeiro


O extraordinário movimento de recuperação de manuscritos originais de Allan Kardec e outras importantes documentos históricos relacionados ao Espiritismo — especialmente deste 2018, por ocasião das investigações sobre a altenticidade da 5ª edição do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, edição dita "revisada, corrigida e ampliada" — fez revigorar no meio espírita o interesse e o gosto pela historiografia da nossa amada doutrina.

E para acompanhar todo essa evoção historiográfica, nada como acompanhar a série Portifólio Fontes Primárias, com o comunicador espírita Bruno Tavares e o pesquisador Adair Ribeiro, diretor do Museu Online do Espiritismo e um dos idealizadores do especial Projeto Allan Kardec da Universidade Federal de Juiz de Fora - Minas Gerais.

A série traz um episódio semanal, lançado com transmissão pelo YouTube todo domingo, às 19h (hora de Brasília), livre e recomendado para todas as idades.

Já são vários episódios registrados, cuidando de temas muito relevantes para compreendermos o processo de desenvolvimento do Espiritismo, por exemplo:

>>> Acesse aqui a playlist da série.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Inscrições abertas para o curso "VPE - Vivenciando a Prática Espírita"

Sou espírita: mas, então, o que fazer com o Espiritismo? Como praticar a doutrina nos moldes da codificação kardequiana?

Este é o enfoque central do novo estudo que acaba de ser lançado na PEADEintitulado "VPE - Vivenciando a Prática Espírita", sob coordenação da equipe Luz Espírita e o Grupo Marcos.

Para quem ainda não conhece a PEADE, ou seja, Plataforma de Estudos Avançados da Doutrina Espirita, é, exatamente como o nome diz, uma central de estudos em um ambiente virtual, online, pelo qual os interessados poderão estudar, pesquisar e se confraternizar, através da internet, a partir dos vários cursos lá já oferecidos e outros que estão por vir, como este que acabamos de anunciar.

As inscrições já estão abertas, tendo como requisito a conclusão do curso "ECE- Estudo do Conceito de Espiritismo".

Lembrando que é tudo absolutamente gratuito.

Visite a página oficial da PEADE, inscreva-se e experimente os cursos que já estão à disposição de todos.


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Duras, mas necessárias reflexões sobre a morte da cantora Marília Mendonça

Na última sexta-feira (5 de novembro, 2021) o Brasil entrou em choque e logo mais em comoção generalizada em decorrência da queda de um avião bimotor particular que resultou na morte da cantora Marília Mendonça e mais quatro pessoas, que viajavam de Goiânia (capital do Estado de Goiás) a Caratinga (Minas Gerais) local da queda, a cerca de 2 km da pista de aterrissagem. A repercussão desse acidente nos enseja várias reflexões  muitíssimo duras, porém necessárias, se quisermos colher bons frutos da tragédia. Ei-las adiante.

Foto: Carlos Eduardo Alvim/TV Globo

A surpresa da morte

A comoção generalizada que tomou conta do país tem, em parte, a ver com a surpresa da morte, como se o morrer fosse um fenômeno raro — tal um meteoro que caísse em nosso planeta. O espanto que isso causa nas pessoas comuns revela uma triste realidade: o despreparo, a falta de uma educação para a morte, a ignorância e o desleixo popular pelas importantes questões filosóficas que dizem respeito a todos nós — sem exceção.

Este impacto, frequente em nossos dias, certa vez também foi sentido por Allan Kardec, por ocasião da morte de Pierre-Paul Didier, seu amigo e editor de várias edições das obras básicas do Espiritismo. Disse o codificador da Doutrina Espírita, num discurso em homenagem àquele confrade:

"Há nesta morte, por assim dizer fulminante, um grande ensinamento, ou melhor, uma grande advertência: é que nossa vida se mantém por um fio, que pode romper-se quando menos esperamos, pois muitas vezes a morte chega sem avisar. Assim adverte os sobreviventes para que estejam sempre preparados para responder ao chamado do Senhor e prestar conta do emprego da vida que Ele nos deu."
Revista Espírita, jan. de 1866: 'Necrólogo'

Quem igualmente tratou com justeza do assunto foi o memorável filósofo espírita José Herculano Pires em Educação para a Morte (ebook grátis aqui) chamando a atenção inclusive da deseducação das tradições gerais para um fenômeno tão natural e positivo, então colocado com todo o pesar, apavorando os espíritos e fortalecendo a cultura materialista ao supervalorizar a vida física em detrimento da consciência da vida espiritual:

"As religiões da morte falham nessa fase de transição, interpretando negativamente o fenômeno positivo e renovador que sustenta a juventude do mundo. Por isso Jesus ensinou que aqueles que se apegam à própria vida a perderão, e os que a perdem, na verdade, a ganharão. A vida em abundância dos Evangelhos é a integração do homem na plenitude da sua consciência divina."
Educação para a Morte, J. Herculano Pires - cap. 2

Em Espiritismo, a morte é um evento natural e positivo, e aquele que se educa para morrer felizmente se educa para bem despertar no além-túmulo, sendo a Doutrina Espírita a sublime escola para tal fim; por outro lado, aqueles que ignoram essa realidade, a situação é outra e gradativamente mais penosa conforme sua materialização:

"Surpreendido de improviso pela morte, o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que nele se operou; considera ainda a morte como sinônimo de destruição e de aniquilamento. Ora, porque pensa, vê, ouve, tem a sensação de não estar morto. (...) Para aquele cuja consciência ainda não está pura, a perturbação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à proporção que ele da sua situação se compenetra."
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - comentário à questão 165

Falta à nossa cultura comum, portanto, um despertamento para os princípios filosóficos, a reflexão séria sobre o sentido da vida e, por conseguinte, a necessidade da morte. A esse respeito, completaria Herculano:

"A Educação para a Morte não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do Céu. É um processo educacional que tende a ajustar os educandos à realidade da Vida, que não consiste apenas no viver, mas também no existir e no transcender."
Educação para a Morte, J. Herculano Pires - cap. 2


O lamento pela morte prematura

A morte de Marília Mendonça, além de inesperada, afronta ao cotidiano das pessoas comuns em razão de sua jovialidade — apenas 26 anos — e, dizem, de todo um futuro promissor, do qual ela pudesse gozar do sucesso que adquirira em sua carreira de cantora, aliás no apogeu, sendo ela o grande ícone de uma geração que revolucionou a música brasileira com um gênero batizado de "feminejo" (sertanejo feminino); ela fora condecorada pela mídia a "rainha da sofrência". É, em suma, uma morte daquelas que revoltam as massas, levando as pessoas a colocarem em questão até mesmo a justiça, a bondade e a sabedoria de Deus. Por que arrancar-lhe de um sucesso pelo qual ela lutou com tanta dedicação? Por que ela e não tanta gente cretina que tem no mundo, tantos malfeitores, corruptos, assassinos sanguinários etc...?

Aqui, mais uma vez, evidencia-se a ignorância das questões maiores da vida. Sobre perdas de pessoas amadas, sobre mortes prematuras e mortes de pessoas "boas" em lugar de "criminosos", que prosperam em saúde e disposição para seus maus intentos, bem nos ensina a Doutrina Espírita, exemplarmente no capítulo V de O Evangelho segundo o Espiritismo (ebook aqui). Não falta, pois, o alerta enérgico dos Espíritos sobre esse pensamento medíocre, de medir Deus pelos valores terrenos, de avaliar a justeza das coisas pelos interesses materialistas:

"Homens! É nesse ponto que precisam se elevar acima do materialismo da vida, para compreenderem que muitas vezes o bem está onde julgam ver o mal, a sábia previdência onde pensam aproximar a cega fatalidade do destino. Por que avaliar a justiça divina pela sua? Podem supor que, por mero capricho, o Senhor dos mundos se aplique a lhes infligir penas cruéis? Nada se faz sem um fim inteligente e, seja o que for que aconteça, tudo tem a sua razão de ser. Se observassem melhor todas as dores que vêm até vocês, nelas encontrariam sempre a razão divina, razão regeneradora, e os seus miseráveis interesses se tornariam de consideração tão insignificante que os atirariam para o último plano."
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. V, item 21

Nossa sociedade está tão engolida pela cultura materialista que não vê senão o que satisfaz às aspirações de um sucesso nesse mundo efêmero; ela está tão hipnotizada nas coisas mundanas que parece não ter o mínimo discernimento sobre o que realmente dura e importa para o seu espírito, tampouco para ver numa tragédia como essa um benefício, talvez, por exemplo, o de livrar a entidade que outrora animara a identidade da falecida cantora de graves comprometimentos morais dos quais seu espírito iria se amargurar de remorsos por anos ou séculos, porque — é preciso que se diga o hall da fama, especialmente no meio artístico, atualmente é o da desgraça para o Espírito; o chamado mundo das celebridades não passa de um teatro de competição materialista, falsidade, de ostentação, luxúria, drogas e outras pragas morais das quais poucos conseguem escapar ilesos. O pior é que esses "ícones", esses influenciadores, esses "modelos de vida" acabam arrastando multidões para as mesmas desgraças de que sofrem.

Definitivamente, é bom que sobretudo os mais jovens saibam, o status das pessoas nesse mundo não representa a sua real situação espiritual. As pessoas "belas" e "empoderadas" nessa vida carnal não se acharão necessariamente bonitas e poderosas no despertar da vida pós-morte.

Se para os que estão mal encaminhados no mundo a morte prematura é quase sempre um livramento de que ninguém deveria se queixar, para uma pessoa boa a mesma morte não deixa de ser uma bênção, porque a recolhe de um palco dramático para um lugar certamente melhor.

A mediunidade nos deu inúmeros exemplos de Espíritos que, recém-desencarnados, só encontraram a decepção e a angústia, depois de uma vida de frivolidades, tal esse testemunho:

"O orgulho me perdeu na Terra. Quem poderia compreender o nenhum valor dos reinos da Terra, se eu o não compreendia? O que eu trouxe comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para tornar mais terrível a lição, ela nem sequer me acompanhou até o túmulo! Fui rainha entre os homens e julguei que iria entrar no reino dos céus como uma rainha. Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh, como então compreendi a improdutividade das honras e grandezas que com tanta avidez se valorizam na Terra!"
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. II, item 8

É urgente nos reeducarmos e educarmos nossas crianças e nossos jovens para os valores espirituais, a fim de livrá-los dessa desgraça que é a corrida à glória materialista.


O espetáculo do luto

À morte de Marília Mendonça se seguiu uma polêmica: o espetáculo do velório, a respeito do comportamento de vários artistas  desde palavreado e risos até roupas inapropriadas no velório.

É óbvio que, enquanto deseducadas sobre a morte, as pessoas em geral não têm o menor cerimonial para estar em um velório — que costuma ser um momento bastante delicado para Espíritos insuficientemente espiritualizados. Não é exagero imaginarmos o desgosto que os recém-desencarnados podem sentir ao assistirem ao cortejo do corpo que vestiam, ao sentirem certas vibrações que os presentes ali emitem — consciente ou inconscientemente. É gente querendo aparecer, gente querendo parecer mais íntimo da pessoa falecida, é gente que vai para policiar os outros...

É uma diversidade tamanha a de comportamentos nos funerais, quase todos desconhecendo que comumente o Espírito do morto está ali, bem ao lado, recebendo as impressões — boas ou más — de cada um dos presentes.

De um lado, há os ortodoxos que pregam as mais esdrúxulas "regras do luto"; do outro, há os "especialistas" que defendem a liberalidade apoiados na ideia de que, em face da morte de alguém importante, "cada um reage do seu jeito". Mas uma compreensão dos valores espirituais certamente nos encaminha ao justo meio, longe da ortodoxia e da liberalidade. Em seu livro Quem Tem Medo da Morte? (ebook) o saudoso Richard Simonetti nos convida a uma solenidade quando em um funeral:

"Quando  comparecemos  a  um  velório  cumprimos sagrado dever de solidariedade, oferecendo conforto à família. Infelizmente, tendemos a fazê‐lo pela metade, com a presença física, ignorando  o  que  poderíamos  definir  por  compostura espiritual,  a  exprimir‐se  no respeito  pelo  ambiente  e  no empenho de ajudar o morto."
Quem Tem Medo da Morte?, Richard Simonetti - "Velório"

Sem uma devida espiritualização, a tendência é ficarmos desnorteados e, ao invés de contribuirmos fluidicamente para um melhor refazimento do desencarnado em seu retorno ao ambiente espiritual, podemos até lhe infligir uma penosa perturbação.



Comoção massificada

Outra reflexão oportuna é a comoção massificada que se faz nas mídias, muitas vezes atendendo interesses apelativos. Veja-se que na queda daquele avião morreram ao mesmo tempo cinco pessoas e para o povão parece que apenas uma tinha nome — Marília Mendonça; os demais, quando citados aqui e acolá, nada mais eram do que um "piloto", um "copiloto", um "produtor", um "tio e assessor da cantora" (respectivamente: Geraldo Medeiros Júnior, Tarciso Pessoa Viana, Henrique Ribeiro e Abicieli Silveira Dias Filho).

Na mesma semana, quatro dias antes da morte da rainha do feminejo, precisamente na segunda-feira, 1 de deste novembro, havia falecido Nelson Freire, reputado um dos maiores pianistas do século, morte essa pouco noticiada e nenhuma significativa comoção.

Nelson Freire (1944-2021)

A morte por causas naturais e os seus 77 anos de idade seriam razões para se ignorar esta perda para o mundo da música?

Não, definitivamente, se o "mundo da música" de nosso tempo se baseasse numa arte voltada para a sublimação ser — e não para a comercialização do fútil entretenimento humana tal como é hoje em dia.

“Fazer música não é uma competição, você tem que estar tranquilo. Não tem que ter nem menos nem mais responsabilidade do que a música” — disse ele no filme-documentário Nelson Freire, dirigido por João Moreira Salles e lançado em 2003, mas que certamente pouca gente viu — e que, aliás, é muito fraco, incompatível com a altura do músico (para assinantes do GloboPlay).


Mineiro, de Boa Esperança, Nelson José Pinto Freire (18/10/1944 - Rio de Janeiro, 1/11/2021) foi um prodígio na música: começou a tocar piano aos três anos de idade e com cinco já fez o seu primeiro recital tocando Sonata para piano em Lá maior, K331 de Mozart. Ele apareceu como solista com as orquestras mais prestigiadas do mundo, incluindo a Orquestra Filarmônica de Berlim, a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, a Orquestra Real do Concertgebouw, a Orquestra Sinfônica de Londres, a Orquestra de Paris, a Orquestra Nacional da França, a Orquestra Filarmônica de Nova York, a Orquestra de Cleveland e Orquestra Sinfônica de Montreal, entre várias outras. Foi três vezes indicado ao Grammy Award, mas infelizmente não foi contemplado.

Nelson Freire realmente não é deste mundo da música. Para se ter uma ideia, a "gravação do ano" consagrada pelo Grammy 2021 é Everything I wanted, de Billie Eilish na qual a predominância é a de uma batida eletrônica, quase sem variação. Por sua vez, o nosso virtuoso pianista era intérprete de Mozart, Chopin, Bach, Brahms, dentre outros.

Saiba mais sobre Nelson Freire na Wikipédia.


Responsabilidade musical

E já que Nelson Freire nos falou sobre responsabilidade musical, vamos à reflexão derradeira, sem nenhuma intenção de denegrir a imagem de ninguém, mas não fugindo do compromisso espírita que temos com a ética e a moral que a nossa doutrina nos impõe. Teremos de falar então dos "sucessos" da rainha da sofrência.

Veja-se a mensagem da canção Coração Bandido que Marília Mendonça cantou em parceira com Maiara e Maraisa:

"(...) Coração bandido esse meu
Vive traindo você
Coração ingênuo é o seu
Todo esse tempo sem perceber
Eu não vou mais te esconder
Vou contar tudo pra você
Contar que beijo em outra boca
Dizer que já tem mais de um ano
Dizer também que eu te amo
Mas gosto de outra..."

Em Bebi, Liguei, encontramos as seguintes "pérolas" em versos:

"Acordei mais uma vez embriagado
E o seu cheiro impregnado na minha roupa (...)
Faltou coragem pra dizer que não
Bebi, liguei, parei no seu colchão
Chego apaixonado e saio arrependido
Amar por dois só me dá prejuízo..."

Ah, mas é só uma música — vão dizer —, nada demais!

Meu Deus! Quanta ingenuidade — para não dizer irresponsabilidade. O que estão fazendo com a música, essa sublime arte, é um crime moral sem tamanho. A música de massa (e é mesmo um sacrilégio chamar essas produções atuais de "música") tem sido um dos — senão o maior e mais eficiente — recursos que os Espíritos inferiores têm mais usado para obsediar as mentes fracas, embaladas pelos apelos instintivos, enquanto a verdadeira Música tem por destino elevá-las à sensibilidade espiritual.

O que é toada da moda senão uma apologia ao amor frívolo, à luxúria, à bebedeira, a tudo que afasta nossa consciência de Deus e dos valores espirituais, não? E é essa a trilha sonora da nossa vida atual, nos grandes eventos artísticos, nos canais de mídias, nas festinhas caseiras etc. São essas músicas rasteiras que vão embalar os natais, os aniversários, as bodas e tudo o mais de que até mesmo muitos espíritas convictos tomam parte passivamente. E olhe que o "feminejo" é um dos gêneros mais comportados do momento. Nem precisamos falar do que fizeram com o nosso samba, como o nosso forró pé-de-serra, com a música sertaneja...

Reiteramos que não é nosso objetivo nem nossa vontade denegrir a imagem de ninguém, tampouco perturbar o espírito da recém-falecida cantora, para quem enviamos as mais nobres vibrações, ao lado de solicitação para que os benfeitores espirituais a acolham e a animem na readaptação à vida espiritual, com a esperança de que ela tenha, em uma nova oportunidade reencarnatória, a chance de usar seus talentos musicais para enobrecer esta arte e inspirar a todos às grandezas da espiritualidade. Contudo, não nos omitimos à voz da consciência que nos incita às reflexões que ora propomos.

Duras reflexões, bem sabemos, mas necessárias. Nossa aspiração maior é a de que tenhamos um despertar consciencial para os nossos compromissos espirituais — ainda que seja por meio de tragédias.