sábado, 28 de novembro de 2020

A Gênese revisada: cap. XV, item 67 suprimido - "Desaparecimento do corpo de Jesus"


Para uma melhor compreensão desta postagem, ver o sumário Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.

Analisamos aqui o item 67 do capítulo XV ("Os Milagres") publicado na primeira versão da obra (da 1ª à 4ª edição) e excluído em A Gênese revisada (desde a 5ª edição).

Logo a seguir, os três parágrafos do referido item transcritos do original em francês:

67 - Qu'est devenu le corps charnel ? C'est un problème dont la solution ne peut se déduire, jusqu'à nouvel ordre, que par des hypothèses, faute d'éléments suffisants pour asseoir une conviction. Cette solution, d'ailleurs, est d'une importance secondaire, et n'ajouterait rien aux mérites du Christ, ni aux faits qui attestent, d'une manière bien autrement péremptoire, sa supériorité et sa mission divine.

Il ne peut donc y avoir sur la manière dont cette disparition s'est opérée que des opinions personnelles, qui n'auraient de valeur qu'autant qu'elles seraient sanctionnées par une logique rigoureuse, et par l'enseignement général des Esprits ; or, jusqu'à présent, aucune de celles qui ont été formulées n'a reçu la sanction de ce double contrôle.

Si les Esprits n'ont point encore tranché la question par l'unanimité de leur enseignement, c'est que sans doute le moment de la résoudre n'est pas encore venu, ou qu'on manque encore des connaissances à l'aide desquelles on pourra la résoudre soi-même. En attendant, si l'on écarte la supposition d'un enlèvement clandestin, on pourrait trouver, par analogie, une explication probable dans la théorie du double phénomène des apports et de l'invisibilité. (Livre des Médiums​, chap. IV et V.) 


Agora, vamos à tradução para o nosso português:

67.- ​O que aconteceu com o corpo carnal? Este é um problema cuja solução, até nova ordem, não se pode deduzir senão por hipóteses, por falta de elementos suficientes para estabelecer uma convicção. Esta solução, aliás, é de uma importância secundária, e não acrescentaria nada aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de uma maneira muito concreta, sua superioridade e sua divina missão. 
Portanto, acerca da maneira como esse desaparecimento ocorreu, não há nada mais do que opiniões pessoais, que não teriam qualquer valor até que fossem sancionadas por uma lógica rigorosa, e pelo ensino geral dos Espíritos; ora, até o presente, nenhuma dessas teorias formuladas recebeu a sanção desse duplo controle. 
Se os Espíritos ainda não puderam resolver a questão pela unanimidade de seus ensinamentos, é que certamente o momento da resolução ainda não chegou, ou porque ainda nos falta conhecimentos com os quais nós mesmos poderíamos resolvê-la. Enquanto isso, se afastarmos a suposição de uma remoção clandestina, por analogia, poderíamos encontrar uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno de transporte e de invisibilidade. (​O Livro dos Médiuns​, cap. IV e V.)


Contexto histórico

Desde a primeira denúncia de Henri Sausse, de uma tal conspiração para adulterar a obra de Allan Kardec, a supressão deste item tem sido apontada como uma "prova cabal" para justificar a motivação dos conspiradores: promover as ideias roustainguistas (saiba mais aqui).

Em Os Quatro Evangelhos, publicado em 1866, o jurista espírita Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879) lança a ideia — crendo ser uma revelação dos quatro apóstolos evangelistas  de que Jesus não teria tido um corpo carnal (pela concepção de que a matéria é uma impureza e, portanto, incompatível com a santidade do Cristo), e que o Salvador teria feito uso de um "corpo fluídico", uma espécie de "agênere", para apresentar-se diante dos homens na Terra. Com isto, o desaparecimento do seu corpo (conforme narrado na Bíblia) evidenciaria essa ideia, sendo assim um desaparecimento natural.

Então, alguns estudiosos espíritas aderentes á tese da adulteração de A Gênese vão dizer que a exclusão deste item realmente prejudica o pensamento de Kardec sobre a presente questão, porque "deixa de enfatizar" que  como o pioneiro espírita pensava  Jesus teve sim um corpo carnal, em oposição ao roustainguismo.

Será mesmo?


A lógica de Kardec

Em seu livro O Legado de Allan Kardec (2018), a diplomata brasileira e pesquisadora espírita Simoni Privato Goidanich reacende as denúncias de Henri Sausse e também evoca esse item suprimido para sentenciar a edição revisada como "adulterada". Ela lembra que Kardec rechaçou a ideia do corpo fluídico de Jesus logo que a obra de Roustaing foi lançada. Escreve ela:

Segundo havia anunciado na Revisa Espírita correspondente ao mês de junho de 1866, Allan Kardec, com uma lógica rigorosa e com a certeza de estar de acordo com o ensinamento geral dos Espíritos sobre o tema, tratou categoricamente da questão do corpo de Jesus nas quatro edições que publicou de La genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme, especialmente no capítulo XV, itens 64 a 68:
O Legado de Allan Kardec, Simoni Privato Goidanich - cap. 15

De fato, Kardec havia feito uma resenha de Os Quatro Evangelhos na Revista Espírita, mostrando respeito e consideração pelo esforço do seu confrade espírita, mas questionando — no nosso entender, ainda muito timidamente — essa ideia de corpo fluídico, certamente, com o cuidado para provocar cisão. Insistimos: Kardec foi bastante brando na sua crítica à obra, ao ponto de recomendá-la a todos os espíritas:

Essas observações, subordinadas à sanção do futuro, não diminuem em nada a importância dessa obra que, ao lado de coisas duvidosas segundo nosso ponto de vista, contém inegavelmente outras boas e verdadeiras, e será consultada com proveito pelos espíritas sérios.
Revista Espírita, junho de 1866.

Goidanich, todavia, vê que "a lógica rigorosa de Kardec", tanto na Revista Espírita quanto na edição original de A Gênese, já teria fechado a questão. 

Portanto, após a análise realizada na Revista Espírita, por ocasião da publicação da obra de Roustaing, afirma-se categoricamente e explica-se de maneira clara, nas quatro primeiras edições de La genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme, publicadas por Allan Kardec, em 1868, que Jesus teve um corpo carnal. Trata-se, pois, de refutação terminante da teoria apresentada na obra de Roustaing.
O Legado de Allan Kardec, Simoni Privato Goidanich - cap. 15

De nossa parte, ao contrário, lemos que o codificador — por mais convicto que estivesse, pessoalmente — preferiu deixar a questão em aberto na Revista Espírita, quando disse que essas observações estavam "subordinadas à sanção do futuro" (ver citação anterior).

Quando da publicação original de A Gênese, concordamos com a Simoni Privato que Kardec, com uma lógica rigorosa, tratou categoricamente da questão do corpo de Jesus, encerrando a questão. Como vemos a seguir, ele vai ser explícito em sustentar que:

"Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da sua vida, revela as qualidades inconfundíveis da natureza corpórea." (item 65, §1)

"(...) Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida; ele foi sepultado igual aos corpos comuns, e qualquer pôde vê-lo e tocá-lo. Após sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, ele não morreu de novo; seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de uma natureza diferente da daquele que pereceu na cruz; pelo que devemos concluir que, se Jesus pôde morrer, é que ele tinha um corpo carnal." (item 65, §4)

"(...) Num corpo sem Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito que não tem corpo carnal não pode experimentar os sofrimentos — que são o resultado da alteração da matéria; donde também é preciso concluir que se Jesus sofreu materialmente — do que não podemos duvidar — é que ele tinha um corpo material de uma natureza igual a de todo o mundo." (item 65, §5)

E o que aconteceu com estes itens originalmente publicados na primeira edição quando Kardec fez a revisão do livro? — Nada! O mesmo texto está presente na nova edição, mantendo assim a ideia coerente de que Jesus teve um corpo carnal, como qualquer homem encarnado, como se lê em mais este trecho:

"(...) Jesus teve então, como qualquer pessoa, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que marcaram a sua vida." (item 66, §2)

E quanto ao item suprimido? Qual o prejuízo de sua retirada para o conjunto da obra?

Nenhum prejuízo! O item tratado se dedica exclusivamente à questão do que ocorreu para que o corpo de Jesus desaparecesse — e nada interfere nas conclusões sobre a natureza carnal ou fluídica desse corpo. Então, voltando à indagação sobre o sumiço do corpo do Cristo, Kardec diz que "Este é um problema cuja solução, até nova ordem, não se pode deduzir senão por hipóteses, por falta de elementos suficientes para estabelecer uma convicção."

E para todos os fins, ele considera que a solução para este caso "é de uma importância secundária", pois a questão realmente importante é aquela, quanto a natureza do corpo de Jesus.

Certamente que nos poderia ser interessante sabermos o que aconteceu: foi uma remoção clandestina? (Se sim, por quem? Por quê? Para onde?...) Foi um fenômeno de transporte? (O corpo foi deslocado do túmulo para outro lugar por ação mediúnica?) Foi um fenômeno de invisibilidade? (O corpo estava lá, no túmulo, mas por ação magnética foi ocultado à vista de quem visitou o local?). Ora, Kardec não desdenhou a importância dessa dúvida, mas ponderou que isso "não acrescentaria nada aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de uma maneira muito concreta, sua superioridade e sua divina missão." Logo, o item poderia muito bem ser excluído sem prejudicar a obra e até a enxugaria, para não dar margem a discussões secundárias e desviar o foco principal de seu conteúdo, além de evitar que o leitor tomasse equivocadamente a opinião pessoal de Kardec como a resposta para a questão.

Ou seja, precisamente este item dava margem para que diversas hipóteses pudessem ser aventadas para explicar o desaparecimento do corpo de Jesus, dentre essas hipóteses  por que não? — alguma que corroborasse a concepção roustainguista.

Em suma, se se pretendia distorcer o pensamento de de Kardec quanto a esse parecer, certamente que as mexidas indevidas deveriam ser nestes itens supracitados, que, no entanto, não sofreram alterações e estão presentes nas duas versões da obra. E, pelo mesmo raciocínio, o único trecho que poderia pôr em dúvida as conclusões do Mestre lionês foi exatamente o de número 67, que sabiamente foi excluído por Kardec.


Epílogo

Faz bem lembrarmos que o roustainguismo só entrou no cenário espírita a partir das investidas de Jean Guérin, testamentário de Roustaing, no final da década de 1870 — quer dizer, muito depois da publicação da edição revisada. A propósito, é interessante que mesmo Simoni Privato Goidanich reconhece que Pierre-Gaëtan Leymarie (diretor da Sociedade Anônima e suposto agente direto das ditas "adulterações") não era nada simpático ao roustainguismo, conforme registro de uma carta dele endereçada a um tal de Sr. Mendy, datada de 5 de maio de 1878, e que a seguir transcrevemos do citado livro da diplomata:

“[...] Conheceis melhor que eu os bordeleses; essas boas pessoas estão equivocadas e pagam muito caro por isso; somente o Sr. Comera e o Sr. Krel são partidários de Allan Kardec, ao passo que Roustaing, a Sra. Collignon e tutti quanti admiram-se a si mesmos da cabeça aos pés – são FRUTOS SECOS que revolucionarão somente seus cérebros. Roustaing morrerá na impenitência final; acreditou que o processo [dos espíritas] havia matado o espiritismo. esse pobre homem! A Sra. Collignon (a médium de Roustiang), a incompreendida, teve um acesso de alegria feroz ao saber-me prisioneiro. Devemos compadecer-nos deles, pois lhes falta um sentido, e me fazem rir seus arranhões. Repito-vos, contende esses intemperantes. Esperando, etc. — LEYMARIE.”

Outro detalhe interessante é que a edição revisada acrescentou ao final deste capítulo ora evocado um pequeno parágrafo, que também tem sido reclamado pelos adeptos da tese de adulteração como mais uma evidência para a acusação. Disto, porém, trataremos num post à parte. Aguardem!

Saiba mais em Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Allan Kardec por Maurice Lachâtre


Felizmente o movimento espírita tem sido bastante agraciado estes tempos com a onda atual de documentos originais sendo disponibilizados online, por exemplo, os registros históricos da Biblioteca Nacional da França, através de seu site oficial Gallica, e outras fontes extraordinárias, como a recuperação de manuscritos de Kardec dispostos pelo Museu Virtual do Espiritismo do AKOL e do Projeto Allan Kardec da Universidade Federal de Juiz de Fora. Com isso, os pesquisadores têm podido remontar peças históricas e então desenvolver melhor os contextos de vários episódios e conceitos.

Um exemplo claro desses desenvolvimentos é quanto ao papel de Maurice Lachâtre na promoção do Espiritismo no meio intelectual através de suas edições, especialmente das enciclopédias que ele compôs e nas quais incluiu verbetes com apreciações de interesse da Doutrina Espírita, inclusive os verbetes "Allan Kardec" e "Espiritismo", além de outros correlacionados, como "Magnetismo" e "Homeopatia".

Maurice Lachâtre (1814-1900)

Antes lembrado pelos espíritas tão somente pelo episódio Auto de fé de Barcelona, por ter sido o destinatário dos livros queimados pela Inquisição católica espanhola, Maurice Lachâtre passou a receber uma maior notoriedade no nosso movimento depois de novas informações colhidas em nossas pesquisas. Uma dessas informações preciosas é a de que ele não apenas conheceu Allan Kardec pessoalmente, mas que foi sócio comercial deste ainda quando o codificador não se ocupava da pesquisa espiritual e era apenas o pedagogo Rivail.

Conforme as descobertas do CSI do Espiritismo verificáveis no livro De Rivail a Kardec de Carlos Seth, Lachâtre e Rivail montaram em 1839 um negócio do tipo "banco de trocas" e editaram um jornal temático para tais fins. Disto podemos deduzir que eram amigos, disfrutavam de mínima confiança mútua e, portanto, cada qual deveriam conhecer bem as procedências do outro. Desta maneira, os dados biográficos que mais tarde Lachãtre iria fornecer de Kardec em suas edições seriam de considerável fidelidade.

Verbete Maurice Lachâtre na Enciclopédia Espírita Online.

E de fato Lachâtre não vai se furtar de dar destaque ao ex-sócio quando da composição de sua importante obra Novo Dicionário Universal (Nouveau Dictionnaire Universel), de 1865, da qual o próprio Kardec foi um dos seus colaboradores. No Tomo Primeiro desta edição, agora disponibilizada online e gratuitamente pela Gallica (em francês), consta o verbete "Allan Kardec", que aqui transcrevemos e traduzimos. Veja abaixo:


Transcrição do original em francês:

ALLAN KARDEC (Hippolyte-Léon-Denizard Rivial). Chef et fondateur de la doctrine dite spirite, né à Lyon le 3 octobre 1804, originaire de Bourg en Bresse, département de l’Ain. Quoique fils et petit-fils d’avocats, et d’une ancienne famille qui s’est distinguée dans la magistrature et le barreau, il n’a point suivi cette carrière ; de bonne heure il s’est voué à l’étude des sciences et de la philosophie. Elève de Pestalozzi, en Suisse, il devint un des disciples éminents de ce célèbre pédagogiste, et l’un des propagateurs de son système d’éducation, qui a exercé une grande influence sur la réforme des études en France et en Allemagne. C’est à cette école que se sont développées les idées qui devaient plus tard le placer dans la classe des hommes de progrès et des libres penseurs. Né dans la religion catholique, mais élevé dans un pays protestant, les actes d’intolérance qu’il eut à subir à ce sujet lui firent, dès l’âge de quinze ans, concevoir l’idée d’une réforme religieuse, à laquelle il travailla dans le silence pendant de longues années, avec la pensée d’arriver à l’unification des croyances ; mais il lui manquait l’élément indispensable à la solution de ce grand problème. Le spiritisme vint plus tard le lui fournir et imprimer une direction spéciale à ses travaux. Vers 1850, dès qu’il fut question des manifestations des esprits, Allan Kardec se livra à des observations persévérantes sur ces phénomènes, et s’attacha principalement à en déduire les conséquences philosophiques. Il y entrevit tout d’abord le principe de nouvelles lois naturelles : celles qui régissent les rapports du monde visible et du monde invisible ; il reconnut dans l’action de ce dernier une des forces de la nature, dont la connaissance devait jeter la lumière sur une foule de problèmes réputés insolubles, et il en comprit la portée au point de vue scientifique, social et religieux. Ses principaux ouvrages sur cette matière sont : le Livre des esprits, pour la partie philosophique, et dont la première édition a paru le 18 avril 1857 ; le Livre des médiums, pour la partie expérimentale et scientifique (janvier 1861) ; l’Évangile selon le spiritisme, pour la partie morale (avril 1864) ; le Ciel et l’Enfer, ou la justice de Dieu selon le spiritisme (août 1865) ; la Revue Spirite, journal d’études psychologiques, recueil mensuel commencé le 1er janvier 1858. Il a fondé à Paris, le 1er avril 1858, la première société spirite régulièrement constituée sous le nom de Société parisienne des études spirites, dont le but exclusif est l’étude de tout ce qui peut contribuer au progrès de cette nouvelle science. Allan Kardec se défend lui-même d’avoir rien écrit sous l’influence d’idées préconçues ou systématiques ; homme d’un caractère froid et calme, il a observé les faits, et de ses observations il a déduit les lois qui les régissent ; le premier il en a donné la théorie et en a formé un cops méthodique et régulier. En démontrant que les faits faussement qualifiés de surnaturels sont soumis à des lois, il les fait rentrer dans l’ordre des phénomènes de la nature, et détruit ainsi le dernier refuge du merveilleux et l’un des éléments de la superstition. Pendant les premières années où il fut question de phénomènes spirites, ces manifestations furent plutôt n objet de curiosité qu’un sujet de méditations sérieuses ; le Livre des esprits fit envisager la chose sous un tout autre aspect ; alors on délaissa les tables tournantes, qui n’avaient été qu’un prélude, et l’on se rallia à un corps de doctrine qui embrassait toutes les questions intéressant l’humanité. De l’apparition du Livre des esprits date la véritable fondation du spiritisme, qui, jusqu’alors, n’avait possédé que des éléments épars sans coordination, et dont la portée n’avait pu être comprise de tout le monde ; de ce moment aussi la doctrine fixa l’attention des hommes sérieux et prit un développement rapide. En peu d’années ces idées trouvèrent de nombreux adhérents dans tous les rangs de la société et dans tous les pays. Ce succès, sans précédent, tient sans doute aux sympathies que ces idées ont rencontrées, mais il est dû aussi en grande partie à la clarté, qui est un des caractères distinctifs des écrits d’Allan Kardec. En s’abstenant des formules abstraites de la métaphysique, l’auteur a su se mettre à la portée de tout le monde et se faire lire sans fatigue, condition essentielle pour la vulgarisation d’une idée. Sur tous les points de controverse, son argumentation, d’une logique serrée, offre peu de prise à la réfutation, et prédispose à la conviction. Les preuves matérielles que donne le spiritisme de l’existence de l’âme et de la vie future, tendent à la destruction des idées matérialistes et panthéistes. Un des principes les plus féconds de cette doctrine, et qui découle du précédent, est celui de la pluralité des existences, déjà entrevu par une foule de philosophes anciens et modernes, et dans ces derniers temps par Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue et autres ; mais il était resté à l’état d’hypothèse et de système, tandis que le spiritisme en démontre la réalité, et prouve que c’est un des attributs essentiels de l’humanité. De ce principe découle la solution de toutes les anomalies apparentes de la vie humaine, de toutes les inégalités intellectuelles, morales et sociales ; l’homme sait ainsi d’où il vient, où il va, pour quelle fin il est sur la terre, et pourquoi il y souffre. Les idées innées s’expliquent par les connaissances acquises dans les vies antérieures ; la marche ascendante des peuples et de l’humanité, par les hommes des temps passés qui revivent après avoir progressé ; les sympathies et les antipathies, par la nature des rapports antérieurs ; ces rapports, qui relient la grande famille humaine de toutes les époques, donnent pour base les lois mêmes de la nature, et non plus une théorie, aux grands principes de fraternité, d’égalité, de liberté et de solidarité universelle. Il touche, en outre, directement à la religion, en ce que la pluralité des existences étant la preuve du progrès de l’âme, détruit radicalement le dogme de l’enfer et des peines éternelles, incompatibles avec ce progrès ; avec ce dogme suranné tombent les nombreux abus dont il a été la source. Au lieu du principe : Hors l’Église point de salut, qui entretient la division et l’animosité entre les différentes sectes, et qui a fait verser tant de sang, le spiritisme a pour maxime : Hors la charité point de salut, c. à d. l’égalité de tous les hommes devant Dieu, la tolérance, la liberté de conscience et la bienveillance mutuelle. Au lieu de la foi aveugle qui annihile la liberté de penser, il dit : il n’y a de foi inébranlable que celle qui peut regarder la raison face à face à tous les âges de l’humanité. A la foi, il faut une base, et cette base, c’est l’intelligence parfaite de ce que l’on doit croire : pour croire il ne suffit pas de voir, il faut surtout comprendre. La foi aveugle n’est plus de ce siècle ; or, c’est précisément le dogme de al foi aveugle que, fait aujourd’hui le plus grand nombre d’incrédules, parce qu’elle veut s’imposer, et qu’elle exige l’abdication d’une des plus précieuses facultés d l’homme : le raisonnement et le libre arbitre. (Évangile selon le spiritisme.) La doctrine spirite, telle qu’elle ressort des ouvrages d’Allan Kardec, renferme en elle les éléments d’une transformation générale dans les idées, et la transformation des idées amène forcement celle de la société. A ce point de vue elle mérite l’attention de tous les hommes de progrès. Son influence s’étendant déjà sur tous les pays civilisés, donne à la personnalité de son fondateur une importance considérable, et tout fait prévoir que, dans un avenir peut-être prochain, il sera posé comme l’un des réformateurs du XIXe siècle.

Nouveau Dictionnaire Universel, tome 1e.
(item « Allan Kardec », p. 199)
Maurice Lachâtre

Tradução para o nosso português:

ALLAN KARDEC (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail). Chefe e fundador da Doutrina Espírita, nascido em Lyon, no dia 3 de outubro  de 1804, originário de Bourg en Bresse, departamento do Ain. Embora filho e neto de advogados e de uma antiga família que se distinguiu na magistratura e no foro, ele não seguiu essa carreira; cedo se dedicou ao estudo das ciências e da filosofia.

Aluno de Pestalozzi, na Suíça, tornou-se um dos eminentes discípulos do célebre pedagogo, e um dos propagadores de seu sistema de educação, que exerceu grande influência sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. É nessa escola que se desenvolveram as ideias que deviam mais tarde colocá-lo na classe dos homens de progresso e dos livres-pensadores.

Nascido na religião católica, mas educado num país protestante, os atos de intolerância que ele teve de suportar a esse respeito fizeram-no, desde a idade de quinze anos, conceber a ideia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante longos anos, com o pensamento de chegar à unificação das crenças; mas faltou-lhe o elemento necessário para a solução desse grande problema.

O Espiritismo veio, mais tarde, fornecer-lhe e imprimir uma direção especial aos seus trabalhos. Por volta de 1850, assim que se tratou das manifestações dos Espíritos, Allan Kardec se entregou às observações perseverantes sobre esses fenômenos, e se dedicou principalmente a deduzir deles as consequências filosóficas. Neles entreviu, antes de tudo, o princípio de novas leis naturais: aquelas que regem as relações do mundo visível e do mundo invisível; reconheceu, na ação deste último, uma das forças da natureza, e seu conhecimento devia lançar luz sobre uma multidão de problemas reputados insolúveis, e compreendeu o alcance disso do ponto de  vista científico, social e religioso.

Suas principais obras sobre essa matéria são O Livro dos Espíritos, para a parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu no dia 18 de abril de 1857; O Livro dos Médiuns, para a parte experimental e científica (janeiro de 1861); O Evangelho segundo o Espiritismo, para a parte moral (abril de 1864); O Céu e o Inferno, ou a justiça de Deus segundo o Espiritismo (agosto de 1865); Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos, coleção mensal começada no dia 1 de janeiro de 1858.

Ele fundou, em Paris, no dia 1 de abril de 1858, a primeira sociedade espírita regularmente constituída sob o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cujo objetivo exclusivo é o estudo de tudo que pode contribuir para o progresso dessa nova ciência.

O próprio Allan Kardec se proíbe de escrever sob a influência de ideias preconcebidas ou sistemáticas; homem de caráter frio e calmo, observou os fatos, e de suas observações deduziu as leis que os regem; primeiro deu a teoria e dela formou um corpo metódico e regular.

Demonstrando que os fatos falsamente classificados de sobrenaturais estão submetidos a leis, ele os faz entrar na ordem dos fenômenos da natureza e destrói, assim, o último refúgio do maravilhoso, um dos elementos da superstição. Durante os primeiros anos em que o assunto fora os fenômenos espíritas, essas manifestações foram mais um objeto de curiosidade do que um assunto de sérias meditações; O Livro dos Espíritos fez olhar a coisa sob outro aspecto; então deixaram-se as mesas girantes, que só tinham sido um prelúdio e se concentrou num corpo de doutrina que abarcava todas as questões que interessavam à humanidade.

Da aparição de O Livro dos Espíritos data a verdadeira fundação do espiritismo, que, até então, só possuíra elementos dispersos sem coordenação, e cujo alcance não pudera ser compreendido por todo mundo; desse momento também a doutrina fixa a atenção dos homens sérios e tomou um desenvolvimento rápido. Em poucos anos, essas ideias encontraram numerosos partidários, em todos os níveis da sociedade e em todos os países.

Esse sucesso sem precedente se deve, sem dúvida, às simpatias que essas ideias encontraram, mas é devido também, em grande parte, à clareza, que é um dos caracteres distintivos dos escritos de Allan Kardec. Abstendo-se das fórmulas abstratas da metapsíquica, o autor soube por-se ao alcance de todo o mundo e fazer-se lido sem fadiga, condição essencial para a vulgarização de uma ideia. Sobre todos os pontos de controvérsia, sua argumentação, de uma lógica rigorosa, oferece pouca margem à refutação e predispõe à convicção. As provas materiais que dá o Espiritismo, da existência da alma e da vida futura, tendem à destruição das ideias materialistas e panteístas. Um dos princípios mais fecundos dessa doutrina, e que decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevisto por várias filosofias antigas e modernas e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros; mas permanecera no estado de hipótese e de sistema, enquanto o espiritismo demonstra a realidade disso, e prova que é um dos atributos essenciais da humanidade.

Desse princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais; o homem sabe, assim, de onde vem, para onde vai, para que fim está na Terra, e por que aí sofre. As ideias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e da humanidade, pelos homens dos tempos passados que revivem após ter progredido; as simpatias e as antipatias, pela natureza das relações anteriores; essas relações, que reatam a grande família humana de todas as épocas, dão como base as mesmas leis da natureza, e não mais uma teoria, aos grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade, e de solidariedade universal.

A doutrina espírita, tal qual ela ressalta das obras de Allan Kardec, encerra em si os elementos de uma transformação geral nas ideias, e a transformação das ideias leva forçosamente à da sociedade. Desse ponto de vista, ela merece a atenção de todos os homens de progresso. Como sua influência se estende já sobre todos os países civilizados, dá à personalidade de seu fundador uma importância considerável, e tudo faz prever que, num futuro talvez próximo, ele será citado como um dos reformadores do século XIX.

Allan Kardec (1804-1869)

Bem, é a Historiografia do Espiritsimo que vem sendo reconstruída e nos possibilitando um melhor entendimento do desenvolvimento da nossa doutrina.

As pesquisas continuam!

Verbete Maurice Lachâtre na Enciclopédia Espírita Online.

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terça-feira, 24 de novembro de 2020

Espetáculo teatral "O vendedor de sonhos"


O vendedor de Sonhos - Augusto Cury

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Sucesso de crítica e público, o espetáculo é baseado no best-seller homônimo de Augusto Cury e já foi visto por mais de 100 mil pessoas em mais de 150 apresentações espalhadas por 80 cidades do Brasil 

 

Peça baseada no romance mais vendido do escritor Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos retoma temporada em São Paulo, no Teatro Fernando Torres, de 16 de outubro a 29 de novembro. As apresentações foram interrompidas em março por conta da pandemia do novo coronavírus.   

A adaptação do best-seller para o palco é de Augusto CuryErikah Barbin e Cristiane Natale (que também assina a direção).  

O ator Mateus Carrieri, que compõe o elenco original, está participando do reality show A Fazenda, da TV Record. Por este motivo, o seu personagem será substituído por tempo indeterminado pelo ator Adriano Merlini. Desta forma, o elenco desta retomada será composto por Luiz AmorimAdriano MerliniPitty SantanaMarcus VeríssimoLino ColantoniGuilherme Carrasco e Fernanda Mariano. 

A trama conta a história do personagem Júlio César (Adriano Merlini), que tenta o suicídio e é impedido de cometer o ato por intermédio de um mendigo, o Mestre (Luiz Amorim), que lhe vende uma vírgula, para que continue a escrever a sua história. Juntos encontram Bartolomeu, um bêbado boa-praça que decide unir-se a eles na missão de vender sonhos e de despertar a sociedade doente. Mas a revelação de um passado conflituoso do Mestre pode destroçar a grande missão do Vendedor de Sonhos. 

O livro O Vendedor de Sonhos já foi traduzido para mais de 60 idiomas e também virou filme – e é a primeira obra de Augusto Cury receber uma adaptação para o teatro. “Ver os atores interpretando no palco os personagens que eu construí nas mais diversas situações estressantes em que eles passaram, levando o espectador a fazer uma viagem para dentro de si mesmo para encontrar o mais importante endereço que poucos encontram, o endereço em sua própria mente, é de fato um grande prazer”, conta Cury. 

“Entre as diversas apresentações pelo Brasil, a peça vem atingindo em cheio os espectadores”, conta a diretora Cristiane Natale. Para ela, a correria no dia a dia acaba reprimindo a demonstração dos sentimentos, principalmente os medos. “Muitas pessoas não conseguem lidar com desafios e fracassos e acabam por viver um caos emocional”, enfatiza ela, que, entre os seus trabalhos de destaque, estão os infantis “A Bailarina Azul”, de Cecília Meireles, como autora e figurinista; e “Arca de Noé”, de Vinicius de Moraes, como produtora; atualmente, ela está em pré-produção do espetáculo “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, como autora e diretora; e em breve irá estrear “O Homem mais Inteligente da História”, parceria com Augusto Cury. 

Para Luiz Amorim, que interpreta o Mestre, o texto tem uma função além da literatura. “É uma história muito humana, bonita, que nos traz identificação. Propõe uma reflexão, instiga pensamentos. Tudo isso me atrai bastante no texto”, diz ele, que esmiúça o seu personagem, o Vendedor de Sonhos: “Ele é riquíssimo, um homem que passou por muitas experiências, traumas na vida e desafios. Ele propõe caminhos que transformam a vida das pessoas. Você pode mudar o mundo através de sua própria mudança”. 

“Sentimos a boa recepção do público quando as pessoas contam suas experiências e como a peça, de alguma forma, modificou a vida delas”, conta Amorim, que coleciona em sua carreira grandes trabalhos, como as peças “Deus lhe pague” e “Sete minutos”, com Bibi Ferreira; o musical “Di repente”, com o Grupo Luz e Ribalta; entre outros. Além de passagens pela TV, como nas novelas “Chiquititas” e “Maria do Bairro” (SBT); e no cinema, em “Corda bamba” e “Sábado”. 

 

Como nasceu a adaptação do livro para o teatro 

A ideia de transformar o livro “O Vendedor de Sonhos” para o teatro nasceu durante a realização das palestras do Dr. Augusto Cury, pela Applaus, com direção de Luciano Cardoso, com mais de 25 anos de experiência nos cenários musical e das artes. “Eu vinha percebendo que estava em franca expansão a questão de as pessoas discutirem as suas emoções, em especial um tema muito delicado, que é a prevenção ao suicídio. E sabendo da relação muito próxima de atores e plateia, o que poderia ser positivo para que tocasse as pessoas, como vem tocando pelo Brasil afora, apostamos. Para nós, é muito gratificante”. 

 

Sinopse 

Baseado no best-seller homônimo de Augusto Cury. Na trama, o personagem Júlio César tenta o suicídio, e é impedido de cometer o ato final por intermédio de um mendigo, o “Mestre”, que lhe vende uma vírgula, para que continue a escrever a sua história. Juntos encontram Bartolomeu, um bêbado boa-praça que decide unir-se a eles na missão de vender sonhos e de despertar a sociedade doente. A revelação de um passado conflituoso do Mestre pode destroçar a grande missão do Vendedor de Sonhos. 

 

Serviço: 
 
O VENDEDOR DE SONHOS 
Data: 16 de outubro a 29 de novembro de 2020 
 
Horário: 
Sexta e Sábado às 21h00 
Domingo às 19h00 

Classificação: 10 Anos 
Duração: 70 min 
Cidade: São Paulo 
 
Localização: Teatro Fernando Torres (Rua Padre Estevão Pernet, 588, São Paulo) 
 
SEXTAS E DOMINGOS: 
1º LOTE: 
SOLIDÁRIO: R$ 50,00 
MEIA ENTRADA: R$ 40,00 
INTEIRA: R$ 80,00 

 

SÁBADOS: 
1º LOTE: 
SOLIDÁRIO: R$ 60,00 
MEIA ENTRADA: R$ 50,00 
INTEIRA: R$ 100,00 

 Ingresso Solidário: Traga 1kg de alimento não perecível no dia do espetáculo e garanta o seu ingresso com desconto! 

 Meia Entrada: Estudantes, Portadores de Necessidades Especiais e um acompanhante, Idosos (pessoas com mais de 60 anos), diretores, coordenadores pedagógicos, supervisores e titulares de cargos do quadro de apoio das escolas das redes estadual e municipais, professores da rede pública estadual e das redes municipais de ensino. (O benefício de meia-entrada é assegurado para 40% do total de ingressos disponíveis para cada evento, conforme o Decreto nº 8.537/15). 

 

Ponto de Venda Sem Taxa de Conveniência: Bilheteria do Teatro Fernando Torres. Endereço: Rua Padre Estevão Pernet, 588 – Tatuapé/SP 

 Horário de Funcionamento da Bilheteria: Quinta a Sábado das 16h às 20h. Domingo das 16h às 19h. Em dias de espetáculo, até o início do espetáculo. 

 

Os ingressos para PNE devem ser adquiridos diretamente na bilheteria. 

 Para sua comodidade, chegue 30 minutos antes do horário marcado em seu ingresso. 

 

Ficha Técnica: 

Gênero: Drama 

Classificação: 10 anos. 

Duração: 70 min. 

 
Adaptação: Augusto Cury, Cristiane Natale e Erikah Barbin  
Direção: Cristiane Natale 

Comprar ingressos online: Sympla

Fonte:

Zook Comunicação
Assessoria de imprensa segmentada e apoio promocional
Contato: (11) 98912-9798

sábado, 21 de novembro de 2020

Manuscrito de Karl Marx e o que ele pensava do Espiritismo


Mais um documento interessante para os nossos estudiosos é garimpado na internet por pesquisadores espíritas: uma carta original de Karl Marx, autor de O Manifesto Comunista, expressando o que o revolucionário pensava do Espiritismo.

Vejamos a publicação da fanpage CSI do Espiritismo:


Manuscrito de 160.000 euros revela o que Karl Marx pensava do Espiritismo em 1873!


Um leilão realizado em Paris em 11 de dezembro de 2018 nos mostra uma carta de Karl Marx endereçada ao Sr. Maurice Lachâtre, ex-sócio de Allan Kardec no Banco de Trocas, de 11 de fevereiro de/1873 [1]. Quando comentando sobre a obra de Eugène Sue [2], conforme a descrição dada no site, entre várias informações, ele diz: "Quant à son dernière œuvre je n'en peux juger parce que je n'en ai eu que la première livraison. Mais il est infecté comme le socialisme français de son époque de sentimentalisme. Il y mêle du spiritisme que je déteste", ou numa tradução livre, "Quanto à sua última obra [4], não posso julgá-la porque dela só tive um primeiro contato. Mas ela está infestada, como o socialismo francês de sua época, de sentimentalismo. Ela mistura isso ao espiritismo que eu detesto". Convém anotar que o termo espiritismo é posterior à data da 1ª edição da obra [5].

A carta, cujo valor estimado era de 25.000 a 30.000 euros, foi arrematada por 160.000 euros (mais de 1 milhão de reais em 2020), e só temos agora o verso do manuscrito, disponível também em um outro site de leilão [3], onde podemos ampliá-lo.

Aqui começa então o "trabalho laboratorial de CSI": conseguimos identificar a frase "spiritisme que je déteste" no lado oposto da cópia digitalizada, que foi então tratada, removendo-se o texto que estava na frente (correspondente ao verso do manuscrito), espelhando-se a imagem e consequentemente a frase, e deixando-a mais nítida. Essa evidência demonstra, por escrito, o pensamento de Karl Marx sobre o espiritismo no início de 1873.

Este foi mais um trabalho conjunto realizado pelo AKOL, CSI do Espiritismo e ObrasDeKardec.com.br, e que será contextualizado oportunamente pelo colega J. A. Vendrani Donha.

Referências:
[4] Edição de 1873, com a introdução de Lachâtre, do vol. VIII da obra de 1843 de Eugène Sue, Les Mystères de Paris (https://books.google.com.br/books?id=0SU6AAAAcAAJ)



Nossa contextualização

Karl Marx (1818-1883) é um importante personagem para a História mais recente da Terra; amado e até idolatrado por uns, odiado por alguns outros, cuja vida e obra são bem pouco conhecidas por muitos dos que o analisam com extremismos; a evocação de seu nome, sob qualquer aspecto, quase sempre suscita fortes emoções, tais paixão ou ira, e, como no caso presente, quando feito em meio ao debate em torno de uma doutrina espiritualista, com mais forte razão podemos imaginar que os ânimos se exaltem. Em todo o caso, temos, de próprio punho, um parecer seu sobre o Espiritismo: "Eu o detesto!" — expressa ele no manuscrito. E a partir daí vamos tentar entender essa definição.

Como registra a historiografia, ele nasceu de uma família abastada no Reino da Prússia (hoje Alemanha) e na sua maioridade tornou-se apátrida; perambulou pela Europa para semear as suas ideias revolucionárias, sendo banido de vários lugares até encontrar refúgio menos hostil em Londres, onde faleceu depois de instaurar o seu ideal comunista, tendo como seu mais próximo idealista o também germânico de nascença Friedrich Engels, que ele conheceu na França, na Paris do Professor Rivail, naquela década de 1840, quando eclodiu a febre das Mesas Girantes e as demais experimentações mediúnicas de que logo mais resultaria a Doutrina Espírita codificada pelo citado professor, então cognominado Allan Kardec. Se parecia óbvio que, por essas circunstâncias, Marx não só teria conhecimento do Espiritismo, agora podemos pensar mais assertivamente que ele minimamente o conhecia bem, quiçá experimentado, pois não seria razoável crer que ele o comentasse — e o adjetivasse de "detestável" — sem ter ciência do que se tratava. E é interessante que, pelo manuscrito ora exposto, Marx vai colocar o Espiritismo no mesmo nível depreciativo do socialismo francês.

Uma antiga postagem nossa levantou a hipótese de Karl Marx ser o tal Sr. M. descrito em Obras Póstumas (veja aqui).

Através de uma mensagem mediúnica, em uma sessão realizada em 30 de abril de 1856, o prof. Rivail recebe o primeiro anúncio de sua grandiosa missão de Codificador Espírita, e nesta mesma comunicação outro homem presente àquela reunião (denominado "Sr. M.") é mencionado:

“(...) A ti, M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido”.

Depois de transcrever esse ocorrido, Kardec comenta em seu diário sobre o Sr. M. nestes termos:

“O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar muito em evidência. Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo”.



Baixe o PDF de Obras Póstumas

Mais adiante, o codificador espírita vai registrar a recomendação que recebeu do Espírito Verdade sobre manter ou não contato com o Sr. M., pela sessão ocorrida em 12 de maio de 1856, na casa do Sr. Baudin:

Pergunta de Kardec (ao Espírito Verdade) — Que pensa de M...? É homem que venha a influir nos acontecimentos?
Resposta "Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas não é uma cabeça."

Deveremos tomar ao pé da letra o que foi dito, isto é, que lhe cabe o papel de destruir o que existe?
"Não; pretendeu-se apenas personificar nele o partido cujas ideias ele representa."

Posso manter relações de amizade com ele?
"Por enquanto, não; correria perigos inúteis."

Dispondo de um médium, M... diz que lhe determinaram a marcha dos acontecimentos, para, por assim dizer, uma data fixa. Será verdade?
"Sim, determinaram-lhe épocas, mas foram Espíritos levianos que lhe responderam, Espíritos que não sabem mais do que ele e que exploram a sua afobação. Sabe que não devemos precisar as coisas futuras. Os acontecimentos pressentidos certamente se darão em tempo próximo, mas que não pode ser determinado."


Pelo recorte, podemos inferir que o Sr. M. de Obras Póstumas é mesmo Marx? Não, não podemos! Até então, parece-nos lógico a suposição, porém, carecedora de maiores indícios. Quem sabe não venhamos a encontrar o manuscrito original de Kardec dessa transcrição e nela o nome do Sr. M. esteja por extenso! É uma expectativa nossa!

De qualquer forma, podemos compreender que o Espiritismo seja detestável para Marx, por essa doutrina estar "infestada de sentimentalismo". Pelo que se sabe, o filósofo socialista não só era ateu como era avesso às ideias espiritualistas, cujos valores fundam-se precisamente no sentimento de amor e na ação prática da caridade, em conformidade com as máximas do Cristo — tudo o que Marx põe na conta de "ópio da sociedade".

O projeto revolucionário marxista é comumente chamado de "socialismo" e "comunismo" — embora conceitualmente estes termos tenham suas diferenças, sendo o Socialismo, na teria marxista, um estágio intermediário e menos radical entre o capitalismo e o Comunismo. Esses termos, relacionados com o "social", o "comum", o "igualitário", têm um aparente aspecto de virtude, de valorização da fraternidade, contudo, sua aplicação no marxismo falha grotescamente por desconsiderar o único valor que motiva e pode estabelecer o verdadeiro estado fraterno: a virtude da caridade, enquanto Marx investe toda a sua retórica na aposta da repartição dos bens e meios de produção.

Ou seja: em Marx, o ideal de fraternidade está na economia e na regulamentação do poder — que só se alcança pela revolução , ao passo que no Espiritismo de Kardec, a fraternidade está no aperfeiçoamento da moral, que se consegue passo a passo, resultando que esse aperfeiçoar individual vai se refletindo no meio social e quando enfim a sociedade estiver repleta desses indivíduos reformados moralmente a fraternidade e o bem-estar social se estabelecerão, não importando as leis civis, o regime de governo, o plano econômico etc. porque então os homens de bem agirão sempre de acordo com a sua consciência elevada.

Em Marx, a necessidade de lutar, a guerra contra os "inimigos externos" para estabelecer uma nova ordem social e a partir daí implantar seu ideário de fraternidade; em Kardec, a necessidade de cada qual lutar contra o "inimigo íntimo", o desenvolvimento da consciência e o desprendimento dos materiais para valorizar as virtudes espirituais.

Em suma, diria Marx: "Fora do Comunismo não há salvação", ao que Kardec responderia prontamente: "Fora da Caridade não há salvação!".

P. S.
Sobre Maurice Lachâtre, ver seu verbete na Enciclopédia Espírita Online.