'Reengenharia no Movimento Espírita — 33 anos depois', por Ivan Franzolim


Mudamos muito desde 1993. Mas será que também mudamos a maneira de pensar nossas instituições? Publiquei um artigo intitulado 'A reengenharia no movimento espírita'. Naquela época, a palavra “reengenharia” estava em evidência no mundo empresarial. Michael Hammer e outros estudiosos da administração defendiam uma ideia aparentemente simples, mas bastante desafiadora: em vez de apenas aperfeiçoar aquilo que já fazemos, deveríamos ter coragem de perguntar se continuaríamos fazendo daquela maneira caso começássemos tudo novamente.

Vieram as organizações que aprendem, gestão por processos, inovação, transformação digital, metodologias ágeis e, mais recentemente, inteligência artificial. Os nomes mudaram. A pergunta fundamental, entretanto, permanece:

Se hoje tivéssemos de organizar uma instituição espírita a partir do zero, conhecendo tudo o que aprendemos nas últimas décadas, faríamos exatamente tudo igual?

Provavelmente não.

E talvez esteja aí uma reflexão importante para o movimento espírita.


Mudar sem mudar a Doutrina

É necessário fazer desde logo uma distinção.

Repensar a organização das instituições espíritas não significa modificar os fundamentos do Espiritismo. Princípios doutrinários não devem ser adaptados simplesmente para acompanhar costumes, conquistar público ou parecer modernos.

Estamos falando de outra coisa. Podemos preservar princípios e modificar métodos. Podemos conservar finalidades e aperfeiçoar instrumentos.

Aliás, uma organização que conhece claramente sua finalidade consegue distinguir melhor aquilo que deve preservar daquilo que pode — e algumas vezes precisa — mudar.

O problema começa quando confundimos tradição doutrinária com tradição administrativa.

Uma atividade pode existir há quarenta ou cinquenta anos e continuar sendo excelente. Mas sua antiguidade, por si só, não demonstra sua eficácia.

A pergunta não deveria ser apenas:

  • “Há quanto tempo fazemos assim?”

Seria conveniente acrescentar:

  • “Por que fazemos assim?”
  •  “Para quem fazemos?”
  • “Que resultados estamos obtendo?”
  •  “Existe atualmente uma maneira melhor de atingir o mesmo objetivo?”


O perigo de aperfeiçoar aquilo que já deveria ter sido repensado

Esse talvez tenha sido o aspecto mais provocador da antiga reengenharia.

Ela não propunha apenas fazer melhor. Propunha perguntar se aquilo ainda deveria ser feito daquela forma.

Há diferença.

Podemos informatizar uma ficha que ninguém consulta.

Podemos criar um aplicativo para reproduzir um procedimento desnecessariamente complicado.

Podemos transmitir pela internet uma atividade cujo formato não desperta mais interesse.

Podemos utilizar inteligência artificial para produzir mais rapidamente aquilo que poucas pessoas desejam receber.

Tudo isso pode representar modernização tecnológica sem representar verdadeira inovação.

Seria como colocar um motor novo em um veículo sem antes verificar se estamos seguindo pela estrada correta.

A tecnologia atual, especialmente a inteligência artificial, torna essa questão ainda mais importante. Nunca tivemos tantos instrumentos capazes de aumentar a produtividade, facilitar comunicações, analisar informações e eliminar tarefas repetitivas.

Mas a tecnologia responde principalmente ao “como”.

Antes dela vêm perguntas humanas:

  • “Por quê?”
  • “Para quê?”
  • “Para quem?”


O Centro Espírita visto como um conjunto

No artigo de 1993 eu chamava a atenção para outro problema: a divisão excessiva das atividades em departamentos.

Cada grupo pode funcionar muito bem isoladamente: atendimento fraterno, estudo, palestras, mediunidade, assistência social, evangelização, comunicação, administração, biblioteca e tantas outras atividades.

Mas quem observa a experiência da pessoa como um todo?

Uma criatura pode chegar ao Centro Espírita enfrentando um momento difícil, assistir durante anos às reuniões públicas e permanecer praticamente desconhecida da instituição.

Pode não saber que existem grupos de estudo.

Pode nunca ter sido estimulada a ler Kardec.

Pode desconhecer oportunidades de voluntariado.

Pode não encontrar caminhos adequados para transformar gradualmente uma posição de simples frequentadora em participante consciente do próprio processo de aprendizado.

Não se trata, evidentemente, de controlar pessoas. Muito menos de determinar o caminho que cada uma deverá seguir. O livre-arbítrio deve ser respeitado. Mas respeitar a liberdade não significa deixar de informar, orientar, acolher e oferecer possibilidades.

Talvez devêssemos pensar menos em departamentos e mais em jornadas.

  • A jornada de quem chega.
  • A jornada de quem procura consolo.
  • A jornada de quem deseja compreender o Espiritismo.
  • A jornada de quem quer estudar seriamente.
  • A jornada do jovem.
  • A jornada do voluntário.
  • A jornada de quem envelheceu conosco.

Quando mudamos o foco da atividade para a pessoa, algumas estruturas começam naturalmente a ser questionadas.


O frequentador de hoje não é o de 1993

Também não podemos ignorar que a sociedade mudou profundamente.

Na década de 1990 praticamente não havia internet para o público brasileiro. Não existiam redes sociais como as conhecemos, smartphones, reuniões virtuais, plataformas de vídeo, mecanismos modernos de busca ou inteligência artificial disponível a qualquer pessoa.

Hoje alguém interessado em reencarnação, mediunidade ou vida depois da morte pode encontrar milhares de vídeos e textos em poucos segundos — espíritas ou não.

Isso significa que o Centro Espírita deixou de possuir quase exclusivamente a função de oferecer acesso ao conhecimento. Seu desafio talvez seja cada vez mais ajudar a selecionar, contextualizar, aprofundar e transformar informação em conhecimento útil para a vida.

Também mudou a relação das pessoas com instituições.

Há maior mobilidade, menor fidelidade institucional e inúmeras possibilidades de participação sem presença física. Especialmente entre os mais jovens, participar de uma organização simplesmente porque “sempre foi assim” tende a exercer menor poder de atração.

Nesse ambiente, preservar a essência exige, paradoxalmente, capacidade de mudança.


A inteligência artificial nos obriga novamente a rever tudo

Estamos diante de uma transformação talvez maior do que aquela que motivou a discussão sobre reengenharia nos anos 1990.

A inteligência artificial começa a alterar pesquisa, educação, comunicação, administração, produção de conteúdo e organização do conhecimento.

No movimento espírita ela poderá auxiliar na localização de textos, comparação de obras, organização de bibliotecas, preparação de materiais didáticos, gestão administrativa, financeira, comunicação, pesquisas, postagens para as redes sociais e muitas outras atividades.

Entretanto, seria um erro simplesmente acrescentar IA ao que já fazemos.

Antes de perguntar “Onde podemos usar inteligência artificial?”, talvez seja mais importante perguntar:

“Como organizaríamos este trabalho hoje se ele ainda não existisse?”

Essa é, essencialmente, a velha pergunta da reengenharia. E continua atual.


Precisamos aprender a abandonar também

As instituições costumam ter facilidade para criar atividades e enorme dificuldade para muda-las ou encerrá-las.

  • Criamos uma reunião.
  • Depois outra.
  • Criamos um departamento.
  • Uma campanha.
  • Um boletim.
  • Um evento anual.
  • Uma comissão.

Passam-se décadas e quase tudo continua existindo.

Há sempre alguém afetivamente ligado à atividade, uma história respeitável ou o conhecido argumento: “Sempre fizemos assim”, ou “Em time que está ganhando não se mexe”.

Mas organizações possuem recursos limitados, especialmente aquelas sustentadas por voluntários.

Manter uma atividade de pouco resultado também possui um custo: ocupa salas, horários, energia, dirigentes e trabalhadores que poderiam estar contribuindo em outras frentes.

Reengenharia também significa ter serenidade para reconhecer que algo cumpriu sua missão.

Encerrar uma atividade não significa desvalorizar quem a criou. Pode significar exatamente o contrário: honrar seu propósito, permitindo que o esforço se adapte às novas necessidades.


Medir para aprender, não para competir

Outra mudança necessária está relacionada à avaliação dos resultados.

No ambiente espírita existe, compreensivelmente, certa resistência a indicadores, números e técnicas administrativas. Teme-se transformar a Casa Espírita em empresa.

O risco existe quando os instrumentos não estão integrados aos objetivos, ou simplesmente não têm uso prático.

Uma instituição pode perguntar quantas pessoas chegaram, quantas permaneceram, quantas iniciaram estudos, quais atividades apresentam maior ou menor participação, quais necessidades estão surgindo, quantos jovens se aproximam ou se afastam e o que os trabalhadores consideram necessário melhorar.

Essas informações medem o funcionamento da instituição. E podem revelar fatos que nossa percepção pessoal não consegue enxergar.

Uma casa que não procura saber os efeitos do próprio trabalho corre o risco de confundir esforço com resultado. Ambos são importantes, mas não são a mesma coisa.


Uma Casa Espírita que aprende

No texto antigo havia uma frase que considero ainda válida:

“Todos que trabalham em uma organização precisam aprender a estar constantemente aprendendo.”

Talvez hoje possamos ampliá-la.

Uma Casa Espírita também precisa aprender.

Aprender com seus trabalhadores.

Com seus frequentadores.

Com aqueles que chegaram e permaneceram.

E, particularmente, com aqueles que foram embora.

Aprender com os jovens.

Com as transformações sociais.

Com os erros.

Com as experiências de outras instituições.

Com as pesquisas.

Com a ciência e com a tecnologia, quando possam oferecer instrumentos úteis.

Isso não diminui a Doutrina. Ao contrário: pode contribuir para que os meios empregados estejam cada vez mais à altura da mensagem que pretendemos transmitir.


Trinta e três anos depois

Ao reler aquele artigo de 1993, chama-me atenção uma constatação.

Muitas das ferramentas que imaginávamos necessárias foram criadas.

Computadores ficaram acessíveis. Surgiu a internet. As comunicações se tornaram instantâneas. Bibliotecas inteiras passaram a caber em um telefone. Reuniões podem reunir pessoas de diferentes países. Chegamos à inteligência artificial.

Mudamos enormemente os instrumentos. Mas talvez tenhamos mudado menos a estrutura mental com que organizamos nossas atividades.

É relativamente fácil incorporar tecnologia. Muito mais difícil é reconsiderar aquilo que fazemos há décadas.

Por isso, talvez a antiga palavra “reengenharia” ainda possa prestar algum serviço ao movimento espírita.

Não como técnica administrativa da moda. Não como proposta de ruptura. E certamente não como modificação da Doutrina.

Mas como atitude permanente de reflexão. Preservar aquilo que é essencial. Questionar aquilo que é apenas habitual. Aperfeiçoar aquilo que continua necessário. Criar aquilo que passou a ser possível. Rever quais são as necessidades de todos os envolvidos. O que desejamos para o futuro de cada um que passe pela nossa casa?

É preciso ter coragem de abandonar aquilo que deixou de cumprir adequadamente sua finalidade. Precisamos rever até se a finalidade anterior não precisa ser revista.

Em 1993 escrevi que não bastava realizar um trabalho; era preciso manter aceso o desejo constante de fazê-lo melhor.

Trinta e três anos depois, acrescentaria apenas uma pergunta:

Antes de procurar fazer melhor aquilo que fazemos, não seria prudente perguntar se é realmente aquilo que deveríamos continuar fazendo?

Talvez essa seja a verdadeira reengenharia de que ainda precisamos.

Este artigo retoma e atualiza reflexões apresentadas pelo autor em “A reengenharia no movimento espírita”, publicado originalmente no jornal O Dirigente Espírita em 1993.

Ivan Franzolim


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