'Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada', por Jorge Hessen



Em outubro do ano passado, publicamos aqui uma postagem que causou certa polêmica e até revolta em alguns confrades (veja aqui: 'Seita política infiltrada no movimento espírita sugere novo slogan: 'Fora da justiça social não há salvação''); por isso, ainda convictos de nossa posição, formos buscar mais opiniões a respeito. Ao encontro das mesmas reflexões veio então o presente artigo de nosso amigo e colega de doutrina, Jorge Hessen, reconhecido estudioso e divulgador espírita, de Brasília - DF.

Apreciemos o artigo, para o enriquecimento de nossas análises:


'Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada'
por Jorge Hessen

A cansativa cantilena materialista travestida de “justiça social” é um lixo para a humanidade. Por isso, propomos aqui uma profunda reflexão kardeciana, indicando que movimentos de mudança radical (revoluções) que focam apenas em estruturas materiais, políticas ou econômicas, negligenciando a dimensão espiritual, moral ou humana (o "Espírito"), resultam em tirania e por consequência no colapso da liberdade individual.

Há um erro recorrente — e perigosamente confortável — em certos segmentos “espíritas(?!)” contemporâneos: o de tentar conciliar o inconciliável. Em nome de uma “sensibilidade social legítima”, alguns decrépitos passaram a flertar com o marxismo como se ele fosse uma extensão ética do Espiritismo. Não é. Nunca foi. E não pode ser, sem violentar os alicerces da Doutrina Espírita.

O marxismo não apenas ignora o Espírito — também o nega como realidade ontológica. Sua concepção do homem é estritamente material. E nessa roda quadrada a consciência não é causa, é efeito; a moral não é transcendência, é superestrutura; o sofrimento não é drama espiritual, é subproduto econômico; a história não é educação da alma, é guerra permanente entre classes. Nesse modelo esdrúxulo, o ser humano não é Espírito em aprendizado, mas um robozinho na engrenagem histórica.

E qual uma roda redonda o Espiritismo parte do ponto exatamente oposto: o Espírito é o princípio inteligente do universo; a matéria é instrumento, a economia é circunstância; a política é expressão temporária do nível moral dos povos; portanto, reduzir o destino humano a relações de produção é, sob a ótica espírita, uma forma míope de visão filosófica.

O marxismo promete redenção por decreto. Acredita que, mudando a estrutura, muda-se o homem. A experiência histórica mostra o contrário: muda-se o regime, perpetua-se o ego. Cai a burguesia, sobe a burocracia. Derruba-se um opressor, institucionaliza-se outro. A tirania muda de nome, mas não de natureza.

O Espiritismo afirma que não existe sistema capaz de salvar uma humanidade moralmente doente. Nenhuma engenharia social cura orgulho, vaidade, ódio, sede de poder e violência. Não há revolução econômica que substitua o esforço constante que o Espírito realiza para evoluir moralmente. Não há estatização que substitua a educação do caráter. Não há partido político que substitua a consciência.

Quando Marx chama a religião de “ópio do povo”, ele revela não apenas sua crítica social, mas sua incompreensão radical da dimensão espiritual do ser. Para Kardec, a ignorância das leis espirituais é que constitui o verdadeiro ópio. É pura ilusão se acreditar que se pode construir um mundo justo com pessoas injustas.

Mas a questão é que o mais grave não é a cegueira de Marx — fruto de sua prepotência, de sua formação e de sua filosofia caolha. O mais bizarro é o erro de “espíritas(?!)” que, conhecendo a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a lei de causa e efeito, ainda assim tentam importar modelos materialistas como se fossem compatíveis com a Doutrina. Reafirmo que a roda quadrada não move veículo.

Ceder para a militância vermelhona não é diálogo, mas uma concessão doutrinária intolerável; não é atualização, mas destroçamento doutrinário. Ceder para o marxismo jamais seria caridade intelectual, mas assombrosa confusão conceitual.

A nossa abençoada Doutrina dos Espíritos combate a miséria, mas recusa veementemente a famigerada luta de classes. Nós espíritas defendemos a justiça social e não toleramos opressões, mas não canonizamos ideologias e nunca trocaríamos o Evangelho por manifestos indigestos.

O Espiritismo não certifica paraísos coletivos construídos à base de violência. Ele propõe algo mais complexo, mais pausado e mais profundo: a construção do homem novo. Sem isso, toda revolução é apenas a troca de ditadores.

Entre a ditadura do capital e a ditadura do Estado, o Espiritismo aponta um terceiro eixo: a soberania da consciência esclarecida. Até porque onde ela falta, qualquer sistema — de direita ou de esquerda — degenera.

O marxismo quer mudar o mundo sem mudar o Espírito. O Espiritismo propõe mudar o Espírito para, então, transformar o mundo. Misturar Kardec com Marx não é síntese. É aberração.

E tenho dito!!


Referências bibliográficas:

MARX, Karl. Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. 52. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2016.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.


Originalmente postado em Artigos Espíritas


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