Pesquisa espírita: Por que Kardec escrevia 'espiritismo' (em minúsculo) e 'Espiritismo' (inicial maiúscula)'




Em novembro do ano passado, foi levantada a questão seguinte: Por que Kardec escrevia 'espiritismo' e 'Espiritismo'? Conforme o prometido, então aqui vamos apresentar o desenvolvimento da pesquisa a respeito dessa temática, deixando em aberto a oportunidade para que outros estudiosos a enriqueçam.


Contextualizando

Quando pronunciamos a palavra Espiritismo, normalmente o fazemos com bastante entusiasmo, dada a nossa consideração especial por essa maravilhosa doutrina de luz; quando a escrevemos, não raro a frisamos em negrito e ou em itálico; no mínimo, a sua inicial é destacada na forma maiúscula.

Esta reverência na escrita ("Espiritismo" com letra inicial grande) está presente em praticamente todas as traduções para o português e até para outros idiomas, conforme apuramos. No entanto, fomos surpreendidos quando nos pusemos a empreender um antigo desejo pessoal: traduzir para o vernáculo brasileiro a obra kardequiana e ofertá-lo livremente para o público, sem o menor interesse em lucros ou preocupação com a burocracia dos direitos autorais. Ocorreu, pois, que nos deparamos com um detalhe nas publicações originais de Allan Kardec — o que nos causou uma certa estranheza, e até mesmo um desapontamento, num primeiro momento  ao observarmos que em muitas ocasiões (na verdade, na maior parte das vezes) o codificador espírita grafou "espiritismo" com todas as letras minúsculas.

O nosso desapontamento, neste caso, se deu por conta de nos parecer um certo "desdém" com relação à doutrina, vindo da parte do próprio pioneiro espírita. Estranho, não?

A resposta mais óbvia para alguém rebater esse nosso parecer de um "desdém" kardequiano seria apontar para a força gramatical: na língua francesa, não se aplica inicial capitular para nomes de áreas do conhecimento, disciplinas científicas, movimentos religiosos etc. Certo! Porém, tem um detalhe importante aqui: doutras vezes, Kardec opta pela inicial maiúscula. Então, por que essa variação?

Em face do fato, fomos analisar os possíveis porquês desse suposto desdém.


O fato em números

Perscrutando os cinco livros principais da codificação espírita, tomando como base a edição final de cada obra e analisando a fotocópia de exemplares originais publicados por Kardec, nós contamos (excluindo as folhas de rosto, os índices e páginas adicionais; portanto, percorrendo apenas o miolo principal das obras) 293 instâncias da grafia "espiritismo"; encontramos ainda 13 instâncias em caixa-alta ("ESPIRITISMO"), mais 2 ocorrências com inicial capitular ("Espiritismo") por força gramatical (exibido pelas regras da gramática) e finalmente 267 vezes a grafia intencional de "Espiritismo", isto é, iniciando o título da doutrina com letra maiúscula.


O que não pode deixar de ser levando em conta é incidência dos números segundo a ordem cronológica das publicações, conforme vemos na tabela a seguir:


NOTA  Obviamente que, quando aqui nos referimos ao termo "Espiritismo", com base nos originais de Allan Kardec, estamos traduzindo do francês, cuja grafia é "Spiritisme".

Vê-se, portanto, uma progressão na substituição de "espiritismo" ("spiritisme") por "Espiritismo" ("Spiritisme") ao longo das publicações. Curiosamente, na obra inaugural da doutrina (O Livro dos Espíritos, 1857) todas as menções são totalmente em letra miúda, predominando assim na obra seguinte (O Livro dos Médiuns, 1861), onde a letra capitular aparece 3 vezes, sendo uma delas por exigência da gramática, por se tratar do início de uma frase. Em O Evangelho segundo o Espiritismo (1864) já podemos ver em várias ocasiões o uso intencional — tanto por parte de Kardec quando por parte dos Espíritos (através da transcrição das mensagens mediúnicas) — da palavra com inicial maiúscula. A partir do quarto livro, O Céu e o Inferno (1865), a coisa muda, consolidando-se de forma soberana a grafia "Espiritismo", repetindo-se assim na última grande publicação Kardequiana, A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (1868), onde se verifica 127 instâncias da grafia "Espiritismo" (sem ser por força gramatical), enquanto a maneira totalmente em minúsculo não mais é encontrada.


Não fizemos as contas exatas nas publicações da Revista Espírita, mas uma rápida folheada em seus anuários foi o suficiente para notarmos uma tendência no estilo do seu editor: aqui, quase sempre Kardec usa a forma capitular ("Espiritismo"), inclusive onde não há exigência gramatical (no meio das frases).

O que poderia explicar a diferença de estilo entre os livros e o periódico kardecista?

Bem, a título de hipótese, presumimos que o livro é um tipo de obra mais "formal", enquanto os jornais e revistas em geral são "informais". O próprio codificador espírita contextualizou que o seu periódico mensal não era um jornal comum, mas uma espécie de laboratório onde...

"[...] vêm ensaiar-se e, sob forma dubitativa, as teorias novas, que não podem ser aceitas senão após terem recebido a sanção do controle universal."
Revista Espírita - novembro de 1864: 'Periodicidade da Revista Espírita: Suas relações com os outros jornais especiais'

Certo; tratemos a Revista Espírita como uma publicação "informal" e vamos nos concentrar nas chamadas "obras fundamentais" (às vezes descritas como "obras básicas"), ou seja, os livros oficiais da doutrina. Que interpretação se pode fazer da questão posta? Em termos simples, que diferença pode haver entre "espiritismo" e "Espiritismo"?


Força gramatical

Convém, pois, evocarmos as leis convencionais da linguística. Em geral, desde que os idiomas adotaram em suas tabelas de caracteres "letras graúdas" e "letras miúdas", até por uma questão de elegância, os textos comuns são escritos em minúsculo. Em alguns casos, a escrita em CAIXA ALTA soa agressivo, sendo usada frequentemente para representar um "grito".

Na figura a seguir, pode-se ver (sublinhada por nós) a grafia elegante de "espiritismo" num trecho em que o Espírito de São Luís responde a uma das questões propostas em O Livro dos Espíritos:


[...] em breve se reconhecerá que o espiritismo ressalta a cada passo do próprio texto das Escrituras sagradas. Portanto, os Espíritos não vêm subverter a religião — como alguns falam; eles vêm, ao contrário, confirmá-la e sancioná-la através de provas irrecusáveis.”
O Livro dos Espíritos - questão 1011

Já as letras maiúsculas são aplicadas em situações especiais de destaque. Um exemplo clássico dessas ocasiões em que se aplica o estilo caixa-alta é o dos títulos dos livros; a propósito, os livros kardequianos seguiam esse modelo.

Mas também, uma expressão inteira em caixa-alta em meio a um texto comum pode ser uma forma de chamar a atenção para a importância do trecho. Uma instância desse tipo pode ser conferida em O Evangelho segundo o Espiritismo:


"[...] Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se encontram resumidos nesta máxima: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO."
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. XV, item 5

Outro exemplo é visto no item 30 do primeiro capítulo de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo:


"[...] O ESPIRITISMO — tomando seu ponto de partida nas próprias palavras do Cristo, como o Cristo tomou o seu nas de Moisés — é uma consequência direta da doutrina cristã."
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. I, item 30

Este, porém, é um evento excepcional: essas letras maiúsculas em tamanho menor que as maiúsculas normais são chamadas em francês de petites capitales, e têm o valor ortográfico das letras minúsculas, sendo usadas para um destaque gráfico puramente estético, um recurso comum das publicações impressas. No caso da citação acima, notemos que a inicial é um tipo maior do que o da sua semelhante no meio do vocábulo 'SPIRITISME'.

Não resta dúvidas de que, pela intenção do autor, o que está impresso aqui é o recado de que a palavra destacada merece uma atenção especial do leitor.

No caso das iniciais maiúsculas obrigatórias, cada idioma tem suas regras particulares; porém, de modo comum, há indicações gramaticais forçosas em casos como os que seguem:
  • Início de parágrafos e frases;
  • Nomes próprios de pessoa, lugar, instituições e entidades únicas (exemplos: Allan Kardec, Paris, ONU - Organização das Nações Unidas);
  • Título de obras, podendo restringir-se à primeira letra ou aplicar à inicial de cada vocábulo (ex: O livro dos médiuns, ou O Livro dos Médiuns);
  • Eventos especiais, datas comemorativas e festas religiosas (ex: Jogos Olímpicos, Carnaval, Páscoa, Natal etc.).
Algumas normas específicas da gramática francesa da época da codificação espírita (século XIX) se diferenciavam das regras do nosso português, dentre as quais, a adoção da letra capitular para os gentílicos substantivados (Un François = "um Francês", l'Américain = "o Americano", la Parisien = "a Parisiense" etc.), assim como os títulos de cargos e funções personificados (l'Empereur = "o Imperador").

Por outro lado, a ortografia francesa oficial do século XIX — tal como permanece valendo até hoje — recomendava expressamente que os nomes de áreas do conhecimento, disciplinas escolares, doutrinas, religiões e movimentos sociais em geral fossem escritos inteiramente em minúsculos (matemática, química, filosofia, cristianismo, catolicismo, iluminismo, capitalismo, socialismo, liberalismo etc.). Consequentemente, escrever 'Spiritisme' sem o amparo de outra norma válida (como no início de um parágrafo) poderia ser considerado um erro ortográfico. O destaque não é admissível sequer como parte de um título de um livro, cuja capitular é forçosa apenas para a primeira palavra, assim como se aplica à Gênese espírita: La génèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme

Geralmente, o objetivo de se usar a inicial maiúscula em determinadas palavras consiste na necessidade de distinguir a referência (por exemplo, indicar um título de um livro) ou na consideração pelo que é expressado; é neste último sentido que, por exemplo, é facultativo na língua portuguesa o uso da letra maiúscula inicial em palavras que indicam doutrinas e disciplinas escolares (Cristianismo ou cristianismo, Filosofia ou filosofia, Matemática ou matemática etc.)

Portanto, pela nossa gramática, o nome da nossa doutrina pode ser grafado normalmente tanto como "espiritismo" quanto como "Espiritismo". Aliás, um saudoso confrade nosso, Jáder dos Reis Sampaio, certa vez escreveu um artigo oportuno se debruçando sobre as recomendações ortográficas oficiais acerca do nome de doutrinas, disciplinas e matérias de conhecimento em geral.

Mas, e se houvesse como sabermos o que Kardec pensava sobre isso?...


O professor Rivail e a tendência modernista

Como se sabe, antes da missão doutrinária, Kardec era Hippolyte Léon Denizard Rivail, professor e diretor de escola, mestre em pedagogia e escritor de obras didáticas, inclusive gramática. Numa de suas publicações  Grammaire Normale des Examens, em coautoria com D. Lévi Alvarès —, nós lemos o capítulo sobre o emprego das letras maiúsculas, acompanhando o padrão gramatical francês vigente (ressaltando a elegãncia das letras minúsculas) e com uma anotação sobre a distinção e reverência de expressões através da letra capitular; neste ensejo, é feita uma crítica direta à dita tendência da Academia Francesa de utilizar maiúsculas no meio de frases para dar ênfase a certas palavras ou iniciar desenvolvimentos sem pontuação prévia:

"Acreditamos que essa profusão de letras maiúsculas prejudica a rapidez da leitura e não acrescenta em nada à clareza; tal emprego, nesses casos, não tem qualquer razão de ser."
Grammaire normale des examens, H.-L.-D. Rivail e D. Lévi Alvarès - XIII, item 940


E os dois não estavam isolados nesse protesto: em Observations sur l'orthographe ou ortografie française, o editor Ambroise Frimin Didot fala de um "abuso de letras maiúsculas" ao citar a obra de Jean Pilot ('Appendice D').

Com efeito, a proliferação de destaques pelo uso de maiúsculas é patente em toda a parte, e talvez com menos parcimônia em obras religiosas, onde costuma-se frisar desse modo tudo quanto é sagrado. Pegue-se a Bíblia, por exemplo, e não será raro encontrar versões em que mesmo as menções indiretas a Deus ou a Jesus aparecem grafadas com uma inicial grande. Vejamos algumas aplicações desse gênero (grifos nossos):

"O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ainda que eu ande pelo vale da  sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo; o Teu bordão e o Teu cajado me consolam. "
Salmo 23: 1 e 4

"Hoje mesmo, na cidade de Davi, nasceu o Salvador de vocês - O Messiaso SENHOR!"
Lucas 2: 11

"Quando ele saiu, disse Jesus: Agora, foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado n'Ele; se Deus foi glorificado n'Ele, também Deus O glorificará n'Ele mesmo; e glorificá-Lo-á imediatamente.."
João 13: 31 e 32

À vista disso, pelo fato de um linguista como Rivail (Kardec) optar por escrever 'Espiritismo' — inclusive incorrendo num possível "erro gramatical" —, podemos inferir que a coisa era por demais valiosa para ele, não é mesmo?

Na contramão desse respeito proposital, vale citar um episódio que pode corroborar a força das inicias graúdas: em 2022, a editora brasileira Companhia das Letras publicou uma edição especial do polêmico livro de José Saramago (1922 - 2010)O Evangelho segundo Jesus Cristo, com uma pitada a mais de provocação ao grafar o título inteiramente em letras minúsculas. Além de subverter o regimento ortográfico, que exige iniciais grandes em nomes próprios, seria esse título — "o evangelho segundo jesus cristo" — uma provocação aos cristãos? O fato de o nome do autor também aparecer sem iniciais capitulares em nada implica no caso — talvez não passe de um despistamento; afinal, quem se importaria com um "josé saramago"? Nesta obra, originalmente lançada em 1991, o autor dizia pretender simplesmente "humanizar" Jesus, sem ofensa; na prática, porém, o renomado escritor português — que era ateu assumido — não fez menos do que semear descrença, com intenção ou não. Semelhante ao escritor francês Ernest Renan (1823 - 1892) em seu best-seller Vida de Jesus (1863), o "humanizar Jesus" de Saramago pretendia tirar tudo o que era espiritual do Messias; grafar o nome do Envidado de Deus todo em minúsculo não seria então uma forma de minimizar o personagem? É bem verdade que esta edição brasileira é posterior à morte de Saramago e que, certamente, tal opção do título todo em minúsculo foi uma decisão de terceiros; todavia, esta possível provocação também não seria um reflexo — ainda que subliminarmente — do legado materialista pregado por Saramago?

Mas voltemos ao assunto principal.


Os destaques kardequianos

Especulemos juntos os possíveis porquês de Allan Kardec migrar sistematicamente de "espiritismo" para "Espiritismo" nas obras principais da sua doutrina. Antes, porém, que o leitor nos permita mais uma digressão.

Há uma situação extraordinária nos escritos kardequianos com relação à letra capitular: a distinção entre "espírito" ("sprite", em francês) e "Espírito" ("Sprite"), que passou a ser feita a partir da questão 76 de O Livro dos Espíritos, sendo que a palavra voluntariamente iniciada com letra minúscula passou a ser adotada por Kardec "para designar uma individualidade dos seres extracorpóreos", ou seja, uma "pessoa desencarnada"; sem a letra capitular, o termo "espírito" conserva os seus demais significados tradicionais (inteligência, ânimo, humor, disposição, tendência, traço característico de uma pessoa etc.). Assim é que fica justificado o destaque na questão referida (grifo por nossa conta):

Que definição podemos dar dos Espíritos?
“Pode-se dizer que os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Eles povoam o Universo fora do mundo material.”
O Livro dos Espíritos - questão 76

Todavia, aqui não se trata de um capricho kardequiano, mas sim uma obediência à gramática de seu país: agindo como um francês, considere Espírito como um cidadão do mundo espiritual e você terá que usar a letra inicial grande para se referir a esse indivíduo, da mesma maneira que o faz para se referir a um Europeu, Italiano, Alemão ou Brasileiro. Como sabemos, essa norma não existe no nosso idioma português, mas é uma exigência regular na França.

Enfim, retomando diretamente a questão das diversas instâncias de "espiritismo" e "Espiritismo", não seria ilícito supor que a variação tivesse a ver com as opções da tipografia, durante a montagem dos clichês de impressão dos livros.

Nos dias de Kardec, o processo era bem complicado; ainda não havia máquina de datilografia, tampouco computadores e impressoras: o autor escrevia à mão e enviava os manuscritos para o tipógrafo, que então cuidava da diagramação, montando o texto usando os caracteres (tipos, espécie de carimbos), letra por letra. De praxe, ao final da montagem a tipografia imprimia um exemplar de teste para o autor conferir e sugerir correções e outras alterações necessárias. Uma única alteração poderia implicar na desmontagem de toda uma página — um trabalho hercúleo, além de caro.

Cena típica de uma tipografia no século XIX

Exemplo da montagem dos tipos, letra por letra.

No entanto, sinceramente, esta nos pareceu ser uma alternativa assaz remota. O mais sensato a se pensar é que os tipógrafos seguiam à risca as indicações do texto manuscrito fornecido pelo autor, com as marcações para os estilos especiais de fonte (maiúsculo, minúsculo, itálico, sublinhado etc.).

Por sorte há como sondarmos se Kardec de fato escrevia "espiritismo" ou "Espiritismo", ou ainda se ele alternava entre um e outro estilo...


Os manuscritos de Kardec

Dos arquivos pessoais do codificador espírita, a maior parte dos manuscritos se perdeu; entretanto, uma boa soma foi recuperada e recentemente começou a ser divulgada ao público através do Projeto Allan Kardec, mantido pela Universidade Federal de Juiz de Fora - MG. Desta feita, nós temos sim um considerável acervo de escritos originais do pioneiro da nossa doutrina, de modo a nos permitir uma pesquisa sobre a questão em voga. E nós a fizemos.

Aproveitamos o ensejo também para verificarmos se Kardec aplicava algum capitular na expressão "doutrina espírita" — que nós normalmente escrevemos com iniciais maiúsculas: Doutrina Espírita. Para este caso, então, o que encontramos foi, de modo geral, um texto simples todo em minúsculo, como no documento 'Prece - 1857'.


Quanto à palavra principal de nossa pesquisa, fazendo a busca pelo termo original em francês, encontramos muitas instâncias, quase todas sugerindo a grafia com a inicial maiúscula: 'Spiritisme'. A dificuldade é que, além de a caligrafia de Kardec não ser das mais caprichadas — típico de quem tem muita tarefa a fazer e pouco tempo para cuidar da parte estética da escrita —, particularmente a sua letra "s" tinha os mesmos traços tanto para o modo minúsculo quanto para o maiúsculo, diferenciando-se apenas pelo tamanho; em algumas instâncias, nem isso para ajudar na identificação. A complicação é maior nos documentos referentes a anotações pessoais, rascunhos de artigos e transcrições de mensagens mediúnicas. Quando se trata dos originais de uma correspondência, claro, vê-se uma letra mais ajeitada; é o caso de uma de suas cartas para a esposa, Amélie Boudet, datada de 6 de setembro de 1863, em que ele se refere à sua doutrina, deixando visível a inicial 'S' em letra grande:


O mesmo zelo não é visto nos rascunhos das correspondências — certamente por se tratar de rascunhos, e não a composição final a ser remetida. Um exemplo desses seus garranchos é o rascunho de uma carata para com um brasileiro, o Dr. Francisco Antônio Pereira Rocha, em 1860, pela qual o codificador expressou interesse por notícias da nossa terrinha (grifo nosso):

Eu ficaria encantado por saber, senhor, o estado do Espiritismo no Brasil, e espero que queira bem me informar sobre isso em sua correspondência. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, da qual sou presidente, me encarrega de oferecer-lhe o título de membro correspondente...
Rascunho de carta para o Doutor Francisco Antônio Pereira Rocha [23/08/1860] 


Outro exemplo de texto caprichado: a elaboração de um discurso, em 1867, onde o “S” inicial não permite confusão como o “s” do interior da palavra em destaque:


Pela imagem acima, o 'S' parece ser grande o suficiente para o considerarmos como letra maiúscula, correto? Mas em outros tantos casos não fomos capazes de precisar a diferença. A imagem a seguir é de uma das demonstrações de situações imprecisas:

O que é mais certo é que Kardec era bem mais caprichoso ao redigir os manuscritos a serem enviados para a tipografia, como modelo do texto para impressão. E isto não é uma mera suposição nossa, mas uma informação autêntica, como veremos já.

No dia 13 de outubro de 1868, Kardec escreveu ao seu amigo Michel Bonnamy (juiz de instrução em Villeneuve-sur-Lot, além de um colaborador espírita admirado por Kardec, pela firmeza e elevação de sentimentos, tal como expressas na sua obra 'La Raison du Spiritisme [A Razão do Espiritismo]', para a qual Kardec havia ajudado no processo de revisão e impressão) para lhe dar algumas "dicas técnicas" sobre como melhor proceder para a confecção de um novo livro que Bonnamy estava finalizando (Memoires d'un spirite [Memórias de um espírita]). Confira os manuscritos clicando aqui. Na carta, o líder espírita compartilha como ele procedia:
  • Kardec elaborava um manuscrito com o texto final a ser publicado, redigido de maneira legível e correta, do contrário a correção de provas poderia ser difícil e exigir um alto custo de retrabalho;
  • Ao receber o manuscrito, o tipógrafo preparava manualmente todas as páginas de impressão, primeiro ordenando em linhas os caracteres móveis que formavam cada palavra, inclusive os espaços entre elas, e em seguida juntando as linhas até obter uma página, atento à diagramação e à numeração de cada uma.
  • Uma cópia do livro (prova) era impressa, folha a folha, para ser revisada pelo autor, que deveria conferir se a montagem feita pelo tipógrafo correspondia ao texto original e indicar as devidas correções, podendo também efetuar melhorias no texto, se necessário.
  • Só após a revisão das provas tipográficas o autor autorizava a impressão.
Trecho de La Raison du Spiritisme, que aliás utiliza a inicial maiúscula para se referir à doutrina kardecista

Por estas informações, deduzimos que as ocorrências das grafias "espiritismo" e "Espiritismo" nos livros kardequianos não foram despropositadas, nem por opção da tipografia; elas foram predeterminadas — ou no mínimo aprovadas — pelo autor espírita, que, como já frisamos, estava muito longe de ser considerado um leigo em ortografia.

Resta-nos interpretar o padrão da alteração progressiva da inicial minúscula para a maiúscula no decorrer das publicações.


Nossa interpretação

Separando a obra didática do prof. Rivail e a do seu "alter ego", Allan Kardec, vemos que a deste último é essencialmente doutrinária; o assunto principal é exatamente a doutrina que ele codificou, qual seja, o Espiritismo. Logo, nada de se estranhar que esta palavra seja tão repetida nas suas publicações. Vejamos novamente o quadro contábil das instâncias.


Ou, numa comparação direta entre as duas grafias que nos interessam:


Não há aqui dificuldade alguma para se enxergar um padrão: a grafia 'espiritismo' reina soberano nos dois primeiros livros e depois declina forte no terceiro, para dar lugar à grafia 'Espiritismo' nas derradeiras obras. E foi intencional da parte de Allan Kardec — não houve uma revisão ortográfica na língua francesa que o forçasse a fazer tal troca.

E por qual razão a versão toda minúscula foi preterida para dar lugar à versão destacada com uma inicial grande, inclusive a despeito da regra gramatical?

A nossa hipótese é que a partir de um determinado momento o mestre espírita se convenceu de que era preciso ter uma postura mais altiva com relação à Doutrina Espírita, dando-lhe uma identidade — digamos — mais institucional; antes disso, parecia que Kardec compreendia o Espiritismo como um movimento que logo iria permear as instituições, as religiões, as ciências, filosofias e tudo o mais na sociedade, guiando todos os setores para uma transformação e encaminhando-as para uma comunhão de ideias e ações, de modo que não houvesse necessidade de se estabelecer um segmento particular, dito propriamente espírita, tampouco uma nova religião. Ocorreu, porém, que não houve essa adesão em massa nem das academias de ciência e de Filosofia, e muito menos das igrejas e demais assembleias religiosas. Sequer entre os colegas espiritualistas modernos se viu um consenso doutrinário. Então, conforme presumimos, Allan Kardec passou a entender que era imperativo dar uma cara à doutrina dos Espíritos, fundar a instituição Espiritismo. Ora, a espiritualidade já o havia advertido sobre isso, nos primórdios da pesquisa espírita:

Não suponha que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficar tranquilamente em casa. Tem que expor a tua pessoa. [...]  ou seja: terá de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida...
Obras Póstumas - 2ª parte - 'Minha missão'

Ao contrário do que muitos pensam, a codificação espírita não surgiu prontinha de uma vez, nem Allan Kardec nasceu com tudo bem formatado na cabeça; foi um processo de descobrimento e construção teórica. O Espírito de Kardec estava deveras amadurecido quanto às ideias espirituais, e reencarnou com a missão pré-definida de codificar a doutrina; porém, ao reencarnar, sua lembrança ficou obliterada pelas condições naturais da vida física, precisando então desenvolver os pensamentos como uma pessoa normal — ainda que secundado pela intuição. As revisões doutrinárias feitas por Kardec ao longo das reedições de seus livros também formam uma prova cabal de que ele próprio estava aprendendo (ou recobrando) os conceitos da natureza espiritual.

Esse processo de desenvolvimento do Espiritismo, aliás, foi descrito pelo seu codificador, sendo dividido em seis fases, ou períodos característicos: Período de (1) curiosidade, (2) Filosófico, (3) de Luta, (4) Religioso, (5) Intermediário e (5) de regeneração social. Analisando tal andamento, e posicionando aquele momento (1863) como dentro do período de luta, Kardec comenta a sequência que estava por vir dentro do movimento espírita:

"A geração que surge, imbuída das ideias novas, estará em toda a sua força e preparará o caminho da que há de inaugurar o triunfo definitivo da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica. Assim serão confirmadas as palavras do Cristo, já que todas devem ter cumprimento e muitas se realizam neste momento, porque os tempos preditos são chegados."
Revista Espírita - dez. de 1863 - 'Período de luta'

E o novo período (religioso) já estava batendo à porta, cujo marco foi o lançamento de O Evangelho segundo o Espiritismo, no ano seguinte àquela classificação das fases do movimento espírita. Ora, até então, dizia-se que seria possível ser "espírita" e continuar praticando a sua crença normalmente — continuar sendo católico, protestante, judeu, muçulmano etc. Firmar o Espiritismo como uma crença particular (ou seja, basicamente instituir uma religião própria) não parecia uma boa estratégia, pois isto angariaria mais desafetos (numa espécie de competição com as outras religiões) e problemas práticos com as autoridades civis (a Igreja Católica exercia grande influência sobre as decisões do imperador francês Napoleão III; se não uma influência ideológica, pelo menos politicamente estratégica à vista de se manter no poder). Lembremo-nos de que Kardec não foi só um escritor e codificador espírita, mas também o líder do movimento espírita; nesta posição, era mister agir igualmente como um estrategista.

Acontece que os espíritas declarados começaram a ser expulsos das assembleias religiosas e até a serem perseguidos em sua vida comum. Por isso, o seu líder chegou a declarar:

"Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.
"Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou."
Revista Espírita - dez. de 1868:
'Sessão comemorativa do Dia dos Mortos: Discurso de abertura'

Não é inoportuno dizer que o ponto capital para essa virada de chave do pensamento kardequiano coincide bem com o lançamento de O Evangelho segundo o Espiritismo: a questão de uma identidade religiosa espírita estava latente, a ponto de, em 1866, em prece, o codificador cogitar mudar-se para uma comuna suíça (Locarno), onde hipoteticamente pudesse trabalhar com calma essa ideia:

"Senhor Deus Todo-Poderoso,
"Quanto mais medito sobre o objetivo final do espiritista, que é sua  constituição em religião, mais eu sinto minhas ideias se aclararem e o plano se delinear, sem dúvida graças à assistência de vossos mensageiros; porém, mais também eu sinto quanto esse trabalho exige calma e meditações sérias.
"Se me julgais digno, Senhor, de uma tal tarefa, fazei, peço-vos, que eu possa ter a tranquilidade necessária. Se as circunstâncias me obrigarem a me expatriar, peço que os bons Espíritos preparem os caminhos para que eu possa, em meu retiro, dedicar-me sem problemas a esses trabalhos. Dai-me sobretudo saúde, assim como a Amélie.
"Quanto ao local do retiro, tenho em vista Locarno, que me parece reunir as melhores condições; sobre isso, porém, seguirei os conselhos dos Bons Espíritos. Parece-me útil, antes de partir, ter feito o volume da Gênese.
"Peço aos Bons Espíritos que me assistam e me deem o tempo e as forças que me são indispensáveis."
Prece de Allan Kardec [02/12/1866] - UFJF-MG

Para finalizar, embasamos nossa tese — de que a grafia Espiritismo (com "E" bem maiúsculo) adotada por Allan Kardec a partir de um certo estágio de desenvolvimento da Doutrina Espirita, representa uma autoafirmação, uma proclamação de identidade própria — pelo propósito kardequiano de formalizar a Constituição do Espiritismo, já pensando no futuro da doutrina após seu retorno à vida espiritual. Na exposição dos motivos para essa formalização, ele novamente fala do caráter progressivo da doutrina:

"Como todas as coisas, o Espiritismo teve o seu período de gestação e, enquanto todas as questões principais e acessórias que derivam dele não se acharem resolvidas, somente pode dar resultados incompletos [...] Só se deve pedir às coisas aquilo que elas podem dar, à medida que se vão pondo em estado de produzir. Não se pode exigir de uma criança o que se pode esperar de um adulto, nem de uma árvore que acaba de ser plantada o que ela só dará quando estiver em toda a sua pujança. Em via de elaboração, o Espiritismo só podia dar resultados individuais; os resultados coletivos e gerais serão fruto do Espiritismo completo, que sucessivamente se desenvolverá..."
Obras Póstumas - 2ª parte - 'Constituição do Espiritismo', § I

Havia, portanto, chegado o momento de o Espiritismo "impor-se", isto é, assumir uma identidade própria como doutrina que oferecia os caminhos mais seguros para a humanidade terrena, considerando aí seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso. De maneira parecida, certa vez o Cristianismo precisou se impor sobre o judaísmo, sendo que a proposta original de Jesus era a de uma reformulação das tradições judaicas, em sentido progressista; como seus pares se negaram a largar suas conveniências, o esforço dos discípulos se voltaram para os gentios (estrangeiros) — tal como descrito na parábola dos convidados que se negaram a participar do casamento do filho do rei (Mateus 22:1-14,). Fazendo um paralelo, entendemos que a proposta espírita era originalmente transformar o saber comum da humanidade, tudo convergindo para os valores espirituais; como cada segmento seguiu seu rumo isoladamente, negando qualquer filiação com o Espiritismo, este se viu forçado a se instituir particularmente.

No decorrer de sua jornada de liderança do movimento espírita, Allan Kardec se impôs, até mesmo contrariando as normas gramaticais e de suas próprias ponderações a respeito do uso da letra capitular. Este é mais um exemplo de sua sincera dedicação à sua vocação missionária.

E por essas razões e muito mais é que nós nos vangloriamos de escrever Espiritismo — com todo o respeito que uma letra capitular carrega em si.


Finalidade prática

Em suma, entendemos que esta pesquisa tem o valor adicional de nos oferecer subsídios para refletirmos melhor sobre o que de fato é o Espiritismo, em termos etimológicos e doutrinários.

Ademais, a vontade final de Kardec em destacar a identidade da nossa amada doutrina através da letra maiúscula nos serve de estímulo, no sentido de igualmente procurarmos ser mais autênticos na proclamação de nossa convicção doutrinária. Sejamos, pois, Espíritas com E maiúsculo, como aliás algumas vezes nosso primeiro confrade grafou, por exemplo, no trecho a seguir:

"Ser expulso da sinagoga equivalia a ser posto fora da Igreja; era uma espécie de excomunhão. Os Espíritas — cuja doutrina é a do Cristo, interpretada de acordo com as luzes atuais — são tratados como os judeus que reconheciam em Jesus o Messias; excomungando-os, eles os põem fora da Igreja como os escribas e os fariseus fizeram com os seguidores de Jesus. Assim, aí está um homem que é expulso porque não pode admitir que aquele que o havia curado fosse um possesso do demônio e porque ele glorifica a Deus pela sua cura! Não é o mesmo o que fazem com os Espíritas?"
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. XV, item 25


Em tempo: nossa tradução das obras básicas segue literalmente a forma como o codificador escrevia o nome da sua doutrina; portanto, grafando às vezes 'espiritismo', outras vezes 'Espiritismo', e finalmente 'ESPIRITISMO', respeitando as publicações originais. Você pode ler online ou baixar as obras livremente pela Sala de Leitura do Portal Luz Espírita.



Por fim, agradecemos ao apoio dos muitos amigos e confrades espíritas que nos ajudaram nessa pesquisa. E viva o Espiritismo!
Ery Lopes
erylopes10@gmail.com

Referências:

O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - ebook.

Le Livre des Esprits, Allan Kardec - ebook.

O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - ebook.

O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - ebook.

L'Évangile selon le Spiritisme, Allan Kardec - ebook.

A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - ebook.

La Génèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme, Allan Kardec - ebook.

Revista Espírita - coleção 1864, Allan Kardec - ebook.

Grammaire normale des examens, H.-L.-D. Rivail e D. Lévi Alvarès - ebook.

Observations sur l'orthographe ou ortografie française, Ambroise Firmin Didot - ebook.

Citações bíblicas extraídas do portal NEPE.

Usage des majuscules en français [Uso das maiúculas em francês] - Wikipédia.

Petit Capitale (Tipografia) - Wikipédia.

La Raison du Spiritisme, Michel Bonnamy - ebook.

Portal do Projeto Allan Kardec, da UFJF-MG - Enciclopédia Espírita Online.

Artigo 'Espiritismo ou espiritismo?', Jáder dos Reis Sampaio - blog Espiritismo Comentado.

Carta de Kardec para Bonnamy - Arquivo FEAL.

Obras Póstumas, Allan Kardec - ebook.

Revista Espírita - coleção 1863, Allan Kardec - ebook.

Revista Espírita - coleção 1868, Allan Kardec - ebook.

Prece de Allan Kardec [02/12/1866] - Projeto Allan Kardec - Portal da UFJF-MG


Post-scriptum:

O tema desta pesquisa também serviu de base para um trabalho apresentado na edição desde ano do Encontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo - ENLIHPE, realizado em São Paulo, sintetizado no artigo 'Por que Kardec escrevia “spiritisme” e “Spiritisme”?', assinado por Ery Lopes e Luís Jorge Lira Neto. Esse e outros artigos compõem a obra final do encontro, disponível neste link.


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