"De onde vem o Espiritismo?", por Carlos Luiz


Recebemos o seguinte artigo, da autoria de nosso confrade Carlos Luiz, um dedicado estudioso e divultgador do Espiritismo, diretor do Grupo Marcos; aqui o compartilhamos para a apreciação de todos, desde já pedindo a sua ajuda no compartilhamento.


De onde vem o Espiritismo?
por Carlos Luiz

O vento sopra onde quer. Assim como você ouve o vento, mas não é capaz de dizer de onde ele vem nem para onde vai, também é incapaz de explicar como as pessoas nascem do Espírito”.
“Como pode ser isso?”, perguntou Nicodemos.
Jesus respondeu: “Você é um mestre respeitado em Israel e não entende essas coisas?
João, 3:8, NVT, destaque nosso

O diálogo de Jesus com Nicodemos pode nos fazer pensar em algo que nos diz respeito, pois ao tratar o tema das origens, o famoso fariseu, Nicodemos, Jesus o adverte: és mestre em Israel e ignora essas coisas. Pensamos, portanto, ser adequado para nós, espíritas, buscarmos entender a origem do pensamento espírita. Por isso, indagamos: de onde vem o Espiritismo?  Seríamos capazes de entender a origem histórica e cultural de nossa Doutrina? Muitas vezes falamos que o Espiritismo ensina isso ou aquilo, mas, podemos indicar a origem cultural do que o Espiritismo ensina? Sabemos que as ideias não surgem “do nada”, nem mesmo as reveladas pelos Espíritos da Codificação. É importante que não ignoremos nossa origem cultural-espiritual.

Em nossa investigação sobre a origem das ideias espíritas, contaremos com a ajuda do rei-santo, grande guerreiro e estrategista, acima de tudo, um homem devotado a Deus que instituiu o século de ouro da França, São Luís. É um dos espíritos de destaque da Codificação, São Luís torna-se diretor espiritual da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris a pedido de Kardec e acompanha suas atividades contribuindo cotidianamente com esclarecimentos, avaliando outras comunicações e por vezes convidando outros espíritos para colaborarem na Codificação.

Em sua resposta à questão 1010, assim responde:

Em breve, será reconhecido que o Espiritismo origina-se [emerge] passo a passo do próprio texto das Escrituras sagradas. Os Espíritos, portanto, não vêm para derrubar a religião, como alguns pretendem; eles vêm, ao contrário, para confirmá-la, comprová-la de forma inegável (…) é por isso, que, no futuro, tereis mais pessoas sinceramente religiosas e crentes do hoje.
O Livro dos Espíritos, questão 1010, tradução nossa, destaque nosso.

Aqui temos a revelação da origem do Espiritismo: ele origina-se, em cada passo, das Escrituras sagradas. És espírita e ignora essas coisas? Talvez, sim. Eis um mistério maior que também desvendaremos.  Comecemos!

Em meados do século XX, os grandes influenciadores culturais entenderam que a religião seria algo do passado, uma forma de pensamento que estava prestes a morrer, algo “cafona”, “brega”, sem prestígio social. Afinal, como pessoas do século XX poderiam acreditar em Deus?! O impacto dessa crença, sem fundamento, diga-se de passagem, invadiu a sociedade e como, quase sempre, somos escravos da moda, até os espíritas ficaram constrangidos em acreditar em coisas tão absurdas como Deus, Espírito, imortalidade, nos Evangelhos e em comunicabilidade com os mortos!

O modismo torna-se tão avassalador que se faz ciência. Peter Berger, renomado sociólogo da religião, escreve em seu livro The Sacred Canopy: Elements of a Sociological Theory of Religion (O Dossel Sagrado: Elementos Para uma Teoria Sociológica da Religião), 1967, que o processo da secularização, entendido como o abandono da religião era inevitável e que não apenas as instituições, mas as artes, os símbolos e as consciências — toda a cultura — abandonaria qualquer vínculo religioso. Vejamos:

… o processo [de secularização] pelo qual os setores da sociedade e da cultura removem a dominação das instituições religiosas e seus símbolos (…) afeta a totalidade da vida cultural e isso pode ser observado no declínio do conteúdo religioso nas artes, na filosofia, na literatura e, o mais importante, no desenvolvimento de uma ciência autônoma [sem conteúdo religioso] que cria uma perspectiva secular do mundo.
The Sacred Canopy: Elements of a Sociological Theory of Religion, p. 107-8, tradução nossa, destaque nosso

Quer dizer, nesse período, tudo estava claro: a religião estava morrendo, restava aguardar seu falecimento e enterrá-la em um ritual secular.  É essa a postura mental que verificamos em André Luiz, autor de Nosso Lar, conforme narra suas reflexões quando habitava a regiões inferiores da vida. Vejamos:

De fato, conhecia as letras do Velho Testamento e muita vez folheara o Evangelho; entretanto, era forçoso reconhecer que nunca procurara as letras sagradas com a luz do coração. Identificava-as através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimento e à consciência, ou em pleno desacordo com as verdades essenciais. Noutras ocasiões, interpretava-as com o sacerdócio organizado, sem sair jamais do círculo de contradições, onde estacionara voluntariamente. Em verdade, não fora um criminoso, no meu próprio conceito. A filosofia do imediatismo, porém, absorvera-me. A existência terrestre, que a morte transformara, não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum.
Nosso Lar, p. 11-12, edição Feb, destaque nosso.

Observemos a resposta ao nosso mistério: ignoramos a origem do Espiritismo porque ele não nos agrada, pois estava fora de moda ou porque, por desagradar aos outros, eles preferiram não nos aborrecer com tão inconveniente origem. Porém, há algo mais.

Peter Berger, em 1997, constata uma verdade apresentada em O Livro dos Espíritos mais de cem anos antes, vejamos:

651. Terá existido povos desprovidos de todo sentimento de adoração?
“Não, jamais existiu um povo ateu. Todos compreendem que há acima de tudo um ser supremo.”

652. Podemos considerar a adoração como tendo sua fonte na lei natural?
“A adoração está na lei natural, pois ela é o resultado de um sentimento inato no homem. Por essa razão é que a encontramos em todos os povos, embora sob formas diferentes.”
O Livro dos Espíritos, questões 651-2, Luz Espírita, destaque nosso.

Trinta anos depois, na introdução da publicação The Desecularization of the World: Resurgent Religion and World Politics (A dessecularização do mundo: o Ressurgimento da Religião e a Política Mundial) ele escreve:

A suposição de que vivemos num mundo secularizado é falsa. O mundo atual [...] é tão apaixonadamente religioso como sempre foi e, em alguns lugares, mais do que nunca. Isto significa que toda uma literatura de historiadores e cientistas sociais, vagamente designada por 'teoria da secularização', está essencialmente errada.
The Desecularization of the World: Resurgent Religion and World Politics, p.2, destaque nosso, tradução nossa.

Caso o nobre estudioso tivesse lido e entendido O Livro dos Espíritos teria evitado tal vexame.

O curioso, porém, é que as modas intelectuais não acabam de forma igual em todos os lugares. Ainda há os “André Luizes” espíritas que pensam ser as Escrituras sagradas — para usar um termo caro a São Luís e a Kardec — são livros velhos que merecem atenção somente para serem ridicularizados. Paciência. Jesus teve que ouvir de Nicodemos que ele ignorava o que era reencarnação. Hoje, temos que ouvir que amigos espíritas que, apesar do Espiritismo originar-se da Escrituras sagradas, ele nada tem a ver com elas. 

André Luiz poderia, talvez, amenizar a dor de sua consciência por ter desprezado o Evangelho pelo fato de não ter conhecido o Espiritismo. Poderemos nós?

Que não tenhamos que ouvir dos espíritos amigos a dolorosa indagação: És espírita e ignoras a Codificação?


Conclusão

Estamos desenvolvendo um imenso esforço para conseguirmos compreender o ensino dos Espíritos com os critérios estabelecidos por eles e por Kardec. Parte desse esforço está organizado em nosso curso A Imagem da Luz: a Presença do Cristo nas Três Revelações, a ser laçado dia primeiro de maio (2025) quando abordaremos como o próprio Cristo atuou e tornou-se o fundamento de toda a Doutrina Espírita em cada obra da Codificação e em cada obra publicada por Allan Kardec. 

Autor: Carlos Luiz, coordenador do Grupo Marcos (www.grupomarcos.com.br), é graduado em Ciências Sociais (UFC) com pesquisa sobre Juventude Espírita; Mestre em Literatura Antiga (UFC) com pesquisa sobre A Crucificação e o Evangelho de João; Doutorando (UFJF) com pesquisa sobre Filosofia Espírita.


Bibliografia

BERGER, Peter L. (Org). The desecularization of the world: resurgent religion and world politics, Washington, D.C.: William B. Eerdmans Publishing Company, 1999.

BERGER, Peter L. The Sacred Canopy: elements of a sociological theory of religion. New York: Open Road, 1967

BÍBLIA. Bíblia NVT. Editora Mundo Cristão, Edição do Kindle.

BÍBLIA. Bíblia NVT. Editora Mundo Cristão, online: https://search.nepebrasil.org/ 

LUIZ, André. Nosso Lar (médium Franciso Cândido Xavier). Rio de Janeiro: Editora Feb, s.a

KARDEC, Allan. Le livre des esprits. França : edição do Le centre spirite lyonnais nouvelle edition (conforme a la seconde edition originale de 1860), 1998

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: edição Luz Espírita, 2024.



Comentários

  1. Gratidão por explicações tão lógicas
    A cada lição um apontamento é assim vamos compreendendo o sentido da vida do espírito.

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  2. Não resta dúvida a esse respeito, tão bem explicado pelo nosso caro confrade. Entendo também que o Espiritismo já estava sendo preparado pelos Espíritos Superiores, conforme se lê em Joõa capítul 14 e seguintes.

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