Semana Santa 2026 - Quarta-feira das trevas: traição de Judas e a solidão de Jesus
Seguindo nossa programação para a Semana Santa 2026, nesta Quarta-feira Santa nós vamos analisar a tradição para o que ficou conhecido na liturgia cristã convencional e na cultura popular para a dia "Quarta-feira das trevas".
Se você não viu nossas postagens anteriores, convém conferi-las, para uma boa contextualização desta série especial:
- A simbologia do Domingo de Ramos.
- A ressurreição de Lázaro, a nova Páscoa e outras reflexões para a Segunda-feira Santa.
- Cristo: de cordeiro imolado à realeza terrena, e outras reflexões para a Terça-feira Santa.
Quarta-feira das trevas
Pela liturgia da Igreja Católica, a Quarta-feira Santa relembra o fatídico episódio de Judas Iscariotes vendendo o seu próprio Mestre, por trinta moedas de prata, e o entregando aos sumos sacerdotes do judaísmo. Para este ano, a leitura do evangelho é tirada da narração de Mateus (26: 14 a 25), sendo precedida, para completar o "rito da palavra", pela leitura de um trecho das profecias de Isaias (50: 4 a 9a) e pelos versos dos Salmos 68(69),8-10.21bcd-22.31 e 33-34 (R. 14cb).
O trecho de Isaias é curto e cabe a reprodução aqui:
"O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo. O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba: não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. A meu lado está quem me justifica; alguém me fará objeções? Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se. Sim, o Senhor Deus é meu Auxiliador; quem é que me vai condenar?"
Dos Salmos, destacamos a exclamação que a tradição cristã considera como profética, simbolizando a agonia do Cordeiro de Deus (Jesus) ao ser traído e abandonado pelos seus discípulos (e por todas as vezes em que nós, ainda hoje, negamos o seu Evangelho):
"Por vossa causa é que sofri tantos insultos, e o meu rosto se cobriu de confusão; eu me tornei como um estranho a meus irmãos, como estrangeiro para os filhos de minha mãe. Pois meu zelo e meu amor por vossa casa me devoram como fogo abrasador; e os insultos de infiéis que vos ultrajam recaíram todos eles sobre mim!"
Sim, depois de toda aquela festança toda que fizeram na entrada triunfal do Cristo em Jerusalém (Domingo de Ramos), o mesmo povo que louvou o "Rei dos Judeus" agora vai largá-lo nas mãos dos sacerdotes.
Então, por um momento, as trevas tomaram conta do mundo.
Judas e os sacerdotes
Por que queriam matar Jesus? E, a propósito, quem o queria matar?
Ora, o povo hebreu (assim como outros povos da região) estava sob a dominação do Império Romano. Os romanos não eram nada carinhosos com seus subordinados: eles invadiam e dominavam as nações para extrair riquezas e expandir seu poder. Contudo, de todas as dominações estrangeiras que dominaram os judeus, a do Império Romano foi a mais generosa: Roma dava ampla liberdade — inclusive religiosa — desde que fossem pagos os tributos e que se mantivesse a ordem pública. Trocando em miúdos, "pague-me os impostos, não me crie problemas e pode rezar o seu culto à vontade".
Muito astutos como eram, os administradores romanos faziam mais do que dar liberdade religiosa: eles davam certos privilégios aos líderes religiosos a fim de que eles "adestrassem" o seu povo e os conformassem diante da "meia escravidão romana"; para isso, a religião também era importante para manter a ordem e prevenir contra rebeliões contra o Estado Romano. Por sua vez, os sumos sacerdotes judeus — satisfeitos com os privilégios concedidos pelos romanos — cuidavam de amansar o seu povo e, portanto, temiam qualquer coisa que pudesse abalar sua posição confortável.
Acontece que Jesus era uma grande ameaça a essa "paz e ordem"; não ele próprio, porquanto ele era pacífico e tinha como foco a "libertação espiritual", e não a "libertação política de Israel" ("Dai a César o que é de César" — dizia ele); mas muitos dentre os seus conterrâneos o viam como o Salvador político mesmo (e ainda hoje tem gente que acredita em "salvador político"), aquele que viria para expulsar os romanos e tornar Israel a nação dominante na Terra (e subjugar com força as demais nações).
Para esse propósito político, havia até um movimento bem conhecido na época, o dos zelotas, do qual se diz que Judas Iscariotes fazia parte. Aliás, não são poucos estudiosos bíblicos que defendem que "a traição de Judas" não foi exatamente uma traição: a intenção seria usar a prisão de Jesus como estopim para provocar uma grande reação popular contra os sumos sacerdotes (verdadeiros traidores do povo, com vistas aos seus interesses particulares) e daí mobilizar uma guerra que — supostamente contando com o poder do Messias — acabaria com a expulsão dos invasores romanos e a consagração do Estado de Israel.
Então Judas foi aos sumos sacerdotes e combinou com eles uma cilada para Jesus: o apóstolo indicaria o lugar e a hora perfeita para que os líderes religiosos pudessem prender o Mestre. Essa informação era importantíssima para os príncipes dos judeus, porque Jesus estava sempre cercado pela multidão, e se eles o prendessem na frente do povo, certamente esse ato desencadearia uma grande revolta — que tudo o que os sumos sacerdotes queriam evitar.
A solidão de Jesus
No final das contas, o que restou para o cristo foi a solidão: ele foi preso e sequer houve aquela esperada rebelião popular. Logicamente que ele não queria o motim social; mas ele pretendia que pelo menos seu flagelo servisse para comover as pessoas no sentido de elas despertarem para os valores espirituais; Jesus se deixou ser humilhado para explicitar que o tesouro da Terra não vale nada em comparação ao tesouro do céu. Isto é, que os valores materialistas não valem nada em relação aos tesouros espirituais. No fim das contas, ele foi morto por causa dos interesses materiais de alguns, e trilhou o caminho do Gólgota justamente para dar o exemplo de que esses interesses não valem nada diante do que está por vir.
A tradição bíblica deixa bem claro essa solidão de Jesus ao reproduzir o versículo de uma fala do Cristo: "Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mateus, 27: 46 - Marcos, 15: 34), ainda que ele estivesse apenas repetindo uma linha do Salmo 22(21).
Então, o Cristo ficou só, abandonado...
Para nossa reflexão
O que se seguiu na História do cristianismo igrejeiro foi que os cristãos convencionais chegaram ao poder e com mão de ferro se agarraram aos bens terrenos a ponto de cometerem as maiores atrocidades do mundo, deturpando a Boa Nova do Cristo — que eles adoram com palavras e sacramentos místicos, mas o traem covardemente com seus atos.
A reflexão principal que fica para nós hoje, perante a tradição da Quarta-feira das trevas, é quanto a possibilidade de cada um de nós ainda estar aplicando o mesmo "beijo de Judas", traindo Jesus toda vez que descumprimos os seus ensinamentos — que são os mandamentos de Deus, o verdadeiro Evangelho.
Hoje, felizmente, temos o Espiritismo a nos guiar dentro do projeto da Terceira Revelação, que é o de reviver o Verdadeiro Evangelho e levar a humanidade para uma nova era, a Era de Regeneração.
Por fim, sugerimos a todos a live especial transmitida para a Quarta-feira Santa do ano passado, desenvolvendo tópicos como a traição de Judas e a solidão do Cristo:
Fique conosco e acompanhe as reflexões sobre os demais dias desta Semana Santa.
Nota: além de estar dentro desse evento especial da Semana Santa, esta quarta-feira 1 de abril de 2026 também coincide com outras importantes marcações para o Calendário Histórico Espírita:
- Nascimento de Célina Japhet: em 1 de abril de 1822, nasceu em Caen, França, Célina Japhet (Célina Eugénie Béquet), conhecida sonâmbula e uma das primeiras que contribuíram com a codificação do Espiritismo.
- Fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: em 1 de abril de 1858 foi fundada em Paris, França, por Allan Kardec, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, a primeira instituição espírita oficializada.


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