Esdrúxulo 'kardequiologismo' rigoroso - padrão 'Tico & Teco', artigo de Jorge Hessen
Recebemos o seguinte artigo e aqui o compartilhamos, para a apreciação de todos. Nele, nosso confrade espírita Jorge Hessen expõe suas reflexões a respeito do que ele considera um "fenômeno corrosivo" dentro do movimento espírita, a pretexto de uma suposta "prudência doutrinária".
O que será que Hessen quer dizer com isso? E será que a coisa é tão "corrosiva" assim?
Bom, vamos conferir:
Esdrúxulo 'kardequiologismo' rigoroso padrão 'Tico & Teco'
Sob o pretexto de fidelidade à Codificação, cresce no movimento espírita um discurso cansativo que desvirtua Allan Kardec, enfraquece a mediunidade e promove um racionalismo estéril travestido de “prudência doutrinária”.
Aponto um fenômeno silencioso, mas profundamente corrosivo, infiltrando-se no movimento espírita brasileiro: o surgimento de um grupelho de PhDs — “kardequiólogos tupiniquins” — que “defendem” Allan Kardec, mas o ridicularizam, deturpam e o esvaziam da razão.
O discurso parece sofisticado. Fala em análise, em controle universal, em evitar a fé cega. Até aí, tudo certo. O problema começa quando, sob esse verniz intelectual, instala-se uma “lógica” que contraria frontalmente a própria Codificação.
E é preciso dizer com todas as letras a esses kardequiólogos de plantão que isso não é rigor doutrinário, é anomalia da razão.
Uma das teses mais repetidas por esse rigor kardequiológico é a de que “o importante é a mensagem, não o médium”. Soa bonito. Parece tecnicamente legítimo. Mas é falso.
Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec é categórico: a moral do médium influencia decisivamente a comunicação.
Não existe médium neutro. Não existe “carteiro espiritual” imune ao próprio caráter. Espíritos elevados buscam instrumentos moralmente afinados. Espíritos inferiores exploram vaidade, orgulho e ignorância. Ignorar isso não é método, é ingenuidade ou má-fé.
Outro recurso recorrente é regurgitar o chamado “controle universal do ensino dos Espíritos” como se fosse um martelo para invalidar tudo que não se encaixa em uma leitura estreita kardequiológica tupiniquim.
Mas em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec deixa claro: esse controle se aplica a princípios fundamentais, não a descrições acessórias. Transformá-lo em instrumento para rejeitar narrativas espirituais, ambientações ou detalhes de experiência é trapacear o método kardeciano.
Parece que há comichões no “Tico & Teco” desses sabichões com o mundo espiritual “organizado”. É aqui que o blá blá blá revela sua face mais insossa. Critica-se Nosso Lar por apresentar organização no plano espiritual, cidades, atividades, estruturas, relações. Alega-se: “isso é material demais”.
Mas o que diz Kardec?
Em O Livro dos Espíritos e em A Gênese, ele ensina que o perispírito é semimaterial e que o mundo espiritual possui formas organizadas e as percepções espirituais se adaptam ao estado do Espírito. Ou seja: o erro não está na descrição, está na incapacidade de compreendê-la.
Coloquemos nossos neurônios em ação. Se o perispírito é uma "semimatéria" (termo de Kardec), logo precisa sobreviver de elementos "semimateriais", mas o que seria uma semimatéria?
Ou será que, após a nossa "viagem" para o "além", seremos uma névoa sem forma, sem cor e sem graça onde sobreviveremos na fumaça universal no enigmático vácuo quântico?
Há a coceirinha nas orelhas dos “Tico & Teeco” , com o argumento da “ausência de órgãos”: dizem que os Espíritos não possuem “órgãos”, logo, não poderiam alimentar-se nem interagir de modo semelhante ao mundo material. É um salto cognitivo apressado. Kardec jamais afirmou que a vida espiritual é um vazio funcional. Ao contrário: admite sensações, necessidades relativas e processos ainda não plenamente compreendidos. Negar qualquer forma de “alimentação”, ainda que fluídica ou simbólica, é reduzir o desconhecido a um esquema simplista tipo "Tico & Teco".
Kardec recomenda análise. Recomenda cautela. Recomenda evitar a aceitação cega. Mas nunca, absolutamente nunca, recomendou a negação preventiva de tudo o que desafia a compreensão imediata sobretudo do Tico e do Teco desocupados.
O que se vê hoje, em certos círculos, é a substituição da fé raciocinada por um ceticismo seletivo, que aceita o que cabe na própria dimensão do Tico, do Teco ou de ambos. Por isso, rejeita o que exige aprofundamento e ainda se autoproclama “fieis à Doutrina”. Mas isso não é Espiritismo. É racionalismo tupiniquim muito depauperado.
Curiosamente, os mesmos que minimizam o papel do médium não hesitam em reconhecer a importância histórica de Chico Xavier. Ora, em que ficamos? Se o médium não importa, por que sua trajetória é exaltada? Se importa, por que sua produção mediúnica é colocada sob suspeita sistemática?
A incoerência é evidente e revela mais sanha do “Tico & Teco” do que método razoável. Pois o alvo real são os Espíritos André Luiz e Emmanuel. No fundo, o que se tenta fazer é relativizar, quando não desacreditar, a obra desses Espíritos.
Mas à luz de Kardec, o critério é claro: elevação moral, coerência doutrinária, ausência de contradições essenciais e isso suas obras possuem de sobra. Rejeitá-las por detalhes descritivos (ao nível “Tico & Teco”) é trocar essência por aparência.
O Espiritismo não precisa de defensores (tipo “Tico & Teco”) que o empobreçam em nome de um falso rigor. O que está em curso é preocupante: um discurso que “parece técnico”, mas é reducionista. Que “parece fiel”, mas é seletivo. Que “parece prudente”, mas é, na prática, negacionista.
Ser fiel a Allan Kardec não é transformar a Doutrina em um sistema fechado, árido e desconfiado de tudo. É justamente o contrário: É compreender que o mundo espiritual é vasto, complexo, dinâmico, e que a mediunidade, quando séria e moralmente orientada, é uma ponte legítima para sua compreensão.
O resto, por mais bem articulado que pareça, é apenas resistência disfarçada de método padrão “Tico & Teco”.
Jorge Hessen
Brasília - DF, 2026.
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ResponderExcluirO texto do autor utiliza uma retórica baseada em neologismos pejorativos (como "kardequiologismo tupiniquim" e "padrão Tico & Teco") para mascarar uma defesa apaixonada e acrítica da literatura mediúnica pós-Kardec. Ao tentar desqualificar o rigor metodológico exigido pela Ciência Espírita, o autor distorce os princípios estabelecidos por Allan Kardec para justificar a aceitação cega de obras que trazem conceitos místicos, dogmáticos e de materialização grosseira do mundo espiritual (como as de André Luiz e Emmanuel).
Abaixo, apresentamos uma contestação fundamentada estritamente na Codificação de Allan Kardec.
1. O Médium não é o Crivo: A Falácia da Infalibilidade
O argumento de que "a moral do médium é decisiva" é usado por Hessen como um salvo-conduto para validar obras de médiuns populares. No entanto, a Doutrina ensina que:
•A moral atrai, mas não garante: A boa índole de um médium não o torna infalível. Espíritos levianos podem interferir até nos melhores instrumentos.
•O Crivo é a Mensagem: Kardec é categórico em O Livro dos Médiuns: "Não julgueis jamais uma comunicação pelo nome que a assina, mas pelo seu valor intrínseco".
•Conclusão: Aceitar conceitos apenas pela "santidade" do médium é abandonar a fé raciocinada e cair na fascinação.
2. A Universalidade do Ensino: Sem Exceções "Acessórias"
Hessen tenta limitar o Controle Universal (CUEE) apenas a "princípios fundamentais", poupando descrições de cidades espirituais. Isso é uma subversão do método.
"O primeiro controle é, sem contradita, o da razão, ao qual é necessário submeter, SEM EXCEÇÃO, tudo o que vem dos espíritos." (Allan Kardec)
As descrições do além definem a natureza da vida futura. Se um relato contraria a Escala Espírita e a desmaterialização da alma, ele deve ser rejeitado, por mais respeitável que seja o nome que o assine. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira.
3. A Ilusão das "Cidades Fluídicas": Materialização vs. Espiritualidade
O argumento de que o perispírito "semimaterial" exige órgãos, comida e transporte (como em Nosso Lar) demonstra incompreensão da eterização da alma.
•O Além não é uma cópia da Terra: A necessidade de "aeróbus", fome ou frio no plano espiritual reflete a ignorância de Espíritos ainda apegados à matéria.
•A Vida Autêntica: É regida pelo pensamento e pela afinidade moral. Kardec já alertava contra Espíritos que descrevem o além sob o prisma de seus próprios preconceitos terrenos.
4. Chico Xavier vs. Emmanuel: O Dever da Análise Crítica
Não há incoerência em respeitar a trajetória cristã de Francisco Cândido Xavier e, ao mesmo tempo, rejeitar as teses de Emmanuel ou André Luiz.
•Análise de Emmanuel: Suas obras frequentemente misturam verdades com ideias sistemáticas e misticismo igrejeiro (como o apoio ao misticismo de Roustaing).
•O Papel do Estudioso: Separar o "joio do trigo" nas obras mediúnicas não é desrespeito ao médium, mas um dever de proteção à pureza da Doutrina contra a mistificação.
5. Conclusão: O Rigor como Garantia de Vitalidade
O "racionalismo" criticado por Hessen é, na verdade, a vigilância metódica que garante que o Espiritismo continue sendo uma Ciência e não se torne uma seita dogmática.
O Espiritismo é uma Ciência de Raciocínio. O verdadeiro empobrecimento da Doutrina ocorre quando trocamos a Codificação por romances mediúnicos anestesiantes. O resgate do "Kardequiologismo" é, portanto, o resgate da autonomia moral contra o oceano de mistificações que invadiu o movimento espírita.