O sofrimento de Allan Kardec
Publicamos aqui, no mês passado, um interessante estudo denominado O Exercício Espiritual de Allan Kardec, da autoria do nosso confrade espírita Carlos Luís, a respeito de uma "técnica" que o codificador do Espiritismo usava para superar as adversidades que enfrentava na condução de sua missão espírita (Veja aqui). Daí, suscitou em alguns leitores uma dúvida comum: o pioneiro da nossa doutrina realmente sofreu muito nessa sua jornada de fundador da Doutrina dos Espíritos? E por essa brecha surgem outras questões adjacentes, por exemplo: Kardec é um Espírito superior? Espíritos superiores sofrem? Os grandes missionários não recebem proteção da espiritualidade? O sofrimento não é sinal de inferioridade?
Vamos analisar isso melhor.
Grau evolutivo de Kardec
Não nos é possível definir o grau evolutivo de Allan Kardec — e talvez nem seja elegante de nossa parte especularmos isso, senão com um propósito positivo, qual seja, o de reconhecermos nele uma superioridade. Com base nas suas obras, podemos dizer que ele era de uma inteligência bem acima da média, e que, por sua conduta moral, nada indica que ele se figura numa posição inferior à segunda ordem de Espíritos, de acordo com a classificação da Escala Espírita. No entanto, a classe específica à qual ele pertence, nós ignoramos.
Podemos ainda considerar, usando a lógica e a razão, um outro elemento útil para nos apontar uma certa superioridade espiritual do codificador, mediante a informação da própria espiritualidade: as grandes missões só podem ser confiadas a missionários qualificados; estes podem se valer do auxílio de outros obreiros menos avançados, mas como assessores dentro do projeto, e não como o líder. Ponderando então sobre a importância da Revelação Espírita, é lícito afirmarmos que o líder espírita haveria de ser um grande missionário.
Portanto, devemos contar Kardec entre as entidades mais elevadas; porém, sem idolatria. A propósito, o fato de o Espírito Verdade tê-lo alertado de que poderia falhar em sua missão doutrinária exclui Kardec da classe dos Espíritos Puros (1ª ordem na Escala Espírita), que agrupa aqueles que já não sofrem das influências materiais.
Sujeição às influências materiais
Conquanto encarnados, mesmo os Espíritos que já alcançaram uma boa elevação moral estão mais ou menos sujeitos às influências do organismo físico. Toda sua conscientização espiritual fica relativamente condicionada ao processamento cerebral; o Espírito pode saber muito, contudo sua alma não consegue manifestar esse saber em estado normal de vigília.
Um dos prejuízos comuns no processo de reencarnação é o esquecimento do passado — embora sua intuição espiritual possa ser bastante forte para guiá-lo nas suas atividades. É patente, pois, que Kardec encarnou com estas condições: o Espírito que animou esta encarnação como Codificador do Espiritismo era, por certo, muito sábio, bem compenetrado da natureza espiritual. Noutras palavras, era um mestre em Espiritismo. Todavia, ao renascer na carne, precisou redescobrir a sua espiritualidade e reaprender os princípios que regem o mundo invisível, reorganizando todos os fundamentos essenciais que iriam compor a teoria da nova doutrina a ser inaugurada na Terra, na primeira hora liderada por ele.
Só isso já justificaria dizer que a tarefa não seria fácil; mas é preciso acrescentar as carências de uma pessoa qualquer encarnada na Terra — planeta ainda com fortes características de um mundo de expiações e de provas.
O sofrimento kardequiano
Alguém aí pode alegar: "Ah, mas Kardec era um homem rico, respeitado e indubitavelmente tinha toda a proteção espiritual para realizar sua grande missão; aliás, seu Espírito protetor era ninguém menos do que o Espírito da Verdade — presumidamente o próprio Jesus." Ledo engano.
Fontes históricas mostram que a vida de Kardec não teve nada desse glamour; para começar, ficou órfão do pai ainda na infância, penou em terras estrangeiras para completar os estudos, teve que trabalhar, foi assalariado e teve revezes em alguns dos seus investimentos. Tudo isso sem contar que não tinha um corpo de ferro; passou por graves enfermidades, inclusive faleceu prematuramente por um esgotamento físico em face de tantas atividades.
Saiba mais sobre a vida pessoal do codificador espírita pela obra Biografias de Kardec sob investigação, de Carlos Seth Bastos.
Fora essas coisas triviais, some também os desafios particulares da missão de revelar uma nova doutrina — doutrina essa que mexe com as bases dos três mais importantes segmentos do pensamento humano: filosofia, ciência e religião. E isso em pleno século XIX, numa França regida por um imperador autoritário que chegara ao poder através de um golpe, sem recursos financeiros nem proteção pessoal especial.
Parece pouco? Adicione a isso mais esses ingredientes, que lhe foram previamente revelados pelo seu Espírito protetor, no ato de lhe entregar a missão:
devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios."
Proteção espiritual limitada
"Ora, mas cadê a proteção espiritual de Jesus? Que pagamento é esse que os missionários recebem na Terra por tanto trabalharem na seara divina? Como é que Deus permite que seus missionários sofram tanto?" — hão de perguntar os menos familiarizados com a tradição espiritualista.
Em primeiro lugar, o "pagamento" não é material, nem na Terra — apesar de que mesmo ainda encarnado é possível desfrutar dos louros de uma tarefa bem realizada. Ademais, o "sofrimento" não é o mesmo, ainda que a dor possa ser igual ou maior do que as dores de uma vida comum.
Kardec expressa esse contentamento especial na continuação daquela mesma nota sobre os desafios enfrentados:
É bem verdade que o seu protetor particular lhe havia prometido assistência, da qual ninguém ousaria duvidar; entretanto, essa assistência não pode ser ilimitada, pois há sempre uma utilidade nas vicissitudes enfrentadas pelos seareiros votados à obra de Deus: o sofrimento os aproxima do povo a quem a mensagem é dirigida, fazendo-os sentir um pouco daquilo que o povo sente, criando laços de empatia e mais comprometimento. Tendo ele próprio percorrido o caminho da redescoberta espiritual, Kardec pode se dirigir aos seus confrades numa linguagem acessível a todos, sentido aí a satisfação de encontrar a luz após a caminhada na escuridão. Logo, sua mensagem se torna muito mais "honesta", porque então ele podia falar com conhecimento de causa, servindo de exemplo pessoal para os demais.
As consequências da falta dessa aproximação pode ser exemplificada pelo modo como hoje os políticos em geral agem perante o povo a quem eles representam, ou deveriam representar: uma vez empossados, os políticos normalmente defendem seus privilégios e lutam por mais em favor de si mesmo, distanciando-se da realidade dos cidadãos comuns; eles ganham muito acima da média salarial, dispõem de benefícios extras (assessores, segurança particular, carro com motorista etc.), seus filhos estudam em escolas particulares, sua família se trata nos melhores hospitais (da rede privada, claro) e moram nas melhores condições, enquanto o restante da população pena em condições precárias. Sem sentir a dor do povo, como é que os políticos podem se sensibilizar pelo povo?
Em suma, as dificuldades enfrentadas por Allan Kardec na fundação do Espiritismo e na liderança do movimento espírita tinha um propósito francamente necessário e útil para ele mesmo e para os interessados na sua obra. E é óbvio, tendo cumprido a sua missão, como de fato ele a cumpriu, a paga estava à sua espera no mundo superior, na moeda mais valiosa de todas: os louros espirituais, as glórias sublimes reservadas àqueles que retornam à verdadeira vida depois de uma jornada completada com sucesso, ao lado das entidades elevadas que tanto vibraram por essa realização.
Eis por que, ainda mesmo encarnado, o pioneiro espírita declarou, com uma leveza na alma:
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