'O Exercício Espiritual de Allan Kardec', um valioso estudo espírita
Apresentamos aqui um estudo de imenso valor prático, útil para absolutamente todos nós que estamos na jornada evolutiva na Terra. Trata-se de um belo trabalho de pesquisa do nosso confrade espírita Carlos Luís, diretor do Grupo Marcos. Leiam até o final e confiram como o exercício espiritual de Allan Kardec pode ser um divisor de águas na nossa vida, como exemplo de exercício para cada um de nós.
Contexto histórico
De passageiros pelo túnel do tempo, voltemos a um momento em que o Professor Rivail (futuro Allan Kardec) está se aventurando pelas primeiras sessões mediúnicas, a fim de compreender a natureza daqueles extraordinários fenômenos das Mesas Girantes que estavam entretendo os grandes centros urbanos da Europa e da América. Numa dessas reuniões, ele recebe a revelação de que "as bases de todas as crenças seriam abaladas", sendo então necessário reconstruir tudo, donde haveria de surgir "uma nova religião, uma verdadeira religião, grande, bela e digna do Criador". E, para espanto do professor, uma segunda revelação é feita, diretamente ligada ao pedagogo: "Quanto a ti, Rivail, essa é a tua missão." Isto é, a missão kardequiana é a de um "reformador religioso". Isso foi em 30 de abril de 1856.
Homem prudente, Rivail não se exalta: "Será que isso é de verdade?..."
Na semana seguinte, outra sessão, e lá está o professor, desconfiado, mas atento e de mente aberta para examinar os ditados espirituais. Manifesta-se ali o Espírito que havia sido uma celebridade na Terra: o médico Samuel Hahnemann, o Pai da Homeopatia. E qual é a mensagem de Hahnemann para Rivail? — Ele confirma a revelação da missão de Kardec:
"Sim e, se observar as tuas aspirações e tendências, e o objetivo quase constante das tuas meditações, não te surpreenderá com o que te foi dito. Tem que cumprir aquilo com que sonha desde longo tempo. É preciso que trabalhe nisso ativamente para estar pronto, pois o dia vem mais próximo do que pensa."
Hahnemann
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª parte: 'Minha missão'
Hum... Por esta comunicação, o Espírito demonstra a seriedade da coisa: ele dá provas de que sabe do que está falando, pois toca num ponto da maior intimidade de Rivail, ao afirmar que a sua missão ("unificar as crenças") corresponde "às aspirações e tendências, e o objetivo quase constante das meditações" do professor, e que essas aspirações, tendências e objetivo, claro, não era uma coisa que lhe surgiu da noite para o dia, mas algo com o que Rivail "sonha desde longo tempo".
Bem, quer dizer que Rivail sonhava em unificar as crenças desde longo tempo? — Sim, como será demonstrado.
Uma década depois daquela revelação, um velho amigo de Kardec — o editor Maurice Lachâtre — convida o líder espirita para lhe ajudar na elaboração de dois verbetes para uma enciclopédia que está prestes a publicar: Nouveou Dictionnaire Universel, lançado em fascículos, entre 1866 e 1870. Os dois verbetes são 'Espiritismo' e 'Allan Kardec'. Aqui temos então a primeira biografia do pioneiro espírita, ou, melhor dizendo, a autobiografia kardequiana. Pois, indo ao que nos interessa, neste verbete está dito que o jovem Rivail, durante sua formação na Escola de Pestalozzi, testemunhando ali as brigas entre católicos e protestantes, e também sofrendo com essas desavenças, alimentava um sonho:
"Nascido na religião católica, mas educado num país protestante, os atos de intolerância que ele teve de suportar a esse respeito lhe fizeram, desde a idade de quinze anos, conceber a ideia de uma reforma religiosa, para a qual trabalhou em silêncio durante longos anos, com o pensamento de chegar à unificação das crenças; mas lhe faltava o elemento indispensável para a solução desse grande problema. O Espiritismo veio mais tarde lhe fornecer e imprimir uma direção especial aos seus trabalhos.."
Nouveou Dictionnaire Universel, Maurice Lachâtre - verbete 'Allan Kardec'
Tais aspirações e tendências do jovem Rivail só podiam ser reflexos de uma programação reencarnatória, correto? Noutras palavras, Kardec nasceu já com o objetivo de trabalhar para "unificar as religiões". Mas, como isso seria possível? Com o Espiritismo, é claro! Logo, instintivamente, o projeto já fazia parte da mentalidade daquele Espírito missionário; mas era preciso concretizá-lo, e uma vez encarnado, Rivail não tinha consciência de como isso seria possível: ele precisaria desenvolver sua pesquisa espírita, codificar a doutrina e então oferecê-la ao mundo. Obra do tempo, evidentemente.
A confirmação do Espírito Verdade
Todavia, voltemos ao ano de 1856, quando o professor Rivail ainda estava se descobrindo. E comedido como sempre, ele continuou perscrutando aquela história de que sua missão era a de um reformador religioso. Foi então que, em 12 de junho daquele mesmo 1856, ele vai participar de outra sessão mediúnica, em outro endereço, outro médium, e agora diante do outra entidade invisível — ninguém menos do que o seu protetor espiritual, seu anjo guardião, que se apresentou a Rivail como "A Verdade".
Enfim, o Espírito Verdade confirmou a missão de Kardec, prometendo:
"A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado, não fizer o que for necessário. Tem o teu livre-arbítrio, do qual pode usar como bem o entender. Nenhum homem é forçado a fazer coisa alguma.."
Espírito Verdade
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª parte: 'Minha missão'
Trocando em miúdos, estava na programação reencarnatória de Kardec assumir aquela tarefa, embora ele pudesse recuar do compromisso (não sem arcar com as consequências, claro). E mais, ele poderia fracassar:
"Neste último caso, outro te substituiria, porque os desígnios de Deus não se assentam na cabeça de um homem..."
Espírito Verdade
Idem
O Espírito Verdade não omitiu um detalhe crucial daquela missão, antes que Rivail a aceitasse ou não:
"[...] a missão dos reformadores é repleta de escolhos e perigos. Previno-te de que a tua é rude, porque se trata de abalar e transformar o mundo inteiro.."
Espírito Verdade
Idem
E acrescentou o que aguardava pelo missionário: malevolências, calúnias, traições, espinhos, pedras agudas e serpentes. Ora, imaginemos o tamanho do desafia que era, naquele século ainda tão rude, estabelecer uma doutrina que tivesse as seguintes características: "uma nova e verdadeira religião, grande, bela e diga no Criador"!!!
Aceitação da missão
Rivail aceitou sua missão, e naquele 12 de junho de 1856 — podemos dizer — de fato nasceu Allan Kardec. E jamais será inapropriado lembrar da ombridade do missionário, que "assinou" a certidão de nascimento do codificador do Espiritismo com uma prece solene:
"Senhor! Pois que te dignaste lançar os olhos sobre mim para cumprimento dos teus desígnios, faça-se a tua vontade! Está nas tuas mãos a minha vida; dispõe do teu servo. Reconheço a minha fraqueza diante de tão grande tarefa; a minha boa vontade não desfalecerá, as forças, porém, talvez me traiam. Supre à minha deficiência; dá-me as forças físicas e morais que me forem necessárias. Ampara-me nos momentos difíceis e, com o teu auxílio e dos teus celestes mensageiros, tudo envidarei para corresponder aos teus desígnios."
Allan Kardec
Idem
Estamos já chegando no climax do nosso estudo...
Dez anos depois
É bem sabido quão extraordinariamente eficiente foi Allan Kardec na condução da sua obra espírita; o que pouca gente sabe, porém, é quantas dificuldades ele enfrentou para cumprir sua missão. Elas não foram poucas, como o Espírito Verdade havia predito. Dez anos e seis meses depois, Kardec escreveu uma nota no seu diário, atestando que todas as previsões sobre os escolhos de sua obra se confirmaram.
"Eu escrevo esta nota em 1 de janeiro de 1867, dez anos e meio após ter recebido essa comunicação e posso testemunhar que ela se realizou em todos os pontos, passei por todas as vicissitudes que ela havia anunciado..."
Allan Kardec
Idem
A nota prossegue, detalhando um pouco das enormes dificuldades que Kardec teve ao longo daquela primeira década na liderança do movimento espírita; ele citou injúria, calúnia, ciúme, inveja etc. Por conta disso, exprimiu ele:
"Nunca mais me foi dado saber o que é o repouso; mais de uma vez sucumbi ao excesso de trabalho, tive a saúde abalada e a existência comprometida..."
Allan Kardec
Idem
Finalmente, encerrando aquela nota íntima, que só seria vindo a público duas décadas depois de sua morte, através do livro Obras Póstumas, publicado em 1890, o Apóstolo da Terceira Revelação deixou um ensinamento sublime sobre como ele superava todas as dificuldades que enfrentava...
Exercício espiritual kardequiano
Agora sim, o climax do nosso estudo, o exercício espiritual que Allan Kardec praticava a fim de superar todas as adversidades — que, como foi visto, não lhe foram poucas:
"Quando me acontecia uma decepção ou um aborrecimento qualquer, eu me elevava pelo pensamento acima da humanidade; eu me colocava por antecipação na região dos Espíritos e a partir desse ponto culminante, eu compreendia meu objetivo. Assim, as misérias da vida deslizavam sobre mim sem me atingir. Eu estava tão acostumado a esse hábito que o grito dos maus jamais me perturbava."
Allan Kardec
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª parte: 'Minha missão'
Parece simples, mas o ensinamento é profundo! Vamos destrinchá-lo.
Certamente, o ponto central que sustentou a vitória espiritual de Allan Kardec foi o fato dele ter seguido, sem hesitações, a orientação do Espírito da Verdade: agradar a Deus pela humildade, conservar a modéstia e o desinteresse e lutar contra os homens com coragem, perseverança e firmeza inabalável, além de prudência e tato. Isso é inegável. Porém, há algo a mais. O que Kardec apresenta como um hábito que o amparou de forma prática — talvez indispensável — não é uma receita mágica, mas uma técnica central da Filosofia Antiga e do Cristianismo primitivo. Em linguagem filosófica, o hábito que o Codificador descreve, para nos ensinar, é nomeado de exercício espiritual.
Vamos buscar entender seus princípios básicos. Nosso objetivo é apenas apresentar, aos que desconhecem, essa valiosa prática, esse hábito que tornou o Codificador do Espiritismo invulnerável ao ataque dos maus, de acordo com seu próprio testemunho. O exercício espiritual do Codificador é idêntico ao da Filosofia Antiga e do Cristianismo primitivo. Conforme explica Pierre Hadot (1922-2010), um dos mais eminentes filósofos do século XX, o exercício espiritual é "uma prática destinada a operar uma mudança radical do ser" e que sua prática regular gera "uma transformação da visão de mundo e a uma metamorfose da personalidade". (Exercícios espirituais e filosofia antiga, Pierre Hadot). Vejamos, de forma resumida, o que é o exercício espiritual nas escolas da Filosofia Antiga (grifos nossos):
"É nas escolas helenísticas e romanas de filosofia que o fenômeno [exercício espiritual] é mais fácil de observar. Os estoicos, por exemplo declaram-no explicitamente: para eles, a filosofia é um 'exercício'. A seus olhos, a filosofia não consiste no ensino de uma teoria abstrata, ainda menos na exegese de textos, mas numa arte de viver, numa atitude concreta, num estilo de vida determinado, que engloba toda a existência. 0 ato filosófico não se situa somente na ordem do conhecimento, mas na ordem do "eu" e do ser: é um progresso que nos faz ser mais, que nos toma melhores. É uma conversão que subverte toda a vida, que muda o ser daquele que a realiza. Ela o faz passar de um estado de vida inautêntico, obscurecido pela inconsciência, corroído pela preocupação, para um estado de vida autêntico, no qual o homem atinge a consciência de si, a visão exata do mundo, a paz e a liberdade interiores.
"Para todas as escolas filosóficas, a principal causa de sofrimento, desordem, inconsciência para o homem são as paixões: desejos desordenados, medos exagerados. A supremacia da preocupação o impede de viver verdadeiramente. A filosofia aparecera então, em primeiro lugar, como uma terapêutica das paixões ('Esforçar-se para despojar-se das próprias paixões', escreve G. Friedmann). Cada escola tem seu método terapêutico próprio, mas todas ligam a terapêutica a uma transformação profunda da maneira de ver e de ser do indivíduo. Os exercícios espirituais terão precisamente como objetivo a realização dessa transformação."
Exercícios espirituais e filosofia antiga, Pierre Hadot
O que Kardec, em nota sobre a comunicação do Espírito da Verdade, nos oferece é um exemplo de exercício espiritual dos mais valiosos. Ele não teoriza; ele diz: "Quando me acontecia uma decepção ou um aborrecimento qualquer, eu me elevava pelo pensamento acima da humanidade; eu me colocava por antecipação na região dos Espíritos e a partir desse ponto culminante, eu compreendia meu objetivo. Assim, as misérias da vida deslizavam sobre mim sem me atingir. Eu estava tão acostumado a esse hábito que o grito dos maus jamais me perturbava."
É como nos dissesse: diante das dores da vida, realizei esse exercício, ele funcionou!
Portanto, é um testemunho pessoal, da intimidade do Codificador, sobre a alta relevância dos exercícios espirituais que nos colocam, pelo pensamento, em elevado patamar, para que possamos superar dores, traumas, decepções e não perder a lucidez, não esquecer o objetivo real de nossa encarnação.
Como podemos fazer isso? Indagamos. Meditando sobre nosso objetivo último, os propósitos mais elevados que temos na atual encarnação, pois vendo os objetivos maiores, o ponto de chegada, teremos mais força e ânimo nas duras provas da vida. Ter clareza de nossa finalidade superior, senti-la, relembrá-la sempre. Isso fez Kardec todas às vezes "Quando me acontecia uma decepção ou um aborrecimento qualquer".
O interessante é que esse tipo de exercício era o tema central da filosofia socrático-platônica, bem como, do Cristianismo. Explica Hadot:
"[…] a noção e a expressão exercitium spirituale são atestadas […] no antigo cristianismo latino, e correspondem à askesis [ascese] do cristianismo grego. Mas essa askesis, por sua vez, que se deve entender bem não como ascetismo, mas como prática de exercícios espirituais, existente já na tradição filosófica da Antiguidade."
O que é a filosofia antiga?, Pierre Hadot
O que verificamos é a existência de uma prática que pode ter diversos nomes, seja exercitium spirituale ou askesis, mas que tenha um elemento comum essencial, seja nas diversas Escolas da filosofia Antiga, seja no cristianismo latino (exercitium spirituale), seja no cristianismo grego (askesis) e que Kardec adotou como hábito: a prática de um exercício que transforma o ser, o exercício espiritual. São práticas que tem o objetivo central de mudar o nosso ponto de vista. Vejamos.
"[…] aqui não se trata de um simples saber, trata-se de uma transformação da personalidade. A imaginação e a afetividade devem estar associadas ao exercício do pensamento."
O que é a filosofia antiga?, Pierre Hadot
Não é isso que fazia Kardec? Elevava-se pelo pensamento, visualiza a finalidade de sua encarnação, mobilizava seus sentimentos para fins nobres e, assim, conforme relata: "as misérias da vida deslizavam sobre mim sem me atingir".
Ao mobilizar pensamento, imaginação e sentimento, o Codificador atingia os mesmos objetivos dos diálogos platônicos:
"Destaquemos esse ponto [do método de diálogo platônico], pois é o que se passa em todo exercício espiritual; é preciso fazer a si mesmo mudar de ponto de vista, de atitude, de convicção; portanto, dialogar consigo mesmo; portanto, lutar consigo mesmo."
Idem
Quando Kardec eleva-se pelo pensamento e visualiza a finalidade que deseja atingir, não está mudando de ponto de vista? Não por acaso, ele escreveu em O Evangelho Segundo o Espiritismo um texto denominado 'O ponto de vista'. Certamente, os Espíritos da Codificação indicaram vários exercícios espirituais ao longo de suas comunicações, como o famoso exercício espiritual, detalhadamente ensinado por Santo Agostinho, na questão 919, em O Livro dos Espíritos. O próprio Kardec indicou livros e autores que apresentam dezenas de exemplos de exercícios espirituais no Catálogo Racional das obras que podem servir para formar uma biblioteca espírita, dentre os proponentes de exercícios espirituais cita, por exemplo, Madame Guyon e Fénelon.
Como ponto inicial de nossa preparação para as práticas dos exercícios espirituais precisamos entender que eles tanto vinculam-se aos precursores filosóficos do Espiritismo — Sócrates e Platão —, bem como, a Segunda Revelação — ao Cristianismo. Sobre Sócrates-Platão, explica Hadot:
"Assim, portanto, diz o Sócrates do Fédon, é bem verdadeiro que aqueles que, no sentido exato do termo, põem-se a filosofar exercitam-se para morrer e que a ideia de estar morto é, para eles, menos do que para qualquer pessoa no mundo, objeto de pavor. A morte, que aqui está em questão, é uma separação espiritual entre a alma e o corpo: 'Apartar o mais possível a alma do corpo, habituá-la a se recolher, a se concentrar sobre si mesma partindo de cada um dos pontos do corpo, a viver tanto quanto pode, nas circunstâncias atuais tanto quanto naquelas que virão, isolada e por si mesma, inteiramente desapegada do corpo, como se estivesse desapegada de seus laços.'. […] Exercitar-se para a morte é exercitar-se para a morte de sua individualidade, de suas paixões, para ver as coisas na perspectiva da universalidade e da objetividade."
O que é a filosofia antiga?, Pierre Hadot
Não há uma profunda afinidade entre esses ensinos e o Espiritismo? Quando Allan Kardec em pensamento visualiza a finalidade de sua existência, não está exercitando-se para a morte? Não está pensando e imaginando: quando morrer, quero ter realizado isso e aquilo e não quero ter tido esta ou aquela atitude? Não foi assim que ele se colocou em um ponto de vista superior para que o ataque dos maus não o atingisse? Exercitar-se para a morte não é avaliar a vida do ponto de vista da própria missão reencarnatória? Ao distanciar-se dos ataques sofridos, colocando-se acima da humanidade, Kardec não está adotando a perspectiva de universalidade? Allan Kardec era mais sábio do que supunham seus opositores. Não era também isso que destacava o Espírito da Verdade ao dizer: é necessário mais do que inteligência?
Kardec tinha verdadeira devoção e verdadeira sabedoria.
Após termos visto a relação dos exercícios espirituais em Sócrates e Platão, observamos sua relação com o Cristianismo primitivo. Escreve Pierre Hadot:
"Como bem notou Dom Jean Leclerq: 'Na Idade Média monástica, tanto quanto na Antiguidade, Philosophia designa não uma teoria ou uma maneira de conhecer, mas uma sabedoria vivida, uma maneira de viver segundo a razão', isto é, segundo o Logos. A filosofia cristã consiste precisamente em viver segundo o Logos."
Exercícios espirituais e filosofia antiga, Pierre Hadot
O Espiritismo, como o Cristianismo primitivo, não é uma “filosofia de gabinete”, um sistema filosófico fechado e abstrato, mas uma forma de viver, um estilo de vida, que tem como elemento central a compreensão do universo, apresentada pelos Espíritos superiores, bem como, os exercícios espirituais como o que fazia Allan Kardec e o que ensina Santo Agostinho.
Viver segundo o Logos, que é o Cristo, é viver segundo a Caridade cristã, por isso o tema ético central do Espiritismo — Fora da Caridade não há salvação. Salvar-se é viver segundo a Caridade e para isso o exercício espiritual é indispensável, pois a caridade requer paciência, abnegação, desprendimento material e emocional, capacidade de perdoar. A meta máxima do Espiritismo é ensinar aos seres humanos uma forma de viver na qual a benevolência, a indulgência e o perdão das ofensas sejam a norma ante todos os desafios da vida. Quem pode conseguir atingir essa meta sem os exercícios espirituais?
Por isso, Allan Kardec pode sonhar, sem ser incoerente, com uma reforma religiosa, com a união de todos, pois se há pontos de divergências teórica entre as diversas religiões, o elemento central da filosofia espírita é o do amor fraterno, a vivência da Caridade, da união verdadeira, inclusive, com os que pensam de forma diversa. Ser espírita é ser cristão para Allan Kardec: é viver segundo o Logos, segundo a Caridade.
Os exercícios espirituais exigem uma clara compreensão do mundo, por isso, são vivenciados dentro de filosofias que servem não para dar informações ou transformar as pessoas em hábeis falantes, mas para orientar a vida prática. Apenas na Idade Média, com a corrupção da Filosofia Antiga e do Cristianismo, surge a Escolástica e a “Filosofia” como hoje conhecemos: teorias que discutem com teorias para elaborar teorias...
O Espiritismo não é assim. Por isso, a austera condenação de Platão, em O Livro dos Espíritos, questão 1009: "Guerra de palavras! Guerra de palavras! Vocês já não derramaram sangue suficiente?"
Eis a crítica que surge de um elevado precursor do Espiritismo. Estaríamos, nós, espíritas, por conta de nossos crimes do passado, mais ligados à Escolástica e às estranhas discussões que levam à desunião e ao crime da antifraternidade do que vinculados a Kardec e a Platão, que visam, acima de tudo, a vivência da caridade e que repudiam fortemente a disputa verbal da vaidade doentia?
Allan Kardec escreve, na introdução do primeiro número da Revista Espírita, a norma de conduta de todas as suas publicações: "Examinaremos juntos, mas não disputaremos"; quer dizer, observaremos rigorosamente as normas do amor ao próximo, do respeito a todos. Para o Codificador, mais importante do que ter razão, é agir adequadamente, isto é, agir com caridade.
A Filosofia Espírita, como ensina Kardec, no início de O Evangelho Segundo o Espiritismo é herdeira de Sócrates e Platão e tem, como lema, “Fora da caridade não há salvação”. Consequentemente, é uma filosofia que requer vivência, e para bem viver, são necessários exercícios espirituais, pois como conseguir viver a verdadeira caridade, definida no Espiritismo como benevolência para com todos, indulgência com as imperfeições alheias e perdão das ofensas sem realizarmos profunda transformação em nós mesmos? Como praticar a caridade sem se dedicar com todas as forças a exercícios de autotransformação, sem cultivar diariamente uma prática destinada a operar uma mudança radical de si mesmo? A prática da caridade precisa de uma base intelectual e uma base emocional. A base intelectual é dado pela parte teórica da filosofia espírita, a base emocional é desenvolvida pelos exercícios espirituais ensinados na Codificação. É assim que Allan Kardec irá reformar o mundo, ensinando o caminho da verdadeira transformação individual.
Allan Kardec praticava constantemente o exercício espiritual por ele descrito para que pudesse ter indulgência e perdão para com aqueles que o traíram, enganaram e caluniaram. Ele podia em seu exercício elevar-se pelo pensamento, visualizar a obra que deveria realizar — a reforma religiosa que seria a base para uma religião grande, bela, verdadeira e digna do Criador —, sentir como seria feliz, no momento de seu desencarne, com a realização de sua missão. Lembrava a si mesmo que seu sucesso, segundo o Espírito da Verdade, estava diretamente ligado à sua disposição em agradar a Deus e lutar sabiamente contra os homens; antecipava a alegria de sua vitória espiritual; conectava-se de forma profunda ao Cristo e analisava a vida de outro ponto de vista. Esse exercício espiritual constante sustentou o Codificador do Espiritismo até o último dia de sua existência quando desencarna com a primeira parte da obra concluída. Ele venceu o mundo.
Podermos nós, sermos espiritualmente vitoriosos, descartando as práticas que levam à transformação da visão de mundo e a uma metamorfose da personalidade? Allan Kardec utilizou-se de exercícios espirituais, porque precisou deles — não por mero passatempo ou vã curiosidade, mas por necessidade prática, objetiva e real. Sua a missão era reformar as religiões do mundo. Foi bem-sucedido na primeira etapa de sua imensa tarefa e os exercícios espirituais foram decisivos em sua conquista.
Serão esses exercícios necessários para tua vitória espiritual?
Leitura complementar
A respeito da identidade do Espírito Verdade, presumidamente o Cristo Jesus, veja o verbete correspondente na Enciclopédia Espírita Online.
Além das próprias obras de Allan Kardec, sugerimos fortemente a leitura dos livros de Pierre Hadot, especialmente as duas aqui citadas: Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga e O que é Filosofia Antiga?.
Sobre autobiografia kardequiana na enciclopédia Nouveou Dictionnaire Universel, de Maurice Lachâtre, com a participação especial de Allan Kardec, recomendamos o livro Maurice Lachâtre e o Espiritismo: Entre a publicidade e as controvérsias, de Ery Lopes e Wanderlei dos Santos, disponível gratuitamente no Portal Luz Espírita.
Mais reflexões aprofundadas sobre a revelação da missão espírita de Allan Kardec através do curso CLUZ - Cristo, a Imagem da Luz, produzido pelo Grupo Marcos, dentro do site do GM ou da plataforma de cursos online da Luz Espírita PEADE.
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