Vandalismo na França destrói monumento a Allan Kardec em Lyon


Desde setembro, uma onda de protestos e vandalismos tem tomado conta da França, inclusive inspirando ações semelhantes em outras localidades da Europa, cujo pretexto principal é supostamente a atual crise econômica e social pela qual o seu povo está passando. Mérito à parte, que não nos cabe julgar aqui, temos que lamentar um ocorrido injustificável no meio dos prejuízos desses ataques: a destruição de um monumento em Lyon, erguido em homenagem a Allan Kardec, um ilustre desconhecido nascido naquela cidade.

Busto e placa comemorativa do bicentenário do nascimento de Allan Kardec 


Protesto e vandalismo

Os protestos começaram a partir de uma "crise na educação", com estudantes do ensino médio e professores protestando contra salas superlotadas, falta de professores, problemas de infraestrutura (como vazamentos e ratos nas salas de aula) e insatisfação com o sistema de admissão nas universidades. A esses apelos, somaram-se as reclamações contra o aumento do custo de vida e a inflação, que os franceses veem agravadas pela crise orçamentária promovida por um ajuste fiscal feito pelo atual presidente francês, Emmanuel Macron. às reclamações pacíficas se juntaram uma série de ataques a lojas e estabelecimentos públicos, que os manifestantes atribuem à violência policial em repreensão aos protestos.


O monumento a Allan Kardec

Lyon é a cidade natal de Hippolyte Léon Denizard Rivail, o futuro codificador espírita, sob o pseudônimo Allan Kardec, nascido em 4 de outubro de 1804. No entanto, Kardec nunca morou ali; sua família habitava uma pequena comuna daquela região, Saint-Denis-lès-Bourg, e o seu nascimento em terra lionesa foi provavelmente uma opção por melhores instalações de maternidade. Para todos os efeitos, porém, o pioneiro do Espiritismo é um cidadão lionês.

À vista disso, um monumento em homenagem ao seu nascimento foi idealizado pelo Conselho Espírita Internacional, sendo finalmente erigido naquela cidade e inaugurado em 18 de abril 2005, ainda como parte das festividades do seu 200º aniversário, celebrado no ano anterior.

O bloco com a placa monumental foi inspirada num desenho que havia sido encomendado pela Federação Espírita Brasileira para compor um selo comemorativo dos Correios do Brasil também pelo ensejo do bicentenário kardequiano, em 2004.


Selo dos Correios do Brasil em comemoração ao
bicentenário de nascimento de Allan Kardec

A peça monumental foi instalada no canteiro do encontro da Rue Sala com o cais Quai Docteur Gailleton (2º distrito de Lyon), próximo ao local de nascimento de Rivail, na antiga Rue de la Charité (Rua da Caridade). Sua estrutura foi elaborada em formato de menir (referência à cultura celta), contendo placas comemorativas e um medalhão de bronze com o perfil de Kardec.

Inauguração do monumento kardequiano em Lyon, em 18 de abril de 2004

O Memorial Allan Kardec em Lyon foi então destruído no dia 17 deste outubro — curiosamente no mesmo mês de aniversário do homenageado. As imagens a seguir nos mostram o que restou do monumento.





Em sua página oficial, a Federação Espírita Brasileira lamentou o ocorrido e publicou um texto exemplar, que aqui reproduzimos parcialmente:


O paradoxo histórico: atingir o educador que lutou pela instrução pública

A agressão ao memorial traz à tona um contraste doloroso e contraditório. Antes de adotar o pseudônimo de Allan Kardec para investigar e estruturar a Doutrina Espírita a partir de 1857, Rivail notabilizou-se como um dos mais dedicados pedagogos do século XIX francês. Discípulo predileto de Johann Heinrich Pestalozzi no prestigiado Instituto de Yverdun (Suíça), Rivail dedicou grande parte da vida à educação emancipatória, à recusa de todo dogmatismo e ao desenvolvimento da razão autônoma.

Ao regressar à França, elaborou propostas inovadoras para a instrução pública nacional, publicou compêndios de matemática, gramática, física e química, e lecionou cursos gratuitos em sua própria residência para democratizar o saber entre as classes populares. Décadas mais tarde, ao sistematizar a Codificação Espírita — a começar por O Livro dos Espíritos —, recusou qualquer prerrogativa de messianismo ou autoritarismo religioso, propondo uma “fé raciocinada” em permanente diálogo com o progresso científico.

As contribuições de Kardec em favor de uma educação fraterna, do pensamento crítico e da cultura de paz seriam, por si sós, motivos incontestes para que a sua memória fosse preservada e respeitada, especialmente em momentos de reivindicação educacional.


“Agitam-se as entranhas da humanidade”: a lucidez de A Gênese

Longe de representar o enfraquecimento do legado kardequiano, o atentado material atesta o momento singular de fratura e incompreensão vivido pelas sociedades contemporâneas.

Em 1868, no capítulo conclusivo de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo — intitulado “São chegados os tempos” —, Kardec afastou as visões apocalípticas e dramáticas do fim do mundo material, diagnosticando com precisão científica e sociológica o mecanismo das grandes transições civilizatórias. Para o pensador, as convulsões sociais não decorrem de castigos divinos, mas da Lei natural de Progresso e do inevitável atrito entre as velhas estruturas morais em declínio e a emergência de uma nova consciência coletiva pautada na fraternidade e na justiça social.

Como sintetizou com notável clarividência:

“Hoje, não são mais as entranhas do planeta que se agitam: são as da humanidade.”

A transição planetária delineada pelo codificador não se opera pela força, pelo vandalismo ou por decretos estatais, mas pela renovação das consciências, pela educação dos sentimentos e pelo diálogo maduro entre as gerações.


Posicionamento da Federação Espírita Brasileira (FEB)

Diante dos acontecimentos, a Federação Espírita Brasileira externa sua solidariedade à sociedade francesa e a toda a comunidade espírita internacional:

“A Federação Espírita Brasileira sensibiliza-se com as aflições e tensões sociais que atingem a França e compreende o anseio legítimo das novas gerações por um ensino digno e libertador. Lamentamos profundamente, contudo, que a insensatez da violência tenha alcançado o monumento erigido a Allan Kardec em Lyon. A destruição do monumento não diminui a grandeza nem apaga a perenidade da obra do codificador; pelo contrário, sublinha a urgência do cultivo da tolerância e do diálogo pacífico. Convidamos todos os corações espíritas à serenidade, à oração pela harmonia entre as nações e ao trabalho incansável pela fraternidade e pela educação das mentes e dos corações.”
Fonte Febnet


Segundo informações do nosso confrade Bruno Tavares, o presidente da Federação Espírita Francesa, Charles Kempf, já enviou um ofício à prefeitura de Lyon solicitando a restauração ou, ao menos, a autorização para reconstruir o Memorial Allan Kardec.

Aguardemos por novidades a respeito.

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