Resenha literária: 'Além da fé raciocinada', de Carlos Seth Bastos
Há dois meses nós fizemos aqui o anúncio do lançamento do livro Além da fé raciocinada, de Carlos Seth Bastos (veja aqui); agora, depois de termos lido a obra, podemos falar sobre este trabalho e expor nossas impressões sobre as ideias ali trabalhadas. Antes de tudo, cumpre-nos dizer que faremos isso com toda a honestidade, como assim exige nossa consciência, em face de contribuirmos com o Espiritismo — que é, não há dúvidas, o mesmo propósito do Sir CSI, o autor do livro em voga, a quem conhecemos pessoalmente e por quem nutrimos um carinho especial e uma amizade para além das relações acerca da nossa doutrina; ele que é, aliás, sempre prestativo com os trabalhos do Luz Espírita, sempre pronto e diligente em nos ajudar nas nossas pesquisas. E até por essas razões, o dever nos obriga a uma análise sincera, no intuito de também tentar contribuir com as reflexões a que ele nos convida a pôr em pauta. Vamos lá.
Para começo de conversa, Além da fé raciocinada é um livro diferente dos outros títulos assinados pelo mesmo autor: nos anteriores, o Sir CSI do Espiritismo é mais técnico e mais informativo, de uma postura mais historiográfica e até didática; neste outro, ele é mais reflexivo, filosófico — embora todos os seus trabalhos combinem bem todos esses elementos. Mas esse Carlos Seth Bastos mais opinativo (com opiniões oriundas de boas análises, claro) pode surpreender aos mais desavisados. O que não é um problema, diga-se de passagem.
Como qualquer pensador, ele faz uso do seu legítimo direito de levantar "problemas" (questões filosóficas), de pôr em dúvidas opiniões diversas (mesmo as de Allan Kardec) e de oferecer as suas próprias proposições. E ao propor suas concepções particulares, como qualquer pessoa, o autor incorre na possibilidade de acertar e errar; nisso, conforme nosso entendimento (que também não é infalível), nosso amigo acerta em muitas e erra em algumas. Todavia — e isto não é pouco relevante —, Seth jamais pretender fechar as questões; ao contrário, seu esforço é no sentido de promover ainda mais o debate a respeito. Nesse sentido, seu livro presta um valioso favor ao movimento espírita, contrariando os confrades mais ingênuos que creem que a codificação kardequiana encerra a codificação espírita. Não, absolutamente! Temos igual entendimento a este respeito: Kardec é o começo, não o fim da Doutrina Espírita. E o próprio codificador espírita disse isso.
Problematizando as coisas
Com efeito, Seth traz inúmeras indagações pertinentes e úteis para o nosso desenvolvimento enquanto espíritas, na busca por uma fé realmente raciocinada, como nos pede Kardec, e é o que move o livro em análise. Ora, pela complexidade e gravidade do objeto de estudo do Espiritismo, não poderíamos supor que ele fosse fácil; suas conclusões podem ser, no final, incrivelmente simples, mas até chegar lá a coisa é bastante complicada, dentre outras razões, porque cada temática está diretamente ligada a outra. Logo, para entender um conceito com toda exatidão, será preciso entender os demais conceitos adjacentes.
Dentre os "problemas" que nosso amigo nos oferece, alguns são bem profundos e, de certo modo, insolúveis para o nosso momento. Sendo assim — alguém pode perguntar —, por que lidar com isso agora, já que não podemos solver a questão? — Uma resposta válida é que precisamos ter a humildade e a consciência de que o Espiritismo não responde tudo; além do mais, ao darmos início na análise dessas questões, surgem outras — possivelmente solucionáveis — que nos ajudam a crescer em termos de aquisição doutrinária.
Poderemos voltar a tratar pontualmente sobre muitas das questões levantadas pelo Sir CSI do Espiritismo, mas vamos já adiantar algumas delas, pegando o primeiro dos fundamentos espíritas: Deus.
A este respeito, o livro faz menção a pontos que julgamos serem um tanto "simplistas", como o de um tal "paradoxo da onipotência divina", que propõe o desafio de Deus "criar uma pedra que não possa erguer" ao mesmo tempo em que se pretende que ele seja Todo-Poderoso; a isso, Kardec responderia fácil: "A Divindade não faz nada inútil"; dito isso, que utilidade haveria tal pedra? Logo, só se pode "medir" os limites de algo dentro de proposições válidas, ou seja, de coisas úteis.
Fora isso, as proposições do livro são boas; por exemplo, a do chamado "problema do mal" — às vezes nominada como "problema de Deus" —, que evoca um dilema atribuído ao filósofo grego Epicuro: "ou Deus deseja se livrar do mal e é incapaz; ou é capaz e não deseja; ou não deseja e não é capaz; ou deseja e é capaz, mas então por que o mal continua existindo?" E o nosso confrade coloca como resposta que: "A resposta para os espíritas seria que Deus tira o bem do mal através da reencarnação"; porém isso não é tudo: no final das contas, aquilo que chamamos de "mal" não é exatamente mal, mas uma condição necessária para o processo evolutivo do livre-arbítrio e conscientização individual. E quanto às "vítimas inocentes" daqueles que abusam desse ensaio evolutivo? — Ora, não há "vítimas inocentes" e, por conseguinte, injustiça no sofrimento humano, pois tudo tem uma causa e uma finalidade sábia, justa e benéfica; quem encarna num mundo ainda distante da perfeição já vem sabendo das altas probabilidades de ser ferido, o que lhe serve de instrumento de expiação, provação ou — considerando o caso (raríssimo) de um Espírito evoluído, que vem em missão) — oportunidade para dar um exemplo de superioridade; o resultado de todo mal é sempre uma lição benéfica para todos os envolvidos, donde se pode dizer que "Em suma, o mal é sempre um bem ainda incompreendido e não realizado em toda a sua plenitude". Para mais detalhes sobre isso, clique aqui.
Ademais, ainda sobre a Divindade, há provocações teóricas realmente acima de nossas capacidades intelectivas, tal como esta: se Deus é o criador de tudo e de todos, a Criação teve um início e, portanto, antes disso, nada havia — exceto Deus. Mas então, o que fazia Ele pelos tempos da eternidade anteriormente a esse início? E tem ainda aquela velha indagação sobre a própria origem de Deus, que a codificação kardequiana também não responde.
Daí, o autor de Além da fé raciocinada acerta em dizer, com sincera humildade, que nada sabemos, cabendo-nos aceitar o conceito de Deus como uma "crença". Enfim, o Espiritismo não é só ciência ou conjectura filosófica; ele também requer fé — conquanto o livro sugira apenas dois caminhos para a nossa doutrina: "Hoje temos a opção de seguir adiante ou simplesmente aceitar o que já tinha sido pesquisado por Kardec, fazendo do espiritismo, ou uma ciência, cuja progressividade é intrínseca, ou uma religião, com suas crenças intocáveis."
Opinatividade
Quem está por dentro do movimento espírita sabe o quanto estamos saturados de polêmicas — o que é compreensível, dado nossa "juventude intelectual" dentro da escala dos mundos. À vista disso, no quadro das opiniões, Seth expõe suas reflexões sobre certas coisas e se isenta de opinar sobre outras. Normal.
Uma das maiores polêmicas espíritas — talvez a maior delas — é sobre o Espiritismo ser ou não uma religião; aqui, Sir CSI não dá sua opinião categórica nem para um lado nem para outro, contudo faz um apanhado excelente sobre a evolução do pensamento de Kardec a esse respeito, partindo de uma resistência rumo a uma admissão natural, inclusive resgatando bem o histórico reflexivo de Rivail (Kardec) antes de sua missão espírita. De nossa parte, como nunca escondemos, o Espiritismo é uma doutrina complexa e multidisciplinar, contendo em si tanto uma ciência, quanto uma filosofia, bem como uma religião (lembrando que a primeira das leis naturais propostas na codificação é a Lei de Adoração, o que é próprio de uma religião); se Kardec hesitou em adotar publicamente uma "religião espírita", foi por razões estratégicas, visto o contexto político de seu tempo, quando a França era regida por Napoleão III, que, enquanto presidente, deu um autogolpe e instituiu a si mesmo imperador; embora ele fosse até simpático às ideias kardequianas, sua preocupação maior era se manter no poder, para o que ele supunha precisar do apoio da igreja católica; desta feita, não era nada interessante para Kardec — e para o Espiritismo — dar margem para que se dissesse que ele queria competir com os católicos fundando uma nova religião.
O mesmo poderia ser dito com relação à existência ou não de colônias espirituais, conforme relatado por inúmeras obras mediúnicas, especialmente as psicografadas por Chico Xavier: Seth não opina de forma assertiva, embora demonstre dificuldade de aceitar a materialidade no Além, citando um trecho kardequiano como possível subsídio: "Os não encarnados, ou errantes, não ocupam uma região determinada e circunscrita; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado". Quanto a esta citação, na nossa interpretação, o que a codificação quer dizer é que não há regiões determinadas e circunscritas de forma fixa e permanente; portanto, as instâncias como Nosso Lar, e outras tantas, ditadas por vários Espíritos e através de diversos médiuns, cabem tranquilamente no conceito dos "mundos transitórios" descritos em O Livro dos Espíritos (questão 234 e seguintes). Em suma, parece-nos muito claro que o mundo espiritual não seja vago e abstrato como muita gente pensa; ao contrário, que ele seja muito mais materializado do que essa gente pensa; não por acaso Kardec disse que o nosso corpo espiritual (perispírito) está ligado ao nosso corpo carnal "molécula a molécula" (A Gênese, Allan Kardec - cap. XI, item 18) — prova de que o envoltório perispiritual tem uma forma material; e se ele ocupa um lugar físico também no mundo espiritual, isso implica que essa dimensão espiritual também tem sua materialidade; certamente, é uma matéria de uma natureza diferente, mas ainda sim matéria.
Para nossa surpresa, Carlos Seth Bastos elegeu como "O ponto mais polêmico dos listados por Kardec" o da ação dos Espíritos sobre os fenômenos da natureza, sobre o qual, aliás, ele registra no seu livro uma opinião igualmente surpreendente. Não vamos reproduzi-la aqui, deixando que o leitor vá conferir pessoalmente em Além da fé raciocinada, capítulo 7.
Ao abordar o quesito “Heteronomia” (cap. 11), nosso confrade — ao nosso ver — parece se deixar levar pela teoria da “absoluta autonomia espiritual”, tal como proposto por Paulo Henrique de Figueiredo, cuja ideia central nós contestamos (ver aqui). Em síntese, aquela teoria rebate por completo toda espécie de heteronomia (lei que vem de fora) e prega a total autonomia do indivíduo, que, neste caso, tem sempre o livre direito de estabelecer sua própria moral, seguindo sua consciência; daí porque Carlos Seth admite dificuldade em aceitar a ideia de castigo (expiação) divino, inclusive porque ele reconhece ignorar como é a organização social e hierárquica do mundo espiritual, atuando no “controle” da justiça suprema. Por conta disso, Seth resiste a aceitar punições e provas compulsórias, expondo que para ele “todas as provas são escolhidas por nós.” A nossa interpretação é que: a total liberdade e autonomia só pertence a Deus; que há uma moral perfeita e única, a que vem do Criador, e por isso não vemos problemas em aceitar isso como uma heteronomia; o problema do castigo (expiação) é sobre a má interpretação que normalmente se faz a respeito, tomando como uma coisa má esse belo instrumento do bem, por promover a reparação e o refazimento consciencial; daí vem o enganoso silogismo: o castigo é uma coisa má + Deus não faz o mal = Deus não castiga (Saiba mais clicando aqui). Além disso, cremos numa eficiente organização hierárquica a tomar conta dos mundos (não estamos à deriva, ou por conta própria, como muitos pensam) e que os ministros encarregados disso exercem determinados controles à revelia dos Espíritos infratores. São inúmeros os exemplos de imposições citadas na codificação kardequiana: reencarnações compulsórias, restrição de contato mediúnico, exílio para orbes inferiores etc. Nos planetas avançados, naturalmente, o escopo de atuação individual é maior e menos controlado, justamente porque seus habitantes são evoluídos e conscientizados quanto à moral ditada por Deus; mas nos mundos inferiores, é preciso uma tutoria mais efetiva, donde se justifica o que diz O Livro dos Espíritos, falando da influência espiritual na nossa vida: “A esse respeito, a influência deles é maior do que vocês imaginam, pois frequentemente são eles que vos dirigem” (questão 459). Portanto, o Universo não é uma democracia: é Deus quem manda mesmo.
E tem muito mais: controle universal do ensino dos Espíritos, implementação das provas reencarnatórias, destinação dos animais, doenças genéticas, LGBT+ etc.
Conclusão
Sem dúvidas, a obra analisada é de grande valia exatamente para promover o estudo aprofundado da Doutrina Espírita, considerando que a coisa vai mesmo além da racionalização, porque, posto que nos falta uma melhor capacidade intelectual e até um sentido especial para abarcar toda a verdade espiritual, não podemos condicionar tudo à inteligência pura; é preciso mais, inclusive fé. Nesse sentido, a obra de Carlos Seth Bastos também subsidia o leitor com informações e opiniões interessantes, que ajudam a fomentar reflexões.
E para quem achou assaz ousado o subtítulo, "Uma análise crítica da obra de Kardec", nós defendemos o autor, porque é assim que deve ser — como o próprio Kardec recomendou: "Submetam tudo ao crivo da razão". Há quem idealize que o codificador espírita fosse infalível, seja pela capacidade pessoal, seja porque ele era influenciado por Espíritos superiores, afinal a sua missão era sagrada. Não, não! A coisa não foi fácil assim. Certamente que o Espírito que animou Kardec era elevado e estava preparado, mas uma vez encarnado ele precisou redescobrir as verdades espirituais, através de estudos, experimentos, com tentativas e erros; tudo isso para valorizar ainda mais a obra. Nisso, há coisas questionáveis dentro da codificação, e até equívocos — tanto é que Kardec mesmo reformulou conceitos ao longo de sua bibliografia. Sendo assim, é nosso direito e dever questionar a validade de todas as informações ali contidas; o certo é que as imprecisões e os erros kardequianos foram pouquíssimos e sobre questões secundárias, enquanto naquilo que realmente é essencial (que podem ser referidos como conceitos fundamentais do Espiritismo) o pioneiro espírita acertou com admirável precisão.
Portanto, nós recomendamos fortemente esta leitura, reforçando que cada um desenvolva seu senso crítico a fim de fazer as devidas verificações das ideias ofertadas nesta obra, como deve ser feito em qualquer outra. E o objetivo não é outro senão esse: promover o estudo sério e dedicado, com a responsabilidade que o assunto carrega em si. Por isso, parabenizamos Carlos Seth Bastos por mais esta pérola e fazemos votos que ela seja bem aproveitada pelos leitores.
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