A lição espírita sobre como tratar os inimigos
Não faz muito tempo, nós publicamos o artigo 'O sofrimento de Allan Kardec', que, dentro outras ricas reflexões, fala sobre o quanto o codificador do Espiritismo sofreu em sua jornada de liderar a Terceira Revelação, e claro, sobre como ele superava as perseguições e demais problemas que lhe surgiam, usando para isso a poderosa técnica do seu 'Exercício espiritual'. A respeito desse processo de superação, trazemos agora as pinceladas que o pioneiro espírita deixou na obra O Evangelho segundo o Espiritismo, que é o principal compêndio moral da doutrina consoladora, e que nos serve como a lição sobre como tratar os inimigos.
Na referida obra, especificamente falando dos adversários — pegando o gancho das pessoas antipáticas à Doutrina Espírita e principalmente daquelas ativamente antagonistas ao Espiritismo —, Kardec compõe um capítulo inteiro dedicado ao tema, intitulando-o 'Amem seus inimigos', conforme podemos conferir no capítulo XII.
A lição kardequiana é, na verdade, o desenvolvimento da moral cristão, isto é, o ensinamento de Jesus, o Cristo, guia e modelo para a humanidade terrena, que nos legou o mandamento do perdão, figurado na conta "setenta vezes sete". Mas o de Kardec é um desenvolvimento extraordinário, que não se encontra em qualquer homilia por aí — principalmente porque vem acompanhado do exemplo pessoal, e não apenas do sermão.
O codificador começa dizendo:
"Se o amor ao próximo representa o princípio da caridade, amar os inimigos é a sua sublime aplicação, pois essa virtude é uma das maiores vitórias conquistadas contra o egoísmo e o orgulho.."
No entanto, ele segue a linha infantil — e não raro hipócrita — de equivaler o "amor ao inimigo" ao "amor aos amigos", lembrando o valor simbólico e contextual das falas de Jesus:
"Jesus não quis dizer, com essas palavras, que devemos ter para com o inimigo a mesma ternura que temos por um irmão ou por um amigo, porque ternura pressupõe confiança; ora, não podemos ter confiança numa pessoa sabendo que ela nos quer mal, nem ter para com ela manifestações de amizade, porque sabemos que ela pode abusar dessa amizade."
O modelo kardequiano é, pois, de uma lição profunda, sincera, realmente plausível com a realidade e a expectativa dos nossos compromissos espirituais:
"Amar os inimigos não significa, portanto, ter por eles uma afeição que não está na natureza, pois o contato de um inimigo faz bater o coração de um modo totalmente diferente do contato de um amigo; significa não ter contra eles nem ódio, nem rancor e nem desejo de vingança; significa perdoá-los sem hesitação e sem condicionamentos pelo mal que eles nos fazem; significa não colocar nenhum obstáculo à reconciliação; significa lhes desejar o bem, em vez de lhes desejar o mal; ."
Carecemos assim estudar a raiz do problema, a causa da antipatia, inclusive com honestidade e capacidade de reconhecermos que muitas vezes o perseguido de hoje foi o algoz do passado e, por conseguinte, o artífice dessa perseguição. Se bem que, é verdade que muitas vezes uma antipatia pessoal possa surgir de um pretexto externo; no caso da perseguição a Kardec, por exemplo, o "problema" não era ele próprio, mas o Espiritismo.
Para todos os casos, entretanto, prevalece o entendimento da necessidade de nós passarmos por determinadas provações e expiações, mantendo a resignação e a nobreza de coração:
"Para o crente, e sobretudo para o espírita, a maneira de ver é totalmente diferente, porque ele lança seu olhar sobre o passado e sobre o futuro, entre os quais a vida presente não passa de um ponto; ele sabe que, pela própria condição da Terra, nela ele deve esperar encontrar homens maus e perversos; que as maldades com as quais ele está em luta fazem parte das provas que ele deve suportar, e o ponto de vista elevado em que ele se encontra torna as dificuldades menos amargas — que elas venham dos homens ou das coisas."
Enfim, é imperativo para o espírita superar as adversidades, dar o seu exemplo de espírita e cristão:
".O homem que ocupa uma posição elevada no mundo não se julga ofendido pelos insultos daquele que ele considera como seu inferior; assim se dá com aquele que no mundo moral se eleva acima da humanidade material, pois ele compreende que o ódio e o rancor o prejudicariam e o rebaixariam. Ora, para ser superior ao seu adversário, é preciso que ele tenha a alma maior, mais nobre e mais generosa."
No mais, recomendamos a leitura e estudo atento desse capítulo. Você pode ler online ou baixar o PDF ou EPUB da novíssima tradução de O Evangelho segundo o Espiritismo clicando aqui.
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