quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Céu, inferno e autonomia em pauta em novo livro da FEAL e o nosso contraponto


A editora da Fundação Espírita André Luiz - FEAL está promovendo o lançamento de uma obra intitulada Nem Céu nem Inferno - As leis da alma segundo o Espiritismo, pela coautoria de Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio, colocando em pauta discussões filosóficas sobre a justiça divina e as consequências para Espírito dos atos praticados, tendo como pano de fundo a obra O Céu e o Inferno de Allan Kardec, obra essa que, aliás, teria sido adulterada depois da morte do seu autor, conforme o novo livro da FEAL promete provar, a exemplo — e seguindo o mesmo plano de desvirtuamento do Espiritismo — do que supostamente ocorreu com A Gênese (saiba mais em O caso A Gênese). Em síntese, este lançamento vem promover o coroamento a proposta de "resgate doutrinário do Espiritismo de Kardec", levantada por Paulo Henrique de Figueiredo, cujo cerne a é a sua tese "autonomia" — à qual, por nossa vez, fazemos um contraponto.

A tese da autonomia espiritual já foi oferecida por Paulo Henrique de Figueiredo em suas obras anteriores (ver: Revolução Espírita e Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo), representando o ponto mais revolucionário da Doutrina Espírita de Kardec, ao lado da ideia de que, tendo sido ela "esquecida" pelos espíritas, ou sufocada pelo estabelecimento da "heteronomia", justificaria a ruina da primeira geração do movimento espírita (ver o filme documentário Espiritismo à Francesa).


O conceito de autonomia, em resposta à heteronomia, segundo o entendimento de seu idealizador, pode ser bem compreendido através da série de vídeos do programa Revolução Espírita, produzido pela TV Mundo Maior (ver a seguir).

Em resumo, Paulo Henrique de Figueiredo observa que historicamente a moral tradicional e comum imposta aos povos tem sido fundamentada sob valores heterônomos, ou seja, ditados por forças externas, como apontado pelo filósofo iluminista Immanuel Kant (1724-1804), que assim definiu:

"Heteronomia: sujeição da vontade humana a impulsos passionais, inclinações afetivas ou quaisquer outras determinações que não pertençam ao âmbito da legislação estabelecida pela consciência moral de maneira livre e autônoma" (Dicionário Houaiss Eletrônico).

O exemplo clássico é o ditado religioso das leis morais, como que para agradar a Deus, para se buscar uma salvação, para se obedecer a uma ideologia qualquer. Nesse sentido, a virtude é vista na heteronomia em o indivíduo ser fiel obediente ao "establishment", ainda que a contragosto da pessoa, sob pena de que qualquer transgressão a essas leis externas implica em castigo sobre o transgressor, ao passo que ao obediente se distribui recompensas.

A contraproposta em Kant — também alinhada com o Espiritismo de Kardec, na tese aventada — seria a autonomia, ou moral autônoma, qual seja:

"Autonomia: capacidade da vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível" (Dicionário Houaiss Eletrônico).

A partir disso, temos a excelência da moral espírita estabelecida sobre o princípio do "dever consciencial" de cada um, que se autodesigna o compromisso de sempre fazer o bem por ser este, em si mesmo, a coisa mais sábia, justa e prazerosa a ser feita; quer dizer, o bem pelo bem, não por medo de ser punido nem por interesse em qualquer recompensa e nem para agradar a quem quer que seja — inclusive a Deus —, pois esta seria a forma de verdadeiramente agradar a Deus e estar em paz de espírito. Para evidenciar este princípio, o autor recorre costumeiramente à mensagem "O dever", assinada pelo Espírito Lázaro (Paris, 1863), contido em O Evangelho segundo o Espiritismo, de cuja fonte extraímos o trecho adiante:

"O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que enfrenta as angústias da luta; é rigoroso e brando; pronto a se dobrar para as mais diversas complicações, conserva-se inflexível diante das suas tentações. O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas e ama as criaturas mais do que a si mesmo. É a um tempo juiz e escravo em causa própria" (O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. XVII, item 7).

 

Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio


Nosso contraponto

Até aqui, tudo bem. Nosso contraponto, todavia, começa com o que observamos como extrapolação dessa tese moral aplicada no sentido de que o Espírito tenha a completa liberdade para bem fazer o que queira e esteja sempre e absolutamente isento de qualquer consequência. Alega Paulo: "O Espiritismo é a moral da liberdade! Não há, afirma a teoria espírita, qualquer evolução que não seja por livre escolha. (...) É determinante, absoluta, inevitável, incondicional, a liberdade! Desse universo verdadeiro e real eu gosto! Nele me sinto acolhido. Cada indivíduo, com suas escolhas próprias é diferente. E sua participação torna-se fundamental para a diversidade." (Ver: Revolução Espírita).

Ora, essa tese da liberdade absoluta do Espírita exclui do vocabulário espírita a palavra expiação, fartamente usada por Allan Kardec, conforme o ensinamento dos Espíritos superiores da codificação. Desmorona, por tabela, também a grande contribuição da obra de Chico Xavier, intercambiando principalmente André Luiz e Emmanuel, que avançaram na descrição das consequências práticas da materialização — no corpo espiritual, o perispírito — das ações individuais, cujos reflexos naturais podem alcançar, não apenas a erraticidade (quando o Espírito retorna ao plano espiritual, depois da morte física), mas ainda reencarnações futuras, que muitas vezes vão caracterizar as anomalias congênitas nos bebês, malgrado a perfeição genética dos seus pais. Na tese do Paulo, porém, nunca é assim: o Espírito tem sempre o poder de escolher como bem queira nascer — o que contestamos prontamente.


A liberdade absoluta somente a Deus pertence. Não resta dúvidas de que um Espírito mais ou menos adiantado exerce grande influência na sua destinação; sabemos que a escolha das provas e determinadas missões também estão ao alcance dos postulantes à reencarnação, mas daí a dizer que seja sempre assim nos parece infantil (questões 258 e seguintes de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec). A chave para a compreensão do limite do livre-arbítrio está na proporção desse direito em relação à sua consciência: quanto mais evoluído o Espírito, mais campo de atual ele tem e mais autonomia para agir; mas não se exclui jamais os condicionamentos naturais da lei de Deus  O Onipotente.

Se fôssemos admitir essa tese de autonomia absoluta do Espírito, seria de se supor no suicídio espiritual, a condição de que quem não quisesse mais existir pudesse abdicar de sua vida, contrariando o lei natural da imortalidade — de que o Criador certamente não abre mão e a nós cumpre aceitar sem contestação. Essa vertente de autonomia moral beira à anarquia, á ideia de que não deva existir outra lei ou vontade que não a lei e a vontade individual.


O princípio de causa e efeito

É muito corriqueiro se ouvir dizer que a ideia de causa e efeito foi introduzida no meio espírita por exportação de conceitos orientais, atrelados à teoria do carma (ou Karma), tudo envolvido com misticismos. Ora essa, tudo que vem do Oriente é puramente místico? Deve-se rejeitar tudo o que vem das tradições?

Não, claro que não! Se assim fosse, Kardec não teria se valido da Bíblia como background para O Evangelho segundo o Espiritismo.

Com efeito, o princípio de causa e efeito não é espírita, assim como o princípio de que 2+2=4; este último é um princípio da Aritmética, dentro da Matemática, e o primeiro é um conceito da Filosofia. Kardec certamente não teria que reinventar a roda, logo, não poderia apropriar-se dos elementos filosóficos como artigos da revelação espírita; mas, com justeza, valeu-se desse e de muitos princípios filosóficos e científicos para compor a nova doutrina. A lei de causa e efeito está implícita no axioma kardequiano usado para justificar a existência de Deus, dos Espíritos e do mundo espiritual, por exemplo, afirmando "Não há efeito sem causa; todo efeito inteligente implica em uma causa inteligente".

Com isso, a codificação kardecista vai usar o princípio de causa e efeito em abundância inclusive para testificar consequências físicas naturais resultantes das ações individuais — que, obviamente — escapam do bel-prazer caprichoso dos Espíritos maliciosos. Um exemplo muitíssimo claro disso, soberbamente justificado por Kardec, é a condição de degredo migratório, em que um indivíduo recalcitrante nos vícios materiais atrasa-se demasiadamente em relação ao mundo em progresso e dele é literalmente banido, expulso, exilado, indo forçosamente expiar sua negligência em um orbe inferior, compatível com sua condição. Assim é descrito, por exemplo, no capítulo final do último livro publicado pelo codificador espírita: A Gênese (qualquer que seja edição), cujo título é bem sugestivo: "São chegados os tempos", nesse caso, alertando que nosso planeta Terra está em transição para uma nova Era e que fatalmente muitos dos seus habitantes atuais caminham para daqui se despedirem, prestes a irem penarem em outra praça, de que se poderia dizer  parafraseando Jesus — lugar de "ranger os dentes", um verdadeiro inferno, comparado com o ambiente de bonança para o qual a Terra adentra paulatinamente.

Parece-nos muito racional considerar que a nem todos os suicidas, por exemplo, seja dado a irrestrita liberdade para renascerem sem qualquer sequela física, posto que seu perispírito — que é físico também, embora de uma fisiologia mais sutil que o corpo humano terreno — tenha sofrido drasticamente com o ato violento determinante para a falência do organismo material; somos mais propensos a acreditar que muitos recém-nascidos neste mundo tragam consequências materializadas de suas imperfeições morais, a exemplo do acúmulo de sentimentos nefastos como rancor e ódio, naturalmente imposto, pelas condições estabelecidas pela Sabedoria divina.

É certo, contudo, não tomar ao pé da letra o que poeticamente podemos encontrar passim na obra de Kardec sobre expiação, punição e pecado, colocando-os na mesma conta das tradições religiosas comuns. É preciso sempre contextualizar menções como "Deus punirá...","o castigo virá...", "o homem será punido..." que, como se sabe, é corrente no kardecismo. Vejamos uma passagem semelhante: "Deus, porém, quer que todas as suas criaturas progridam e, portanto, não deixa impune qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma — por mais leve que seja — e nenhuma infração da sua lei que não acarrete forçosas e inevitáveis consequências, mais ou menos deploráveis. Daí se segue que o homem é sempre punido por aquilo em que pecou — tanto nas pequenas coisas, como nas grandes. Os sofrimentos que decorrem do pecado são uma advertência para ele de que procedeu mal." Mas, de outra feita, para um Espírito malicioso, "Confiante na impunidade, ele retardaria seu avanço e, consequentemente, a sua felicidade futura." (O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. V, item 5).

A propósito, o capítulo ("Bem-aventurados os aflitos"), de onde esta última citação foi tirada, é uma ótima sugestão de texto para se entender a questão dos sofrimentos e expiações conforme a essência do Espiritismo.


E quanto ao novo livro?

Por essas e outras questões, colocamos sob suspeita o novo livro promovido pela editora da FEAL, sem que com isso pretendamos desencorajar nossos confrades a lê-lo; ao contrário, sugerimos sua leitura, até porque há a promessa de novidades históricas — especialmente sobre a "adulteração do livro O Céu e o Inferno" (?) de que nenhum indício temos , mas não nos furtamos de expor nossas suspeitas sobre a tese em questão e ao mesmo tempo lembrar da necessidade de bem analisarmos tudo racionalmente.


Finalmente, achamos oportuno comentar que uma instituição dita espírita deva ter todo o cuidado do mundo antes de validar determinadas teorias e promover seus produtos, porque aí está uma relação inseparável de coautoria.

Pré-venda no site Mundo Maior.



Como ainda não tivemos acesso ao conteúdo do livro, nada mais justo do que lhe dar o benefício da dúvida e possibilidade de justeza. Quando o tivermos lido, dele voltaremos a tratar.

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2 comentários:

  1. Eu concordo com o que exposto. Sem ter lido o.livro Nem Céu Nem inferno já me questionava como ficariam os ensinamentos até agora estudados? outros, trazidos à luz para nós. Como uma teoria contemporânea baseados no ponto de vista dois estudiosod poria em terra todos os ensinamentos de Emmanuel e outros!?

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  2. Depois de ler o livro Nem Céu Nem Inferno, fica mais claro o significado de castigo, expiação, arrependimento, lei de causa e efeito. Independentemente de provas, para mim, fazem mais sentido as explicações dadas do que os textos tidos como alterados.

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