quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma postura espírita diante da tradição da Semana Santa


Chegamos a mais uma "semana santa" e é natural que algumas pessoas ponderem sobre qual deve ser o comportamento espírita diante dessa temática, tendo em vista toda a apelação — para não dizer exploração mesmo — que se faz com ela — seja uma apelação religiosa, no sentido de proselitismo; seja a exploração financeira (veja-se, por exemplo, a campanha comercial que se faz da páscoa associando-a à festa do coelhinho que distribui chocolates). Vamos então refletir um pouco sobre isso. 


Rito litúrgico católico 

A "semana santa" é uma sequência ritualística tradicional dentro do cronograma litúrgico da igreja católica, compondo um dos chamados "tempos fortes" do calendário cristão, que celebra a passagem histórica desde a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (celebrada no "domingo de ramos") até a festa d páscoa e ressurreição do Messias (domingo de páscoa). 

Os principais propósitos de reproduzir anualmente esses eventos históricos dentro desse período hebdomadário especial certamente são os de rememorizar os acontecimentos — inclusive para efeito catequético, no sentido de educativo — e promover a renovação da fé e disciplina dos fieis em relação aos compromissos religiosos com sua igreja, tal como se faz com outros feriados religiosos, por exemplo, o Natal e o dia do corpo de Cristo (Corpus Christi).


O rito litúrgico da semana santa começa com a consagração da festa de ramos, representando o dia quando o Cristo foi recebido na cidade santa dos hebreus como sendo o filho de Deus, profeta e rei dos judeus, sendo saudado com ramos de oliveira e aclamado ao som de "hosanas" (que no judaísmo significa o apelo "salve-nos, por favor", e para o cristianismo católico tem o valor de uma aclamação honrosa "bendito"). Jesus evidentemente já havia ido a Jerusalém diversas vezes, mas aquela — que seria a sua derradeira entrada na capital hebreia — foi extraordinária, abrindo o ciclo cerimonial decisivo para a obra do Mestre galileu na Terra. 

Na sequência do rito, a liturgia católica apresenta passagens bíblicas que evocam a vocação de Jesus para a "redenção da humanidade" e as suas previsões para o final dos tempos, o juízo final e as promessas para o ressurgimento da vida no paraíso para os "eleitos". Em meio a essas exortações, tem-se a celebração da quarta-feira de trevas, que lembra a traição de Judas Iscariotes, cujo contexto católico tradicional tende a satanizá-lo, enquanto que novas interpretações encontram naquele apóstolo um propósito de certo modo bem intencionado — ainda que equivocado. Sobre isso, aliás, vale a pena conferir: "Retratos e Judas Iscariotes" e "O Evangelho de Judas - documentário".


Na quinta-feira santa celebra-se a última ceia do Cristo e se reproduz a cerimônia de lava-pés, quando Jesus, em sinal de extrema humildade, lavou os pés de seus discípulos e, também, fez o prenúncio a Pedro que ele negaria o seu mestre por três vezes.

A seguir, vem a sexta-feira santa, ou sexta-feira da paixão de Cristo, relembrando o dia do julgamento, condenação e crucificação de Jesus. Nesse dia, é típico a encenação do fatídico sacrifício do Messias. Inclusive, esta é a única data do ano que os eclesiásticos católicos não reproduzem a solenidade da eucaristia (consagração do corpo do Cristo na hóstia).

O chamado "sábado de aleluia", faz-se a vigília santa, em preparação para o dia seguinte, o grande dia da festa da páscoa, quando os judeus relembram o dia em que seus antepassados fugiram da escravidão no Egito, guiados por Moisés, enquanto os cristãos católicos celebram a ressurreição de Jesus. Saiba mais em Visão espírita da Páscoa.


Apelação e exploração da Semana Santa

A influência da igreja católica em nossa sociedade, dentre outras formas, fica evidenciada na imposição de feriados religiosos. Durante a semana semana então temos o feriado da sexta-fera da paixão. Se a festa de ramos e a festa da páscoa não fossem em domingos, provavelmente seriam também feriados nacionais, pela importância litúrgica de seus eventos históricos.

Na verdade, em tempos mais remotos, toda a semana santa era envolta de um cerimonialismo cujo aspecto principal era o recolhimento dos fieis. Exceção feita ao domingo da páscoa — cuja natureza é exatamente de festa —, era moralmente proibido comemorações, consumo de bebidas alcoólicas e manifestações públicas com conotação festiva; era tempo de intenso jejum e até sacrifícios físicos para expiação de pecados e demonstração de consternação pelo martírio de Jesus. Não era, até mesmo, autoridades religiosas, beatos e católicos mais ortodoxos vigiarem os fieis e lançarem censura e reprovação pública contra aqueles que não se portassem à moda da época — o que para muitos não passava de apelação religiosa e uma flagrante hipocrisia, em face dos próprios pecados da igreja. Nisso, os irmãos cristãos apartados da igreja romana, como os chamados evangélicos protestantes, aproveitam para opor-se aos dogmatismo e cerimonialismo dos católicos.


E alheio a esse desentendimento doutrinário vem os exploradores de plantão. Como se sabe, a festa religiosa da páscoa tem dado lugar à corrida pelos — caríssimos, inclusive — ovos de páscoa. O apelo comercial imposto pelo estilo de vida moderno já está consagrado em nosso convívio. Religioso ou não, todos somos arrastados por essa cultura. E quem se arrisca a ser chamado de "retrógrado" ao não participar dessa nova tradição? 


Uma postura espírita

Qual então a postura ideal do espírita em meio a essas fortes tradições? Participar do ensejo histórico e também "mergulhar" no enredo e celebrar os eventos cristãos, como normalmente fazemos no Natal? Desdenhar as datas, como fossem dias absolutamente normais? Estabelecer uma nova tradição que suplante as outras?

Bem, para começar, muito provavelmente o convívio familiar e social dos espíritas é mesclado com pessoas de outras convicções religiosas ou mesmo de não religiosos e até ateus. Invariavelmente, portanto, estamos inseridos nessas tradições e não nos é possível simular que estamos em dias normais — especialmente na sexta-feira da paixão e no domingo de páscoa.

Muito provavelmente temos pessoas muito próximas a nós que sejam católicas e apreciem cultuar o rito da semana santa, levando muito a sério toda a liturgia, inclusive, sob uma compostura até mórbida, de tristeza mesmo pelo padecimento sofrido por Jesus. Diante dessas pessoas, cumpre-nos o maior respeito por sua crença e compostura — embora, sem a necessidade de participar de tal modo de ser.


Diante de não religiosos e ateus sarcásticos que aproveitam tempos fortes como esses para criticar e zombar dos fieis, convém mostrar nossa séria desaprovação a qualquer desfeita aos nossos irmãos crentes, mas também conservando o espírito de caridade moral para com esses descrentes.

Quanto à possibilidade de suplantar as primitivas tradições religiosos por força de uma nova tradição, não seria o acaso de criarmos uma nova liturgia, com formalidades ou algo parecido, até porque a Doutrina Espírita não admite nada semelhante a isso — não porque isso fosse pecado, mas porque não seria racional admitirmos um culto exterior para validar nossa espiritualidade.

É verdade que grande parte dos espíritas de hoje vem de outras crenças, e notadamente do catolicismo. Daí, por força da tradição inclusive enraizada no subconsciente, na memória espiritual construída ao longo de várias reencarnações, é comum que alguns se inclinem à beleza do cerimonial religioso — e não podemos negar essa beleza, como não o negamos a beleza das antigas mitologias e tradições místicas — e até sintam um certo "vazio" na prática espírita, pela falta das celebrações pomposas em comparação com o que as igrejas promovem. Normal, mas irracional.

Então, por nossa vez, conscientes da luz que o Espiritismo nos fornece, temos o desafio de aproveitar esses tempos fortes de antigas tradições e, respeitosamente, procurarmos "desconstruir" essas irracionalidades através da racionalidade. Por exemplo, aproveitando o ensejo cronológico, reinterpretar os eventos e semear essa reinterpretação, conforme os esclarecimentos espíritas: no caso da paixão de Jesus, desfazer o conceito vulgar de um Cristo salvador simplesmente pelo "seu" ato na cruz; reinterpretar também o conceito de "ressurreição" em face da realidade da lei natural de reencarnação, etc.


Se vai ter ou não ovo de chocolate no almoço de domingo, pouco importa, especialmente se aproveitarmos o encontro familiar e semearmos um pouco da Boa Nova de Jesus, rememorando nossos compromissos espirituais. É tempo de semear e nós espíritas temos em nossas mãos as melhores sementes do Evangelho de Jesus. Não percamos essa oportunidade e sejamos servos da luz.

Um comentário:

  1. É tempo de amar os nossos familiares e pessoas desconhecidas,somos filhos do mesmo Deus...Amém

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