quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A Gênese revisada: cap. XIV, item 1, §1 - "Leis da matéria e leis da natureza"


Para uma melhor compreensão desta postagem, ver o sumário Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.

Analisando aqui o primeiro parágrafo do item 1 do capítulo XIV ("Os fluidos") entre a primeira versão da obra (da 1ª à 4ª edição) revisada (desde a 5ª edição).

Vejamos a transcrição desse parágrafo conforme o texto original em francês, sendo a coluna da esquerda o texto da primeira versão e a coluna da direita correspondente à edição revisada:


Agora, o mesmo trecho traduzido para o nosso português:


Vemos então que somente uma palavra foi substituída neste trecho, conforme o destaque em amarelo: de matéria (matière), na primeira versão, para natureza (nature), no texto revisado. No entanto, esta pequena alteração tem sido evocada por certos estudiosos espíritas como uma das maiores evidências de que foi premeditadamente elabora por "supostos adulteradores" para "desvirtuar a Doutrina Espirita", pois, segundo estes, a substituição muda completamente o sentido do parágrafo e o põe em incoerência com o conjunto da obra de Allan Kardec, cuja motivação "dos adulteradores da doutrina" seria tirar os fenômenos espíritas do âmbito da normalidade (Natureza) e os associar às coisas sobrenaturais e místicas.

Além daqueles que cogitam a tese de adulteração, por uma perspectiva histórico-jurídica, há alguns que, mesmo à parte dessa discussão, observam "prejuízo doutrinário" e "ambiguidade" no texto revisado, sob o ponto de vista linguístico. Um exemplo dessa argumentação para apontar a "incoerência doutrinária" na palavra substituída encontramos no texto "Natureza e matéria não são sinônimo", de Marco Milani (diretor do departamento de doutrina da USE-SP), que consultamos em 19/11/2020. O referido texto alega: "Uma vez que matéria e natureza possuem significados diferentes e não são conceitos que foram utilizados como sinônimos por Kardec em suas obras, o texto modificado apresenta um claro contraste semântico." 

Mas vamos analisar isso melhor:

Primeiramente, não podemos recortar a palavra e analisá-la isoladamente: com efeito, matéria e natureza são coisas diferentes; o primeiro nível de contexto a ser assumido aqui é a expressão leis da matéria e leis da natureza, e aí a aplicação semântica se amplia. Feito isso, aumentamos o nível de contexto para o restante do parágrafo, em seguida para todo o capítulo e, finalmente, ampliamos para toda a obra, quando então poderemos ter uma interpretação mais apurada sobre o que Kardec quer dizer com estas expressões e, então, sopesar se elas se equivalem ou não.

Vamos começar pelo primeiro nível de contexto que propomos. Leis na Natureza, ou Leis Naturais, era — e ainda é — uma expressão usual no meio acadêmico para se dirigir àquilo que é normal e real, concreto, conforme as leis conhecidas pela ciência, em oposição ao sobrenatural (que, segundo as academias, é aquilo que foge da normalidade, que foge das leis da natureza); nesse sentido, é perfeitamente equivalente à Leis da Matéria, ou Leis materiais.

Nesse mesmo sentido, de "leis materiais", Kardec também vai usar a expressão "leis da natureza" em outras passagens de sua obra, inclusive no próprio livro A Gênese, em trechos semelhantes nas duas versões, por exemplo, na capa, na citação em destaque logo abaixo do nome do autor:

A tradução é a seguinte (o destaque em negrito é nosso):

A doutrina espírita é a resultante do ensinamento coletivo e concordante dos Espíritos,
A ciência é chamada a constituir a Gênese segundo as leis da natureza.
Deus prova sua grandeza e seu poder pela imutabilidade de suas leis, e não pela sua suspensão.
Por Deus, o passado e o futuro são o presente.

Ora, essa citação resume bem o propósito do livro em questão: através do Espiritismo, Kardec convida a ciência a compreender, através de seus conhecimentos e regulamentos (que os acadêmicos chamam de "Leis da Natureza") que as manifestações espirituais  que antes pareciam anormais, irregulares, sobrenaturais e místicas  na verdade são fenômenos naturais, bem explicáveis pelas novas leis que os Espíritos vinham revelar com a nova doutrina, e que as academias de ciências só as reputavam como sobrenaturais porque desconheciam sua justeza.

Uma demonstração dessa ideia encontramos no mesmo livro, cap. XIII, item 1 (grifo em negrito por nossa conta):

Na sua concepção etimológica ​a palavra milagre ​(de ​mirari​, admirar) significa: ​admirável, coisa extraordinária, surpreendente​. A Academia a definiu deste modo: ​Um ato do poder divino contrário às leis conhecidas da natureza.
(...) No entender das pessoas, um ​milagre ​diz respeito à ideia de um fato sobrenatural; no sentido ​litúrgico​, é uma derrogação das leis da natureza, por meio da qual Deus manifesta o seu poder. De fato, esse é o seu significado vulgar, que se tornou o sentido próprio, e é só por comparação e por metáfora que essa palavra é aplicada às circunstâncias normais da vida.

Fica patente aqui que leis da natureza se aplica às leis da matéria, conforme os regulamentos acadêmicos para as materiais conveniadas com disciplinas tais a química, físicas biologia etc., pois, pela visão materialista, tudo o que existe na Natureza é matéria. Logo, leis naturais equivalem às leis materiais, leis físicas.

Outra ocorrência no mesmo cap. XIII, agora no item 2, iguais nas duas edições comparadas:

Aos olhos dos ignorantes, a Ciência faz milagres todos os dias. Se um homem realmente morto for chamado à vida por intervenção divina, esse será um verdadeiro milagre, por ser um fato contrário às leis da natureza. Mas, se esse homem tiver apenas as aparências da morte, se ainda restar nele uma ​vitalidade latente, ​e que a Ciência ou uma ação magnética consiga reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas isso será um fenômeno natural, mas aos olhos de uma pessoa ignorante o fato passará por miraculoso...

É claro que o codificador espírita vai passar a conceituar Natureza no escopo amplo, colocando aí também os fenômenos espirituais dentro da normalidade, considerando-os tão naturais quantos os fenômenos químicos e físicos admitidos pelas ciências, na expectativa de que estas também passassem a adotar esse mesmo entendimento. Sabemos, no entanto, que as academias em geral têm ignorado a naturalidade das manifestações espirituais, ainda relegando-as ao terreno do misticismo e da superstição e limitam as Leis da Natureza àquilo somente alcançável por seus instrumentos físicos, materiais.

Mas agora vamos estender o nível de contexto da expressão para a frase onde ela está inserida, pegando o texto exato da primeira versão (o grifo em negrito é nosso):

(...) mas os fenômenos em que o elemento espiritual tem uma parte preponderante, esses, como não podem ser explicados unicamente por meio das leis da ​matéria​, estão fora das investigações da ciência:

Agora, substitua a expressão atual em destaque por leis da natureza, no sentido das regulamentações das academias de ciências (como é o texto da edição revisada) e veremos que nada fica prejudicado no contexto da frase. Pode-se alegar mesmo assim que, para evitar qualquer ambiguidade, melhor seria deixar como o texto original; então, por que Kardec trocaria a palavra matéria por natureza?

Para apresentarmos uma hipótese para justificar a troca, precisamos ampliar o nível do contexto para todo o parágrafo. Vamos lá:

A Ciência trouxe a solução dos milagres que derivam mais particularmente do elemento material — seja explicando-os, seja demonstrando a sua impossibilidade — através das leis que regem a matéria; mas os fenômenos em que o elemento espiritual tem uma parte preponderante, esses, como não podem ser explicados unicamente por meio das leis da ​natureza​, estão fora das investigações da ciência: esta é a razão por que eles, mais do que os outros, apresentam as características ​aparentes ​do maravilhoso. Pois é nas leis que regem a vida espiritual que podemos encontrar a explicação dos milagres dessa categoria.

A nossa hipótese é de que a substituição foi por estética literária, para não repetir o termo matéria, já que ele já aparece no mesmo parágrafo, e também uma variante sua: material.

Finalmente, abrangendo o escopo do contexto para o restante do capítulo e mesmo a totalidade do livro, vamos ver que a 5º edição revisada consagra a coerência interpretativa de que estamos falando. Ou seja, no referido capítulo XIV como em toda a obra está explícito que:

(...) o Espiritismo destruiu o império do maravilhoso e do sobrenatural e, conseguintemente, a fonte da maioria das superstições. Se ele faz com que acreditemos na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quimeras, também impede que se creia em muitas outras, de que ele demonstra a impossibilidade e a irracionalidade. (cap. I, item 40, iguais nas duas versões) 
Os fenômenos espíritas, estando na natureza, têm se produzido em todos os tempos; mas precisamente porque seus estudos não poderiam ser feitos pelos meios materiais de que ciência comum dispõe, eles permaneceram muito mais tempo do que outros no domínio do sobrenatural, donde o Espiritismo agora os retira.
(...) Longe de ampliar o domínio do sobrenatural, o Espiritismo o restringe até aos seus limites extremos e retira dele o último refúgio. Se ele faz crer na possibilidade de certos fatos, por outro lado, ele impede a crença em muitos outros, porque demonstra no campo da espiritualidade, a exemplo da Ciência no campo da materialidade, o que é possível e o que não é. (cap. XIII, item 8, igual nas duas versões)
Do mesmo modo que a descrença rejeita todos os fatos produzidos por Jesus, tendo uma aparência sobrenatural, e os considera — sem exceção — lendários, o Espiritismo dá à maior parte desses fatos uma explicação natural; prova a possibilidade deles, não somente pela teoria das leis fluídicas, como pela sua identidade com fatos semelhantes produzidos por uma imensidade de pessoas nas mais comuns condições. Por tais fatos serem de certo modo do domínio público, eles nada provam, em princípio, com relação à natureza excepcional de Jesus. (cap. XV, item 62)

Portanto, o conjunto da obra — nas duas versões comparadas — consagram os fenômenos espirituais como fatos concretos dentro das leis naturais e rechaçam o misticismo e o sobrenatural, coerentemente com toda a Doutrina Espírita. E se se quiser mais uma demonstração mais eloquente da justeza da edição revisada, vamos encontrar a mesma linha de raciocínio em um item que nela foi acrescentado. Veja só:

Essas gerações veem uma causa sobrenatural, maravilhosa, miraculosa no que, em realidade, não é mais do que a execução das leis da Natureza. (cap. XVIII, item 10, somente na edição revisada).

Com isso, fica refutada a ideia proposital de adulteração, pois, se o intuito era mistificar o Espiritismo e relegar os fenômenos espirituais às coisas supersticiosas, miraculosas e sobrenaturais, contrárias à lei de Deus, definitivamente a edição revisada de A Gênese não cumpre esse papel, porquanto em toda ela vemos a negação desse suposição.

Saiba mais em Análise comparativa das alterações no livro A Gênese.


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