sábado, 21 de novembro de 2020

Manuscrito de Karl Marx e o que ele pensava do Espiritismo


Mais um documento interessante para os nossos estudiosos é garimpado na internet por pesquisadores espíritas: uma carta original de Karl Marx, autor de O Manifesto Comunista, expressando o que o revolucionário pensava do Espiritismo.

Vejamos a publicação da fanpage CSI do Espiritismo:


Manuscrito de 160.000 euros revela o que Karl Marx pensava do Espiritismo em 1873!


Um leilão realizado em Paris em 11 de dezembro de 2018 nos mostra uma carta de Karl Marx endereçada ao Sr. Maurice Lachâtre, ex-sócio de Allan Kardec no Banco de Trocas, de 11 de fevereiro de/1873 [1]. Quando comentando sobre a obra de Eugène Sue [2], conforme a descrição dada no site, entre várias informações, ele diz: "Quant à son dernière œuvre je n'en peux juger parce que je n'en ai eu que la première livraison. Mais il est infecté comme le socialisme français de son époque de sentimentalisme. Il y mêle du spiritisme que je déteste", ou numa tradução livre, "Quanto à sua última obra [4], não posso julgá-la porque dela só tive um primeiro contato. Mas ela está infestada, como o socialismo francês de sua época, de sentimentalismo. Ela mistura isso ao espiritismo que eu detesto". Convém anotar que o termo espiritismo é posterior à data da 1ª edição da obra [5].

A carta, cujo valor estimado era de 25.000 a 30.000 euros, foi arrematada por 160.000 euros (mais de 1 milhão de reais em 2020), e só temos agora o verso do manuscrito, disponível também em um outro site de leilão [3], onde podemos ampliá-lo.

Aqui começa então o "trabalho laboratorial de CSI": conseguimos identificar a frase "spiritisme que je déteste" no lado oposto da cópia digitalizada, que foi então tratada, removendo-se o texto que estava na frente (correspondente ao verso do manuscrito), espelhando-se a imagem e consequentemente a frase, e deixando-a mais nítida. Essa evidência demonstra, por escrito, o pensamento de Karl Marx sobre o espiritismo no início de 1873.

Este foi mais um trabalho conjunto realizado pelo AKOL, CSI do Espiritismo e ObrasDeKardec.com.br, e que será contextualizado oportunamente pelo colega J. A. Vendrani Donha.

Referências:
[4] Edição de 1873, com a introdução de Lachâtre, do vol. VIII da obra de 1843 de Eugène Sue, Les Mystères de Paris (https://books.google.com.br/books?id=0SU6AAAAcAAJ)



Nossa contextualização

Karl Marx (1818-1883) é um importante personagem para a História mais recente da Terra; amado e até idolatrado por uns, odiado por alguns outros, cuja vida e obra são bem pouco conhecidas por muitos dos que o analisam com extremismos; a evocação de seu nome, sob qualquer aspecto, quase sempre suscita fortes emoções, tais paixão ou ira, e, como no caso presente, quando feito em meio ao debate em torno de uma doutrina espiritualista, com mais forte razão podemos imaginar que os ânimos se exaltem. Em todo o caso, temos, de próprio punho, um parecer seu sobre o Espiritismo: "Eu o detesto!" — expressa ele no manuscrito. E a partir daí vamos tentar entender essa definição.

Como registra a historiografia, ele nasceu de uma família abastada no Reino da Prússia (hoje Alemanha) e na sua maioridade tornou-se apátrida; perambulou pela Europa para semear as suas ideias revolucionárias, sendo banido de vários lugares até encontrar refúgio menos hostil em Londres, onde faleceu depois de instaurar o seu ideal comunista, tendo como seu mais próximo idealista o também germânico de nascença Friedrich Engels, que ele conheceu na França, na Paris do Professor Rivail, naquela década de 1840, quando eclodiu a febre das Mesas Girantes e as demais experimentações mediúnicas de que logo mais resultaria a Doutrina Espírita codificada pelo citado professor, então cognominado Allan Kardec. Se parecia óbvio que, por essas circunstâncias, Marx não só teria conhecimento do Espiritismo, agora podemos pensar mais assertivamente que ele minimamente o conhecia bem, quiçá experimentado, pois não seria razoável crer que ele o comentasse — e o adjetivasse de "detestável" — sem ter ciência do que se tratava. E é interessante que, pelo manuscrito ora exposto, Marx vai colocar o Espiritismo no mesmo nível depreciativo do socialismo francês.

Uma antiga postagem nossa levantou a hipótese de Karl Marx ser o tal Sr. M. descrito em Obras Póstumas (veja aqui).

Através de uma mensagem mediúnica, em uma sessão realizada em 30 de abril de 1856, o prof. Rivail recebe o primeiro anúncio de sua grandiosa missão de Codificador Espírita, e nesta mesma comunicação outro homem presente àquela reunião (denominado "Sr. M.") é mencionado:

“(...) A ti, M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido”.

Depois de transcrever esse ocorrido, Kardec comenta em seu diário sobre o Sr. M. nestes termos:

“O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar muito em evidência. Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo”.



Baixe o PDF de Obras Póstumas

Mais adiante, o codificador espírita vai registrar a recomendação que recebeu do Espírito Verdade sobre manter ou não contato com o Sr. M., pela sessão ocorrida em 12 de maio de 1856, na casa do Sr. Baudin:

Pergunta de Kardec (ao Espírito Verdade) — Que pensa de M...? É homem que venha a influir nos acontecimentos?
Resposta "Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas não é uma cabeça."

Deveremos tomar ao pé da letra o que foi dito, isto é, que lhe cabe o papel de destruir o que existe?
"Não; pretendeu-se apenas personificar nele o partido cujas ideias ele representa."

Posso manter relações de amizade com ele?
"Por enquanto, não; correria perigos inúteis."

Dispondo de um médium, M... diz que lhe determinaram a marcha dos acontecimentos, para, por assim dizer, uma data fixa. Será verdade?
"Sim, determinaram-lhe épocas, mas foram Espíritos levianos que lhe responderam, Espíritos que não sabem mais do que ele e que exploram a sua afobação. Sabe que não devemos precisar as coisas futuras. Os acontecimentos pressentidos certamente se darão em tempo próximo, mas que não pode ser determinado."


Pelo recorte, podemos inferir que o Sr. M. de Obras Póstumas é mesmo Marx? Não, não podemos! Até então, parece-nos lógico a suposição, porém, carecedora de maiores indícios. Quem sabe não venhamos a encontrar o manuscrito original de Kardec dessa transcrição e nela o nome do Sr. M. esteja por extenso! É uma expectativa nossa!

De qualquer forma, podemos compreender que o Espiritismo seja detestável para Marx, por essa doutrina estar "infestada de sentimentalismo". Pelo que se sabe, o filósofo socialista não só era ateu como era avesso às ideias espiritualistas, cujos valores fundam-se precisamente no sentimento de amor e na ação prática da caridade, em conformidade com as máximas do Cristo — tudo o que Marx põe na conta de "ópio da sociedade".

O projeto revolucionário marxista é comumente chamado de "socialismo" e "comunismo" — embora conceitualmente estes termos tenham suas diferenças, sendo o Socialismo, na teria marxista, um estágio intermediário e menos radical entre o capitalismo e o Comunismo. Esses termos, relacionados com o "social", o "comum", o "igualitário", têm um aparente aspecto de virtude, de valorização da fraternidade, contudo, sua aplicação no marxismo falha grotescamente por desconsiderar o único valor que motiva e pode estabelecer o verdadeiro estado fraterno: a virtude da caridade, enquanto Marx investe toda a sua retórica na aposta da repartição dos bens e meios de produção.

Ou seja: em Marx, o ideal de fraternidade está na economia e na regulamentação do poder — que só se alcança pela revolução , ao passo que no Espiritismo de Kardec, a fraternidade está no aperfeiçoamento da moral, que se consegue passo a passo, resultando que esse aperfeiçoar individual vai se refletindo no meio social e quando enfim a sociedade estiver repleta desses indivíduos reformados moralmente a fraternidade e o bem-estar social se estabelecerão, não importando as leis civis, o regime de governo, o plano econômico etc. porque então os homens de bem agirão sempre de acordo com a sua consciência elevada.

Em Marx, a necessidade de lutar, a guerra contra os "inimigos externos" para estabelecer uma nova ordem social e a partir daí implantar seu ideário de fraternidade; em Kardec, a necessidade de cada qual lutar contra o "inimigo íntimo", o desenvolvimento da consciência e o desprendimento dos materiais para valorizar as virtudes espirituais.

Em suma, diria Marx: "Fora do Comunismo não há salvação", ao que Kardec responderia prontamente: "Fora da Caridade não há salvação!".

P. S.
Sobre Maurice Lachâtre, ver seu verbete na Enciclopédia Espírita Online.

Um comentário:

  1. Acredito que o aspecto detestável do espiritismo ao qual se refere Marx é o igrejismo e à acomodação ensejada por mero sentimentalismo. É fato que a doutrina espírita quando mal interpretada e mal utilizada como no movimento espírita brasileiro atualmente e por alguns espíritas europeus da época poderia ser utilizado para a manutenção do status quo. O Espiritismo poderia ser mais uma religião dentre aquelas que são o ópio do povo.

    Kardec pensou numa revolução social com o espiritismo. Uma revolução distinta de Marx, porém não totalmente excludente. Tanto é assim que León Denis depois escreveu o clássico Socialismo e Espiritismo. Há pontos de encontros entre as ideias de Marx e de Kardec, como há pontos de desencontros.

    Creio que Marx, por ter uma boa visão de futuro como podemos ver em O Capital, já imaginava onde o movimento espírita chegaria, a saber: o aspecto de mudança social seria esquecido e as ideias espíritas seriam utilizadas para a opressão e para a manutenção do status quo.

    Até o momento Marx teve razão! Cabe a nós espíritas mudarmos isso para futuro! Ou continuaremos apenas como "opióides"?

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