Projeto Allan Kardec: planos para a destinação da Vila de Ségur
Através de sua fanpage no Facebook, o Museu AKOL anunciou novidade de seu acervo dentro do Projeto Allan Kardec, dentro do portal da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais - UFJF-MG. Como exemplo dos novos documentos lançados no maior repositório de manuscritos e outros documentos originais sobre o Espiritismo e Allan Kardec, foi o citado o manuscrito kardequiano intitulado 'Projeto concernente ao Espiritismo' (postagem original: #229) que, como bem diz o título, traz anotações do pioneiro espírita a respeito de seus planejamentos para o futuro da sua doutrina, e mais especificamente sobre a melhor destinação de uma propriedade particular, considerando o melhor proveito para o Espiritismo.
Análise do arquivo
O documento em destaque está distribuído em quatro páginas, escritas pelo próprio punho do codificador do Espiritismo, conforme se verifica pela caligrafia. Não há datação, mas pelo contexto, estimamos que tenha sido escrito na segunda metade da década de 1860.
Seu conteúdo começa com o título, mais ou menos alinhado ao centro e realçado com um sublinhado. Outros trechos também recebem o mesmo realce, denotando especial atenção do autor.
Como de praxe, a margem esquerda das folhas traz um espaço maior, estrategicamente reservado para anotações pós-escrito, por exemplo, correções, acréscimos e outras observações. E, de fato, vamos encontrar notas de melhorias nas duas páginas finais, fora outros rabiscos em entrelinhas no decorrer da composição.
Contextualizando o manuscrito
A composição começa já citando a propriedade que será a questão central do documento:
"Desde os primeiros tempos, quando comecei meu trabalho sobre o Espiritismo, os Espíritos me disseram que precisavam da propriedade que possuo na avenida de Ségur, em Paris."
Conforme as pesquisas do Sir CSI do Espiritismo, Carlos Seth Bastos (Ver Espíritos sob Investigação, cap. 8), em 1849, Kardec (ou melhor, Hippolyte Léon Denizard Rivail) assinou uma hipoteca no valor de 10 mil francos e utilizou esta verba para comprar um vasto terreno denominado Villa de Ségur, que na época ficava num subúrbio parisiense, quase uma zona rural. Ocorreu, porém, que nos anos seguintes a região passou a ser muito valorizada; só para se ter uma ideia, no inventário de Rivail, em 1869, a propriedade apareceu com um valor de quase 170 mil francos, e no de Amélie Boudet, em 1883, com um valor acima de 240 mil [cerca de 2.400.000 reais atuais].
Detalhe: sobre sua localização, partindo do centro de Paris, este terreno fica um pouco antes de local onde em 1888 foi erguida a Torre Eiffel, sendo uma localização supervalorizada. Ainda hoje existe a Avenida de Ségur e, no seu número 39, a entrada para a Villa de Ségur — obviamente, com a arquitetura totalmente modificada, com enormes e modernizados edifícios.
Mais detalhes sobre a Villa de Ségur na página Roteiro Histórico Espírita.
Presumimos que o casal Kardec planejava fazer sua morada na tranquila vila, além de se beneficiar financeiramente do aluguel de outras casas lá levantadas. Investimentos logo foram feitos: em 1861, enquanto o líder espírita visitava seus confrades em Lyon, sua esposa lhe escreve confirmando que quando ele voltasse, já encontraria pronta a reforma da casa, inclusive, com a capela da Villa de Ségur inaugurada, onde ela tinha assistido a uma missa, com mais quarenta pessoas.
Planta baixa da Villa de Ségur
Fonte: Arquivos Nacionais da França, cote: MC/RE/XCV (1883)
Fonte: Arquivos Nacionais da França, cote: MC/RE/XCV (1883)
"Assim, sem o Espiritismo, eu estaria tranquilamente em casa, na avenida Ségur, e não aqui, obrigado a trabalhar da manhã à noite e muitas vezes da noite à manhã, sem mesmo repousar um pouco, o que às vezes me é muito necessário, pois sabeis que sou sozinho para uma tarefa cuja extensão dificilmente imaginam, e que necessariamente aumenta com o desenvolvimento da doutrina."
Dessa forma, o casal permaneceu residindo no centro da Cidade Luz, num apartamento da Rua Saint'Anne, ao lado do salão alugado para a SPEE, não muito distante do Louvre e do Palays-Royal — portanto, no coração de Paris. Contudo, nada impedia que o casal fizesse estadias esporádicas na sua vila particular, embora nem mesmo nessas escapulidas o descanso se desapegava dos trabalhos espíritas; por exemplo, a "Teoria dos sonhos", publicada na Revista Espírita edição de julho de 1865, foi escrita a partir de uma sessão mediúnica realizada na casa dos Kardec na Villa de Ségur.
Entrada da Passage Saint'Anne, onde ficava a residência dos Kardec e o salão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
Voltando ao manuscrito estudado, eis a sequência do primeiro parágrafo, com Kardec falando daquela sua propriedade particular:
"[...] e se ainda a tenho, não é devido à boa vontade daqueles que me despojaram do restante, pelo qual estou endividado, mas pelo meu próprio trabalho, que me permitiu conservá-la."
Ou seja, aqui temos um desabafo de alguém que teve recursos espoliados, ficando por isso endividado. Aqui se faz oportuno dizer que Kardec não tinha recursos financeiros ilimitados como muitos pensam, mas que teve que labutar em empregos diversos para se manter — inclusive sofrendo alguns reveses nos negócios. Ainda assim, compreendendo a gravidade da Revelação Espírita, pôs à disposição da doutrina tudo o que tinha, sem exceção da propriedade da Vila de Ségur, apesar de que, como a princípio ela valia muito pouco do que viria a se tornar, Kardec ignorava como aquele imóvel poderia ser útil à causa maior:
"Não compreendia em quê ela poderia servir aos Espíritos, e quando lhes perguntava, respondiam que eu saberia mais tarde."
A elucidação veio posteriormente, dado que já era intenção do casal Kardec reservar todos os seus bens materiais à causa espírita, posto que eles não tiveram filhos; o herdeiro direto seria exatamente o Espiritismo:
"A princípio, pensava que essa propriedade, de uma renda então quase insignificante, acabaria por me dar o suficiente para me permitir renunciar a qualquer outra ocupação lucrativa e me deixar disponível para me dedicar inteiramente à doutrina. Essa previsão se concretizou, e embora meus recursos sejam muito restritos, para mim são suficientes, com muita ordem e economia."
Entretanto, revela Kardec, através deste manuscrito, que novas circunstância o fizeram entrever "um propósito maior na destinação deste imóvel"; seu projeto era tornar a Villa de Ségur uma versão espírita do Port-Royal — em referência ao influente mosteiro católico Port-Royal des Champs, fundado no século XIII na pequena Magny-les-Hameaux, nos arredores de Versalhes, e que foi um centro do qual surgiram diversas instituições de grande importância cultural. Noutras palavras, seguindo a sugestão da espiritualidade, a Villa Ségur poderia ser transformada em um polo doutrinário, ou mesmo uma espécie de sede do Espiritismo, mas que, diferente do mosteiro católico, não teria o caráter monástico (de recolhimento quase absoluto e vida contemplativa inerte), mas sim ativo e produtivo para a Doutrina Espírita.
Dentre outras coisas, imaginava-se haver ali uma comunidade de dedicados trabalhadores da causa espírita liderando o restante do movimento:
"Suponhamos, então, para cumprir essa obra, uma reunião de homens capazes, laboriosos e animados pelo zelo de uma fé viva, trabalhando juntos, cada um na sua especialidade; submetendo seus trabalhos à sanção de todos e os discutindo, eles chegariam incontestavelmente ao coroamento do edifício que se eleva. A autoridade dos princípios cresceria devido à autoridade do número, à gravidade do seu caráter e à consideração de que eles seriam capazes de se conciliar."
Estes seareiros seriam então subsidiados pelos lucros do restante do empreendimento imobiliário da vila kardecista, a fim de que eles ficassem livres de preocupações com o sustento próprio e assim pudessem se lançar às atividades doutrinárias com mais tranquilidade, formando assim as bases de uma "Sociedade Espírita Universal", em que seus membros estivesse enlaçados por uma "profissão de fé comum", cujo lema devia ser a conhecida máxima kardecista: "Fora da Caridade não há salvação", guiada pelo mandamento de Jesus, o Cristo: "Amai-vos uns aos outros; perdoai os vossos inimigos; não façais aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito [e fazei o que gostaríeis que vos fosse feito]".
Além disso, aquela "sede do Espiritismo" teria outros recintos igualmente importantes, tais como uma biblioteca espírita, um museu temático, salão de reuniões e exposições doutrinárias, asilo para os confrades desprovidos, salas para consultas médicas gratuitas e outros atendimentos caritativos, mediante a disposição de profissionais voluntários.
O manuscrito é encerrado com mais um exemplo da conhecida prudência do pioneiro espírita:
"A execução deste projeto está subordinada a uma condição essencial, a de recursos suficientes; aí está a dificuldade; talvez seja esta a quimera da ideia: é por isso que, tanto no fundo quanto na forma, pedi aos Espíritos que me dessem sua opinião."
Infelizmente Allan Kardec nunca teve recursos suficientes para implementar a ideia. Tanto que nas diversas versões da “Constituição Transitória do Espiritismo”, datadas de 1868, ele menciona que:
"O projeto de uma casa de retiro, na acepção completa do vocábulo, não pode ser executado de início, em razão dos capitais que semelhante fundação exigiria, e, além disto, porque é preciso deixar à administração o tempo necessário para ela firmar-se e caminhar com regularidade, antes de pensar em complicar suas atribuições por empreendimentos nos quais poderia fracassar. Abraçar muitas coisas antes de se ter assegurado meios de execução, seria uma imprudência. Compreendereis isto facilmente se refletirdes em todos os detalhes que comportam estabelecimentos desse gênero. Sem dúvida é bom ter boas intenções, mas, antes de tudo, é preciso poder realizá-las."
Revista Espírita, dezembro de 1868
Que fim levou a Vila de Ségur
Finalmente o casal Kardec tinha decidido entregar, ao fim do contrato de aluguel, o apartamento da Rua Saint'Anne e ir morar na Vila de Ségur a partir de 1 de abril de 1869. Também seria entregue o salão alugado para a SPEE, que então ficaria no mesmo prédio arranjado para a Livraria Espírita (outro valoroso projeto de Kardec) que estava sendo instalada na Rue de Lille, número 7, no centro de Paris, com inauguração marcada para os primeiros dias daquele abril de 1869. A edição da Revista Espírita daquele mês já estava impressa e pronta para ser distribuída; a primeira página trazia o eufórico aviso:
"A partir de 1 de abril, o escritório de assinaturas e de expedição da Revista espírita se transfere para a sede da Livraria Espírita, Rua de Lille, 7. A partir da mesma data, a sede da redação e o domicílio pessoal do Sr. Allan Kardec ficam na Avenida e Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. A Sociedade Espírita de Paris provisoriamente fará suas sessões no local da Livraria, na Rua de Lille, 7."
O mês vindouro seria muito promissor — Kardec devia estar pensando. No entanto, para a surpresa geral, um dia antes da "nova vida", bem no meio do trabalho de mudança, em 31 de março, Allan Kardec faleceu vítima de rompimento de um aneurisma.
Passado o choque, e como exigia o procedimento das tarefas, os projetos espíritas foram tocados, estando à frente de todos a viúva Kardec, Amélie Gabrielle Boudet. A Livraria Espírita foi inaugurada, sob a gerência de Edouard Mathieu Bittard, a Revista Espírita continuou sendo editada, sob a gerência de Armand Désliens, e a senhora Kardec foi morar na Vila de Ségur, sondando as possibilidades de realizar o sonho do esposo no sentido de ali implantar um polo de atividades doutrinárias; para tanto, era imperativo estabelecer uma organização que tivesse as disposições legais exigidas pelo governo francês para atuar como captadora e administradora de recursos financeiros (algo que a legislação da época não permitia à SPEE). Foi daí que surgiu a Sociedade Anônima Espírita, da qual a viúva Kardec era a sócia majoritária. Tudo correu razoavelmente bem de início, mas a coisa foi definhando aos poucos, à medida que Amélie encontrava mais dificuldades para administrar tudo aquilo, tendo então que delegar as tarefas a terceiros.
A partir de 1971, a liderança dos negócios espíritas foi ficando cada vez mais concentrada nas mãos de Pierre-Gaëtan Leymarie, cuja administração foi muito contestada por vários confrades espíritas; além de não se concretizarem os planos elaborados para o "Port-Royal do Espiritismo", Leymarie ainda foi envolvido e condenado num processo criminal devido a publicação na Revista Espírita de fotografias de fenômenos espíritas que supostamente eram falsificadas; ele cumpriu pena de um ano, mas permaneceu à frente dos negócios da Sociedade Espírita — agora com o status de um mártir vivo do Espiritismo.
As coisas iam de mal a pior: grandes baluartes do movimento espírita romperam de vez com Leymarie, foi fundada uma nova instituição — União Espírita Francesa — e um novo jornal para competir com a Revista Espírita — Le Spiritisme (O Espiritsmo). Com o falecimento de Madame Kardec, em 1883, a ruina total não demoraria. Berthe Fropo, amiga do casal Kardec e uma das lideranças da nova União Espírita, chegou a bancar com os próprios recursos uma publicação para denunciar os desvios administrativos e doutrinários de Leymarie; em Beacoup de Lumière, Fropo expôs, entre outras denúncias, que ele estava despejando da vila kardecista pobres arrendatários que haviam sido consagrados com este benefício pela Senhora Kardec.
Não tardaria e Leymarie torraria a herança dos Kardec; ele chegou a vender a Villa de Ségur, com planos de investir em "outros negócios espíritas", mas a venda foi cancelada judicialmente a pedido de parentes de Amélie Boudet, que então reclamaram seus direitos e foram aceitos como legatários do que sobrou materialmente do casal Kardec.
Daí por diante, toda a ligação da Vila de Ségur com o Espiritismo se perdeu, passando a ser só mais um conjunto imobiliário visado pelo mercado do ramo.
Pela nossa conclusão, os Espíritos mentores da Doutrina Espírita acharam por bem não interferir no curso dos acontecimentos em favor daquele planejamento de Kardec para a Vila de Ségur; afinal, talvez não tenha sido uma boa ideia mesmo aquela de estabelecer uma "sede do Espiritismo", sob o risco de dar azo a alguns pretensos consagrados de se julgarem "donos da doutrina".
* * * * * *
Confira a publicação original desta pasta de correspondência da SPEE no portal do Projeto Allan Kardec.
Veja as demais postagens que fizemos contextualizando os documentos disponibilizados pelo Projeto Allan Kardec:
- 'Publicado novo lote do acervo AKOL' - 27/3/2005
- Projeto Allan Kardec: 'Discurso de Allan Kardec [DD/MM/1867]'' - 22/8/2025
- "Rascunho da carta de Kardec para o Sr. Tiedeman" - 5/11/2024
- "Diversidade da emissão de fluidos no ato mediúnico - Comunicação [28/11/1863]" - 23/7/2024
- "O Panteísmo (Comunicação [DD/06/1863])" - 27/5/2024
- "Caderno de cartas 1859-1861 [22/10/1859]" - 22/3/2024
- "As Artes", manuscrito inédito de 20/11/1863 - 23/1/2024
- Anotações sobre o pseudônimo "Allan Kardec" - 20/11/2023
- Voltaire redimido diante da Sociedade Espírita de Paris - 11/10/2023
- Carta de Allan Kardec para sua esposa, Amélie, durante o retiro do Codificador Espírita na Normandia - 22/6/2023
- Manuscrito inédito revela intervenção do Espírito de Verdade para salvar Allan Kardec de morte prematura - 22/6/2023
- Oração e Concórdia - 17/5/2023
- Comunicação de Galileu (Espírito) que integra o livro A Gênese - 9/4/2022
- Prece de Allan Kardec - 27/10/2021
- Carta "O retorno da fé em Deus do Sr. H. Georges", evidenciando o valor da nossa doutrina contra o materialismo - 5/7/2021
- "Rascunho de carta para o senhor Edoux", em que Kardec comenta as zombarias feitas do Espiritismo - 22/9/2020
- Manuscrito "Evocação", datado de 1860 - 12/9/2020.
* * * * * *
E para ficar bem atualizado de tudo o que ocorre de mais importante no movimento espírita, siga-nos pelo WhatsApp, Facebook, X (Twitter) e Instagram.






Comentários
Postar um comentário