segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Série 20 anos de saudade: O mais polêmico testemunho de Chico Xavier, frente a uma campanha de adulteração da obra de Kardec


Neste 2022, que marca duas décadas do retorno de Chico Xavier ao plano espiritual, pelo que temos promovido a nossa série de postagens especiais sob o título 20 anos de saudade (saiba no final desta postagem), rememoramos aqui um dos episódios mais polêmicos da vida do inesquecível médium espírita e humanista, quando ele preciso fazer um "testemunho" forte em defesa do Espiritismo, no tocante em especial ao trabalho de Allan Kardec na codificação da doutrina, fazendo frente a uma campanha dita como uma escandalosa adulteração da do livro O Evangelho segundo o Espiritismo, que aliás envolveu indevidamente o nome de Chico no bojo dessa famigerada campanha, suscitando assim a urgência de um testemunho desvelado e contudente de vozes como a de José Herculano Pires, que não faltou com o confrade e amigo médium das Minas Gerais.

Herculano, Waldo Vieira e Chico Xavier

Veja como foi isso.


O Evangelho "adulterado"

Em julho de 1974, a FEESP - Federação Espírita do Estado de São Paulo põe na praça uma nova edição de O Evangelho segundo o Espiritismo de Allan Kardec, cujo trabalho de tradução lustrava o nome de Paulo Alves de Godoy (então um renomado jornalista e escritor espírita) sob o intento de apresentar aos leitores — especialmente aos neófitos na seara espírita — uma leitura mais “palatável” da mensagem moral kardequiana mediante uma linguagem “moderna” e mais “acessível”. Em suma, o lançamento inaugurava o ideal de “atualizar a linguagem doutrinária” dentro de um projeto de “completa e total revisão de toda a Codificação Doutrinária de Allan Kardec”.

No contexto, a FEESP é uma importante instituição espírita, de grande influência sobre várias casas kardequianas no terreno paulista, reconhecida nacionalmente pela defesa da pureza doutrinária — inclusive fazendo frente à FEB – Federação Espírita Brasileira, então bastante contestada por uma tradicional simpatia às estranhas ideias do Roustainguismo (saiba mais sobre isso clicando aqui) — e, portanto, não se poderia esperar que uma edição tal, com os seus 30 mil exemplares, jazasse às sombras ou na poeira das prateleiras. Aliás, a tiragem se esgotou rapidamente, em cerca de três meses — para o orgulho dos seus empreendedores.


Tradução recusada

Ocorreu, porém, que essa “modernização” não agradou a todos. De fato, tão logo fui publicada, vozes auteras se levantaram para contestar os termos e expressões nela “atualizados”. Dentre estas vozes, as duas grandes lideranças do momento se destacaram: José Herculano Pires e Chico Xavier. Foi da inconformidade destes dois bastiões kardecistas que brotou a semente, bem desenvolvida, da resistência contra o que se considerava um atentado da FEESP contra a Doutrina Espírita, que Herculano tratou abertamente como traição ao codificador espírita.

Sempre brando e benevolente para com todos, Chico — ele mesmo — não se conteve em agir com firmeza contra o empreendimento da FEESP, declarando francamente se tratar de “um trabalho não desrespeitoso por intenção, mas apressado pela boa vontade”. A propósito, o médium pupilo de Emmanuel fora envolvido no que Herculano chamou de “trama da adulteração”: de uma conversa, em reservado, com Chico Xavier, saiu um mal-entendido sobre uma possível necessidade de atualizar a nomenclatura da codificação espírita, subentendida inclusive como uma deliberação espiritual, razão pela qual alguns dirigentes da FEESP, dentre os quais o próprio tradutor (Paulo Alves de Godoy) tomaram como missão particular e, sem uma consulta mais ampla com a intelectualidade espírita, então encabeçaram o projeto, começando pelo livro evangélico, notadamente o mais lido da codificação.

Feitas as primeiras advertências — de Chico, de Herculano e de outros renomados pensadores espíritas — e a recomendação para o recolhimento e extravio dessas “obras adulteradas”, a FEESP prontamente ignorou a todos; massificada a denúncia de adulteração no movimento espírita, a instituição, agora com mais caultela, defendeu-se oferecendo seus pretextos, que, entretanto, só agravaram a crise, uma vez que envolvia a honradez do muito querido médium, Chico Xavier, além da justificativa do alto capital investido na produção do livro, em consonância com as carências financeiras da FEESP — aliás, comprometida com a construção de sua sede própria, no centro da capital paulista. Especialmente a esta última alegação, Herculano não poupou o verbo, e declarou vigorosamente: “Os interesses materiais se sobrepõe aos interesses espirituais”, fazendo até um paralelo com as trinta moedas que pagaram o preço da crucificação de Jesus.


Chico pede um livro a Herculano

O próprio Chico Xavier solicita a Herculano Pires a providência de um livro-documentário sobre o epísódio, a fim de deixar o caso registrado nos anais da História do Espiritismo e de esclarecer todo o ocorrido. Esta obra veio a lume em 1977 sob o título Na Hora do TestemunhoNo decorrer do livro, o leitor vai acompanhar os permenores do caso, do qual Herculano não hesita em citar nomes e detalhes; saberá das contingências para esta composição; verá como se deu as progressivas advertências à FEESP, feitas por Herculano, que por vezes usou o cognome Irmão Saulo, como assim assinava sua coluna semanal no Diário de São Paulo, importante jornal da época; verá o sinismo crônico com que a entidade criticada imprimiu na defesa de seu empreendimento; e, finalmente, os desdobramentos deste caso, que merece ser conhecido — conquanto seja um escândalo desagradável, uma mancha na História do nosso Movimento Espírita Brasileiro.

Especialmente por ocasião da elaboração desta memória, aproveitamos para anunciar um reedição do referido livro, Na Hora do Testemunho, assinado por Chico e Herculano, livremente disponível em nossa Sala de Leitura.




Escândalo necessário

Todavia, como disse o Cristo, que é necessário vir o escândalo, a rememoração deste polêmico episódio tem por objetivo uma advertência geral para todos nós, espíritas, sobre a imprescindibilidade de estarmos atentos contra os ataques — incluso os dos próprios confrades espíritas — à nossa amada doutrina e sobre o imperativo de agirmos com precisão na defesa dos conceitos fundamentais do Espiritismo, sem que para isso tenhamos que nos desfazer da caridade e benevolência para com os envolvidos. Sobre isso, inclusive, Herculano nos oferece uma boa dosagem, considerando que o respeito às pessoas é inalienável, embora não possa confundido com omissão; que bondade não é frouxura. Por conta disso, o professor e filósofo Herculano vai despender alguns parágrafos rebatendo a contraqueixa dos próprios dirigentes da FEESP envolvidos na mencionada tradução, que o acusaram de falta de caridade ao “expor” o escândalo. E é nesse embate de argumentos que consideramos a presente obra um excelente subsídio para nossas reflexões acerca das fronteiras entre a tolerância e o zelo para com a Doutrina Espírita, justificando nosso esforço em promover esta obra através desta reedição digitalizada de Na Hora do Testemunho.

E esta reedição não é despropositada; ela vem em boa hora porque estamos vivendo, neste começo da segunda década do século XXI, uma nova campanha de adulteração do Espiritismo, e que consideramos muitíssimo mais grave do que aquela tradução denunciada por Chico e Herculano. Falamos de publicações indevidas que negam o trabalho contínuo de Allan Kardec (Ver Publicações indevidas de obras de Allan Kardec) e apresentam uma tese esdrúxula que pretende “revolucionar o Espiritismo” com um modelo de moral que privilegia a razão humana, colocando-a como a medida de todas as coisas, nos moldes dos pensadores iluministas que supunham finalmente extrangular toda ideia espiritualista, enquanto entendemos que, à luz do Espiritismo, a medida de todas as coisas e a fonte de absolutamente tudo seja Deus, sendo o próprio Espiritismo a revivescência da espiritualidade ativa em nosso mundo (Ver Céu, inferno e autonomia em pauta em novo livro da FEAL e o nosso contraponto).


Há, portanto, um clamor natural e urgente por uma obra — espécie de segundo volume de Na Hora do Testemunho — para cuidar deste outro caso de adulteração, obra para a qual esta composição de Chico e Herculano muito pode contribuir, pelo exemplo de firmeza na defesa de Kardec, dos Espíritos missionários, de Jesus e de Deus. Rogamos que ele não tarde e que, vinda na hora propícia, ajude a esclarescer melhor os fatos.

Em tempo: que falta fazem Chico Xavier e José Herculano Pires!


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Reveja aqui as edições da série de postagens especiais Chico Xavier: 20 anos de Saudade que temos publicamos desde o começo deste ano:

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